Entre tantas palavras e adjetivos que podiam definir aqueles minutos seguintes ao apito final no encontro em Houston, desalento era aquele que melhor encaixaria. Os jogadores foram agradecer aos muitos adeptos de Portugal que estiveram no Texas apoiar a equipa na estreia no Mundial, como é habitual, mas pelo meio havia algumas conversas, olhares cabisbaixos, gestos com as mãos ou com o corpo de lances que podiam ser definidos de outra forma, o caminho que todos queriam fazer de outra forma até ao balneário antes de um regresso a Palm Beach mais discreto e silencioso do que era esperado. Na verdade, olhando historicamente para os primeiros jogos de Portugal em Mundiais, o empate diante da RD Congo mais não foi do que uma confirmação dos arranques titubeantes – à exceção do 3-2 ao Gana em 2022, houve o 3-3 com a Espanha em 2018, o 0-4 diante da Alemanha em 2014 e o 0-0 frente à Costa do Marfim em 2010. Muitas partidas falsas.
Ainda assim, e ao contrário do que aconteceu em ocasiões anteriores, este empate não foi apenas um empate mas sim um soar de alarmes para o que se segue. Um ponto é sempre um ponto mas terminar o jogo apenas com um remate enquadrado com a baliza é curto. Portugal teve muita bola, mesmo que muitas vezes não soubesse o que fazer com ela da melhor forma, mas criou poucas oportunidades. Até em termos individuais, à exceção de João Neves, que marcou e foi eleito o MVP do jogo, não houve propriamente grandes destaques. No entanto, e após o final da partida, houve sobretudo um “alvo” de todas as críticas: Cristiano Ronaldo.
“A equipa precisa de marcar, não és tu que precisas de marcar. Aqui, por exemplo, Portugal vai com a bola, Conceição vai receber. O Cristiano Ronaldo já esteve nesta situação várias vezes. Se fizeres aquela corrida,obrigas o defesa a tomar uma decisão para fechar essa zona. Mas porque ele quer marcar, ele vai para a trajetória do Bruno Fernandes. Se ele fosse para aquela pequena zona, o defesa teria de o acompanhar, de o seguir, e depois seria um golo fácil para o Bruno Fernandes. Porque ele quer marcar, ele vai para o caminho do passe para trás, vês os dois jogadores e fica fácil para a defesa cortar. Essa é a minha questão: a equipa precisa de marcar, não tu. Viram a reação do Bruno Fernandes lá atrás, do género ‘Deixa a bola passar, faz a corrida, cria espaço para eu poder chutar’. Não aconteceu”, apontou Thierry Henry, antigo avançado francês que faz parte dos muitos painéis de comentários, a propósito de um lance de perigo na segunda parte (68′).
Foi assim nos painéis televisivos, foi assim em muitas publicações internacionais. O título do Indepedent que tinha a frase “10 homens e uma estátua: Portugal está a sacrificar mais um Mundial pelo ego de Ronaldo” foi o exemplo paradigmático disso mesmo entre várias críticas. “Durante pouco mais de uma hora, Ronaldo não fez nada. Não é sequer que estivesse a jogar mal, mas não estava a fazer absolutamente nada. Era um vazio”, escreveu o The Athletic. “Uma estreia de partir o coração”, apontou a Marca. “Portugal desilude, CR7 ainda mais”, disse a Gazzetta dello Sport. Por cá, o tom foi diferente, com as responsabilidades a serem mais divididas por todos os jogadores e pelo próprio selecionador – mas apontando também ao número 7, que teve o encontro completo de 90 minutos com menos toques na bola pela Seleção Nacional (apenas 25).
“Não faltou nada. O futebol é isto. Portugal poderia ter ganho mas também perdido”, comentou o capitão nacional após o encontro. “Não era o arranque que queríamos, mas isto está longe de ter acabado. Cabeça levantada e foco no próximo jogo”, escreveu depois o avançado no Instagram oficial. Todos querem fazer um reset ao que se passou frente à RD Congo mas foi também nas redes sociais que as horas seguintes ao empate não foram esquecidas, neste caso para fazer a defesa de Cristiano Ronaldo e de todo o seu legado.
Esta quinta-feira, dia de recuperação para os titulares frente ao conjunto africano, as contas nas redes sociais de vários jogadores da Seleção foram “invadidas” por comentários que pediam mais respeito (e mais bola) por Cristiano Ronaldo, algo que foi possível ver em elementos como Vitinha, Bruno Fernandes, Pedro Neto ou João Neves. No caso do médio do PSG, marcador do único golo nacional diante da RD Congo, é possível que a média de 1.000 ou 2.000 comentários por publicação passou na última para quase 115.000 e a contar. De acrescentar que a larga maioria desses mesmos comentários foram em inglês ou em árabe.
Só esta tarde, ainda manhã em Palm Beach, voltará a haver um elemento da comitiva nacional a falar em termos públicos, numa conferência de imprensa marcada para as 14h15 em Portugal (9h15 em Miami). De seguida, a Seleção fará mais um treino de preparação para o encontro da segunda jornada do grupo K do Mundial, de novo em Houston, frente ao Uzbequistão, primeira formação da Ásia Central a qualificar-se para um Campeonato do Mundo que é treinada pelo italiano Fabio Cannavaro e que perdeu com a Colômbia na estreia por 3-1, numa partida realizada no Estádio Azteca, na Cidade do México.
Tudo aponta para que Roberto Martínez possa fazer alterações em relação às opções iniciais, sendo mesmo previsível que possa mexer em todos os setores da equipa. Rúben Dias, que está integrado com os restantes companheiros, vai voltar às opções iniciais com Renato Veiga ou Gonçalo Inácio, podendo também haver mudanças nos corredores laterais, dos defesas aos alas. Antes, Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, esteve no treino de recuperação e deixou uma palavra de alento à Seleção Nacional.