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Portugal pode ter défice nas contas públicas? "Mercados até podem achar isso positivo", afirma economista-chefe da Allianz Global Investors

Economista-chefe da Allianz GI destaca registo recente de Portugal: equilíbrio orçamental que contrasta com outros países. BCE pode subir juros em setembro mesmo com descida (limitada) do petróleo.

Edgar Caetano
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Os investidores na dívida pública portuguesa e, em geral, na economia portuguesa não irão ficar alarmados caso Portugal regresse aos défices orçamentais. Christian Schulz, economista-chefe da Allianz Global Investors, argumenta que, embora convenha não “testar isso em demasia“, o historial recente do país no equilíbrio das contas públicas e da redução da dívida faz com que os investidores não devam ficar preocupados – sobretudo quando, por contraste, outros países europeus têm registos orçamentais bem mais alarmantes.

“O Estado português pode gastar mais para proteger a economia dos efeitos dos altos preços do petróleo e, por exemplo, para investir em melhores infraestruturas. Se esses gastos forem produtivos – e acredito que possam ser – isso até aumenta a atratividade de Portugal como local para investir“, afirma o economista que acompanhou de perto Portugal e outros países mais pressionados aquando da crise das dívidas soberanas, na década passada, então ao serviço de outra instituição financeira.

Hoje, Christian Schulz é economista-chefe da Allianz Global Investors, uma gestora de fundos detida pela seguradora alemã Allianz que gere cerca de 600 mil milhões de euros dos seus clientes. A gestora fez na última semana uma conferência anual em Frankfurt, onde estiveram presentes jornalistas de vários países, e o evento coincidiu com os dias em que Donald Trump assinou o “memorando de entendimento” que dá 60 dias para negociar a paz com o Irão.

Apesar das notícias positivas na frente geopolítica, “ainda temos muitos pontos de interrogação” acerca do que se pode passar nos próximos meses, avisa Christian Schulz. Os riscos, do ponto de vista dos mercados, podem ter sido reduzidos – mas não foram eliminados. E, por isso, os preços do petróleo vão continuar mais elevados do que estavam antes da guerra, estimulando a inflação e levando o BCE a subir os juros, mais uma vez.

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Paz no Médio Oriente? “Ainda temos muitos pontos de interrogação”

No início desta semana, após as primeiras notícias de um possível acordo no Médio Oriente, publicou uma nota de análise onde se mostrava bastante cauteloso, quase cético. Está um pouco mais convencido agora?
Bem, os primeiros obstáculos que eu apontava foram ultrapassados, por sinal. O acordo foi assinado, de facto. Os navios estão a atravessar [o Estreito de Ormuz]. No início da semana havia bastante medo de que Israel pudesse bombardear o Líbano, por exemplo. Isso parece ter sido resolvido. Mas, ao mesmo tempo, ainda temos muitos pontos de interrogação.

Tais como?
Para começar, estamos a falar de um acordo de 60 dias. Ninguém pode ter muitas certezas sobre o que irá acontecer após os 60 dias. Ainda não sabemos se as condições deste acordo serão alcançáveis e se poderemos ter um cessar-fogo sustentável depois. Além disso, há sempre o risco de algum dos outros intervenientes — o Hezbollah, o Hamas, Israel, os houthis… — voltar a desencadear um efeito dominó. E, por outro lado, todas estas cedências que os americanos fizeram ao Irão, será que isto vai ser aprovado, politicamente, nos EUA?

https://observador.pt/2026/06/17/divulgados-os-14-pontos-que-constam-no-memorando-de-entendimento-entre-o-irao-e-os-eua/

Refere-se ao fundo de reconstrução de 300 mil milhões?
De onde virá esse dinheiro? Penso que essa é a maior questão de todas neste momento. De onde virão os 300 mil milhões? E se ninguém lhes der esse dinheiro, o que fará o Irão? Eles continuam a ter o pé no pescoço da economia global, a qualquer momento podem fechar o estreito novamente. Acho que o mercado está correto em não remover totalmente o prémio de risco dos preços do petróleo.

Os preços baixaram mas continuam mais altos do que antes do conflito…
Sim, também porque há um reabastecimento de stocks que tem de ser feito. Grande parte das razões pelas quais o preço do petróleo não disparou ainda mais, nestes meses, é que vários países do mundo libertaram reservas de emergência. Essas reservas terão, agora, de ser repostas, o que cria alguma procura adicional e deverá manter os preços do petróleo mais altos durante algum tempo.

"Irão continua a ter o pé no pescoço da economia global, a qualquer momento podem fechar o estreito novamente. Acho que o mercado está correto em não remover totalmente o prémio de risco dos preços do petróleo."

Portanto, voltando ao início, mantém algum ceticismo…
Sim, julgo que não podemos achar que isto é uma carte blanche e que ficámos num ambiente perfeito com crescimento a subir, inflação a descer, cortes de taxas de juro e por aí fora. É, ao invés, um ambiente onde alguns riscos negativos foram agora removidos – isso é bom – mas ainda temos um crescimento frágil e, certamente, teremos inflação acima do objetivo durante bastante tempo, o que é um dado muito relevante.

“Com aquilo que sei hoje, diria que o BCE deve subir os juros em setembro”

Porque acha que o BCE vai subir as taxas de juro mais uma vez, em setembro? Se o fluxo de notícias em torno da guerra continuar a ser positivo e se o impacto na inflação estiver a atenuar-se, porquê subir os juros?
Penso que o BCE não irá subir os juros em julho, fiquei com essa impressão depois da última conferência de imprensa de Lagarde. E não faria muito sentido fazer isso porque duas subidas consecutivas dariam a impressão de se estar a correr atrás do prejuízo, a corrigir algo que se devia ter feito mais cedo. O BCE está muito convencido de que, desta vez, atuou a tempo mas, tendo em conta que as memórias do surto inflacionista [de 2021/2022] são muito recentes, foi preciso responder. Não existe um grande risco de recessão, por isso o BCE pode subir os juros para garantir que o ritmo de subida dos preços que temos agora, que está acima do objetivo, é apenas transitório.

Como acredita que irá evoluir a inflação nos próximos meses?
É provável que a inflação vá, agora, descer um pouco face aos níveis muito elevados que tínhamos, mas não vai voltar totalmente ao ponto onde estávamos no início do ano, antes da guerra no Irão. Na Europa, no início do ano, tínhamos a inflação abaixo dos 2%. Agora, temos a inflação acima de 3% e provavelmente iremos aterrar por volta dos 2,5%, em média, durante o resto do ano, o que ainda é demasiado alto…

Por isso diz que, em setembro, haverá nova subida?
Os mercados estão a contar com isso. Neste momento, não me parece haver um sentido de urgência, podem decidir só em setembro. Com aquilo que sei hoje, eu esperaria uma nova subida em setembro, assumindo que a inflação vai continuar acima do objetivo ao longo do verão – que é o que penso que irá acontecer.

“Europa não deve comprometer procura interna para estimular exportações”

Há três ou quatro anos, muitos economistas previram que a Europa seria uma das maiores vítimas económicas da crise energética e da guerra na Ucrânia. Porém, a guerra continua e disse na sua apresentação que a Europa tem sido mais resiliente do que alguns esperavam. Porquê?
Há muitos fatores que explicam isso. Mas se tivesse de apontar apenas um seria o mercado de trabalho, que tem sido incrivelmente resiliente. Temos níveis de emprego recorde na Europa apesar de termos tido vários anos de crise, uma crise a seguir à outra. Se alguém tivesse passado os últimos 10 anos em Marte e lesse as manchetes dos jornais dos últimos cinco anos, sobre a economia, e lhe perguntassem “onde pensa que está a taxa de desemprego?” duvido que dissesse que a taxa estaria em apenas 5% ou 6%… Temos taxas de desemprego extremamente baixas nos países que há 10 anos estavam em crise, como os do sul da Europa. Desemprego de um dígito em Espanha, em Portugal também quase não existe desemprego. Na Grécia, a mesma coisa. Até em Itália. Tivemos algum enfraquecimento na Europa central mas, na Alemanha, ainda estamos a falar de [taxa de] desemprego de 4%… Esta resiliência dá às famílias a confiança para acomodar, nas suas finanças, o impacto dos choques que temos tido. No fundo, as pessoas acreditam que irão manter o emprego e, se não o mantiverem, encontrarão outro emprego com facilidade.

O que é que criou condições para esta resiliência do mercado de trabalho?
Isto é o resultado das reformas que vimos na Alemanha há 20 anos e no sul da Europa há 10 anos. Estas reformas estruturais fizeram baixar as taxas de desemprego estrutural de forma dramática, gerando uma âncora de estabilidade para enfrentar estas crises. E parece-me que a Europa tem de confiar cada vez mais na sua própria procura, nos seus próprios recursos. Temos de garantir que não comprometemos a procura interna na esperança de gerarmos mais procura externa, isto é, exportações. Ser competitivo nos mercados externos é importante mas não me parece correto que isso seja a melhor via, neste momento, se implicar descurar a procura interna.

https://observador.pt/2026/06/17/portugal-devia-ser-modelo-para-paises-como-alemanha-e-franca-reformarem-as-suas-economias-defende-gestora-de-fundos-da-allianz/

A propósito dessas reformas, nesta conferência ouvimos um colega seu, Gregor Hirt, responsável pela estratégia de investimento multiativos, dizer que países como Alemanha e França deviam reformar as suas economias à semelhança daquilo que foi feito por Portugal e outros, na década passada…
Não creio que seja da mesma forma. A austeridade [que norteou os programas de ajustamento em Portugal e Grécia] pode ser uma componente importante porque reduz o peso do Estado na economia, liberta mais partes da economia para movimentos de mercado. Creio que isso foi fundamental em países como Portugal, para que houvesse mais investimento. Também em outros países, como Itália e Espanha, tivemos reformas do mercado de trabalho, as indemnizações por despedimento foram reduzidas… Isso foi fundamental para esses países. Alemanha ou França também podem fazer coisas nesse sentido, mas penso que enveredar pela austeridade e restringir a procura interna para reduzir custos e crescer só através das exportações… Não creio que essa seja a abordagem correta.

"As reformas dão frutos... Isso aconteceu na Alemanha há 20 anos, aconteceu no sul da Europa há 10 anos... Estamos a ver um ímpeto para fazer novamente reformas na Alemanha e, por isso, estou seguro de que a Alemanha terá outra "década dourada" em algum momento no futuro."

Qual seria, então, a sua abordagem? Já referiu a proteção da procura interna… E mais?
Acho que a prioridade deveria ser, mais, pensarmos em competitividade da forma como é descrita no Relatório Draghi. Aumentar a produtividade, investir em infraestruturas, investir no capital humano, universidades, todas estas coisas têm de melhorar. Incentivar a mobilização de capital privado, definir os incentivos certos, completar a união de mercados de capitais – a união de poupanças e investimentos, como lhe chamam agora… Muito disto terá de acontecer ao nível europeu mas, claro, também ao nível nacional. Mas o Gregor Hirt tem razão, as reformas dão frutos… Isso aconteceu na Alemanha há 20 anos, aconteceu no sul da Europa há 10 anos… Estamos a ver um ímpeto para fazer novamente reformas na Alemanha e, por isso, estou seguro de que a Alemanha terá outra “década dourada” em algum momento no futuro.

Défice nas contas públicas? “Mercados até podem achar isso positivo”

Referiu o sul da Europa, as reformas que foram feitas e o desempenho das economias nos anos desde a crise. Portugal, à semelhança de outros, beneficiou de várias subidas de rating por parte das agências de notação de risco, tornando mais fácil e barato o financiamento público. Está confiante sobre a sustentabilidade estrutural da economia ou receia que possa assentar em fatores apenas conjunturais?
Bem, pelo que li, o rácio da dívida de Portugal vai cair abaixo do da Finlândia este ano. Acho essa uma estatística incrível porque, como dizia há pouco, recuámos 10 anos e isso parecia ser algo impossível. Curiosamente, a Finlândia ainda tem um rating muito superior ao de Portugal, o que poderá indicar que esta tendência de melhoria das notações tem ainda espaço para continuar. Portugal é um país que reduz o seu rácio da dívida em quatro ou cinco pontos percentuais por ano, em média, enquanto o da Finlândia sobe na mesma medida, praticamente. E Portugal está a apresentar excedentes orçamentais todos os anos, ao passo que a Finlândia está a quebrar as regras de Maastricht todos os anos. E não é apenas a Finlândia, é também a Áustria. Acho que a Áustria é o próximo país que Portugal vai ultrapassar, no que à perceção de risco diz respeito.

Mas considera a situação económica portuguesa estruturalmente sustentável?
O que temos hoje é o resultado direto das mudanças que foram feitas durante a crise da dívida soberana. Essas reformas deram – e estão a dar – frutos. Claro que os fundos comunitários, os fundos de recuperação [PRR] estão a ajudar, porque trazem dinheiro e porque há condicionalidade associada a esses programas, evitando que se gere uma complacência, um congelamento das reformas ou, até, a reversão das reformas já feitas. No caso específico de Portugal, a estabilidade política sempre ajudou…

Houve várias eleições antecipadas nos últimos anos…
Sim, mas eu lembro-me de que, quando [em 2015] os socialistas substituíram os conservadores, houve muito medo de que tudo fosse revertido. Mas não foi o caso. Não fizeram muito mais, mas mantiveram as reformas que tinham sido feitas, em traços gerais. Fizeram algumas mudanças para tornar as reformas um pouco mais aceitáveis politicamente mas ficou claro que, em termos orçamentais, mantiveram um conservadorismo que muitos não previram. Agora voltaram a estar os conservadores no Governo… Parece estar profundamente enraizado na política em Portugal que baixar a dívida é uma espécie de prioridade nacional. E isso não acontece apenas em Portugal, acho que é em grande parte do sul da Europa.

Portugal tem vindo a reduzir o rácio dívida/PIB, como acabou de mencionar, mas esse rácio ainda é um pouco alto, acima de 85% neste momento. E, agora, existe a perspetiva de regressar a um défice orçamental, embora pequeno. É relevante para os investidores que Portugal tenha um saldo nulo ou um défice de 0,2% ou 0,4%, considerando que alguns países europeus estão a portar-se muito pior nesse aspeto?
Não, não me parece… Quero dizer, a Europa está a enfrentar questões – cíclicas mas, também, estruturais – que exigem resposta. O Relatório Draghi identificou 750 mil milhões de investimento extra, por ano, que precisa de ser feito para tornar a Europa competitiva. Esse dinheiro pode vir da Europa, pode vir dos governos, mas também precisa de vir do setor privado. O Estado português pode gastar mais para proteger a economia dos efeitos dos altos preços do petróleo e, por exemplo, para investir em melhores infraestruturas. Se esses gastos forem produtivos – e acredito que podem ser – isso até aumenta a atratividade de Portugal como local para investir.

Pode explicar melhor o que quer dizer?
Repare que, no ano passado, quando a Alemanha anunciou o seu pacote de investimentos, embora estivéssemos a falar de mais endividamento, o euro fortaleceu-se, ou seja, o sentimento em torno da Europa melhorou. Mas, em contraste, três anos antes, em 2022, o governo britânico de Liz Truss anunciou uma expansão orçamental massiva e quase desencadeou uma crise financeira e uma intervenção do FMI. Isso mostra que o contexto importa muito. Quando se tem um registo histórico recente sólido, tem-se a credibilidade de que a expansão orçamental é, na verdade, vista como algo positivo pelos mercados. Mas é preciso ter essa base – e Portugal, acho que a tem. Eu não testaria isso em demasia mas, até certo ponto, julgo que sim.

"Quando se tem um registo histórico recente sólido, tem-se a credibilidade de que a expansão orçamental é, na verdade, vista como algo positivo pelos mercados. Mas é preciso ter essa base – e Portugal, acho que a tem. Eu não testaria isso em demasia mas, até certo ponto, julgo que sim."

Falando de reformas, o parlamento tem vindo a discutir [e chumbou na generalidade, na sexta-feira, já depois desta entrevista] um pacote de alterações da lei laboral em Portugal. Como economista-chefe de uma grande gestora de fundos, provavelmente não acompanha em detalhe este tema nacional, mas existe a perceção externa de que o mercado de trabalho português é demasiado rígido ou inflexível?
A minha impressão é que o mercado de trabalho português já é, pelos padrões europeus, relativamente flexível. Mas não tenho um conhecimento aprofundado sobre isso. A minha perceção é que… Quer dizer, não é uma perceção, é um facto: muitos dos países do sul da Europa têm problemas demográficos graves. Mas Espanha e Portugal têm tido a vantagem de ter uma imigração muito grande, que compensa isso até certo ponto. E é uma imigração que, em contraste com aquela que estamos a ver em grande parte da Europa central, parece ser relativamente fácil de integrar porque vem de países onde, em alguns casos, as pessoas já falam a língua, têm algumas ligações culturais, onde as pessoas quando chegam já encontram uma rede de pessoas que vieram destes países antes… É mais fácil, por isso, integrarem-se no mercado de trabalho. Isso é algo que ajuda o crescimento nestes países, embora não ajude tanto a produtividade, porque o rendimento por trabalhador pode crescer mais devagar. Isso faz com que seja importante tomar medidas para dinamizar o crescimento da produtividade, na formação, no aumento do capital investido na economia, etc.

https://observador.pt/2026/06/18/ainda-nao-estamos-numa-bolha-na-inteligencia-artificial-mas-estamos-mais-perto-disso-do-que-estavamos-diz-especialista-da-allianz-gi/

*O jornalista viajou a Frankfurt a convite da Allianz Global Investors