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A imprevisibilidade da guerra pode afastar a China de Taiwan

Talvez a principal lição que a Ucrânia, o Irão e Taiwan nos oferecem seja uma lição de humildade estratégica.

Miguel Braz
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Durante os primeiros meses da invasão russa da Ucrânia, uma das interpretações mais difundidas nos círculos de política internacional era a de que o conflito poderia acelerar os planos chineses para Taiwan. A lógica parecia simples, se a Rússia conseguisse impor rapidamente a sua vontade sobre um vizinho mais fraco, demonstrando a incapacidade do Ocidente para responder de forma eficaz, Pequim poderia sentir-se encorajada a avançar mais cedo do que o esperado sobre a ilha, esperando a passividade dos EUA/Ocidente. A guerra na Ucrânia era frequentemente apresentada como um ensaio geral para uma futura crise no Estreito de Taiwan. Quatro anos depois, a realidade apresenta-se bastante mais complexa e, em muitos aspetos, diametralmente oposta às previsões iniciais.

A Rússia não alcançou uma vitória rápida. A Ucrânia não colapsou. O Estado ucraniano manteve-se funcional, as suas forças armadas adaptaram-se às exigências de uma guerra moderna e a sociedade demonstrou uma capacidade de resistência que poucos antecipavam em fevereiro de 2022. Mais importante ainda, o conflito expôs limitações militares, económicas e políticas de uma potência que muitos julgavam ser significativamente superiores àquelas que efetivamente possuía.

Paralelamente, os acontecimentos mais recentes no Médio Oriente reforçam uma tendência semelhante. Independentemente da avaliação que se faça dos resultados militares alcançados pelos Estados Unidos ou por Israel, o caso iraniano demonstra igualmente que Estados considerados mais frágeis ou vulneráveis podem conservar uma capacidade significativa de resistência, adaptação e sobrevivência perante pressões externas muito superiores. A assimetria de poder continua a existir, mas a sua tradução automática em resultados políticos está longe de ser garantida. Este fenómeno merece atenção, porque pode produzir efeitos indiretos sobre uma das questões geopolíticas mais importantes do século XXI, Taiwan.

Durante décadas, grande parte da literatura estratégica assentou na ideia de que a superioridade material constituía o principal fator explicativo dos resultados dos conflitos. População, dimensão económica, orçamento militar e capacidade industrial eram frequentemente utilizados como indicadores relativamente fiáveis para prever vencedores e vencidos. Embora estes fatores continuem a ser fundamentais, os conflitos recentes demonstram que a realidade é consideravelmente mais complexa. Penso que a equação dos conflitos internacionais mais simples será a de capacidade + vontade. A Ucrânia mostrou que um Estado mais pequeno, quando dispõe de preparação adequada, motivação política, apoio externo e capacidade de adaptação tecnológica, pode impor custos extremamente elevados a um adversário muito mais poderoso. O Irão, apesar das enormes dificuldades económicas e das limitações estruturais do seu sistema político, demonstrou igualmente uma capacidade de absorção de pressão que desafia previsões simplistas sobre colapsos rápidos ou transformações imediatas do regime.

Ao contrário da Ucrânia, Taiwan não enfrenta apenas uma fronteira terrestre extensa e vulnerável. Pelo contrário, beneficia de uma barreira natural que sempre desempenhou um papel central na sua estratégia de defesa: o mar. Qualquer tentativa da China exigiria uma das operações anfíbias mais complexas da história moderna. O transporte de centenas de milhares de soldados através do Estreito de Taiwan, a proteção das linhas de abastecimento, a obtenção de superioridade aérea e naval e a manutenção de uma ponte logística sustentável representam desafios extraordinários, mesmo para uma potência militar em rápida modernização. Além disso, Taiwan não é apenas uma ilha. É uma das economias tecnologicamente mais avançadas do mundo. A sua importância nas cadeias globais de semicondutores transforma qualquer conflito potencial num problema de dimensão internacional imediata. O impacto económico de uma guerra não se limitaria ao leste asiático, repercutir-se-ia em praticamente todos os setores da economia mundial (paralelismo com o Estreito de Ormuz?).

Existe ainda outro fator frequentemente subestimado, a preparação. Enquanto muitos países foram surpreendidos por ameaças emergentes nas últimas décadas, Taiwan vive sob a possibilidade de um conflito com a República Popular da China há mais de meio século. A sua estratégia de defesa, a organização das suas forças armadas, os seus investimentos tecnológicos e a própria mentalidade das suas elites políticas foram moldados por esta realidade. A Ucrânia beneficiou de alguns anos de preparação após 2014. O que pode significar a preparação para um cenário semelhante há várias gerações?

Naturalmente, a República Popular da China possui recursos incomparavelmente superiores aos de Taiwan. O seu peso económico, demográfico e militar é esmagador. No entanto, a experiência da Ucrânia demonstra que a superioridade de recursos não garante vitórias rápidas nem resultados políticos previsíveis. Pelo contrário, quanto maior for a ambição estratégica de uma operação militar, maiores tendem a ser os riscos associados ao fracasso. É precisamente aqui que surge uma das maiores ironias geopolíticas dos últimos anos. No início da guerra da Ucrânia, muitos analistas argumentavam que um eventual sucesso russo poderia encorajar Pequim. Hoje, é possível defender o contrário, ou seja, a prolongada resistência ucraniana poderá estar a tornar a liderança chinesa mais cautelosa.

As imagens de colunas blindadas destruídas, os enormes custos económicos das sanções, as dificuldades logísticas, a resistência nacional e os riscos de um conflito prolongado constituem lições que certamente não passaram despercebidas aos decisores chineses. A questão fundamental deixou de ser apenas se a China tem capacidade para iniciar uma invasão. A questão passou a ser se consegue garantir os resultados políticos desejados depois de a iniciar. A mesma reflexão pode aplicar-se, ainda que de forma diferente, ao caso iraniano. A sobrevivência de atores regionais sujeitos a intensa pressão externa, demonstra que a resiliência política e social continua a ser uma variável frequentemente subestimada nos cálculos estratégicos. As guerras modernas não são apenas disputas de capacidades militares, são também testes à resistência das sociedades, das instituições e das suas lideranças. Tudo isto constitui um importante lembrete sobre a natureza das relações internacionais.

Os acontecimentos dos últimos anos expuseram as limitações das análises excessivamente deterministas. Em 2022, muitos especialistas previam a rápida derrota da Ucrânia. Outros antecipavam mudanças políticas imediatas em Moscovo. Nenhuma dessas previsões se concretizou. Da mesma forma, sucessivas previsões sobre colapsos iminentes do regime iraniano têm sido repetidamente contrariadas pela realidade.

Isto não significa que a Rússia tenha perdido definitivamente ou que o Irão esteja imune a futuras transformações. Significa apenas que os sistemas políticos e os conflitos internacionais são mais complexos do que frequentemente admitimos, algo que ainda é piorado tendo em conta o imediatismo que vivemos constantemente nas análises na comunicação social e redes sociais. A história das relações internacionais está repleta de exemplos em que previsões aparentemente sólidas foram ultrapassadas pelos acontecimentos. O excesso de confiança analítica pode ser tão perigoso quanto a ausência de análise. Por essa razão, talvez a principal lição que a Ucrânia, o Irão e Taiwan nos oferecem seja uma lição de humildade estratégica. O poder continua a importar. A dimensão económica continua a importar. A capacidade militar continua a importar. Mas nenhum destes fatores opera de forma isolada nem produz resultados automáticos.

Num mundo cada vez mais complexo, a prudência intelectual torna-se uma virtude estratégica. As relações internacionais raramente seguem trajetórias lineares, muitas vezes, os acontecimentos evoluem de forma contrária às expectativas dominantes, produzindo resultados que poucos antecipavam. Se existe uma conclusão que pode ser retirada dos últimos quatro anos, é precisamente essa, a calma, a sensatez e a capacidade de questionar consensos aparentes continuam a ser ferramentas indispensáveis para compreender um sistema internacional onde a imprevisibilidade é, frequentemente, a única constante.