Passam cinco anos sobre a ressurreição de Beverly Glenn-Copeland. Em semana de Santos Populares, num concerto de última hora, o canadiano prepara-se para atuar pela primeira e possível última vez em Lisboa. Máscaras cirúrgicas obrigatórias, o arraial de Campolide ao longe e um auditório da Reitoria da Universidade Nova em suspenso, como uma irmandade secreta.
“Bem-vindos, jovens e velhos”, ouve-se aos primeiros minutos de música. Uma luz suave ilumina o centro do palco. De pé, acompanhado pelo pianista e diretor musical Alex Samaras, um homem franzino e grisalho entoa, “Somos sempre novos, somos sempre novos”. É o refrão do seu tema mais popular, Ever New [“Welcome to you both young and old/ We are ever new, ever new”]. Sereno, sorridente e de braços abertos, aos 82 anos, Glenn, como é conhecido, dá o mote para um encontro com tudo para se dizer inefável, salvo duas coisas: o compromisso de o partilhar e o dever de o fazer por palavras simples, mesmo que, de tão sublime, tenha parecido intraduzível.
Figura da cena artística local até entrar na casa dos 70, o canadiano tornou-se fenómeno de culto mundial quando um colecionador japonês descobriu uma cassete áudio que gravara em 1986, Keyboard Fantasies. O achado deu-se em 2015, quase 30 anos depois do lançamento. Esta reviravolta é apenas uma das muitas com que se tece a história deste compositor do futuro, que nasceu em Filadélfia, EUA, numa família quaker, e começou por estudar música clássica, em particular lieder alemães, um género criado nos séculos XVIII e XIX para voz e piano.
O curso na Universidade de McGill, em Montreal, no Canadá, de que se tornara um dos primeiros alunos negros, ficaria pelo caminho. Avançaria por uma folk com elementos do jazz, dos blues e também da clássica, registo em que gravaria dois LP (1970, 1971) entretanto esquecidos. Ainda não era aquilo, contaria nas entrevistas que se seguiram à redescoberta e consequente reedição de Keyboard Fantasies, em 2021. A direção tardava em revelar-se. Talvez fosse inevitável.

Já no início dos anos 80, a viver no meio da floresta, no norte do Estado de Ontário, Glenn ouviria por fim os sons por que esperara uma vida inteira. Vinham de um computador. Um Atari de 8 bits, que conjugou com um sintetizador Yamaha DX7 e uma máquina de ritmos Roland TR-707. “Pela primeira vez tinha acesso àqueles sons incríveis”, conta no documentário Keyboard Fantasies: The Beverly Glenn-Copeland Story (2019). “Foi como encontrar brinquedos que não sabia como eram até um dia dar de caras com eles.”
Entrou num transe quase religioso. Dormia três, quatro horas por noite. O tempo que não passava a limpar a neve à volta da casa, a rachar madeira e a dar atenção à família, passava-o a trabalhar. Podia, por fim, pôr cá fora o que pulsava dentro de si. Contemplativo e espiritual, Keyboard Fantasies nasce de uma comunhão total com a natureza, por intermédio da tecnologia. “Senti-me num estado elevado de consciência, como se estivesse a ouvir os bosques”, explica, uma ideia a que voltou na Reitoria da Universidade Nova.
Em Lisboa, depois de dar as boas-vindas à primavera, às flores que desabrocham no verão, à ligação com o que o rodeia, tudo isto nos versos de Ever New (1986), apresenta um tema lançado em 2023, Lakeland Angel. “Oh anjo, anjo, anjo/ Vem buscar-me, não te esqueças de mim/ Ainda preciso do teu amor”, canta [“Oh, angel, angel, angel/ Come to get me, don’t forget me/ I still need your love”]. A mesma espiritualidade, a mesma simplicidade absurda, mas vindas de um outro lugar. No final, a audiência surpreende. Nem palmas nem burburinho. Uma palavra que seja. Só um silêncio absoluto e prolongado. Como um reflexo natural. É Glenn quem quebra o encanto, “Essa é a reação certa para esta canção”. Elogia as cerca de 200 pessoas no auditório e pergunta a Alex Samaras quantos voos são necessários para “chegar aqui”, uma graça que repetirá várias vezes. “São só dois, Glenn”, responde-lhe o outro, apoio fundamental ao longo do espetáculo. O público ri-se, aplaude e, de novo com um sorriso, Glenn interrompe: as palmas não são para ele, está ali apenas como mensageiro. “Sinto que as minhas canções vêm de uma fonte superior”, diz.

Reeditada em vinil pela Transgressive Records, a nova edição de Keyboard Fantasies inclui recortes de jornais de 1986. Dois são anúncios. “Música new age de sintetizador com múltiplas camadas, para relaxar”, lê-se num deles. Noutro, “A arte curativa da música: relaxa, inspira, fala ao corpo e à mente”. Se ainda é difícil encontrar categorias musicais para encaixar o trabalho de Beverly Glenn-Copeland, há 40 anos talvez parecesse doutro mundo. Daí a pesada condenação. Associado a vagas como a New Age, mas sem fazer parte, o título quase não vendeu e muitas das 200 cópias ficaram a hibernar.
Em 2019, a viagem do compositor, então com 75 anos, até Tóquio, para colecionador e dono de uma pequena loja de música que o redescobriu, Ryota Masuko, ficou registada em vídeo. O constrangimento é quase comovedor. Separados por várias décadas de idade e reunidos por um acaso improvável, nenhum sabe o que dizer. Vão repetindo, “obrigado”, até que Masuko lhe explica quão importantes são as seis canções de Keyboard Fantasies para a sua geração. “Só recebo instruções”, insiste Glenn, ao que o jovem que o redescobriu replica, “Essa foi exatamente a impressão que tive da primeira vez que ouvi Ever New”. De novo o compositor: “Nunca achei que a música fosse só para mim. Graças a ti, pôde ser ouvida.”