A primeira coisa que escreveu no computador, ao criar um novo documento, foi Maite. Logo a seguir, Página 1. Fernando Aramburu soube desde logo que o nome, diminutivo de Maria Teresa, mas também sinónimo de “amor”, seria a identidade da sua mais recente protagonista e igualmente de todo o novo livro.
Maite (publicado em Portugal pela D. Quixote) faz parte da série Gentes Bascas, obras que se debruçam sobre pessoas banais, cujas vidas são impactadas pelo terrorismo da ETA, organização separatista basca ativa entre 1959 e 2018. Desta vez, a narrativa centra-se em três mulheres (a protagonista, a irmã e a mãe) e desenrola-se entre os dias 10 e 13 de julho de 1997, período em que um jovem vereador do Partido Popular, Miguel Ángel Blanco, foi sequestrado e assassinado.
Há muito que o autor queria escrever sobre este episódio traumático e consegue, mais uma vez — tal como fez em Pátria ou Filhos da Fábula —, tocar num tema sensível com cuidado e respeito, colocando nas mãos de personagens cheias de defeitos, mas profundamente humanas, a condução desta história.
De passagem por Lisboa, Fernando Aramburu falou-nos do novo livro, do processo de deixar a marinar as obras durante um ou dois anos antes da publicação e abordou o motivo pelo qual as suas histórias regressam sempre ao ponto de partida: o País Basco. Foi lá que nasceu em 1959 [em plena ditadura franquista, que dominou Espanha entre 1936 e 1975] e, apesar de ter ido viver para a Alemanha “por amor” em 1985, nunca conseguiu cortar o cordão umbilical — nem quer.

Maite é o quinto livro da série Gentes Bascas [sobre cidadãos comuns, coincidindo com um acontecimento histórico] e aborda um dos episódios mais atrozes da ETA, o sequestro e assassinato de Miguel Ángel Blanco [jovem vereador do Partido Popular, morto com dois tiros na cabeça em 1997]. Há muito que queria escrever sobre ele?
Há muito tempo. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, acabaria por aparecer na série, porque foi muito significativo na altura. As pessoas falam de um antes e um depois deste acontecimento cruel. Teria sido muito estranho se, no caso de ter continuado a série, ele não aparecesse em algum momento.
Maite foi a primeira personagem a surgir-lhe na cabeça? Nem sempre é o protagonista o ponto de partida.
Neste caso, sim, porque já tinha escrito vários romances em que trabalhava na estrutura, em algumas experiências linguísticas, e este caminho pareceu-me familiar. Desta vez, queria concentrar os meus esforços na criação da personagem feminina mais complexa possível. Assim, já tinha o nome desde o início e o desejo de centrar toda a história nela, em Maite. Como personagem, mas também como perspetiva, porque tudo é contado através dela, do ponto de vista dela.
Quando tem como personagem principal uma mulher é mais difícil escrever?
Não, porque esse ponto de vista não existe, é uma ilusão narrativa. O leitor precisa de acreditar nisso, mas não trabalho com pessoas, trabalho com palavras.
Mas questiona-se se uma mulher falaria ou pensaria de certa forma. Recorre à sua mulher ou a alguém para tirar dúvidas?
Tenho sempre dúvidas — também as tenho quando escrevo do ponto de vista de um homem. Por vezes não tenho a certeza se o que vou escrever está bem concebido, nessas alturas pergunto à minha mulher, que me oferece a experiência pessoal e a sensibilidade dela.
Li que a personagem foi inspirada numa atriz italiana, mas exatamente o quê? As feições, a voz, os maneirismos?
É um ritual pessoal. O romance surgiu enquanto via filmes italianos do século XX, principalmente [Federico] Fellini e [Michelangelo] Antonioni, filmes como A Doce Vida (1960), A Noite (1961) ou O Eclipse (1962), que são filmes sem enredo. São filmes sobre a convivência, juntam homens e mulheres no mesmo lugar e essa é a história: o que fazem, sobre o que conversam, o que é contado. Era essencialmente isso que queria transmitir no meu romance. Tratava-se de juntar três mulheres sem a presença dos homens e era só isso, pareceu-me suficiente. E depois, enquanto trabalhava, dei à Maite o rosto da Monica Vitti — mas essa é uma ideia minha, se não o disser, ninguém repara, não passa para o texto.
Ter uma imagem nítida da cara da personagem ajuda-o?
Sim, ajuda a evitar que a personagem se desvaneça, que me escape por entre os dedos. Porém, os leitores imaginam as suas personagens, nas suas mentes. É por isso que o rosto da mulher não aparece na capa do livro em Espanha e em Portugal — para evitar predeterminar a aparência da personagem na mente do leitor.
A história foca-se num trio feminino, estando cada uma das mulheres a tentar defender o suposto quadro perfeito da sua vida. Rapidamente se percebe que há muitas fragilidades, sobretudo nesta relação familiar onde ninguém é realmente honesto. Senti que havia um abandono em muitos aspetos, como se elas tivessem desistido delas próprias e também dos seus ideais. Há uma certa inércia. Estou certa?
Embora evite interpretar os meus livros, ouço interpretações que me parecem apropriadas e essa parece-me apropriada. O que faço é trazer três mulheres, cada uma com o seu romance, que se vai desenrolando aos poucos. À medida que as personagens se encontram e conversam, ficamos a saber mais sobre a Maite porque ela é a câmara de filmar. A irmã, que aparece como personagem secundária no início, parece viver num mundo perfeito com as suas casas, os filhos, o jardim, e tudo isto está a desfazer-se aos poucos. A mãe de ambas anseia por se reencontrar com a mulher que um dia foi, mas sofreu um AVC e tem medo de ser internada num lar. Tudo isto emerge gradualmente nas conversas entre as três mulheres e é, por assim dizer, a espinha dorsal desta história.
Também há um certo abandono na relação de Maite com o marido. Embora seja de dependência, é uma existência de rotina.
A Maite é uma mulher inteligente e culta, mas tem apenas 34 anos. Ela pode muito bem pedir o divórcio ou simplesmente gritar, mas está a elaborar uma estratégia diferente, é um pouco como um jogo de xadrez, é possível perder uma peça e, mesmo assim, ganhar o jogo. É também uma nova opção na minha escrita, que por vezes tende um pouco para os dramas shakespearianos, onde há violência, onde se derrama sangue, onde há ruturas. Desta vez, achei melhor retratar as relações humanas com mais subtileza. É verdade que existem áreas de ambiguidade entre as personagens, em que não contam tudo umas às outras, mas parece que o contraste entre o que é dito e o que cada uma mantém em silêncio cria uma espécie de equilíbrio entre elas. E suspeito que isso acontece com bastante frequência na vida, fora da literatura. Em termos de ação, não há grandes acontecimentos, em vez disso há uma crónica da condição humana refletida exclusivamente em três personagens.
Será mais próximo da vida real? A maioria das pessoas não tem grandes acontecimentos.
Digamos que é exatamente sobre isso que quero falar. Por isso é que a série se chama Gentes Bascas, conto histórias de pessoas comuns.
Enquanto escreve, sente que tem de gostar de todas as personagens que cria?
Não, há uma distinção a fazer. As minhas personagens favoritas são aquelas que me proporcionam uma boa história — e essas personagens são más e violentas, não as quero na minha vida. Na vida, quero personagens tranquilas, amorosas e doces, só que este tipo de pessoa não é bom para a literatura porque não gera ação. É normal que, quando escrevo um livro, as minhas personagens favoritas sejam as piores porque são elas que tornam o romance interessante. Cada vez que aparecem, acontece algo.
Já viveu mais anos fora de Espanha do que aqueles que viveu no país. Ter Espanha como cenário dos seus livros tem um lado nostálgico ou é uma necessidade para que este período específico [a organização terrorista ETA esteve ativa entre 1959 e 2018] não seja esquecido?
Um pouco dos dois. Não sou muito propenso à nostalgia, mas também não sou de pedra e é possível que, ao escrever sobre Espanha, me iluda a pensar que estou mesmo lá. Seja por causa da investigação ou porque estou a lidar diretamente com paisagens e cidades espanholas, tenho a sensação de que o cordão umbilical ainda me liga ao meu país. Depois, há a questão dos temas que escolho. De facto, passei 26 dos primeiros anos da minha vida no País Basco, entre terrorismo e morte, ainda me afeta profundamente. Tenho um testemunho para deixar, com a ajuda da literatura, da época que vivi. Além disso, como estou a fazê-lo em série, incentiva-me a continuar a escrever sobre temas bascos, embora não seja a única coisa que quero fazer. Por outro lado, conheço bem a minha terra natal, conheço o seu povo, sei como pensa e como se sente. Estou habituado às tradições e à cultura basca, o que facilita muito o meu trabalho. Estou muito familiarizado com a vida doméstica, os horários, o que comem ao almoço, o que jantam em casa. Sei tudo isso muito bem e ajuda-me bastante quando estou a escrever. Além disso, preciso de estar pessoalmente envolvido com o que escrevo, preciso desta ligação emocional ou pessoal. Se não me sinto envolvido, não recebo estímulo suficiente.

Assistimos ao crescimento do extremismo. A era da ETA ou de outros conflitos marcantes que afetaram e mudaram gerações, como a II Guerra Mundial, começa a ficar tão distante que, para as camadas mais jovens, é quase irreal. Sente essa discrepância devido aos temas que aborda e acha que estão mais propensos a seguirem radicalismos?
Vou defender os jovens porque não acredito que sejam todos iguais. É certo que os jovens, por terem mais energia, mais força, melhor saúde, atraem mais atenção. Além disso, como ainda não são seres humanos maduros, são suscetíveis de serem convencidos. Vou falar por mim: vivi os primeiros 16 anos da minha vida em ditadura. Então, não quero mais isso. Quem não viveu sob uma ditadura, penso que não sabe bem como é.
É mais difícil relacionarem-se com esse período? A teoria não é a mesma coisa.
Não é, não, é preciso ter estado lá. Talvez isso faça com que alguns jovens — não todos, mas alguns — sejam suscetíveis de serem convencidos por pessoas muito inteligentes que oferecem soluções rápidas e decisivas para problemas complexos.
Tudo o que estamos a viver — não só os conflitos armados, mas também as alterações climáticas — são temas que o atormentam enquanto escritor ou, ironicamente, são uma fonte de personagens e narrativas?
Nada do que acontece no mundo me é indiferente. As alterações climáticas, por exemplo, são uma questão que me preocupa bastante, estão presentes e, por isso, não é de estranhar que apareçam nos meus romances ou nas minhas reflexões públicas. Por outras palavras, não escrevo de costas voltadas para o presente e para o mundo atual. Não é que escreva um romance sobre as alterações climáticas, um romance sobre a guerra na Ucrânia, não é bem isso, mas o que faço é refletir essas questões na vida das minhas personagens.
É um escritor mais inquieto hoje do que há 20 anos?
Não, acho que me tornei um escritor cada vez mais sereno e tranquilo. Eu era muito inquieto e rebelde e a vida colocou-me no meu lugar. Veio a paternidade, vieram as doenças, perdemos os pais, etc. Tudo isto coloca-nos gradualmente no nosso devido lugar e acalma-nos.
Disse numa entrevista: “Tenho sempre livros a mais, tenho livros em repouso”. Isto não é muito comum nos escritores, pelo contrário. Nunca sentiu um vazio depois de terminar um livro, sem saber para onde ir a seguir?
Conheço esse vazio depois de terminar uma obra, especialmente se foi longa e demorou vários anos para ser concluída. Não é uma época agradável para um escritor. Penso que era o Thomas Mann que ficava doente sempre que terminava um livro. Esse vazio é muito perturbador, mas a verdade é que nunca fiquei sem ideias. Tenho um hábito: quando acabo um livro, deixo-o repousar, por vezes durante um ou dois anos, e depois, com uma nova sensibilidade e uma nova perspetiva, volto a ele e vejo as possibilidades de melhorar, corrigir e enviar ao editor. Envio sempre ao editor as versões finais já.
E com o tal vazio perturbador como é que se aprende a lidar?
O que faço é já ter o próximo projeto em mente. Já me aconteceu terminar um livro às 16h10, tomar um café e, às 16h15, estar a começar o próximo, que já estava mais ou menos pronto. Escrever não é apenas uma profissão, preenche a vida de uma pessoa. Proporciona equilíbrio, ordem e estrutura.
Quando já está tão embrenhado num livro novo, tem de voltar ao anterior para promovê-lo. É bom revisitar ou é confuso?
Neste caso, terminei Maite há mais de um ano. É certo que, quando faço a promoção, preciso de refrescar a memória e tirar notas para não me esquecer do que queria dizer. Os livros são publicados e não basta simplesmente deixá-los nas livrarias, é necessário promovê-los, dar entrevistas, torná-los notícia durante alguns dias para que os leitores conheçam um livro que lhes possa interessar. Claro, não estou na minha secretária agora, que é onde gostaria de estar, mas o trabalho de promoção faz sentido.
Já disse várias vezes que considera que Pátria teve uma atenção desmesurada [além do sucesso de vendas e dos prémios, a história de duas mulheres mudadas pela ETA foi transformado em série na HBO] e não gosta de falar muito disso, mas devo dizer que Filhos da Fábula [centrada em dois jovens que querem converter-se em militantes da ETA] foi o meu favorito.
Fico muito feliz por isso porque é um livro muito provocador e irritou algumas pessoas.
Porquê?
Porque têm uma ideia errada de humor. Humor não é necessariamente comédia, aquele livro não é uma comédia. Foi um romance muito difícil de escrever porque corria o risco de trivializar ou banalizar as personagens — ou talvez de perturbar as vítimas.
Foi a obra que lhe deu mais dores de cabeça?
Não foram dores de cabeça, mas dou-lhe um exemplo: na versão espanhola não há praticamente frases com mais do que um verbo. Isso, sim, foi muito difícil. Durante o processo de edição, descobrimos seis frases com dois verbos. Quando estiver em casa sossegada, tente fazer frases em português só com um verbo ou sem verbo, é mesmo difícil. Mas, por outro lado, as orações subordinadas não são possíveis. Portanto, o trabalho progrediu muito lentamente por causa disso. Gosto muito de desafios e desafio-me, é assim que sou produtivo.