Há imagens que valem mais do que horas de debate parlamentar. A de 19 de junho em São Bento foi uma delas. Nas galerias da Assembleia da República, uma fila de dirigentes sindicais erguia os punhos cerrados em sinal de vitória. Aplaudiam, sorriam, celebravam. O pacote laboral tinha sido chumbado e, para aqueles rostos satisfeitos, o dia terminava com uma conquista. Mas a pergunta impõe-se: vitória de quem?
Certamente não dos jovens que saltam entre contratos temporários sem conseguirem planear a vida para além dos próximos meses. Certamente não dos trabalhadores que vivem presos à precariedade e à incerteza. Certamente não das empresas que lutam para competir num mercado global enquanto carregam às costas décadas de rigidez legislativa, burocracia e custos de contexto.
Enquanto os punhos se erguiam nas galerias, muitos portugueses tinham razões para baixar os olhos. Porque sabem que a estagnação não é uma teoria. É uma realidade que tem consequências, tem nomes, tem famílias e tem sonhos adiados. E, demasiadas vezes, tem lágrimas.
O mais surpreendente, porém, não foi a celebração da esquerda sindical. Dela já pouco surpreende. O verdadeiro espanto veio da bancada do Chega. Um partido que se apresenta como alternativa ao sistema, que se proclama defensor da iniciativa privada e da liberdade económica, decidiu juntar-se ao Bloco de Esquerda e ao PCP para travar uma reforma laboral. Foi nesse momento que as máscaras caíram.
Há muito que o Chega tenta convencer o eleitorado de que é um partido de direita. Contudo, quando o debate passa da imigração para a economia, da segurança para o mercado ou dos temas identitários para a criação de riqueza, emerge uma realidade difícil de esconder: economicamente, o Chega continua preso a uma visão profundamente estatista, protecionista, socialista e desconfiada da liberdade económica.
Na hora da verdade, votou ao lado daqueles que encaram o Estado como solução para quase tudo e o mercado como problema para quase tudo. E isso diz mais sobre a verdadeira natureza económica do partido do que milhares de discursos inflamados.
A ironia é que o pacote laboral do Governo estava longe de ser perfeito. Misturava matérias laborais com questões que deveriam pertencer a outra esfera e apresentava fragilidades jurídicas e políticas evidentes. Precisava de ser melhorado, discutido e aperfeiçoado.
Mas é precisamente para isso que existe um Parlamento.
Os deputados não são eleitos para destruir propostas imperfeitas; são eleitos para as melhorar. Se havia excessos, corrigiam-se. Se havia falhas, resolviam-se. Se havia riscos, mitigavam-se. É assim que funciona uma democracia madura. Ou, pelo menos, é assim que deveria funcionar.
O que assistimos foi ao contrário. Assistimos a partidos mais preocupados em colecionar vitórias táticas do que em construir soluções duradouras. Assistimos a dirigentes políticos que parecem viver numa campanha eleitoral permanente, incapazes de distinguir o interesse nacional da conveniência partidária.
São Bento transformou-se num recreio político onde cada votação parece uma luta de espadas entre adolescentes. Uns gritam de um lado, outros respondem do outro, todos reclamam vitórias e todos acabam por sair mais pequenos do que entraram. A única entidade que continua sistematicamente derrotada é Portugal.
E o país continua à espera.
À espera de uma reforma laboral que aumente a produtividade e aproxime Portugal das economias mais competitivas da Europa. À espera de uma reforma da Segurança Social que garanta sustentabilidade às próximas gerações. À espera de uma reforma da Justiça que devolva previsibilidade, eficácia e confiança ao Estado de Direito. E à espera de uma reforma fiscal que alivie o peso sufocante que recai sobre quem trabalha, investe, empreende e cria riqueza.
A verdade é simples: Portugal não sofre por falta de diagnósticos. Sofre por excesso de cobardia política.
Há décadas que sabemos o que precisa de ser mudado. Há décadas que conhecemos os bloqueios que travam o crescimento do país. Há décadas que assistimos aos mesmos discursos, aos mesmos medos e aos mesmos vetos cruzados. Entretanto, os mais qualificados partem, o investimento procura geografias mais previsíveis, a produtividade cresce a um ritmo insuficiente e a convergência com a Europa continua a ser uma promessa adiada.
Mas em São Bento continua a haver quem celebre. Celebram-se chumbos. Celebram-se bloqueios. Celebram-se derrotas apresentadas como vitórias. E talvez essa seja a imagem mais fiel da política portuguesa contemporânea: um conjunto de adultos que se comportam como crianças, convencidos de que ganharam uma batalha enquanto o país perde a guerra.
Desculpem-me a franqueza, mas isto não é política.
É criancice.