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(A) :: Política sem Paixão

Política sem Paixão

Ver a política como um crítico de arte não é boa ideia; e o resultado é sempre ver a política como má arte.  

Miguel Tamen
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Há muitas maneiras de descrever a actividade política, mas o mais comum é fazê-lo com a ajuda de termos literários e termos da grande arte.   Empregamos palavras como ‘tragédia,’ ‘comédia,’ ‘farsa,’ ‘romance,’ ‘epopeia,’ e outras assim.   As acções políticas podem para os adeptos desta maneira de ver as coisas ser iguais a formas de arte, parecidos com ficções, ou com versões melhoradas de tragédias, e podem também suscitar as reacções emocionais que essas grandes formas de arte despertam:  horror, piedade, troça e entusiasmo.

Quando se descreve a política sem a ajuda de termos artísticos, a noção de que a nossa reacção à política é emocional desaparece.   E isto acontece porque a nossa reacção à arte é quase sempre emocional.  É por isso que a maior parte das pessoas que falam da política adoptam os processos da crítica de arte.  Admiram os padrões de beleza nas acções dos agentes (como se fossem dançarinos), vibram com frutos dos seus erros antigos (como se fossem personagens), com chegadas a sítios novos (como se fossem heróis), e com impropriedades nos usos da linguagem (como se fossem escritores).

Ver a política como um crítico de arte não é boa ideia; e o resultado é sempre ver a política como má arte.   É preferível começar pela vontade de os políticos agradarem aos outros, a que por vezes chamam também arte.    Podem fazê-lo por cálculo, mas isso não importa.  O que importa é que, mesmo quando não conseguem fazer o que pretendem agradam sempre aos outros, por exemplo ao provocar riso e cólera; e poucas coisas são tão agradáveis ao público como o fim catastrófico de uma carreira política.  Se contudo alguém agrada sempre, então não age por arte.

Existem não obstante nas actividades políticas dois lados separados, embora protagonizados pelas mesmas pessoas.  Em público os agentes políticos cultivam diligentemente formas de arte, e principalmente a oratória.   Mas em ocasiões menos artísticas não pensam em agradar: admitem com brutalidade jovial uns aos outros que não percebem bem o que se está a passar, ensaiam soluções aceitáveis para questões que não dominam completamente, e aceitam com frequência males menores.  Os momentos de maior coragem e imaginação de um político ocorrem nessas ocasiões.

A ideia de que a política é uma forma de arte e uma maneira de suscitar emoções, ou de que pelo menos é um modo de causar efeitos noutras pessoas, é um erro antigo.  Leva os próprios políticos a dedicar demasiado tempo e energia aos outros e a meter-se nas suas vidas.  O elemento generoso e comovente na política não é esse.   É o que se revela quando representantes eleitos decidem a partir da ignorância, e deliberam na direcção do que lhes parece possível fazer num dado momento.  Esse elemento comovente, porém, não comove ninguém.   Como não é arte, não há público para ele; e isso é um problema político.