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(A) :: A "pressão das redes sociais", o tempo extra e a desistência "à 25.ª hora". A queda do pacote laboral no Parlamento

A "pressão das redes sociais", o tempo extra e a desistência "à 25.ª hora". A queda do pacote laboral no Parlamento

Chega pediu tempo extra, mas meia hora não chegou para dar a volta ao impasse no pacote laboral, que cai no Parlamento. Esquerda aplaudiu ao lado da CGTP.

Marina Ferreira
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Eram 12h16 quando Pedro Pinto, Hugo Soares e André Ventura chegaram ao plenário. Comunicavam entre si pelos telefones do Parlamento, de postura agitada. Ainda antes das votações desta sexta-feira arrancarem — com toda a Assembleia da República de olhos postos na da reforma laboral — veio do Chega o pedido de suspensão da sessão por 30 minutos. A meia hora foi concedida, mas, depois dela, chegava o desfecho que nem as negociações de última hora fizeram mudar: a reforma laboral foi chumbada com voto contra do partido liderado por André Ventura.

Ao lado da proposta para mudar a lei do Trabalho, que o Governo apresentou pela primeira vez há quase um ano, só ficaram mesmo o PSD, CDS-PP e a Iniciativa Liberal. Toda a esquerda, além do Chega, votou contra.

Tinha sido André Ventura, menos de 24 horas antes, a cantar “vitória” no Parlamento, e a dizer que esta seria a “maior das últimas décadas” para os trabalhadores de Portugal. Já no debate da reforma laboral tinha dado conta dos “erros” que já tinha conseguido corrigir no conteúdo da reforma laboral. Mas houve pelo menos dois que garantiu não ter conseguido acordar com o Governo: “a necessária descida da idade da reforma e o teto às pensões milionárias em Portugal“.

“Nós não nos vendemos”, disse, já esta sexta-feira, no plenário e quase em simultâneo nas suas redes sociais. “A nossa coligação não é com a esquerda ou com os sindicatos. A nossa única coligação é com os portugueses”, declarou.

E foi pelas redes sociais que, acusou Hugo Soares, chegaram as pressões que determinaram a decisão “à 25.ª hora” do Chega. “O que aconteceu de ontem para hoje foi que cederam ao ruído e à pressão nas redes sociais“, garantiu o líder da bancada parlamentar do PSD, que fez questão de dar conta de que “as pensões dos portugueses não são motivo de brincadeira”. Luís Montenegro reforçava pouco depois que as pensões “são sagradas”.

“O motivo pelo qual não houve entendimento final foi ter-me sido pedido que tomasse uma posição que poderia colocar em causa a sustentabilidade do sistema de pensões e o pagamento futuro de pensões”, revelou o primeiro-ministro. Detalhando que “uma condição imposta” pelo Chega era que se mexesse na sustentabilidade da Segurança Social e da possibilidade não fundamentada de alterar a idade da reforma para quem trabalha por turnos.

Hugo Soares, já em declarações aos jornalistas após a votação, lamentou a decisão baseada em “mensagens que deputados recebem nas redes sociais”. “Quem assim age demonstra que não tem estofo para ser governante”, avisou sobre a “desistência” do Chega.

“Quem proclamou vitórias e berrou para os TikToks?”, questionou, dizendo que manteve a sua palavra no processo negocial com o Chega, garantindo mesmo que o Governo e PSD se mostraram “disponíveis para estudar em comissão as hipóteses de estudo da sustentabilidade da Segurança Social”. Montenegro concretizou que foi proposta ao Chega a criação no Parlamento de uma comissão eventual que “fizesse o aprofundamento da matéria, das propostas e o seu impacto financeiro” da mexida nas pensões.

Durante a votação, vários membros da CGTP assistiam à decisão a partir das galerias. Tiago Oliveira, o secretário-geral da central sindical, emocionou-se quando o chumbo foi anunciado e até serem escoltados pela polícia, os sindicalistas bateram palmas. José Pedro Aguiar-Branco lamentou que a intervenção externa, que está proibida durante sessões plenárias, tenha acontecido. “Não foi um momento bom”, lamentou.

Hugo Soares destacou ainda um “gesto” de André Ventura enquanto a central sindical festejava. Garante ter visto o líder do Chega “de punho fechado para a CGTP”.

Direita acusou “vício” do Chega e “derrota dos trabalhadores”. Esquerda fala em “bom dia” para Portugal

“Não basta dizer-se que se é de direita e depois ser marxista na economia”, acusou Paulo Núncio na reação ao desfecho da votação desta sexta-feira. O deputado do CDS-PP colocou o Chega “ao lado do imobilismo mais esquerdista que este país tem” e garante que caiu “no vício de ter medo da opinião pública e das redes sociais”.

“O voto do Chega é definidor do lado em que está. Não pode ser mais considerado um partido do lado direito do hemiciclo”, lamentou.

Já Mariana Leitão olhou e ouviu as palmas da CGTP como dirigidas “ao PS e ao Chega”. “Esta não é uma vitória da esquerda, das centrais sindicais ou do Chega”, mas sim uma “derrota dos trabalhadores”, garantiu. O desfecho da votação de uma reforma que, apesar de não encher as medidas à IL, foi votada a favor pelos liberais, faz com que “os jovens acabem a emigrar”, que perdure a “pouca produtividade e pouca riqueza”, defendeu ainda a líder da IL.

Para o PS o dia foi “bom para Portugal e para os portugueses”. “A direita bateu em retirada”, saudou Eurico Brilhante Dias. “O país precisa de melhores salários e de empresas competitivas, mas isso não se faz à custa dos trabalhadores”, garantiu o líder parlamentar socialista.

E foi para os sindicalistas que se virou: “Hoje os portugueses vão agradecer aos que mantiveram as suas convicções na defesa do trabalho.”

A saudar igualmente as centrais sindicais, Paulo Raimundo relembrou todas as declarações do PCP que davam garantias de que “a força dos trabalhadores iria determinar” o processo do pacote laboral. “Foi o que aconteceu”, disse.

Rui Tavares preferiu usar um conto para ilustrar “uma história que parece a do escorpião que promete dar boleia a alguém, mas que acaba a ferrar a pessoa no final”, afirmou o parlamentar, referindo-se ao Chega em relação ao Governo. “Os escorpiões andam aos ziguezagues”, acusou ainda, lembrando que o partido de Ventura tinha anunciado há menos de 24 horas a vitória de alcançar os 25 dias de férias para os trabalhadores.

“Dos mais jovens aos mais velhos, sabia-se que os trabalhadores estavam contra esta proposta. E por isso os partidos deram à última hora o seu número de circo, mas tiveram medo do que ia acontecer, que dissessem para agradecer aos da direita que quiseram cortar os seus direitos”.

Do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo, destacou o principal número acrobático desta sexta-feira: “Ventura deu a cambalhota do século”, apontou.

Bloco acusa ministra de “arrogância”. Montenegro segura para já Palma Ramalho

Foi também pela voz do deputado único do Bloco de Esquerda que surgiram as mais duras críticas à ministra do Trabalho, que deu a cara pelo pacote laboral em julho do ano passado e que o vê, quase um ano depois, a cair no Parlamento.

“A ministra está reduzida à sua arrogância”, afirmou Fabian Figueiredo. E insistiu: “Quem hoje pensa em arrogância pensa em Maria do Rosário Palma Ramalho”. Para o deputado, a próxima ação da governante deveria ser a de “repensar o seu lugar no Governo”.

Hugo Soares respondeu pouco depois aos jornalistas sobre as condições da ministra para se manter no Governo. “Se cada vez que uma legislação não fosse aprovada houvesse demissão não existiriam ministros”, afirmou, considerando a pergunta “ridícula” e “patética”. Ressalvou ainda que essa matéria está do lado do primeiro-ministro.

Foi o próprio Luís Montenegro a segurar, para já, Palma Ramalho. Disse ter na governante “confiança absoluta”, assumindo que a ministra do Trabalho “mais não fez do que apresentar a posição do Governo e a posição do Governo é intocável”.

“As nossas convicções e propostas para Portugal mantêm-se intactas. Saberemos fazer a leitura política para recolocar este tema, no tempo e modo, que forem convenientes. Será uma análise que farei no futuro”, acrescentou ainda.