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(A) :: Teatro do Punho Erguido  

Teatro do Punho Erguido  

Há décadas que  conhecemos os bloqueios que travam o crescimento do país. Portugal não sofre por falta de diagnósticos. Sofre por excesso  de cobardia política. 

Bruno Fonseca Lobo
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Há imagens que valem mais do que horas de debate parlamentar. A de 19 de junho em São Bento foi uma delas. Nas galerias da Assembleia da  República, uma fila de dirigentes sindicais erguia os punhos cerrados em sinal de  vitória. Aplaudiam, sorriam, celebravam. O pacote laboral tinha sido chumbado e,  para aqueles rostos satisfeitos, o dia terminava com uma conquista. Mas a pergunta impõe-se: vitória de quem?

Certamente não dos jovens que saltam entre contratos temporários sem  conseguirem planear a vida para além dos próximos meses. Certamente não dos  trabalhadores que vivem presos à precariedade e à incerteza. Certamente não das  empresas que lutam para competir num mercado global enquanto carregam às  costas décadas de rigidez legislativa, burocracia e custos de contexto.

Enquanto os punhos se erguiam nas galerias, muitos portugueses tinham razões  para baixar os olhos. Porque sabem que a estagnação não é uma teoria. É uma  realidade que tem consequências, tem nomes, tem famílias e tem sonhos adiados.  E, demasiadas vezes, tem lágrimas.

O mais surpreendente, porém, não foi a celebração da esquerda sindical. Dela já  pouco surpreende. O verdadeiro espanto veio da bancada do Chega. Um partido que se apresenta como alternativa ao sistema, que se proclama  defensor da iniciativa privada e da liberdade económica, decidiu juntar-se ao Bloco  de Esquerda e ao PCP para travar uma reforma laboral. Foi nesse momento que as  máscaras caíram.

Há muito que o Chega tenta convencer o eleitorado de que é um partido de direita.  Contudo, quando o debate passa da imigração para a economia, da segurança para  o mercado ou dos temas identitários para a criação de riqueza, emerge uma  realidade difícil de esconder: economicamente, o Chega continua preso a uma  visão profundamente estatista, protecionista, socialista e desconfiada da liberdade  económica.

Na hora da verdade, votou ao lado daqueles que encaram o Estado como solução  para quase tudo e o mercado como problema para quase tudo. E isso diz mais sobre  a verdadeira natureza económica do partido do que milhares de discursos  inflamados.

A ironia é que o pacote laboral do Governo estava longe de ser perfeito. Misturava  matérias laborais com questões que deveriam pertencer a outra esfera e  apresentava fragilidades jurídicas e políticas evidentes. Precisava de ser  melhorado, discutido e aperfeiçoado.

Mas é precisamente para isso que existe um Parlamento.

Os deputados não são eleitos para destruir propostas imperfeitas; são eleitos para  as melhorar. Se havia excessos, corrigiam-se. Se havia falhas, resolviam-se. Se  havia riscos, mitigavam-se. É assim que funciona uma democracia madura. Ou,  pelo menos, é assim que deveria funcionar.

O que assistimos foi ao contrário. Assistimos a partidos mais preocupados em  colecionar vitórias táticas do que em construir soluções duradouras. Assistimos a  dirigentes políticos que parecem viver numa campanha eleitoral permanente,  incapazes de distinguir o interesse nacional da conveniência partidária.

São Bento transformou-se num recreio político onde cada votação parece uma luta  de espadas entre adolescentes. Uns gritam de um lado, outros respondem do  outro, todos reclamam vitórias e todos acabam por sair mais pequenos do que  entraram. A única entidade que continua sistematicamente derrotada é Portugal.

E o país continua à espera.

À espera de uma reforma laboral que aumente a produtividade e aproxime Portugal  das economias mais competitivas da Europa. À espera de uma reforma da  Segurança Social que garanta sustentabilidade às próximas gerações. À espera de  uma reforma da Justiça que devolva previsibilidade, eficácia e confiança ao Estado  de Direito. E à espera de uma reforma fiscal que alivie o peso sufocante que recai  sobre quem trabalha, investe, empreende e cria riqueza.

A verdade é simples: Portugal não sofre por falta de diagnósticos. Sofre por excesso  de cobardia política.

Há décadas que sabemos o que precisa de ser mudado. Há décadas que  conhecemos os bloqueios que travam o crescimento do país. Há décadas que  assistimos aos mesmos discursos, aos mesmos medos e aos mesmos vetos  cruzados. Entretanto, os mais qualificados partem, o investimento procura  geografias mais previsíveis, a produtividade cresce a um ritmo insuficiente e a  convergência com a Europa continua a ser uma promessa adiada.

Mas em São Bento continua a haver quem celebre. Celebram-se chumbos.  Celebram-se bloqueios. Celebram-se derrotas apresentadas como vitórias. E talvez essa seja a imagem mais fiel da política portuguesa contemporânea: um  conjunto de adultos que se comportam como crianças, convencidos de que  ganharam uma batalha enquanto o país perde a guerra.

Desculpem-me a franqueza, mas isto não é política.

É criancice.