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Galileu e a Igreja

Não é de estranhar que um grande número de fiéis, opinião facultada por inquéritos, continue a pensar que Galileu morreu às mãos cruéis do Papa e da Inquisição.

Paulo Pinto
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À exceção de alguns filósofos e teólogos, o catolicismo sempre conviveu bem com a racionalidade e com a razão: ao longo de uma larga história, foram vários os argumentos esgrimidos a favor da existência do Deus cristão. Contudo, para lá de questões metafísicas e escatológicas, existe uma cronologia de eventos que, especialmente um católico, deve conhecer. A essa cronologia dá-se o nome de História, disciplina que, por razões que não abordaremos aqui em profundidade, faz corar muitas vezes o mais santo: o catolicismo apresenta-se, na cabeça de muitos crentes, como um exemplo de más práticas e de abusos de toda a ordem no mundo secular.

Assim, não é de estranhar que um grande número de fiéis, opinião facultada por inquéritos, continue a pensar que Galileu morreu às mãos cruéis do Papa e da Inquisição. O pisano, arauto e personificação do herói da verdade e da ciência perante a intolerância e o obscurantismo religiosos, é o símbolo máximo de uma ideia comummente propagada acerca da Igreja: que a ignorância e a malvadez proliferam no seu seio.

Para bem da História e da verdade convém esclarecer resumidamente alguns pontos: na sua obra Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo (1632), chamada pelo próprio Diálogo sobre as Marés, Galileu defendia muito particularmente e insistentemente que a Terra se movia sobre o seu eixo; tal contrariava a tradicional e consensualmente aceite teoria da imobilidade terrestre (sistema ptolemaico), baseada no pensamento grego; perante tal afirmação, as autoridades eclesiásticas pediram alguma prova que confirmasse tão drástica mudança concetual astronómica (que vinha no sentido do sistema copernicano); o astrónomo usou a ideia dessa rotação para justificar a mudança das marés (o que era ridículo); perante a recusa em se retratar, a obra foi colocada no Índice e o seu autor condenado a prisão perpétua num palácio florentino conhecido como Villa Gioiello (A Joia), devido ao seu luxo e beleza; Galileu morreria de causas naturais aos 77 anos.

A prova da rotação da Terra apenas seria conhecida em 1851 quando, sobre as instruções do físico Jean Bernard Léon Foucault, se colocou um pêndulo no teto do Panteão de Paris (o denominado Pêndulo de Foucault), de modo que a areia contida nesse pêndulo oscilasse e marcasse no chão a sua trajetória.

Durante o julgamento, diga-se, Galileu fez todos os possíveis para indispor o Tribunal do Santo Ofício. (O estereótipo do clérigo retrógrado que alimentou e alimenta tantos preconceitos contra a Igreja foi encarnado no livro (Diálogo sobre as Marés) pela personagem Simplício, numa clara alusão ao Papa de então, Urbano VIII). A condenação, aos olhos do Direito e da moral contemporâneos, é uma aberração, que não subsista qualquer dúvida em relação à nossa posição; todavia, a História deve ser lida em contexto, e, numa época em que quer académicos quer cientistas e quer autoridades pertenciam maioritariamente à Igreja, tal desenlace obedece a uma lógica, se não legítima, compreensível. Incompreensível é a permanente desconfiança e ignorância em relação às práticas da instituição católica que, conforme afirmou o escritor Graham Greene, se errou várias vezes ao longo de milénios, acertou na maioria delas.