Há uma certa confiança admirável na forma como o Ocidente exporta as suas ideias.
Exportamos filmes. Exportamos música. Exportamos fast food. Exportamos democracia.
E, aparentemente, exportamos também felicidade.
Grande parte daquilo que hoje sabemos — ou julgamos saber — sobre a mente humana foi desenvolvido por um grupo relativamente pequeno de investigadores, em países relativamente ricos, que observavam pessoas relativamente parecidas consigo próprias.
E depois decidimos que as conclusões serviam para toda a gente.
É um bocadinho como estudar gatos de apartamento em Lisboa e concluir que já percebemos tudo sobre tigres na Índia.
Ou como ler Jane Austen e achar que compreendemos todos os casamentos do planeta.
A psicologia moderna adora o indivíduo.
Pergunta-nos o que sentimos. O que desejamos. O que nos impede de sermos felizes. Convida-nos a olhar para dentro, a descobrir quem somos, a encontrar a nossa verdade interior.
É uma abordagem perfeitamente razoável.
Desde que vivamos num romance ocidental.
Mas nem todas as culturas contam a mesma história.
Enquanto muitos de nós crescemos a ouvir que devemos encontrar o nosso caminho, a nossa voz e a nossa identidade, milhões de pessoas crescem com uma pergunta diferente:
“A quem pertenço?”
Não é exatamente a mesma coisa.
Enquanto nós passamos anos em busca do nosso “eu autêntico”, outras pessoas estão preocupadas em não desiludir a família, honrar tradições ou cumprir responsabilidades perante a comunidade.
E talvez seja por isso que algumas ideias psicológicas atravessem fronteiras com a elegância de um hipopótamo a fazer ballet.
A própria felicidade é um bom exemplo.
De tempos a tempos surge mais um estudo a explicar-nos o segredo da felicidade. Normalmente envolve relações profundas, laços sociais significativos e sentido de comunidade.
O que é excelente.
Mas conheço pessoas que têm uma família enorme e cujo maior sonho é passar um fim de semana sem receber uma única chamada telefónica.
E conheço outras que vivem praticamente sozinhas, falam mais com os livros da estante do que com seres humanos e parecem perfeitamente satisfeitas com o arranjo.
Aliás, se a literatura nos ensinou alguma coisa é que os seres humanos são especialistas em contrariar teorias.
Basta abrir Dostoiévski para perceber que as pessoas raramente fazem aquilo que as torna felizes.
E basta ler Tolstoi para descobrir que mesmo quem tem tudo consegue encontrar formas criativas de ser infeliz.
Talvez por isso me intrigue a confiança com que, por vezes, se anunciam fórmulas universais para uma espécie tão estranha como a nossa.
Sobretudo porque a psicologia trabalha frequentemente com correlações.
As pessoas felizes tendem a ter isto.
As pessoas infelizes tendem a ter aquilo.
O problema é que correlação é uma forma muito elegante de dizer:
“Estas duas coisas aparecem juntas. Quanto ao resto, estamos a tentar perceber.”
No fundo, talvez algumas das perguntas mais importantes da vida sejam demasiado grandes para caber num questionário de escolha múltipla.
Talvez por isso continuemos a procurar respostas não apenas nos laboratórios, mas também nos romances, na filosofia e nas histórias que contamos uns aos outros há milhares de anos.
Porque algumas questões não são problemas para resolver.
São mistérios para habitar.
E, sinceramente, suspeito que os mistérios têm uma esperança média de vida muito superior às fórmulas.