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Há coisas que estão escritas no destino. Ninguém sabe quando, ninguém sabe como, ninguém sabe porquê. É assim, apenas é assim. Folarin Balogun é outro exemplo paradigmático disso mesmo. Avançado de 24 anos do Mónaco, é daquelas figuras mais secundárias em comparação com outros nomes mais “sonantes” da sua equipa, como Pulisic, McKennie ou Weah, que precisou apenas de 90 minutos para se tornar o rosto da nova vaga do futebol americano (ou soccer, para facilitar). Continua a haver um símbolo acima de todos chamado Pulisic, provavelmente por ter ganho uma Liga dos Campeões antes de trocar o Chelsea pelo AC Milan, mas é do jogador formado no Arsenal que se fala depois dos dois golos marcados frente ao Paraguai na goleada por 4-1 dos EUA na estreia – e num jogo que bateu o recorde de audiências nacionais na modalidade.
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Onde entra a parte do destino? Em condições normais, Balogun poderia jogar por Inglaterra ou pela Nigéria mas nunca pelos Estados Unidos. Quando a mãe viajou até Nova Iorque grávida de sete meses, a companhia aérea desaconselhou o voo de regresso a Londres e Florence ficou algumas semanas em casa de familiares antes de ter Folarin, registado em Brooklyn. Ficou apenas um par de meses no país, antes de regressar à capital inglesa e fazer a formação como jogador no Arsenal, mas foi suficiente para encontrar o palco onde, 24 anos depois, está a centrar todos os holofotes… depois de ter representado a Inglaterra nos escalões mais jovens. Há coisas que não se explicam, é destino. Há outras que, por trabalho, se tornam destino. E era aqui que entravam os outros jogadores comandados por Mauricio Pochettino, mentor do projeto para 2026.
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Apesar de serem uma das equipas anfitriãs, os EUA surgiam como aquela que mais dúvidas podia levantar. O México, não deslumbrando, começou a acertar o passo e ganhou consistência coletiva para somar uma série de bons resultados (tanto que já está na fase a eliminar da prova). O Canadá, dentro das suas limitações, foi capaz de montar um conjunto com um futuro positivo, ofensivo e capaz de criar uma enorme empatia com os adeptos que têm enchido os estádios onde jogam. Os Estados Unidos, de forma aparente, não estavam a conseguir prolongar a base forte construída para o Mundial-2022, onde ficava claro que havia talento para dar o salto quatro anos depois. Os testes não foram positivos, os resultados também não. No entanto, e na hora da verdade, aquilo que se viu foi a melhor versão dos EUA dentro de uma identidade que privilegia a bola, procura a organização mas dá mais margem do que é normal para o 1×1 com um número “anormal” de dribles tentados e feitos ao longo do jogo. Foi assim que, logo na estreia, o Paraguai saiu goleado.
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Agora seguia-se a Austrália, que surpreendeu na primeira ronda após bater a geração mais promissora da Turquia desde aquela que brilhou no Europeu de 2000 e no Mundial de 2022. E se esta nova geração tem poucos pontos de contacto com aquilo que era a seleção de 1994 de Tony Meola, Alexis Lalas, Cobi Jones e companhia, o estilo rock and roll de futebol que mais parecia ser um prolongamento dos sons de AC/DC e Metallica que se ouviram antes do início da partida continua a ser uma imagem de marca desta equipa, com muita mobilidade do meio-campo para a frente que continua a fazer mossa nos adversários. Mais: mantendo o balanço desses mesmos sons no pré-jogo, neste caso com a mítica Sirius com que os Chicago Bulls, da NBA, entravam em campo nos encontros em casa, os EUA são uma equipa que não têm um Michael Jordan, não contaram com aquilo que há de mais próximo dentro das diferenças abissais (Pulisic) mas, como cantam os Bon Jovi, continuam a fazer a diferença com uma ideia positiva que continua Livin’ on a Prayer.
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A partida começou com um remate enquadrado de Touré logo no minuto inicial, depois de uma atrapalhação dos centrais norte-americanos, mas os anfitriões não demoraram a assumir o controlo do jogo recorrendo de forma invariável aos corredores laterais para criar superioridade e procurar depois assistir para finalização. De quem? No limite, até de um adversário: Robinson subiu bem pela esquerda, Balogun meteu a mudança acima deixando o adversário para trás e Burgess, tentando antecipar-se a Ricardo Pepi, desviou para a própria baliza (11′). O mais complicado parecia feito, o mais complicado estava ainda para vir, tendo em conta que a Austrália, não tendo os mesmos argumentos técnicos, não ficava em nada atrás no plano da intensidade, da agressividade (às vezes excessiva) e da entrega. No entanto, com um meio-campo muito dinâmico e uma mobilidade na frente que de vez em quando conseguia abrir espaços, os EUA ainda foram para o intervalo a ganhar por 2-0, neste caso com Alex Freeman a aproveitar uma recarga após remate de Dest prensado num adversário para marcar na área, ver o golo anulado mas acabar mesmo em festa (43′).
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Tony Popovic não demorou a mexer, trocando três unidades logo ao intervalo, mas nem por isso as coisas mudaram muito. Os EUA já não tiveram a mesma capacidade de chegar ao último terço com oportunidades de finalização mas a Austrália, à exceção de duas transições rápidas que conseguiram a igualdade numérica mas não tiveram depois a melhor definição no último passe, pouco ou nenhum perigo criaram. O próprio encontro foi decaindo de qualidade com o passar dos minutos até tornar-se demasiado quezilento perto dos descontos, com a Austrália a insistir em demasia nos cruzamentos que eram invariavelmente ganhos pelos centrais norte-americanos e com os EUA a abdicarem do ataque para controlarem a vantagem de 2-0 antes de um momento mais insólito mas que também acontece e acabou com ovação de todo o estádio, com o árbitro alemão Felix Zwayer a sentir um problema no gémeo e a ficar a esticar a perna até “voltar” ao jogo.
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A estrela
- Sem grandes destaques individuais, a grande estrela acabou por ser o coletivo dos EUA e o projeto futebolístico desenhado por Pochettino, numa versão 2.0 de sucesso face ao que Gregg Berhalter tinha deixado no Mundial-2022 (antes de sair depois de uma Copa América desastrosa no ano seguinte). O que mudou? É uma equipa bem mais sólida em termos de organização defensiva, não apenas na linha a quatro recuada mas pelas zonas de pressão que desenha, percebe melhor os momentos de jogo, tem o condão de colocar várias unidades no último terço em lances de possível finalização e, sobretudo, ganha muito mais rendimento no corredor central com a colocação de Tyler Adams, Tillman (antes, em 2022, era Musah) e McKennie. Não são propriamente “estrelas” mas jogam todos que se fartam…
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O joker
- Alex Freeman foi um dos mais recentes jogadores a fazer a passagem dos EUA para ligas europeias, deixando o Orlando City para rumar aos espanhóis do Villarreal em janeiro. Não teve propriamente uma grande utilização, nem por isso deixou de aprender – ou não fosse Marcelino García Toral o treinador da equipa que acabou a La Liga na terceira posição, só atrás de Barcelona e Real Madrid. Foi isso também que o ajudou a assumir outro protagonismo na equipa norte-americana, numa posição de lateral direito que, pelas características da equipa, tem muito que se lhe diga, tendo em conta os vários papéis que pode assumir no jogo entre um lateral mais puro ou um defesa que pode fechar a cinco quando Dest desce mais um pouco. Mais uma vez, Freeman foi certinho e juntou a essa regularidade um golo em cima do intervalo, numa recarga na área após remate prensado, que sentenciou de vez a partida.
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A sentença
- Ainda é preciso esperar pelo desfecho do jogo entre Turquia e Paraguai mas já existe uma certeza em relação ao grupo D: os EUA já estão apurados para a próxima fase do Mundial com seis pontos, com a particularidade de ficarem de forma automática no primeiro lugar desde que os turcos não vençam os sul-americanos. Já a Austrália entra na terceira e última jornada com três pontos, a um de garantir o apuramento para os 16 avos (numa conta que, no limite, pode nem ser necessária, mediante aquilo que possa acontecer em relação aos outros terceiros lugares de todos os grupos).
A mentira
- Há uma fronteira cada vez mais reforçada neste Mundial entre duas premissas que podem coabitar sem serem uma contradição: os EUA não são, nunca foram e dificilmente serão um país de futebol (daquele soccer, entenda-se) mas são um país que tem um interesse crescente no futebol, num projeto que teve início há vários anos na MLS e que ganhou outra sustentabilidade a partir do projeto a médio prazo que foi começado no Mundial do Qatar, em 2022. Com outra curiosidade: se no último Mundial de Clubes havia adeptos que pareciam ainda meio baralhados com algumas regras, a forma como o Lumen Field festejou o 2-0 ainda antes do anúncio da decisão do VAR mostrou como eles sabiam bem que o golo de Alex Freeman ia mesmo contar – e que a vitória no jogo estava quase assegurada…
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