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"Everybody wants a piece of Portugal". David Rodrigues, o português que ensina a América a cozinhar bacalhau

Tornou-se viral com uma bifana, desmistifica o bacalhau e deixa os americanos apaixonados pelo chouriço assado. David Rodrigues explica a cozinha portuguesa para a comunidade digital.

Miguel Cordeiro
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Filho de imigrantes portugueses e criado em Nova Jérsia, David Rodrigues transformou a saudade de casa no motor de um fenómeno digital. A jornada na cozinha intensificou-se quando se mudou para a Flórida e com os meses de confinamento na pandemia. A escassez dos sabores tradicionais obrigou-o a deitar as mãos à massa. Começou a partilhar receitas na internet e, após o vídeo de uma bifana se tornar viral, fundou o projeto “How to Cook Stuff”. Hoje, com mais de 315 mil seguidores nas redes sociais — com especial destaque para os 130 mil que o acompanham no Instagram —, David assume o papel de “embaixador” da gastronomia portuguesa, ensinando a nova geração de luso-americanos e o público norte-americano a confecionar pratos típicos num estilo prático e acessível.

A missão vai muito além de partilhar receitas; trata-se de uma ponte cultural que ajuda a comunidade a segurar-se às raízes através do paladar. David explica que a comida portuguesa sempre foi vista nos Estados Unidos como algo complexo e trabalhoso, e por isso optou por ter uma abordagem paciente, explicada em inglês e adaptada à realidade local, desmistificando clássicos como o bacalhau, o pastel de nata ou o chouriço assado. Numa altura em que Portugal “está na moda” na América devido ao boom do turismo e da emigração sénior, David aproveitou o momento ideal para mostrar que, apesar de algumas dificuldades logísticas — como a falta de queijo fresco na Flórida, que o obriga a produzi-lo em casa —, já é possível abastecer uma cozinha inteira com produtos importados diretamente de Portugal.

https://observador.pt/programas/resposta-pronta/comecou-com-uma-bifana-david-cozinha-portugal-nos-eua/

Com o campeonato do mundo a decorrer em solo norte-americano, David Rodrigues vive também a paixão pelo futebol e o carinho pela Seleção Nacional. O criador de conteúdos digitais destaca o orgulho de ver camisolas de Portugal vestidas por miúdos de todas as nacionalidades nas ruas americanas, um reflexo do impacto global de figuras como Cristiano Ronaldo e da própria projeção do país. Confiante no desempenho da Seleção Nacional, David encara este Mundial como um momento único na vida dos luso-americanos, que finalmente podem ver os seus heróis jogar de perto. Se for convidado a levar tachos e panelas para a cozinha da equipa portuguesa, o menu já está traçado: um Bacalhau à Brás para agradar a Ronaldo e sapateira recheada para o resto do plantel. Se a taça for para Portugal, há Cozido à portuguesa para o banquete de celebração.

David Rodrigues, podemos identificá-lo como o português que ensina os norte-americanos a cozinhar bacalhau?
É mais ou menos. Eu ensino as pessoas a fazer comida portuguesa num estilo americano e inglês. É também para a geração de luso-americanos, para se segurarem à cultura e perceberem as receitas num estilo que é mais confortável para eles.

Como é que tudo isto começou? Como é que começa esta ligação aos Estados Unidos?
Sou filho de imigrantes. Os meus pais emigraram com a minha irmã. Ela nasceu em Lisboa, com os meus pais também em Lisboa. Eu nasci cá e fui criado em New Jersey, que é uma área que tem muitos imigrantes portugueses. E quando me mudei para a Flórida, fiquei com falta de comida portuguesa, porque não havia essa cultura lá. Tive de aprender a fazer os nossos pratos e foi aí que isto começou a crescer. Quando tivemos a pandemia, estive em casa, comecei a fazer vídeos e criei esta coisa que é o “How to Cook Stuff”. Sou um tipo de embaixador de comida portuguesa para os americanos.

Quando eu falo em Portugal ouço sempre: “Ah, eu ouvi que isso é um país bom para passar a reforma”. Portanto é isso, eu acho que está na moda em todos os aspectos, seja turismo ou para viver lá, ou para emigrar. Everybody wants a piece of Portugal.

Vamos a números. Estamos com quantos seguidores nas diferentes plataformas?
No total estou com 315 mil em todas as plataformas. O maior é o Instagram, onde tenho 130 mil seguidores. E segue a crescer. Espero que cresça mais e mais. É um bocadinho difícil acreditar nisto, eu digo sempre, em inglês: “I’m riding the wave, you know?” [“Estou a surfar a onda, sabes?”]

Para além das redes sociais, já atrai também interesse noutros espaços norte-americanos, com participações em programas de televisão, por exemplo. Como é que isso acontece? E o que é que achas dessa experiência?
Acho que Portugal está na moda e toda a gente quer saber de Portugal, querem saber da nossa cultura, querem conhecer a nossa comida. Tudo o que é Portugal é fixe agora aqui nos Estados Unidos. E eu acho que entrei num tempo muito bom, porque as pessoas querem aprender e eu estou aqui para ajudar.

Mas Portugal está na moda porquê?
Acho que era o nosso segredo. Antes ninguém sabia e agora, depois da pandemia, muita gente está a viajar mais. Acho que encontraram Portugal e agora Portugal está na moda.

Mas é uma questão de turismo? São os americanos que emigram para Portugal para passar a reforma?
Acho que são os dois. O turismo está a explodir e muitos americanos vão para Portugal para passarem a reforma. Quando falo em Portugal, ouço sempre: “Ah, eu ouvi que isso é um país bom para passar a reforma”. Portanto é isso, acho que está na moda em todos os aspetos, seja turismo ou para viver lá, ou para emigrar. Everybody wants a piece of Portugal [“Toda a gente quer um pedaço de Portugal”]

Ainda assim, é comum encontrar nas redes sociais vídeos em que se pergunta aos norte-americanos onde é que ficam alguns países no mapa. Se perguntarem aos norte-americanos onde fica Portugal, acha que já sabem dizer?
É interessante. Porque quando eu cheguei à Flórida, há 3 anos, lembro-me de uma pessoa que me perguntou de onde era a minha família e eu disse Portugal. Respondeu: “Onde é que é isso, é na América do Sul?”. Eles não sabiam onde era, mas agora, por causa do Ronaldo e de outras coisas, toda a gente sabe onde é Portugal. Tu andas pela rua fora neste campeonato do mundo e vês miúdos que não são portugueses com a camisola de Portugal. Asiáticos ou indianos ou seja o que for. Vês camisolas de Portugal em todo o lado. Quando eu era pequeno nunca imaginava que Portugal ia ser uma coisa que toda a gente queria representar, mas agora, hoje em dia, vê-se muito.

Achas que as redes sociais contribuem para isso?
Sim, sim, claro. Acho que é muito fácil aprender sobre culturas ou países como Portugal. Eu sempre digo que Portugal é como um fairytale [conto de fadas] e quando as pessoas veem vídeos de Portugal, é mágico.

Costuma ir a Portugal? Qual é a ligação que mantém? 
Vou a Portugal a cada dois anos. Vou agora em setembro visitar a minha família de Lisboa. Estou sempre em Lisboa e em Cascais. Mas, no mínimo, a cada dois anos estou lá e sempre fui desde que era pequeno.

Sobre este projeto. Como é que começou esta paixão pela cozinha? Quando é que começou a cozinhar? E, estando nos Estados Unidos, quando é que começou a cozinhar comida portuguesa?
Quando era pequeno gostava de fazer de conta que tinha um programa de cozinha. Há um chef que se chama Emeril Lagasse, não sei se conhece, mas ele é americano e também é português, ou tem raízes portuguesas. Via sempre o programa dele e fingia que era ele. Quando chegou a ideia de fazer vídeos, ao princípio não era para ser de comida portuguesa. Eu lançava vídeos, depois várias coisas, e um dia meti uma bifana e aquilo explodiu, foi viral.

Uma bifana? 
Sim, claro. Yes. Uma bifana foi o primeiro vídeo que foi grande. Comecei a pensar: “Acho que é tenho aqui uma oportunidade para apresentar comida portuguesa, porque não há ninguém a fazer isto em inglês e ao estilo americano.” Acho que precisávamos disto, porque a comida portuguesa é uma coisa que muita gente pensa que é muito difícil ou que leva muito trabalho, e leva, mas eu explico com calma, com paciência e em inglês. As pessoas querem tentar, querem aprender e não havia isto. Na altura eu pensei: “I’m the guy to do this.”

O primeiro prato viral foi uma bifana e depois, o que é que seguiu? O que é que levanta mais interesse? É o bacalhau, é o cozido, pratos com enchidos… Quais são os pratos que se tornaram mais virais desde que começou este trabalho nas redes sociais?
Sempre os mais tradicionais. Estou a pensar num dos mais virais agora — chouriço assado no porquinho —, é sempre uma coisa que os americanos não conhecem e quando veem é um espetáculo. Há os pastéis de nata, o bacalhau, sempre. Os americanos também gostam de ver o bitoque, porque para eles é interessante ver um ovo num bife. Mas sim, são esses pratos mais tradicionais que as pessoas gostam, porque eu explico num estilo que eles vão querer tentar fazer em casa, não é ver um vídeo e deixar lá. Eles vão ver o vídeo e vão tentar fazer em casa.

O meu prato preferido para comer e para fazer é a sapateira recheada. Então, faria umas sapateiras recheadas para a equipa. É levezinho.
David Rodrigues

Sabemos que nas redes sociais muitas vezes vemos vídeos de culinária e nunca acabamos por fazer as receitas. Na sua opinião, acha que é possível efetivamente fazer um prato português nos Estados Unidos? Como é que se arranjam os ingredientes?
É difícil. Mas hoje em dia há muitas lojas na internet que mandam para a tua casa. Se precisas de chouriço, ou bacalhau, ou queijo, manteiga, tudo o que for português.

Lojas nos Estados Unidos?
Sim. Lojas que importam de Portugal para cá e depois fazem distribuição nos Estados Unidos. Pagamos um bocadinho mais porque está a vir de Portugal, mas tudo o que é preciso e que é português encontra-se. Uma sapateira inteira, por exemplo, é uma coisa que era difícil há uns anos, mas agora tudo o que é português nós conseguimos.

E vem de onde? De que regiões? Uma sapateira portuguesa vem de onde? 
Sei que as sardinhas vêm sempre de Peniche. Sardinhas congeladas, mas vejo sempre que vem de Peniche. A sapateira não me lembro de onde vem, mas vem de Portugal. Mas sim, nós temos supermercados ou lojas que têm essas coisas. Eu sou viciado em água Castelo. Tenho sempre caixas e caixas de água Castelo em casa. Tu entras na minha casa, abres o frigorífico e é um frigorífico português. É chouriços e queijos, manteiga portuguesa, é marmelada, é tudo o que esperas ver numa cozinha portuguesa. Agora, há alguns anos não era assim, hoje em dia já é mais fácil.

Qual é que foi o produto mais difícil de arranjar? Ou qual é que ainda é mais difícil de arranjar?
Queijo fresco. Não encontro. Na Flórida, porque em New Jersey há muito, agora na Flórida não encontro queijo fresco.

Que substituto é que se encontra?
Faço em casa. Tenho de fazer em casa. Tenho um vídeo em que mostro às pessoas como fazerem.

Nós não vamos ver a nossa Seleção a jogar nos Estados Unidos a partir da televisão. Nós fomos criados a ver a seleção portuguesa. Isto é a nossa vida. Eles estão cá tão perto que isto se torna num momento que não podes perder. You can't miss it.

Sobre a Seleção Nacional. Expectativas para este Mundial e qual é o sentimento de ter a seleção aqui?
Isto é um momento que se vive uma vez na vida. Tenho mais ou menos a idade do Ronaldo. Fui criado a ver o Ronaldo na televisão e agora pensar que pode ser o último Mundial dele… Tinha de estar cá, não podia estar em casa. Eu tinha mesmo de vir aos jogos, seja um, ou dois, ou o que for. Mas é um momento que nós não vamos esquecer porque isto é histórico para nós. Os luso-americanos, todos os que estão cá. Nós não vamos ver a nossa seleção a jogar nos Estados Unidos a partir da televisão. Nós fomos criados a ver a seleção portuguesa. Isto é a nossa vida. Eles estão cá tão perto que isto se torna num momento que não podes perder. You can’t miss it.

Confiança para a competição?
Sim, mas também estamos a ver muitos empates esta semana. Nós temos uma equipa boa, temos de ter confiança.

Se fosse convidado para cozinhar uma refeição para a Seleção Nacional, que prato faria?
Olha, eu sei que a comida preferida do Ronaldo é o bacalhau à Brás, então tinha de fazer isso. Mas, para mim, o meu prato preferido para comer e para fazer é a sapateira recheada. Então, faria umas sapateiras recheadas para a equipa. É levezinho. Para mim, quando como uma sapateira, é como estar a provar Portugal.

E se Portugal for campeão do mundo, qual é o banquete para festejar?
Cozido à portuguesa.

Cozido dá para fazer nos Estados Unidos?
Depende de onde vives, mas eu encontrei os enchidos todos na Flórida, então para mim, sim. Yes.