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(A) :: “A dor crónica é uma experiência solitária, mesmo quando há família e amigos”

“A dor crónica é uma experiência solitária, mesmo quando há família e amigos”

A dor crónica não afeta apenas o corpo. A psicóloga Cristina Catana, com mais de 30 anos de experiência, observa diariamente como também pode isolar, reativar traumas e comprometer o sentido da vida.

Sofia Teixeira
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Francisco Romão Pereira
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“Onde dói.” “Quando começou.” “Como era a vida antes.” “Como é agora.” Estas são as principais questões que cada doente me conta sobre a sua dor nas primeiras consultas comigo. A mim, cabe-me escutar essa história com atenção. A atenção é uma das dimensões mais nobres da empatia, sem ela, o seu significado esvazia-se.

Tenho 63 anos e sou psicóloga clínica no Hospital Garcia de Orta, em Almada, há mais de 34 anos. Comecei por trabalhar na infeciologia, sobretudo com doentes seropositivos, e na oncologia. Depois foi criada a Unidade da Dor — o atual Centro Multidisciplinar da Dor Beatriz Craveiro Lopes — e dediquei-me a trabalhar com pessoas com dor crónica.

Nestas sessões iniciais, interessa-me perceber como cada um se narra a si, à sua vida e à sua dor. É um processo de descoberta a dois em que vou compreendendo melhor a pessoa e ela, ao tentar clarificar-me, também se vai compreendendo melhor a si mesma. E não há certo nem errado, bonito ou feio. A consulta de psicologia é um espaço de liberdade onde se pode pensar, sentir e dizer tudo, em associação livre.

Aqui, cada dia é um primeiro dia. Trabalho com o que a pessoa me traz e cada uma tem uma experiência diferente. Tento ter a minha mente o mais vazia possível de pré-conceitos para conseguir estar com a pessoa onde ela estiver. Se alguém se sente no fundo do poço, eu não fico cá em cima, a perguntar-lhe se quer subir. Sento-me lá em baixo, ao lado dela. Não devo achar que sei alguma coisa sobre aquela pessoa só porque tem dor crónica. Não sei nada até ela mo contar: o verdadeiro perito da sua dor é o paciente.

Apesar disso, claro que há muitas vivências comuns. Alguém com dor crónica carrega quase sempre as grandes angústias da condição humana. Por um lado, uma consciência da finitude da vida, por outro, uma vulnerabilidade que traz um sentimento de desamparo.

A doença crónica atira-nos para um lugar de fragilidade e de humanidade em que reconhecemos que precisamos dos outros. E precisamos para coisas práticas e concretas, mas também para saber quem somos. Conhecemo-nos na relação com os outros e é isso que a psicoterapia também é: uma relação em que a pessoa se pode conhecer melhor e tem a possibilidade de dar conta que é uma novidade para si própria.

Depois de se dar espaço e colo à dor que é partilhada, a pessoa vai também descobrindo, comigo ou no grupo terapêutico, as suas potencialidades e capacidades. Ganha uma consciência diferente do que está a viver, começa a reorganizar-se, a descobrir soluções e estratégias para se adaptar e remapear os seus limites e prioridades.

“A dor crónica não é democrática”

O corpo não é neutro. Tudo o que se passa no corpo, passa-se na mente e vice-versa. Por isso, geralmente, as pessoas com dor crónica chegam num estado de desconexão delas próprias. Olham para o corpo como indigno de confiança, como uma cerca que aprisiona. E, dentro dessa prisão, a esperança é esquecida. Dói o corpo, sofre-se na alma.

Não me esqueço desta frase dita por uma paciente: “A dor crónica não é democrática.” Depois, olhou para mim, e continuou: “Se a Cristina quiser ir ao cinema, vai. Eu, se quiser ir ao cinema, não posso porque não consigo estar duas horas sentada numa cadeira. Portanto: eu não posso ir ao cinema, não posso ir ao teatro, não posso ir a um almoço ou jantar longo.”

"Se alguém se sente no fundo do poço, eu não fico cá em cima, a perguntar-lhe se quer subir. Sento-me lá em baixo, ao lado dela. Não devo achar que sei alguma coisa sobre aquela pessoa só porque tem dor crónica. Não sei nada até ela mo contar: o verdadeiro perito da sua dor é o paciente."

Com todas estas impossibilidades, o mundo vai ficando cada vez mais pequeno. A participação na vida profissional, familiar e social é muito afetada e a pessoa vai ficando excluída e isolada. Acaba por surgir esta sensação de separação do mundo e dos outros, como se a dor fosse uma espécie de muro de Berlim: de um lado, está a pessoa com dor, do outro, estão todos os outros. Uma das coisas que aprendi ao longo destas décadas é que devemos sempre abordar o tema da solidão. Sentir dor crónica é uma experiência solitária, mesmo quando há família e amigos.

Também tenho percebido, na prática, que o ser humano, apesar de tudo, tem competências de tolerância àquilo que parece insuportável, que são surpreendentes. Por isso, a esperança é algo que se vai reforçando em mim. Com os outros e comigo própria. Isso traduz-se, por exemplo, nesta capacidade de pensar: “Ok, eu hoje não sei como resolver este problema. Mas, se calhar, amanhã, sou capaz de saber se estiver disponível para a mudança e para aprender com os outros.”

“Sei como entro, não sei como saio”

Os meus pais esperavam que eu fosse para a faculdade depois de terminar o 12.º ano, mas desobedeci-lhes. Queria ter autonomia económica, e por isso fui trabalhar para uma empresa multinacional onde me pagavam muito bem. Até que, tempos depois, eles dizem-me: “Parabéns, vai ficar no quadro da empresa!” e isso assustou-me tremendamente.

Comecei a pensar no que seria a minha vida se aceitasse e fiquei com uma crise existencial. Acho que, no fundo, havia uma inquietação em mim: queria saber quem era. Estava a sair daquela fase em que julgamos que sabemos tudo e nos confrontamos com a dúvida. Pensava: “Tenho um bom trabalho, uma relação amorosa fantástica, então, porque é que sinto um vazio do tamanho do universo?”

Acabei por não ficar e decidi ir para a faculdade, para o curso de Psicologia. Adorei, tanto as aulas teóricas, como os estágios práticos no hospital. Tinha esta sensação, que valorizo muito: “Sei como entro, não sei como saio.” A sensação de estar a mudar com as experiências.

Tinha a ilusão de que queria ser psicóloga para ajudar os outros. Não é que isso seja mentira, mas acho que o ponto de partida somos sempre nós próprios. Portanto, a escolha de psicologia foi uma forma de eu me descobrir a mim mesma. Fi-la para saber como habitar o meu mundo interior e a realidade desafiadora. Como habitar as dúvidas, os medos, os vazios, os sonhos, as ambivalências, os paradoxos.

“Não me esqueço do que me disse uma paciente: ‘A dor crónica não é democrática. Se a Cristina quiser ir ao cinema, vai. Eu, se quiser, não posso porque não consigo estar duas horas sentada numa cadeira. Não posso ir ao cinema, não posso ir ao teatro, não posso ir a um almoço ou jantar longo.’”

Percebi muito cedo que queria fazer formação em Psicanálise. Era muito nova quando comprei o Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, de Freud. Li e não percebi nada, confesso. Mas sentia-me empoderada com aquele livro na mão e tinha a esperança de vir a perceber. Lia, relia, mas nunca punha de parte. A motivação era a mesma: o desconhecido. Como lidar com o inconsciente, com o não saber.

Fiz a formação na Sociedade Portuguesa de Psicanálise e tive muito bons mestres psicanalistas:  António Coimbra de Matos, Carlos Amaral Dias e Maria José Vidigal. Tenho por eles uma gratidão enorme e guardo comigo as memórias de tudo o que me ensinaram. A principal aprendizagem talvez tenha sido a capacidade de nos interrogarmos a nós próprios. Não ter medo de ter dúvidas, não recear fazer perguntas. Esse é um dos meus maiores motes: fazer sempre perguntas, mesmo que sejam assustadoras.

“A dor crónica desarruma a gaveta dos traumas”

O mais difícil é quando as pessoas que estou a seguir querem morrer. Quando a experiência de sofrimento está a ser tão profunda e tão cruel que o doente sente que a vida não vale a pena. Temos de escutar essa vontade, procurando compreender o que lhe dá origem e sem julgar, tal como escutamos tudo o resto.

Para estas pessoas, o grupo terapêutico pode ajudar bastante. É um espaço onde encontram outros que lhes podem dizer que também já se sentiram assim e agora já não sentem. Essa partilha resgata a possibilidade de compreender que essa falta de vontade de viver não é um estado permanente. Abre a porta à esperança. Felizmente, nunca me aconteceu perder um paciente por suicídio, mas nenhum profissional está livre de passar por isso.

Lembro-me de um homem, que acompanhei há muito tempo, que tinha uma patologia de coluna que lhe causava dores terríveis e a quem não queriam fazer uma intervenção cirúrgica por receio que ficasse paraplégico. Ele pediu uma consulta de psicologia numa altura em que o suicídio estava iminente.

Este homem tinha mais de 70 anos, tinha estado na guerra colonial e trouxe-me uma vivência que foi um soco no estômago. Disse-me: “Tenho revivido as memórias de guerra. Sempre me tinha visto como valente, corajoso, um militar extraordinário, mas agora vejo que fui um assassino que matou pessoas. Acho que esta dor é um castigo e, por isso, é insuportável vivê-la.”

Esta história, para mim, foi fundamental. Mostrou-me como a dor crónica desarruma a gaveta dos traumas que julgamos arrumados. Nos momentos em que estamos mais vulneráveis, vamos às nossas próprias catacumbas. Vamos escavar e olhar de frente tudo o que detestamos em nós. Mas também mostra que nunca é tarde para pedir ajuda.

Este homem não queria realmente suicidar-se, estava numa situação em que a vida tinha deixado de fazer sentido. Pela dor que sentia e pela culpa. Pedi-lhe tempo. Pedi-lhe que desse algum tempo à nossa relação e, paralelamente, falei com o resto da equipa, que acabou por operá-lo. A cirurgia aliviou a dor, o trabalho comigo permitiu aliviar a culpa. A culpa é muito destrutiva.

“Não temos de morrer nem um minuto antes de morrermos”

Os doentes são os nossos maiores mestres. Uma vez, há muitos anos, fui ao serviço de oncologia visitar uma mulher jovem com um cancro metastizado. Ia com os meus preconceitos sobre o que é uma doente terminal, mas, quando cheguei ao quarto, vi uma pessoa com um olhar muito enérgico. Arrisquei esta pergunta: “O que quer fazer?”

Ela era jornalista e, ao ouvir esta pergunta, disse-me que ainda gostaria de fazer uma peça sobre a sua terra natal. Começámos a preparar isso. A anca dela estava muito mal, por isso, ainda se fez uma cirurgia ortopédica para ela conseguir deslocar-se e fazer essa reportagem que queria fazer.

“Lembro-me de um doente com dores terríveis na coluna. Pediu uma consulta de psicologia numa altura em que o suicídio estava iminente. Tinha estado na guerra colonial e disse-me: ‘Sempre me vi como valente, um militar extraordinário. Agora vejo que fui um assassino que matou pessoas. Esta dor é um castigo.’ Esta história mostrou-me como a dor crónica desarruma a gaveta dos traumas que julgamos arrumados.”

Esta mulher ensinou-me uma das minhas maiores lições: Não temos de morrer nem um minuto antes de morrermos. Quer se tenha seis meses de vida, um mês ou só 24 horas, temos direito a utopias, a esperança, a fazer projetos. E isto não é negar a morte, é não negar a vida. É não olhar para pessoas que estão vivas como se já tivessem morrido.

Perguntam-me muitas vezes como é trabalhar com a morte. Eu não trabalho com a morte. Não faço a mínima ideia do que seja a morte e tenho dúvidas que alguém saiba. Trabalho com algumas pessoas que têm um prognóstico de vida limitado, mas que estão vivas. E é com a condição de vida humana, e a consciência de finitude que estão a viver, que eu trabalho.

Sinto uma enorme gratidão por todas estas pessoas que tenho acompanhado. Não seria a mesma se não trabalhasse com pessoas com dor crónica há mais de trinta anos. Disso, tenho a certeza.

Nos últimos anos tenho refletido sobre a minha relação com a impotência e com a vulnerabilidade. Eu sou filha do tempo, como todos nós: tenho 63 anos e já penso no meu próprio envelhecimento.

A ideia de um dia ter de ficar à mercê da disponibilidade dos outros, de perder a minha autonomia e ter de reinventar o meu sentido da vida é muito dolorosa para mim. É-me muito fácil dizer: “Gosto muito da minha própria companhia”. Claro, não havia de gostar? Sou independente, faço o que quero, vou onde quero, escolho o que quero e não quero.

Mas será assim tão fácil gostarmos da nossa companhia tendo dor crónica e limitações causadas por ela? Então, tenho feito esta reflexão: se eu tiver uma dor crónica ou uma doença que me limite fisicamente, será que eu vou gostar da minha companhia? Quem serei eu nessa circusntância? Faço muitas vezes a pergunta. Mas ainda não sei a resposta.