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(A) :: "Fui completamente surpreendido". Montenegro queixa-se de não ter sido avisado sobre ameaça do grupo neonazi MAL

"Fui completamente surpreendido". Montenegro queixa-se de não ter sido avisado sobre ameaça do grupo neonazi MAL

O PM soube pela comunicação social que era alvo do MAL. A família também ficou a saber pelos média que neonazis discutiram lançar uma granada para a sua casa.

João Paulo Godinho
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Leonor Riso
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A informação de que alguns elementos do Movimento Armilar Lusitano (MAL) chegaram a ponderar um ataque à residência do primeiro-ministro e que Luís Montenegro estava numa lista de alvos do grupo neonazi apanhou de surpresa o primeiro-ministro, que se queixou de não ter sido informado pelas autoridades sobre esta ameaça.

“Fui ontem completamente surpreendido por essa notícia. Estava num contexto de reunião em que nem sequer estava contactável. Lamento profundamente que uma questão que coloca em causa a segurança de um cidadão, neste caso do primeiro-ministro e da sua família, mas que podia ser aplicável a qualquer português, não tenha sido partilhada com os próprios”, assumiu o líder do Executivo, em declarações prestadas na conferência de imprensa de reação ao chumbo da reforma da lei laboral.

O primeiro-ministro considerou ter sido “extremamente delicado” que a sua família também tivesse tido conhecimento pela comunicação social da acusação aos elementos do grupo ultranacionalista e da discussão sobre o envio de um engenho explosivo para o interior da casa, sem poder falar naquele momento com Luís Montenegro.

https://observador.pt/especiais/grupo-neonazi-tinha-lista-de-indesejaveis-com-montenegro-e-marcelo-e-discutiu-enterro-de-bidoes/

“Isto não é exclusivo do primeiro-ministro, é de qualquer cidadão português. Parece-me que se estiver em causa uma ameaça da gravidade daquela que foi veiculada — a possibilidade de utilizar engenhos explosivos e armamento militar para uma habitação de um cidadão — [o cidadão] não possa ser alvo de uma informação para todos os efeitos tidos por convenientes para assegurar a segurança das pessoas em causa”, vincou.

Montenegro sugeriu que a divulgação da morada se relaciona com o caso Spinumviva. Mas foi obtida por chefe da PSP em documentos da Polícia Municipal

Luís Montenegro usou ainda esta situação para fazer uma relação com as divergências que tem tido com a Entidade para a Transparência e o Tribunal Constitucional relativamente ao acesso público a determinadas informações que constam das suas obrigações declarativas enquanto titular de cargo político.

“Aproveito para partilhar uma observação para aqueles que teimam em não compreender algumas das posições que tenho tomado sobre a circunstância de conviver muito bem com as informações que devo disponibilizar às autoridades de controlo daquilo que é a minha vida, face àquilo que deve estar ou não disponibilizado de forma generalizada ao público”, começou por dizer.

E continuou: “Uma coisa são as informações que eu muito tranquilamente e responsavelmente devo oferecer a quem tem delas de tomar conhecimento, outra coisa é algumas dessas informações serem disponibilizadas de forma generalizada, o que coloca em causa, como sempre aduzi, a minha segurança e a de terceiros. E isso infelizmente veio a comprovar-se da forma mais evidente.”

Contudo, na acusação do Ministério Público, é revelado que a morada do primeiro-ministro foi obtida por um dos acusados, chefe da PSP, através de documentos da Polícia Municipal de Lisboa onde prestava serviço. “Obteve a morada de Luís Montenegro, em Lisboa, com número de porta e andar, em documentos a que teve acesso na Polícia Municipal”, lê-se no despacho assinado pela procuradora Cláudia Oliveira Porto. “No primeiro desses documentos, obteve a informação de que a PSP efetuava policiamento permanente da referida morada.” Este agente acabou por ser acusado de crimes terroristas e de tráfico e mediação de armas, mas também por dois crimes de acesso ilegítimo e abuso de poder.

Além dos dados sobre a morada de Luís Montenegro, acedeu ainda com as credenciais da Polícia Municipal ao sistema informático do Arquivo Municipal de Lisboa, para conseguir as plantas da sede da associação SOS Racismo (na qual o grupo ponderou colocar fogo posto) e da mesquita do Martim Moniz, em Lisboa. Não conseguiu as plantas do primeiro local, mas da mesquita sim. O agente da PSP deu essas informações ao líder do Movimento Armilar Lusitano para “poderem decidir sobre o melhor método de abordagem”.

https://observador.pt/2025/06/27/pelo-menos-uma-dezena-de-policias-e-militares-pertenciam-a-grupo-neonazi/

Questionado se teria existido uma falha de segurança ou negligência da parte das autoridades por não terem partilhado consigo a existência de uma ameaça protagonizada pelos elementos do MAL, o primeiro-ministro recusou apontar abertamente qualquer erro, mas reiterou a sua discordância em relação à forma como as informações foram divulgadas.

“A forma como a informação foi conhecida das pessoas visadas, que éramos nós, não foi, na minha opinião, aquela que deveria ter sido. E isso tem de ser dito. Não estou já preocupado com esta circunstância, mas estou preocupado com a possibilidade de isto poder acontecer a qualquer cidadão português”, observou, manifestando a expectativa de que esta tomada de posição sirva para “alertar os respetivos responsáveis para aquilo que devem fazer em situações iguais a esta”.

Sequestro descartado para privilegiar uma granada disparada para o interior da casa

Cinco membros do grupo neonazi Movimento Armilar Lusitano (MAL), entre eles um agente da PSP em funções na Polícia Municipal de Lisboa, um agente imobiliário, um soldador e um engenheiro de sistemas, foram acusados pelo Ministério Público de crimes de terrorismo. Ao todo, nove pessoas ligadas ao MAL foram acusadas de 29 crimes, entre os quais tráfico de armas e detenção de arma proibida.

O agente da PSP e número 2 do grupo neonazi foi o único acusado de dois crimes de abuso de poder e de dois crimes de acesso ilegítimo. Disse ter obtido a morada do primeiro-ministro Luís Montenegro, em Lisboa, e informação sobre o policiamento a que estava sujeita, e uma possível ação foi discutida pelos neonazis.

“Consegui a morada de um certo atual primeiro-ministro, aquele conhecido pelo Monstro Negro”, escreveu num grupo do Signal. Contudo, considerou que o sequestro do primeiro-ministro estaria fora de hipótese, mas que deveriam “cogitar dispararem uma granada de 37mm através de uma janela para o interior da casa de Luís Montenegro”. “Sequestro é para esquecer, mas uma granada de 37mm disparada por uma janela adentro não está fora da ementa”, afirmou.