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(A) :: Crítico de Thatcher e defensor do "socialismo amigo das empresas". Quem é Andy Burnham, o "Rei do Norte" que pode desafiar Starmer?

Crítico de Thatcher e defensor do "socialismo amigo das empresas". Quem é Andy Burnham, o "Rei do Norte" que pode desafiar Starmer?

Governou a região de Manchester, defendendo sempre mais Estado e o fim do neoliberalismo. Ambicioso e fã do Everton, Andy Burnham pode desafiar Keir Starmer — e chegar a primeiro-ministro.

José Carlos Duarte
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Foi um gesto simbólico e o pontapé de saída para o seu mandato. Um dia depois de ter assumido a liderança da área metropolitana de Manchester, em maio de 2017, Andy Burnham anunciou que ia doar 15% do seu salário anual de 110 mil libras (cerca de 115 mil euros) a pessoas que estão em situação de sem-abrigo. “Temos o dever de garantir que todos os habitantes de Grande Manchester têm um local estável a que podem chamar casa”, argumentou na altura, estipulando uma meta: até 2020, este “escândalo” que afeta a região no norte de Inglaterra devia terminar.

O homem que governou Manchester durante nove anos transformou profundamente a cidade e os seus subúrbios, mas não cumpriu a meta de acabar com os sem-abrigo nas ruas. Mesmo assim, o trabalhista obteve expressivas vitórias nas urnas e é elogiado por muitos habitantes da cidade. Andy Burnham confrontou também a elite londrina e criticou-a pela excessiva centralização da política britânica. Por causa disso, ganhou um cognome, inspirado na série Game of Thrones: “Rei do Norte”. Porém, nunca escondeu que desejava voltar a Westminster, onde já tinha sido secretário de Estado e ministro nos governos de Tony Blair e Gordon Brown. Esta sexta-feira, confirmou o seu regresso a Londres — e, no melhor dos cenários, pode chegar mesmo a Downing Street.

Andy Burnham venceu as eleições esta sexta-feira no círculo eleitoral de Makerfield, no norte de Inglaterra. É agora deputado e deixou as funções que ocupava na área metropolitana de Manchester. Mas o seu objetivo não era apenas juntar-se à bancada trabalhista. Ao ocupar um cargo na Câmara dos Comuns, o político de 56 anos tem agora via livre para desafiar o atual primeiro-ministro britânico na liderança do Partido Trabalhista. Com uma taxa de aprovação muito baixa e a ser criticado diretamente pelos seus correligionários, Keir Starmer está cada vez mais sob pressão para abandonar as funções que ocupa.

O primeiro-ministro ganhou esta sexta-feira um oponente de peso para disputar a liderança trabalhista. Carismático, mais à esquerda e muito popular entre algumas alas do Labour, o ex-presidente da câmara de Manchester já deu vários sinais de que vai avançar nesse sentido. No discurso de vitória nas eleições em Makerfield, Andy Burnham declarou: “A principal coisa de que precisamos neste país atualmente é que as pessoas sintam uma sensação de esperança, de que há algo melhor no horizonte. Este resultado eleitoral abriu a possibilidade de que juntos possamos caminhar rumo a esse futuro”.

Entre os trabalhistas, existe uma divisão cada vez mais profunda entre os apoiantes de Keir Starmer e aqueles que exigem um novo rosto à frente do partido. Os críticos do primeiro-ministro estão a ver o Reform UK — o partido de direita radical liderado por Nigel Farage — a ganhar eleições locais e a dominar as sondagens, acusando Keir Starmer de não conseguir inverter essa tendência. Andy Burnham perfila-se para muitos como aquele que pode levar o Partido Trabalhista novamente a bom porto. Entre o mito do “Rei do Norte” e as acusações de ser um político que navega ao sabor do vento, com tendência para o populismo, quem é este homem que ameaça o primeiro-ministro britânico?

“Everton, Partido Trabalhista e Igreja Católica.” Andy Burnham: da família do Labour a líder de Manchester

Com ascendência irlandesa, Andy Burnham nasceu a 7 de janeiro de 1970 em Liverpool, numa família de classe média. Quando era criança, viu o norte de Inglaterra industrializado mudar radicalmente de feições quando Margaret Thatcher chegou ao poder. O pai era técnico de telecomunicações, enquanto a mãe era rececionista num consultório médico. Cresceu na pequena cidade de Culcheth, a cerca de 30 quilómetros de Manchester, e teve uma educação católica, frequentando escolas públicas religiosas.

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Os pais eram acérrimos apoiantes do Partido Trabalhista. Tendo crescido durante os mandatos da Dama de Ferro e num clima de forte oposição às políticas de desindustrialização no norte de Inglaterra da ex-primeira-ministra, Andy Burnham interessou-se cedo por política. Aos 14 anos, juntou-se à juventude do Partido Trabalhista, tendo confessado mais tarde — como lembra a BBC — que foi influenciado pela série de televisão Boys from the Blackstuff, que retratava os efeitos nefastos das políticas de Margaret Thatcher em Liverpool.

“Os meus pais falavam muito connosco [com ele e os dois irmãos] sobre as notícias e a política. Lembro-me de ir ao jardim zoológico após as eleições de 1979. Havia um autocolante no carro que dizia: ‘Não me culpe, eu votei no Labour’ e perguntei ao meu pai o que isso queria dizer. Lembro-me de ele dizer: ‘Bem, isto tem a ver com uma mulher chamada Maggie’, recordou, numa entrevista ao Guardian, em 2009.

A mãe do político era uma católica devota e fez o filho ter uma educação religiosa, numa Inglaterra maioritariamente anglicana. Em entrevista ao Telegraph, Andy Burnham admitiu que se tornou agnóstico quando tinha 20 anos, mas reconhece a importância do catolicismo na sua formação: “Em retrospetiva, vejo que a experiência de crescer naquele ambiente foi algo importante. Fui educado a acreditar nos ensinamentos sociais católicos — e isso foi importante para a minha formação. Apercebi-me de que o mais próximo do que me ensinaram estava nas políticas do Labour. Via uma ligação entre as duas coisas”.

O trabalhista nunca escondeu também que o futebol sempre foi uma das suas grandes paixões e apoia o Everton contra os rivais do Liverpool. A hierarquia na vida de Andy Burnham sempre foi clara. Na entrevista ao Guardian, descreveu quais eram as “três coisas” mais importantes na sua vida além da família: “O Everton FC, o Partido Trabalhista e a Igreja Católica — por essa ordem. A razão pela qual digo isto tem a ver com a identidade cultural”.

Também jogou críquete na escola secundária católica que frequentou e os amigos de infância recordaram à BBC a sua competitividade e amor pelo desporto. Aos 18 anos, Andy Burnham decidiu ir estudar Língua Inglesa para a Universidade de Cambridge, uma das instituições mais prestigiadas do Reino Unido. Juntamente com os irmãos, foi dos primeiros da sua família a frequentar o ensino superior. Mais tarde, lembrou que se sentiu um “impostor” e sublinhou que a adaptação ao ambiente elitista de Cambridge — enquanto jovem de classe média do norte de Inglaterra — foi “bastante difícil”.

Foi nos corredores da Universidade que conheceu a atual mulher, a neerlandesa Marie-France Van Heel, com quem tem três filhos. “Foi a melhor coisa que me aconteceu em Cambridge”, chegou a dizer o trabalhista. O início da relação acabou por ser escrutinado pela televisão britânica: quando já eram mais do que amigos, a jovem participou no famoso dating show Blind Date, chegando a ganhar uma viagem às Bahamas com outro concorrente para perceber se seria o homem da sua vida. Após este programa, Andy e Marie-France acabaram por ficar juntos até hoje.

Após terminar a Universidade, onde ganhou um gosto especial por música indie, Andy Burnham começou por trabalhar como jornalista, mas a política rapidamente se tornou a sua profissão a tempo inteiro. Foi assessor no gabinete da trabalhista Tessa Jowell, que integrava a equipa do ministro da Cultura, Chris Smith, entre 1997 e 2001, no primeiro Governo de Tony Blair.

Foi o início de uma longa carreira em Westminster. Em 2001, concorreu pelo círculo eleitoral de Leigh e conseguiu ser eleito deputado. Mais tarde, durante os governos de Tony Blair, a sua ascensão foi meteórica e acabou por ser escolhido como secretário de Estado, quatro anos depois de se ter estreado como deputado. Durante os anos em que os trabalhistas governaram o Reino Unido, Andy Burnham assumiu vários cargos no Governo. Em 2009, foi escolhido como ministro da Saúde e lidou com os efeitos do surto de gripe A.

Em 2010, os conservadores voltaram ao poder com David Cameron. Aos 40 anos, Burnham decidiu candidatar-se à liderança do Partido Trabalhista após a estrondosa derrota de Gordon Brown. Num total de cinco candidatos, ficou em quarto lugar. Com Ed Miliband à frente dos trabalhistas, foi ministro-sombra, mas nunca deixou de tentar cativar a base eleitoral para chegar ao topo do partido. Em 2015, enfrentou Jeremy Corbyn: voltou a perder, ficando em segundo lugar, com cerca de 19% dos votos.

Andy Burnham nunca escondeu que sonha liderar o Partido Trabalhista. Porém, começou a entender algo da política britânica. Ao Telegraph, apesar de ter admitido que cometeu “muitos erros” na campanha contra Jeremy Corbyn, notou o quão “centrado em Londres” o seu partido estava. Para alguém que vinha do norte de Inglaterra e que tinha ali grande parte da sua base eleitoral, o político sentiu sempre dificuldades em afirmar-se em Westminster.

Daí que, em 2017, as suas prioridades se tenham alterado. Westminster deixou de ser a sua ambição — e o foco passou a ser o poder local. Naquele ano, candidatou-se ao novo cargo, fruto de uma reforma administrativa levada a cabo pelos conservadores, de presidente da Área Metropolitana da região de Grande Manchester. Venceu com 63,4% dos votos.

Manchester. Como Burnham construiu uma imagem de marca

Um estilo de comunicação diferente. Em vez de fato e gravata, roupas mais casuais. Um estilo direto que pode ser confundido com populismo e promessas gigantes que nem sempre são cumpridas. O cargo em Manchester deu a Andy Burnham uma nova projeção nacional e foi o terreno ideal para colocar em prática a forma de o trabalhista fazer política. Recusando a imagem de tecnocrata aborrecido, o trabalhista tentou dar uma nova cor à política.

O início do mandato à frente da área metropolitana de Manchester foi duro. Dias após tomar posse, Andy Burnham teve de lidar com o ataque do autoproclamado Estado Islâmico na Manchester Arena, durante o concerto da cantora Ariana Grande, em que morreram 22 pessoas. Teve ainda de se coordenar com o presidente da Câmara Municipal de Manchester, Richard Leese, com quem nunca teve uma relação propriamente fácil, mesmo sendo os dois trabalhistas.

Um autêntico barão do partido e à frente dos desígnios do município desde 1996, o autarca deixou bem clara a sua oposição ao estilo comunicativo do colega durante a gestão de crise. “Tivemos os nossos altos e baixos”, assumiu Andy Burnham, citado pelo jornal Manchester Mill, acrescentando: “Somos diferentes no estilo. Houve um choque de culturas. Ele trazia rigor… O que não significa que eu não o tenha, mas sou um político mais instintivo”.

A relação tensa (que envolvia disputas de poder nos bastidores) com Richard Leese viria a intensificar a veia mais comunicativa e informal de Andy Burnham. Era necessário, defendia, combater a imagem estática e tecnocrática instalada na política — e que o autarca de Manchester corporizava. Juntamente com um estilo mais informal, o presidente da área metropolitana prometia um programa ambicioso para a cidade. A promessa de doar parte do salário aos sem-abrigo fez parte dessa estratégia.

"O problema de Westminster é que obriga as pessoas a dizerem certas coisas, a votar de determinada maneira... Eu já lá estive. Sei bem o que se sente quando temos de seguir a cartilha e não nos podemos desviar dela."
Andy Burnham sobre como encarava o cargo como presidente da área metropolitana de Manchester

Após as desilusões das derrotas na corrida no Partido Trabalhista, Andy Burnham disse ao Telegraph ter “recuperado o amor” pela política na área metropolitana. “Neste cargo, sou eu próprio. Não recebo ordens de ninguém. Digo as coisas como as vejo, em função do que é melhor para aqui. O problema de Westminster é que obriga as pessoas a dizerem certas coisas, a votar de determinada maneira… Eu já lá estive. Sei bem o que se sente quando temos de seguir a cartilha e não nos podemos desviar dela.”

Livre e com poucos contrapesos (sendo um dos poucos Richard Leese), Andy Burnham dinamizou a área metropolitana de Manchester. A sua medida mais popular? Trouxe de volta o serviço de autocarros para o domínio público, permitindo à região determinar as rotas e os preços dos transportes públicos, em vez de uma empresa privada — uma herança que vinha dos anos de Margaret Thatcher. Com um estilo energético e muito presente nas redes sociais, o trabalhista fez questão de inaugurar a Bee Network, conduzindo autocarros e fazendo sessões fotográficas. Até fez a tatuagem de uma abelha no braço.

A transferência do serviço de autocarros para a esfera pública demonstra a ideologia atual de Andy Burnham, assente em políticas sociais e num setor público mais forte. Apesar de historicamente estar associado à ala mais moderada do Labour de Tony Blair, Burnham adotou políticas mais à esquerda na liderança da área metropolitana de Manchester. Também é certo que governava para uma população urbana e com uma forte inclinação à esquerda, que ainda recorda com horror os tempos de Margaret Thatcher.

Em Westminster, Boris Johnson chegou ao cargo de primeiro-ministro em 2019 — um político com quem Andy Burnham sempre se incompatibilizou. O principal choque entre os dois aconteceu durante a pandemia de Covid-19. Sob a orientação do Governo britânico, em outubro de 2020, a área metropolitana de Manchester seria sujeita ao nível de restrições máximo, que obrigaria ao encerramento de praticamente toda a economia. Em troca, a região receberia 22 milhões de libras (cerca de 25 milhões de euros).

Enquanto dava uma conferência de imprensa, Andy Burnham foi informado em direto de que a área metropolitana de Manchester entraria mesmo na categoria máxima de restrições. Numa reação indignada, o trabalhista acusou o Governo de estar “a brincar com a vida das pessoas” e de tentar sufocar a região com um apoio financeiro unilateral de apenas 22 milhões de libras. “Isto não é forma de governar um país. É, francamente, vergonhoso”, atirou. O momento tornou-se viral — e o político converteu-se no rosto da insatisfação no norte de Inglaterra em relação às políticas de Downing Street durante a pandemia. Foi aí que nasceu o cognome “Rei do Norte”.

“Manchesterismo”. A nova filosofia política da “esquerda suave” de Andy Burnham

O braço de ferro com Downing Street fez o trabalhista ganhar capital político. E transformou-se no começo do “manchesterismo” — o termo que Andy Burnham utiliza para descrever um modelo de governação ideal, que pretende expandir ao resto do Reino Unido. O importante, defende, é colocar as pessoas e as regiões à frente dos partidos e dar mais atenção aos locais ignorados pelos políticos de Londres, algo que o trabalhista diz sempre ter sentido na pele.

"É a resposta moderna e funcional à elevada desigualdade e ao baixo crescimento que surgiu da iniciativa nos anos 80 de privatizar o poder económico e centralizar excessivamente o poder político. É uma abordagem de longo prazo para reconstruir a economia devastada pela desindustrialização da era Thatcher."
Andy Burnham sobre o "manchesterismo"

O “manchesterismo” preconiza também o “fim do neoliberalismo” e o controlo de setores-chave da economia. O Estado deve apostar no setor público, mas não deve hostilizar a iniciativa privada. Nas palavras de Andy Burnham, trata-se de um “socialismo amigo das empresas”. Em simultâneo, deve incentivar-se a reindustrialização do país, privilegiando as regiões mais desfavorecidas e descentralizando o poder o mais possível de Londres.

Numa lógica histórica, esta ideologia surge como a antítese das políticas de Margaret Thatcher, a antiga primeira-ministra por quem o trabalhista sempre sentiu animosidade. Em janeiro de 2025, Andy Burnham descreveu no Guardian o “manchesterismo” como uma “resposta moderna e funcional à elevada desigualdade e ao baixo crescimento que surgiram da iniciativa nos anos 80 de privatizar o poder económico e centralizar excessivamente o poder político” em Londres. “É uma abordagem de longo prazo para reconstruir a economia devastada pela desindustrialização da era Thatcher”, admitiu.

A área metropolitana que Andy Burnham governa tem sido uma espécie de tubo de ensaio para colocar em prática o “manchesterismo”. O trabalhista faz questão de divulgar os indicadores económicos positivos para provar que a sua estratégia funciona, revelando que é a região que mais cresce no Reino Unido. Entre os eleitores, esta nova forma de fazer política parece ter resultado: o trabalhista foi reeleito para o cargo em 2021 e em 2025, sempre com resultados acima dos 60%.

Contudo, há também quem critique o legado do “Rei do Norte”. Economicamente, como lembra um artigo da New Statesman, Manchester adotou uma política marcadamente neoliberal, com o investimento privado a assumir uma grande preponderância nas contas da área metropolitana. Mesmo que tenham existido iniciativas inovadoras no setor público, Jim O’Neill, antigo secretário de Estado e líder de uma empresa em Manchester, explica ao Politico que existe um clima favorável a grandes investimentos de países como os Emirados Árabes Unidos, Hong Kong e Estados Unidos.

A “esquerda suave” de Andy Burnham — que no Labour compete com o socialismo democrático mais à esquerda e a terceira via mais moderada — “não ressoa com o que está a acontecer em Manchester”, afirma Jim O’Neill. “Muito do crescimento vem do centro da cidade em Manchester”, concedeu também ao Politico Louise Haigh, aliada de Andy Burnham. “Mas conseguimos distribuí-lo por toda a área de Manchester”, acrescentou. “É por isso que conseguimos investir nos serviços de autocarros e em políticas para ajudar a diminuir a taxa de criminalidade”.

Nos serviços sociais, muitos habitantes da cidade reconhecem que houve avanços desde 2017. Contudo, as promessas exageradas de Andy Burnham, como erradicar a situação dos sem-abrigo até 2020, que prometeu no primeiro dia no cargo, não se tornaram realidade. Os detratores do trabalhista apontam precisamente essa falha, segundo o The Manchester Mill: “Ele gosta de fazer as coisas em grande, mas não gosta de fazer as perguntas desconfortáveis sobre como transformar grandes ideias em políticas duradouras”.

"Ele gosta de fazer as coisas em grande, mas não gosta de fazer as perguntas desconfortáveis sobre como transformar grandes ideias em políticas duradouras."
Um dos críticos de Andy Burnham

Para os críticos, existe alguma megalomania na forma de fazer política e isso tem muito a ver com a equipa que o acompanha. Andy Burnham usa um estilo otimista, assertivo e até elogioso para os seus colegas (longe do cinzentismo de muitos políticos), mas também consegue ser autoritário. No entanto, como aponta uma fonte conhecedora da entourage do trabalhista ao Manchester Mill, o recrutamento é mais baseado na lealdade. Também existe pouco espaço para críticas: “Não fazemos questões sobre nós próprios”.

A bolha em que o trabalhista está inserido é bastante confortável. E isso faz com que Andy Burnham não tenha quem o critique ou questione verdadeiramente. Ainda assim, é certo que o trabalhista é bastante carismático e consegue mostrar empatia com os problemas das pessoas. Com um discurso simples, sabe comunicar com eficácia — e isso é um trunfo de que usa e abusa.

O “aborrecido” Starmer versus o “people pleaser” Burnham

Nas eleições de julho de 2024, Keir Starmer apresentou-se como o rosto da estabilidade. O Reino Unido tinha tido quatro primeiros-ministros conservadores em cinco anos (Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss e Rishi Sunak), apesar das maiorias que os tories obtiveram nas urnas. O atual chefe de Governo prometia pacificar a situação política e acabar com o “caos” que dizia haver no Partido Conservador. Os eleitores deram-lhe um voto de confiança.

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A mensagem de estabilidade que os britânicos queriam ouvir em julho de 2024 condizia com a personalidade de Keir Starmer. É um político moderado e até tinha a fama de ser “aborrecido” — reputação de que nunca gostou. Dois anos depois, a sua moderação e contenção parecem não estar a dar frutos, estando a ser contestado dentro e fora do Partido Trabalhista.

Andy Burnham — o fã de música indie que já foi DJ nos tempos livres — representa uma mudança significativa em relação ao estilo tecnocrático, neutro e moderado de Keir Starmer. O “Rei do Norte” tem uma postura muito diferente da do atual primeiro-ministro: disruptiva, ambiciosa e carismática. E muitos dentro do Partido Trabalhista sentem que a governação precisa da energia que o líder da área metropolitana de Manchester poderia dar.

Ao New York Times, John McTernan, antigo conselheiro de Tony Blair e que conhece bem Andy Burnham, descreve-o como alguém “otimista, que parece gostar de ser político”. “Os líderes ou inspiram ou deprimem”, referiu, acrescentando que os últimos primeiros-ministros “parecem não gostar muito” do cargo, numa farpa a Starmer. O político de Manchester “gosta que as pessoas gostem dele”: “Um people pleaser é muito melhor do que alguém que odeia pessoas”, assinalou.

Dentro do Partido Trabalhista, o contraste é forte. De um lado, Keir Starmer: o londrino moderado e aborrecido. Do outro, Andy Burnham: o homem do norte de Inglaterra, “people pleaser” e muito ambicioso. Em termos ideológicos, os dois até podem não estar em mundos opostos, pois bebem da herança de Tony Blair e rejeitam uma governação mais à esquerda como a de Jeremy Corbyn. Mas, em termos pessoais, a diferença é evidente.

Em relação à popularidade de que gozam no Reino Unido, a disparidade é gritante. Um estudo do YouGov mostra que Andy Burnham é atualmente o político mais popular no país — até mais do que Nigel Farage. Keir Starmer está muito longe do trabalhista: em 21.º lugar. Em declarações à Associated Press, Tim Bale, professor de política na Queen Mary University of London, confirma que o político de Manchester é efetivamente popular. Mas essa fama, diz, “não quer dizer grande coisa” por agora.

Andy Burnham “parece ter um fator especial que encoraja as pessoas a pensar nele não como mais um político, mas como alguém que consegue comunicar com pessoas normais”, salienta Tim Bale, questionando, contudo, se o “Rei do Norte” também vai conseguir ser o “Rei do Sul, o Rei do Leste e o Rei do Oeste”.

Burnham como o próximo primeiro-ministro do Reino Unido?

A vitória obtida esta sexta-feira no círculo eleitoral de Makerfield abre-lhe a porta para desafiar diretamente a liderança de Keir Starmer. O recém-eleito deputado trabalhista precisa, a partir de agora, de obter a nomeação de pelo menos 80 parlamentares para forçar eleições internas contra o atual primeiro-ministro. Embora não tendo sido categórico sobre as suas intenções, o antigo líder de Manchester realçou, no discurso de vitória, que pode haver agora um “ponto de viragem”. “Todos sentem que o país não está onde deveria estar.”

Todos os sinais indicam que Andy Burnham vai avançar nas eleições internas, assim como Wes Streeting, o antigo ministro da Saúde que se demitiu do Governo de Keir Starmer. Entre os trabalhistas, segundo o Guardian, já surgem movimentações de políticos no sentido de cair nas boas graças do homem de Manchester para, caso este venha a formar Governo, garantirem um lugar privilegiado no Executivo.

Por sua vez, Keir Starmer assegurou que não se vai demitir. O primeiro-ministro deu os parabéns no X ao eventual rival, mas descartou totalmente sair do cargo. “Se houver uma disputa — só para ficar claro —, então, sim, vou candidatar-me. Vou apresentar a minha candidatura e, como já disse repetidamente, não vou fugir”, disse, lembrando que ainda não existe “nenhuma disputa pela liderança”. “Como já disse em muitas, muitas ocasiões, não acho que seja bom para o país mergulhar-nos no caos.”

"Se houver uma disputa — só para ficar claro —, então, sim, vou candidatar-me. Vou apresentar a minha candidatura e, como já disse repetidamente, não vou fugir. Como já disse em muitas, muitas ocasiões, não acho que seja bom para o país mergulhar-nos no caos."
Keir Starmer sobre possibilidade de se demitir

Estabilidade ou mudança de ciclo político? No Partido Trabalhista, pesam-se os prós e os contras da decisão. Andy Burnham nunca escondeu que Downing Street é uma ambição. No início de janeiro, Burnham já se tinha tentado candidatar a deputado, mas os órgãos internos do partido (incluindo Keir Starmer) bloquearam a sua pretensão. Com o triunfo eleitoral desta sexta-feira, o caminho está livre.

Andy Burnham quer expandir a sua filosofia do “manchesterismo” para todo o Reino Unido. Moldado pela educação católica e pelas cicatrizes das políticas de Margaret Thatcher no norte de Inglaterra, o “Rei do Norte” pretende inaugurar uma nova era no Partido Trabalhista: uma que não esteja tão presa à elite de Londres e que coloque as pessoas “em primeiro lugar”. O trabalhista nascido na classe média que se sentiu como um impostor em Cambridge quer dar um novo rumo ao país e deverá desafiar Keir Starmer. Mas será que, além da região onde nasceu e onde governou, as ideias políticas deste ambicioso político vão vingar?