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(A) :: Será possível um Portugal resiliente ao fogo?

Será possível um Portugal resiliente ao fogo?

O verão que agora se inicia testará, mais uma vez, os limites do nosso país. Portugal tem a competência, a tecnologia e o sentido de missão para liderar esta mudança estrutural.

António Carias de Sousa
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Entrámos em junho e, com o início da fase mais crítica do ano, o país enfrenta um cenário de enorme apreensão. O mês de maio deixou avisos demasiado claros, com os termómetros a atingirem precocemente os 35 graus e a colocarem, logo na primavera, vários concelhos do país, com especial incidência no Sul, em perigo máximo de incêndio. O alerta global dos cientistas para um ano de risco extremo, sob o efeito dos fenómenos de intensidade histórica e de alterações climáticas galopantes, é a prova da realidade imediata que temos pela frente.

Mais uma vez, corremos o contrarrelógio para evitar que as nossas florestas ardam, patrimónios sejam destruídos e, tragicamente, se percam vidas. Esta ameaça exige uma mudança profunda na forma como protegemos o território, assumindo a engenharia como um dos pilares de uma estratégia de resiliência.  A luta contra os incêndios é um desafio complexo de planeamento e gestão que convoca a engenharia florestal, civil, ambiental, de segurança, informática, eletrotécnica, mecânica, entre tantas outras.

A primeira e mais decisiva linha de defesa é a prevenção, e este ano ela reveste-se de urgência. As violentas tempestades que assolaram o país no início do ano, deixaram no solo das regiões Centro e Sul milhões de árvores caídas e uma acumulação massiva de biomassa que não foi possível limpar a tempo. Temos, literalmente, um rastilho físico acumulado nas nossas florestas.

Adicionalmente, os dados demográficos do INE (*) relembram-nos que quase 100 mil portugueses vivem isolados em áreas de elevada perigosidade, sobretudo no Interior e no Sul, caracterizados por um envelhecimento acentuado. Proteger estas vidas exige ordenamento do território, através do desenvolvimento de redes de proteção de proximidade e de sistemas de aviso prévio baseados em inteligência artificial, sensores e drones, capazes de antecipar o comportamento do fogo e coordenar evacuações seguras em tempo útil.

Quando o fogo deflagra e o combate se impõe, a tecnologia e a eficiência logística determinam o sucesso das operações. As limitações que marcaram o arranque do dispositivo, com atrasos na manutenção, sublinham a necessidade de aplicar um rigor absoluto na gestão e prontidão dos ativos de combate. No terreno, é preciso garantir o abastecimento rápido e eficiente de água aos operacionais. Paralelamente é fundamental manter ativas as redes de comunicação blindadas a falhas e alimentar os sistemas de comando com dados de simulação do fogo em tempo real, otimizando a distribuição de recursos.

Após a devastação, no rescaldo, impõe-se uma rápida recuperação. Desde a contenção da erosão dos solos e proteção da qualidade da água à reconstrução de habitações e vias de comunicação destruídas, a reconstrução deve incorporar lições aprendidas, edificando um território mais sustentável e seguro para o futuro.

Portugal tem de inverter a balança financeira, cada euro investido na prevenção poupa múltiplos recursos no combate e, acima de tudo, poupa vidas. Isto exige o reforço das equipas técnicas nas autarquias, investimento sério no cadastro e ordenamento florestal, e o fomento de tecnologia de ponta aplicada à proteção civil.

O verão que agora se inicia testará, mais uma vez, os limites do nosso país. Portugal tem a competência, a tecnologia e o sentido de missão para liderar esta mudança estrutural. É tempo de planear, projetar e proteger o território com a ciência e a técnica que a situação exige, antes que as chamas decidam por todos nós. Urge tornar Portugal resiliente ao fogo.

*Fonte: “CARACTERIZAÇÃO DAS ÁREAS DE PERIGOSIDADE DE INCÊNDIO RURAL” divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística a 22 de maio de 2026