A madrasta suspeita de asfixiar a enteada de oito anos até à morte vai ficar em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, enquanto aguarda julgamento, decidiu esta sexta-feira o Tribunal de Vila Pouca de Aguiar, confirmou o Observador junto de fonte judicial. A mulher começou a ser ouvida pouco antes das 17h por um juiz de instrução criminal e durante a sessão terá chorado “copiosamente”, como indicou a advogada.
Apesar de na quinta-feira a PJ ter encontrado fortes indícios da “prática dos crimes de homicídio qualificado e profanação de cadáver”, o tribunal entendeu, por agora, que não se encontram “suficientemente indiciados factos suscetíveis de integrar a prática do crime de profanação de cadáver imputado pelo Ministério Público, sem prejuízo do que possa resultar do ulterior desenvolvimento da investigação”.
À saída do tribunal, a advogada Mónica Teixeira confirmou a aplicação da medida de coação mais grave à sua cliente e destacou a colaboração com a justiça. “Ela colaborou. Tentou colaborar, desde que caiu nela, e ajudar ao máximo na investigação e na recolha de toda a verdade material para o processo”. O fim da sessão ficou marcado por alguns tumultos, com vários populares presentes a forçarem a barreira policial de escolta da madrasta.
“Confessou muitos dos factos que estavam neste processo e mostrou arrependimento. Não sabe por que o fez, não era essa a intenção dela”, disse a advogada aos jornalistas presentes. “Ela queria retirar a menina da escola e assustar o pai. [Intenção] não era [magoar] a menina. As coisas descontrolaram-se”.
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A advogada adiantou que já estava à espera da prisão preventiva, pelo que não irá recorrer da decisão. “Ela [Eulália] própria disse: Tenho consciência e quero pagar pelo que fiz”. No entanto, admitiu que irá “tentar uma perícia psiquiátrica”, apesar de considerar “muito cedo” falar em inimputabilidade. “É importante contextualizar, verificar melhor o contexto familiar. Há uma situação de violência doméstica sobre o filho. Não há queixa e ela arrepende-se de não ter conseguido pedir ajuda mais cedo”.
Mónica Teixeira confirmou apenas “alguns desabafos com a CPCJ”, mas que terão sido feitos “tarde demais”. Ao Observador, a CPCJ de Valpaços garantiu que, no momento do desaparecimento, não estavam abertos processos de acompanhamento a Lara. A mesma fonte não adiantou, para já, se no passado foram desencadeados processos de acompanhamento. O Observador perguntou ao MP se tinha conhecimento de algum processo, mas ainda não obteve resposta.
A advogada reconheceu que a colaboração de Eulália com as autoridades “não apaga a morte de uma criança”. “A defesa está completamente solidária desde o primeiro momento. É um crime horrível”. “[A Eulália] confessou muitos dos factos que estavam neste processo e mostrou muito arrependimento. Não se sabe por que o fez, não era essa a intenção dela”.
Segundo a defesa, a mulher que irá agora para a prisão feminina de Santa Cruz do Bispo “tem vindo a apresentar um quadro clínico bastante alterado” há algum tempo. Esses problemas terão culminado no rapto e morte de Lara. Mónica Teixeira confia nos funcionários da cadeia e acredita que a sua cliente não irá sofrer represálias.

Eulália terá agido por vingança. Pai de Lara recebe apoio psicológico
Eulália terá escondido o cadáver de Lara na Serra da Padrela, motivo pelo qual foi fortemente indiciada pelo crime de profanação de cadáver, além de homicídio qualificado.
Lara foi encontrada morta na quinta-feira, depois de ter sido levada pela madrasta das imediações da escola, no dia anterior. A criança chegou de autocarro à EB1/J1 de Carrazedo de Montenegro, como habitualmente fazia, mas não entrou na escola, tendo sido raptada.
A queixa foi feita pelo pai à GNR e os militares rapidamente reuniram suspeitas suficientes para entender que o caso teria que ser investigado pela PJ. Os inspetores localizaram Eulália em Macedo de Cavaleiros, de onde era natural, e ouviram a suspeita a confessar o crime.
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No entanto, a colaboração não foi constante e a mulher ainda tentou dificultar o trabalho dos inspetores. “Demorou algumas horas [a localizar o cadáver] porque ela indicou-nos vários locais onde não estava”, disse David Martins, diretor da PJ de Vila Real.
Eulália acabou por guiar as autoridades até à acidentada Serra da Padrela, entre Valpaços e Vila Pouca de Aguiar, onde estava o corpo de Lara.
A PJ entende que a mulher agiu com vontade de vingar-se do pai de Lara, com quem tinha uma relação há cerca de cinco anos, depois de Carlos se ter divorciado da mãe da menina agora encontrada morta. Até esta semana, viviam os três numa casa em Celeirós, pequena aldeia da freguesia de Friões, no município de Valpaços.
Em alguns fins de semana, tinham a companhia do filho de Eulália, que estava institucionalizado por mau comportamento em Bragança. O menor, que celebrou 12 anos no domingo, é uma figura central na teoria da PJ para o desejo de “vingança” da mulher agora em preventiva.
“O que terá despontado esta situação terá sido o filho da [suspeita] — ele está institucionalizado em Bragança por mau comportamento”. Este fim de semana, o menor terá tido “um comportamento violento” e o padrasto interveio, segurando o braço do agressor. “A mãe não terá gostado dessa situação e terá sido isso que a terá levado a vingar-se na criança”, relatou o diretor da PJ de Vila Real.
O pai de Lara tem recebido apoio psicológico, tal como aconteceu com alguns colegas da escola onde a vítima tinha aulas.