Para compreender a origem e o crescimento do soccer nos Estados Unidos, é obrigatório passar pelo nome de Francisco Marcos. Nascido em 1945, natural de Vale Covo, no Bombarral, este imigrante que chegou a Nova Iorque pouco antes de completar 16 anos transformou uma paixão pelo desporto numa carreira de quase seis décadas. Francisco não foi apenas um espectador da evolução do soccer; ele foi um dos seus arquitetos. Jogou, treinou, criou clubes, fundou ligas, foi agente, embaixador, dirigente. Trata o futebol por tu. Fundou a United Soccer Leagues (USL), criou a revista oficial da Federação norte-americana de futebol – a Soccer Monthly – e desempenhou um papel crucial na transição para o futebol profissional. O legado de Francisco Marcos levou-o em 2024 ao National Soccer Hall of Fame, o patamar mais alto de reconhecimento do futebol norte-americano.
Francisco Marcos é também um adepto fervoroso. Divide a lealdade entre o Sporting e a Seleção Nacional. No currículo conta com um feito raríssimo: a presença em 15 Mundiais de futebol consecutivos, uma jornada que começou em 1970 com uma viagem de carro desde Nova Iorque até à Cidade do México. Hoje, continua a acompanhar Portugal em todos os palcos e analisa o Mundial 2026 com o rigor de quem viu o desporto passar de uma curiosidade amadora a um negócio de milhares de milhões de dólares.
Nesta entrevista ao Observador, no Hotel Cambria, em Houston, Francisco Marcos analisa o empate entre Portugal e a RD Congo, partilha reflexões sobre a atualidade da equipa portuguesa, fala do trabalho de Roberto Martínez e do futuro de Cristiano Ronaldo — que devia ter saído ao intervalo do jogo com a RD Congo, diz, mas que coloca no mesmo patamar histórico de Vasco da Gama e Eusébio. Esta é uma conversa que atravessa gerações, desde a partida do Bombarral nos anos 60 rumo ao “sonho americano” construído em torno do futebol.
“Vivi no Village, no bairro mais típico de Nova Iorque. Fui exposto a muita coisa, boa e má”
Francisco Marcos, um hall of famer do soccer. Uma vida dedicada ao futebol mais de seis décadas. Mas tudo começou como uma vida de imigrante. Explique-nos como é que começou esta aventura nos Estados Unidos da América?
Um típico imigrante. Vim para aqui antes de fazer 16 anos, dois anos depois de o meu pai ter emigrado e consequentemente depois do meu pai vir, deu-me opção a mim de ficar em Portugal na escola, uma vez que estava no quinto ano, ou vir para os Estados Unidos. Não houve muito problema em decidir a decisão naquele tempo, não é? Entre ficar com os meus avós ou ficar internado num colégio em Tomar. A escolha foi óbvia e vim para aqui.
Nasceu no Bombarral, certo?
Sim, sim. No concelho, nasci numa aldeia ali, em Vale Covo. E lá vivi até aos 16 anos.
Como é que foi crescer nesse época no Bombarral? Anos 50, 60… Como era a vida nessa altura e porque é que os seus pais emigraram inicialmente?
O meu pai, como muitos imigrantes, emigrou para tornar a sua vida melhor. Não éramos pobres, não posso dizer isso. O meu pai era lavrador, tinha vinhas, tinha gado, mas tinha feito alguns investimentos em terrenos e queria pagar esses terrenos o mais rapidamente possível para estar completamente livre. Então, em vez de ser o típico imigrante que vem para os Estados Unidos e fica toda a vida, o meu pai só esteve cá 13 anos, que não é o normal num imigrante. Dois anos depois de ele vir, vim eu. O meu pai acabou por voltar a Portugal e eu obviamente fiquei nos EUA assim que me formei na universidade. A minha vida, eu sabia que ia ser nos Estados Unidos.
Quando veio para os Estados Unidos, veio ainda para estudar?
Sim, sim. A opção era só essa. Vim em dezembro de 1961. Em janeiro, entrei logo no segundo semestre do liceu em Nova Iorque, na cidade de Nova Iorque. Vivi no Village, no bairro mais típico de Nova Iorque, naquela altura todos os grandes artistas atuavam ali. Fui exposto a muita coisa, boa e má. Felizmente consegui manter-me no outro lado, do lado bom.
Como por exemplo? Está a falar do quê?
Estamos a falar do Greenwich Village em Nova Iorque. É o centro da boémia americana. Pelo menos era nos anos 60. Todos os grandes artistas da música que podíamos conhecer desse tempo atuavam ali nos cafés do Greenwich Village. A mesma coisa que em Paris no Left Bank [margem esquerda do Sena], por exemplo. Portanto aprendi muito, vi muita coisa, mas consegui manter-me são durante todo esse tempo. Esive lá dois anos, acabei o liceu e depois disso já sabia — já tinha o suficiente de Nova Iorque para saber que não queria ficar em Nova Iorque. Não era a minha praia.
Houve um choque quando saiu de Portugal? Do Bombarral para Nova Iorque nos anos 60…
Claro. Por exemplo, eu com 15 anos tinha feito o segundo ano do liceu em Leiria, capital do distrito. A primeira e única vez que tinha ido a Lisboa foi fazer o exame de admissão ao liceu depois da quarta classe. Portanto o primeiro avião que eu vi ao vivo foi aquele em que eu voei de Lisboa para Nova Iorque, um clipper da Pan Am. Tudo isso foram novidades. Portanto ao chegar a Nova Iorque nem deu para comparar com Lisboa, porque eu praticamente nem sequer conhecia Lisboa. Fui só à embaixada americana, tratar de papelada.
O mais perto de cidade que conhecia era Leiria?
Leiria, sim. Para não falar de Caldas da Rainha e Torres Vedras. Curiosamente, ligando isso ao futebol, toda a gente que me conhece sabe que eu sou um fervoroso adepto do Sporting. Mas, curiosamente, se tivesse seguido a rota normal, o único e primeiro jogo de futebol profissional que eu vi em Portugal antes de ir para os Estados Unidos foi em setembro de 1961 em Lisboa. Benfica-Penharol. 1 a 0 para a Taça Intercontinental. E o Benfica depois acabaria por perder no segundo e terceiro jogo em Montevidéu. E um amigo meu que estava a ajudar a tratar da papelada para vir para os Estados Unidos era adepto do Benfica e levou-me ao jogo. Normalmente ficaria apanhado, mas eu já tinha 15 anos, já tinha sete, oito anos de Sporting. Idolatrava o Carlos Gomes, guarda-redes. O José Travasso, José da Europa. E portanto tinha um primo que também tinha alguma influência sobre mim, não muita, mas alguma. E portanto o bichinho do leão já lá estava, embora só tenha visto o Sporting jogar pela primeira vez quando vim a Portugal pela primeira vez depois de ter emigrado.
“Queria ir para as Nações Unidas para começar como tradutor. Entretanto, o futebol misturou-se nesta coisa toda”
Chegou aos Estados Unidos, foi estudar, acabou os estudos em Nova Iorque e depois deixou Nova Iorque.
Sim. A saída de Nova Iorque coincidiu com um elemento de sorte, porque eu estava a jogar em Nova Iorque, na equipa do clube português de Nova Iorque, o clube social. Praticamente todos os clubes de imigrantes têm equipas de futebol. Coisa amadora. Ao mesmo tempo, jogava na equipa do liceu. A minha primeira equipa oficial de futebol foi mesmo o Liceu de Nova Iorque, onde joguei durante dois anos
Jogava a que posição?
Jogava naquele tempo a médio e defesa central. Embora tenha querido ser guarda-redes pela influência do Carlos Gomes, mas, como já usava óculos, cheguei a um ponto em que não dava para partir óculos todos os dias, não é? Portanto, desisti disso. Entretanto, para não estar a elaborar detalhadamente sobre isso, através dessa liga, onde o clube português jogava, liga amadora, com jogos aos domingos, houve a oportunidade proporcionada pelo presidente dessa liga de me apresentar ao treinador da Universidade que eu iria frequentar, através de uma pequena conversa. Ele pergunta numa reunião: “Há aí algum clube que tenha jogadores juniores, com menos de 18 anos, que estão interessados em ir para a Universidade, uma das Universidades em Nova Iorque? Se sim, falem comigo, eu posso pô-los em contato com o treinador, que é um amigo meu, etc, etc”. Isso aconteceu e resumindo, duas semanas depois tinha sido admitido nessa Universidade com bolsa de estudo, que obviamente foi um um salto enorme para mim.
É um jackpot.
Exato. Exatamente. Pagou-me logo 1.200 dólares de propinas numa Universidade privada no norte de Nova Iorque. Nesse tempo, era muito dinheiro. Custava 2.100 dólares por ano, entre propinas e depois dormitório e comida. E eu tive que arranjar maneira de safar para pagar o dormitório e a comida, mas as propinas, que era realmente o ponto mais importante, 1.200 dólares, recebi como bolsa de estudo para jogar futebol e aí começou tudo. A jogar futebol numa Universidade que não é propriamente conhecida, porque é uma Universidade pequena, privada, mas que nesses anos, anos 60 e 70, chegou a ganhar o campeonato nacional da primeira divisão universitária contra os grandes gigantes do desporto universitário americano. Nomes que toda a gente reconhece e nunca reconheceria o nome da minha Universidade que é o Hartwick College. Uma pequena escola com 1.500 estudantes, numa cidade de 15 mil habitantes, a quatro horas no norte do Estado da cidade de Nova Iorque. E, para mim, realmente o sonho americano começou mesmo aí, porque na Universidade eu fiz de tudo e mais alguma coisa. Obviamente fui para lá como estudante, mas a pouco e pouco fui avançando noutras coisas, jogando futebol, obviamente, mas quando cheguei ao terceiro ano da Universidade, fui nomeado diretor do jornal universitário.
Escrevia artigos? Escrevia colunas? Escrevia sobre o quê?
Ttinha uma coluna sobre tudo aquilo que eu quisesse escrever. Depois escrevia sobre futebol também, porque era aquilo que que eu melhor conhecia e que provavelmente sabia melhor comparando com todos os outros, mas eu era mesmo o editor do jornal. Era um jornal semanário que acabou por ser nomeado o melhor jornal universitário nos Estados Unidos em Universidades com menos de quatro mil estudantes. Vamos dizer que era uma segunda divisão do prémio. As grandes Universidades tinham jornais diários e as mais pequenas tinham semanários. E isso foi importantíssimo para a minha carreira. Porque não só estava a jogar futebol, mas ao mesmo tempo entrei no mundo dos media. E eu tinha tido, obviamente aqui em Portugal, três anos de latim, tinha tido francês, tinha tido inglês, estava a começar grego e alemão. Eu em seis meses dominava o inglês completamente. Não tive problema nenhum. Estou a falar de escrever crónicas todas as semanas. Portanto entrei nessa situação. Eventualmente acabei por entrar também como correspondente para o jornal diário da cidade, para escrever sobre futebol.
Diário da cidade? Estamos a falar de que cidade?
Oneonta, uma cidade a 200 milhas de Nova Iorque. A norte. Também entrei na rádio local, entrei na televisão a cabo local com um show de futebol que eu criei. Porque eu sempre fui muito agressivo em tudo isso.
Foi convidado ou era você que propunha fazer isso?
Sim e sim. As duas coisas. Eu inicialmente queria ir para as Nações Unidas para começar como tradutor e eventualmente ir a vários pontos do mundo. Entretanto, o futebol misturou-se nesta coisa toda.

O que estava a estudar na Universidade?
Ciência política e línguas. Outro fator muito importante que aconteceu no último ano da Universidade, no quarto ano, na Páscoa de 1968, a nossa Universidade foi a primeira a ser convidada por um órgão das Nações Unidas a fazer uma excursão à Europa. Programas interuniversitários. Isso aconteceu um bocadinho por acidente, mas aconteceu.
As excursões de estudantes americanos à Europa para lhes ensinar o futebol: “É enviar os infiéis à Terra Santa, é evangelização”
Mas foi enquanto estudante ou enquanto futebolista da Universidade?
Futebolista. Foi a equipa da Universidade. Na Páscoa de 1968, 3 meses antes de eu me formar, de receber o meu diploma universitário. A equipa universitária embarcou numa viagem de 17 dias a Inglaterra, à Dinamarca, à Alemanha, à Alemanha Oriental, especificamente Berlim Leste, e fizemos 14 jogos em 17 dias. Como tínhamos a equipa completa de 22 ou 23 jogadores, podíamos jogar quase todos os dias e mudar os 11 jogadores. Isso foi uma experiência incrível. Primeira vez que eu voltei à Europa, sete anos depois de ter deixado Portugal. E eu que já era louco pelo futebol através do meu conhecimento dos media… O primeiro jogo que vi na Europa, Liverpool-Burnley, na FA Cup, em Anfield. Bill Shankley era o treinador. Grandes craques que o Liverpool tinha nesse ano, posso estar aqui a nomear nomes que as pessoas não conhecem. Roger Hunt, Tommy Lawrence, Tommy Smith, etc. Essa viagem marcou-me de tal maneira que, durante o período da viagem, fui recolhendo nomes e contactos e telefones das pessoas que conhecemos. Porque fizemos jogos, fizemos clínicas, deram-nos clínicas em Manchester, em Liverpool, etc. Nessa viagem de 14 jogos, ganhamos sete, perdemos seis e empatamos um. Um dos jogos, curiosamente, foi contra os reservas do Ajax no velho estádio. Quem é que estava no outro lado a jogar pelas reservas do Ajax? Um tal senhor chamado Johan.
E já era craque?
Ui! Ganharam-nos 1 a 0.
Só? Só ganharam 1-0 com o Francisco a jogar a médio? A marcar o Johan Cruyff?
Não! Pá, era difícil. Mas esse evento provavelmente mais que qualquer outro ligou-me completamente ao futebol internacional. Eu já seguia na medida do possível. Sem televisão, sem telefone, nada dessas coisas assim. De vez em quando lia uma revista, de vez em quando ouvia um um relato por ondas curtas no rádio de alguém para manter-me em contacto com Portugal, especificamente notícias do Sporting. Depois de voltar dessa viagem, dois meses e meio depois formei-me e decidi naquele momento, durante essa viagem, “é isto que eu vou fazer”. Vou organizar excursões da Europa para Universidades e liceus americanos para ensinar aos americanos o que é o futebol internacional.
Levar americanos à Europa?
É, levar os infiéis à Terra Santa, neste caso. É evangelização. Mês e meio depois eu chamei o ex-capitão da minha Universidade, tinha sido meu colega de quarto durante seis meses, no meu primeiro ano — último ano dele — e convenci-o. Ele era treinador de um liceu, convenci-o a arranjar 15 miúdos da equipa dele para fazerem aquilo que eu tinha feito. Só que o itinerário foi diferente.
Quem é que pagava?
Pagavam os pais dos alunos, mais o dinheiro que foi angariado num processo na cidade onde eles estavam, também no estado de Nova Iorque. E organizei tudo e a excursão foi: Portugal, Espanha e Inglaterra. Na Inglaterra foi exatamente fazer os mesmos passos que tinha feito com a minha Universidade, com os contactos que eu tinha angariado nessa viagem. Em Portugal e Espanha, simplesmente já nem me lembro como. Creio que liguei para malta do Bombarral que conhecia e autocarros, hotéis, etc. E começámos a nossa viagem em Lisboa, jogando, por exemplo, contra o Dramático de Cascais, a escola Salesiana, no Estoril. Mais um ou dois pela região. Depois fomos ao Bombarral, jogámos com a equipa do Bombarralense que estava na terceira divisão séniores. Nós íamos com miúdos de 15, 16 anos, dos Estados Unidos. Chegámos ao Bombarral numa camioneta e a primeira coisa com que me deparo quando saio da camioneta é um enorme cartaz, típico à portuguesa, daqueles das touradas: Sport Clube Escolar Bombarralense contra Estados Unidos da América. Estados Unidos. Não é a pequena cidadezinha, vila de Washingtonville, com um liceu com 200 ou 300 miúdos. Eu disse: “sto é uma loucura”.
Pessoas nas bancadas?
As bancadas? Completamente lotadas. Quatro mil pessoas no estádio. No velho campo do Bombarralense que estava na terceira divisão nacional. O resultado foi 10-0. Vieram depois ter comigo: “Ei, Francisco, nós não sabíamos que vocês eram principiantes”. Eu disse: “Vá, está bem, não importa.”
Isto foi a primeira vez que regressou a Portugal depois de ter emigrado para os Estados Unidos?
Sim, foi. Para mim foi um um grande prazer ir ao Bombarral, ir à minha terra, ir a Portugal pela primeira vez, não é? Fomos visitar Alvalade. O velho Alvalade. Já era em junho, já não havia jogos, o campeonato tinha acabado, mas toda a gente gostou daquilo. E decidi naquele momento que a minha carreira profissional ia ser organizador de excursões de futebol para a Europa e eventualmente trazer equipas da Europa para os Estados Unidos. Durante os próximos 7 anos a minha carreira foi ser fundador de uma organização que tem um nome bastante específico, American International Sports Exchange. Eu era dono e presidente. Organizei 75 excursões à Europa de equipas universitárias, seleções universitárias, seleções de liceus. Por exemplo, no estado de Nova Iorque, houve um ano em que se fez a equipa All Star do estado de Nova Iorque ao nível universitário e levei-os à Europa. Os conhecimentos que nós arranjámos nessa primeira viagem com a minha Universidade foram de tal maneira importantes, que fiquei a conhecer toda a gente de Liverpool, muita gente de Manchester, estou a falar dos clubes grandes, e isso seria depois um trampolim enorme para o futuro que acabei por ter depois da minha carreira como organizador de viagens.

“Precisavam de uma combinação de diretor de relações públicas e um diretor de desenvolvimento de futebol. Eu não era jogador profissional, mas eu é que conhecia o mundo universitário”
Vamos a essa parte. Para além de organizar viagens e programas para jovens norte-americanos viajarem para a Europa e conhecerem a realidade do futebol, começa também a entrar na organização do futebol interno nos Estados Unidos.
Sim, tinha esse bichinho de organizar e assim que me formei da Universidade, já não podia jogar na Universidade porque acabou a Universidade, a carreira são quatro anos e acaba. Então fiz na cidade em que estava, em Oneonta, formei uma equipa. Os Oneonta United. United porquê? Porque há duas Universidades lá e simplesmente fui recrutar os jogadores das duas Universidades. Jogadores que se tinham formado e que já não jogavam nas equipas da Universidade, mas ainda estavam a viver na cidade ou estavam a fazer cursos superiores.
E o Francisco jogava nessa equipa?
Obviamente. Bem, nesse caso era treinador e secretário e jogador.
E era presidente, capitão de equipa, era tudo?
Era tudo, sim. Não vale a pena estar aqui a fingir.
Era a equipa do Francisco.
Era. Era a minha equipa. Mas obviamente que uma equipa tinha que ter uma liga para jogar. Então formei a primeira liga da minha carreira, que se chamava Empire State Soccer League, ESSL, no norte do Estado de Nova Iorque, que ia de Albany, capital do estado, até Syracuse. Estamos a falar de Nova Iorque. Nova Iorque é maior do que Portugal. Portanto, no norte do estado de Nova Iorque, de uma ponta à outra, vamos dizer que eram distâncias entre três e quatro horas. E eu aqui aos 22 anos formei essa liga na qual a minha equipa jogava e eu era obviamente o presidente da liga também.
Francisco, você mandava na liga, mandava no clube, jogava na equipa. Quem é que ganhava o campeonato?
Ganhámos um. Pode parecer estranho, mas não havia outra maneira de fazê-lo, alguém tinha que o fazer. E eu punha mãos à massa e acabou-se, não havia problema. Também nomeava os árbitros.
Mas não teve problemas com adversários?
Não, eles entendiam perfeitamente que se não houvesse uma equipa base na minha cidade não seria possível. E nós tínhamos uma boa equipa, porque estávamos a recrutar jogadores de duas boas Universidades. E isso foi realmente o ponto de arranque para aquilo que eventualmente serviria como base da liga que eu eventualmente formaria vários anos depois, que seria uma liga nacional.
Como é que se dá esse salto de uma liga estadual, podemos dizer assim, para depois passar para um evento nacional?
Não foi logo. Esse percurso: jornal local, rádio, televisão, equipa, liga regional, organizar viagens, tudo isso foram sete anos até que em 1974 fui convidado para ir para Tampa, para os Tampa Bay, os Tampa Bay Rowdies. Estavam brand new, novinhos em folha. Iam começar nesse ano. Precisavam de uma combinação de diretor de relações públicas — cá está, tudo aquilo que eu tinha feito no jornalismo — e um diretor de desenvolvimento de futebol. Porquê? Eu não era jogador profissional, não ia jogar esse nível, mas eu é que conhecia o mundo universitário, os jogadores universitários que nós íamos recrutar. Ia ser eu, porque o nosso treinador era um sul-africano inglês, ele dos Estados Unidos conhecia zero. E, para recrutar os jogadores universitários que nós tínhamos de ter também na equipa, precisava de alguém que tivesse conhecimento muito profundo do mundo do futebol universitário.
Tinha esse papel de recrutar os jogadores. Levou algum colega de equipa que tinha em Nova Iorque, alguém da sua liga de Nova Iorque, para esse clube?
O que eu recrutei foi sete ou oito jogadores de Inglaterra, principalmente, que se tinham tornado peças fulcrais dessas duas equipas universitárias. Cinco, se não me engano, recrutei para a equipa de Tampa Bay, que acabaria por ganhar o primeiro campeonato em que jogámos no ano de 1975.
Campeonato nacional?
O campeonato nacional, sim. A NASL, a liga onde jogou o Cosmos, os nossos grandes rivais, onde jogou o Pelé e tudo isso.
Ganhou no primeiro ano em que esteve lá?
Sim, no primeiro ano, em 75. A equipa começou em novembro de 74.

Foi buscar algum craque europeu? Teve autorização para isso?
Sim. Bom, curiosamente, tenho de voltar ligeiramente atrás. Uma das razões pela qual fui convidado a ir para Tampa foi porque no ano anterior, em 1973 — devia ter dito isto antes —, o meu ex-treinador universitário, que é um grande amigo meu e um meu mentor, tinha sido convidado para sair da Universidade e treinar a equipa dos Philadelphia Atoms da NASL. E o que é que ele precisava? Ele conhecia todo o mundo americano, os universitários e tudo isso, mas na Europa não conhecia ninguém. Quem é que foi recrutar os cinco jogadores estrangeiros para o Filadélfia? Francisco Marcos.
Foi lá à Europa buscá-los?
Fui à Europa buscá-los. Fui buscar, entre outros, por exemplo, o Roy Evans, que chegou a ser o treinador principal do Liverpool, só para dar um exemplo. Veio um de Liverpool, veio um do Everton, vieram dois de uma equipa da terceira divisão de Inglaterra, o Southport. E, nesse ano de 1973, com essa base de cinco jogadores que recrutei em Inglaterra, através desses conhecimentos todos que eu tinha acumulado durante os anos em que fiz excursões na Europa, o Philadelphia Atoms, no seu primeiro ano de existência, com o meu ex-treinador, ganhou a liga.
E o Francisco era só o conselheiro?
Só um conselheiro. E por isso no ano seguinte fui para o Tampa. Os Tampa Bay Rowdies, cujo primeiro gerente geral tinha sido o primeiro gerente geral dos Philadelphia Atoms. Ele pensou: “Eu sei o que é que este senhor fez na Filadélfia”. Ligou-me e perguntou: “Terias interesse em vir para Tampa, começar uma carreira nova?” Eu respondi: “Olha, levem-me lá, ponham-me num avião e vou ver o que é”. Um mês depois, estava em Tampa.
Como é que se convence um jogador europeu a ir para os Estados Unidos nessa altura? Estamos a falar dos anos 70.
Sim, mas naquele tempo já vinham muitos jogadores emprestados durante o defeso. O campeonato acabava um bocadinho mais cedo na Europa, não acabava em junho, acabava em abril, coisas assim desse tipo. E através dos conhecimentos que tinha conseguia-se convencer alguns jogadores que estivessem no fim da carreira ou que precisassem de jogos, jovens, etc. Havia a atração dos Estados Unidos, que sempre foi grande, não é? E, portanto, era convencê-los de que valia a pena, de vez em quando, trazer numa viagem de dois ou três dias com a esposa. Mas isto acontece porque as relações são assim. É o trabalho que é hoje feito em que, quando assinas por um clube, já estás há muito tempo comprometido com aquilo, porque alguém te convenceu de que seria bom. E no nosso caso, no caso de Tampa, Tampa foi um caso de estudo, e não tenho modéstia nenhuma em dizer que tive muito a ver com isso. Porque vou até dizer que fui para Tampa e disseram-me, eventualmente um jornalista disse-me: “Um homem com um olho só, é rei na terra dos cegos”. Porque Tampa era uma cidade na Flórida em que o futebol não existia, não conheciam nada. Futebol americano universitário, pouco mais, beisebol com nível da terceira ou quarta divisão. E, portanto, o futebol era uma coisa nova e tinham que trazer para lá alguém que realmente conhecesse tudo. E o meu papel inicial, mais importante, era mesmo relações com os media, convencê-los a que fossem gentis com isto, não pensassem que isto era uma brincadeira qualquer, que não valia nada. E então a minha presença em Tampa teve muito a ver com essa ideia de que havia ali um expert no futebol que conhecia tudo isto, conhecia o mundo inteiro do futebol e que os ia ensinar a ver o futebol. E a realidade é que no primeiro ano em Tampa ganhámos o campeonato.
Mas as pessoas ficaram felizes? Havia adeptos?
A nossa média inicial do primeiro ano foram logo 18.000 pessoas. Inclusive 46.000 contra o Cosmos. Atrapalhámos completamente. E já no primeiro ano tinham o Pelé também. Portanto Tampa tornou-se na minha cidade dos Estados Unidos.
“O António Simões é o meu maior amigo no futebol em Portugal. Embora ele seja da cor que é e eu seja da cor que sou”
Para Tampa levou algum jogador europeu também?
Eventualmente para Tampa, provavelmente ao nível internacional, o mais famoso que levei para lá foi o Rodney Marsh. Era craque do Manchester City, internacional inglês, chamado na Inglaterra “O palhaço do futebol”. Ele tinha esse tipo de carácter. Mas tivemos muitos jogadores do Chile, do Brasil, nomes que não vão ser reconhecidos. Por exemplo, o cunhado do Pelé que jogou no Santos, António Lima, jogou connosco. Tivemos muitos jogadores alemães, e, obviamente, inicialmente jogadores que vieram, por exemplo, do Chelsea, Tommy Smith do Liverpool, que acabou a carreira em Tampa, o capitão do Liverpool. Uma série de nomes que consegui. Ao nível do fã português normal, não vai reconhecer todos os nomes, porque têm de ser nomes enormes. Por exemplo, se eu falar de António Simões, vão conhecer.

Conseguiu o António Simões para Tampa?
António Simões acabou a carreira dele na minha equipa de Dallas, no Dallas Tornado, o último ano dele como jogador de futebol de campo, futebol de 11. Ele tinha vindo para Boston inicialmente e depois decidiu que ia parar e eu naquele ano 1978 para 79 eu tinha saído de Tampa, tinha ido para Dallas.
Então vamos a isso. Porque é que sai de Tampa para ir para Dallas?
Quatro anos depois já tinha feito tudo o que era possível e [em] Dallas — estas coisas estão sempre ligadas — o ex-treinador universitário que tinha estado em Filadélfia tinha ido para Dallas. E ele disse: “Tens de vir comigo”.
E aí foram trabalhar juntos?
Sim e quase tripliquei o salário. Naquele tempo não era nada mau fazer isso. Dallas, Texas. Sim. Dallas Tornado, em que o dono da equipa era um dos grandes homens do desporto americano, Lamar Hunt. O dono do Kansas City Chiefs, OK? NFL, inventor do WCT de Ténis. Inventor do nome Super Bowl. Esse foi o meu patrão. Aprendi muito com ele. Um dos grandes visionários, que foi um dos responsáveis pelo início da primeira liga americana em 1967. Um daqueles que decidiu que ia começar uma liga de futebol nos Estados Unidos, a NASL. Fui para Dallas e nesse primeiro ano levei o treinador a Portugal, primeira viagem dele a Portugal, em que fomos recrutar jogadores. Convencemos o António Simões, que eu tinha conhecido quando ele jogou cá inicialmente. Não éramos assim grandes amigos, mas conhecíamo-nos. Ele ajudou-nos. Para já, apresentou-nos a várias situações, e já lá vou, mas eventualmente ficámos amigos. Ele é o meu maior amigo no futebol em Portugal, o António Simões. Embora ele seja da cor que é e eu seja da cor que sou, mas pronto.
E convenceu-o a voltar aos EUA?
Convenci-o a vir para Dallas mais um ano para ser jogador e treinador assistente, porque íamos recrutar vários jogadores. Era conveniente para o meu treinador ter alguém que tivesse aquele tipo de experiência e de habilidade. E o António Simões é um cidadão incrível. Uma pessoa a quem eu chamo “a consciência do futebol português”. O António é muito direto. Ele se tem de falar mal do Benfica, fala. Do Sporting igualmente. E portanto o António, curiosamente uma das coisas que fez em Portugal, foi levar-me ao Porto, apresentar-me ao senhor Jorge Nuno Pinto da Costa. Fomos ver o que é que havia no FC Porto. Acabámos por trazer um jogador de reservas, um Jairo. Ponta esquerda, brasileiro. Não jogava muito na equipa principal, trouxemos emprestado.
E aqui nos EUA jogou bem?
Mais ou menos, mas mais importante teria sido se eu tivesse conseguido convencer o António Oliveira para ficar em Dallas. Ele veio, trouxemo-lo cá, ficou cá uma semana a ver os treinos durante a pré-época, ainda participou num treino ou dois só para manter a atividade. Oferecemos tudo e mais alguma coisa durante aquilo que era realístico naquele naquele tempo, inclusive uma casa, por exemplo, nova. Mas não o conseguimos convencer, porque ele tinha já um acordo praticamente feito para ir para o Betis. Ele ia ficar livre. E a razão pela qual o Pinto da Costa estava a sugerir que nós o trouxéssemos era porque ele estava com um medo enorme que ele fosse para o Benfica. Acabou por ir para o Betis e um ano depois acabou por ser jogador e treinador do Sporting. Portanto, o António Simões acabou por ser o nome mais sonante que eu recrutei e que jogou cá na minha equipa. O Oliveira teria sido talvez o jogador com mais sucesso naquele tempo, porque o Oliveira estava no topo da sua carreira.
As viagens com equipas universitárias aqui já tinham desaparecido?
Sim, mas fiz uma viagem com o dono do clube e o gerente de negócios. Fomos ao Brasil conhecer o Santos e nós fizemos questão de levar os dois jornalistas mais importantes de Tampa. Queríamos apresentar a esses dois jornalistas o mundo do futebol fora dos Estados Unidos. A mesma coisa que eu tinha feito na Europa com todos esses estudantes e treinadores, fiz com alguns jornalistas que tinham de ver, tinham de sentir na carne o que é que era o futebol na capital do futebol mundial, no Brasil daqueles tempos. Tudo isso teve uma influência enorme em termos mediáticos naquilo que eu fazia. E tudo isso começou obviamente a propagar, começou a ter um impacto. Repare, comecei a revista oficial da Federação nos Estados Unidos, uma revista chamada Futebol Mensal, Soccer Monthly. Fui o fundador da revista, convenci a federação a comprar o projeto e fui o editor da revista.
Fez a revista, publicou e depois convenceu a federação a comprá-la?
Não. Fiz o protótipo, eu não tinha dinheiro para começar a revista. Desenhei o que é que ela ia ser, quantas páginas, tudo isso. Tinha já gráficas na cidade, no norte do estado de Nova Iorque. Com o vice-presidente da federação, que era meu amigo e também era treinador universitário, convenci-o de que isto era um bom projeto. Ele concordou, foi à presidência da federação e disse: “Isto é um grande projeto, nós precisamos disto porque não há publicidade suficiente nos jornais diários, nem nada disso. Precisamos da nossa própria revista e esta é a pessoa indicada para ser o diretor da revista da federação.” Então, quando fui para a Tampa, já eu tinha sido diretor da revista oficial da Federação dos Estados Unidos da América durante três anos. Pode imaginar o que é que isso me dava em termos de prestígio, conhecimento. Eu começava a ser um expert.

“A USL começou com cinco equipas. Quando eu saí, tínhamos 180 equipas nas várias divisões”
Depois de passar por Tampa, por Dallas e por este mundo dos clubes, começa também a haver aqui uma ligação à criação de ligas de competições nos Estados Unidos da América. Como é que isto acontece?
Bem, isto tudo tem a ver com o colapso da liga da NASL em 1984. A liga acabou, porque era aquela história de construir um teto sem raízes, sem colunas por baixo. Expansão muito rápida e talvez em demasiados lugares em que não havia realmente uma base suficiente e não havia equipas suficientes com donos poderosos suficientemente para aguentarem aquilo continuamente. O dono de que falei antes, o Lamar Hunt em Dallas, era um deles. Mas acabou. Chegámos ao ponto em que, em 1984, esses donos decidiram que a liga teria de acabar e acabou a liga. Foi em 1984 que eu tive de decidir. Cheguei a uma encruzilhada na minha vida, tinha de decidir se ia trabalhar, arranjar um trabalho honesto, ensinar numa escola, ser treinador, ser fosse o que fosse… Lavar pratos ou arranjar maneira de continuar no futebol. Eu já levava 12 anos disto, não sei fazer mais nada. E então fui agente durante um ano e meio, porque entretanto havia uma liga de futebol de salão, indoor soccer, jogo de futebol de seis com tabelas.
Isto em Tampa?
Não, nos Estados Unidos a nível nacional chamava-se MISL, Major Indoor Soccer League. E foi bastante popular durante um período entre cinco, oito, dez anos. E entretanto as ligas de futebol normal eram simplesmente ligas pequeninas, regionais, semiprofissionais, em que os jogadores trabalhavam, nalguns casos só jogavam, mas era difícil. Chegámos a 1985-86, portanto, no segundo ano depois da NASL acabar, eu decidi: “Bom, vou continuar, porque como agente isto não pode ir muito longe, não há jogadores suficientes para ser um empresário de jogadores. Neste momento, este futebol de indoor está popular”. O que é que eu fiz? Decidi que estava em Tampa ainda um dos jogadores que eu tinha trazido do Brasil, de São Paulo, tinha sido o grande goleador da liga nos Tampa Bay, e tornei-me no agente dele — tinha-o recrutado do São Paulo como jogador para Tampa. Decidi nesse período de 84 para 85 que ia mudar para Dallas, porque eu ia vender os direitos dele à equipa de Dallas dessa liga de indoor. E ele tornou-se não só no meu cliente jogador, também se tornou no meu sócio ao fundar um centro de prática desse futebol de salão, em que era eu o gerente, obviamente, e éramos os dois sócios. Aí decidi começar em 1986, no inverno de 86, aquilo que eventualmente seria a USL — nesses primeiros dois, três anos chamada SISL, que simplesmente significa a liga de indoor do sudoeste dos Estados Unidos.
Portanto, criou mais uma liga?
Criei uma liga. Começou com cinco equipas no Texas, aqui onde estamos agora, e em Oklahoma e no Novo México. Tudo neste território do sudoeste dos Estados Unidos. O Texas é dez vezes maior do que Portugal, só para dar uma ideia. Tínhamos cinco equipas em Dallas, no oeste do Texas, em Albuquerque, no Novo México, e em Oklahoma City. Cinco equipas a jogar futebol de salão. Vendi franquias por mil dólares cada uma. Pois é. Eu como comissário, que é o título que se usa cá nos Estados Unidos. E para dar um pulo um bocadinho maior, de 86 para 89, essas cinco equipas ficaram a ser seis. A sexta foi a minha própria equipa no segundo ano. De seis passou para nove, passou para 12, e, em 1989, quando a FIFA decidiu que o campeonato do mundo de 1994 ia ser nos Estados Unidos, Francisco Marcos parou e disse: “Ei, cuidado aqui, o futebol normal vai voltar e vai voltar em grande”. Porque uma das condições exigidas pela FIFA para fazerem o campeonato do mundo nos Estados Unidos em 94 era a criação de uma nova liga a nível da primeira divisão profissional do futebol normal. Isso aconteceu em 88. Eu sabia que em 94 íamos ter um Mundial. Em 89, eu disse: “Meus senhores, podemos continuar a jogar futebol de indoor no inverno, que é quando se joga, porque essa é a ideia no inverno, mas vamos também começar a jogar o futebol normal de 11. Quem é que quer?”. As nove equipas que eu tinha começaram-se a expandir não só no Texas. As equipas do indoor passaram a jogar futebol outdoor.
As mesmas equipas?
Jogávamos indoor no inverno, porque não se podia jogar outdoor em vários lugares, porque o tempo, o clima, não permite isso nalguns estados. E começando depois em abril, até setembro, jogava-se o futebol de outdoor, que é o que acontece ainda agora. Os mesmos jogadores, as mesmas equipas. Alguns melhores jogando futebol indoor. A mesma coisa que dizer “o Zicky no Sporting pode jogar como pivô no futebol de 11?” Não sei, talvez gostasse até de ver, mas as situações são idênticas. E portanto a USL tinha muito a ver com a região, se éramos regionais, se eram mais do que regionais… Fomos mudando, adaptando o nome, a sigla da liga, à medida que o território aumentava, ao ponto em que passámos a ser simplesmente a United Soccer Leagues, as ligas unidas dos Estados Unidos. Essa liga começou com cinco equipas. Quando eu saí da liga em 2013, quando me reformei, tínhamos 180 equipas nas várias divisões.
Estamos a falar de quantas divisões?
No início era só uma divisão e logo ao segundo, terceiro ano, fizemos duas divisões. Dois anos depois fizemos três. Absorvemos uma das ligas regionais que já existia, que se chamava ASL, American Soccer League.
Ajude-me a perceber a estrutura organizativa.
A MLS começou só em 96. A minha liga que eu formei começou em 89.
“Fiz tudo o que fiz e teria feito de borla se não precisasse de dinheiro para viver”
Então, quando a FIFA disse que para ter o campeonato do mundo, os Estados Unidos tinham que ter uma liga, era a sua liga?
Não. Era uma liga que a federação ia implantar, que só implantou depois do Mundial, implementou a MLS mais tarde. E eu não tinha ambição nenhuma de pensar que podia ser uma primeira divisão. Não havia capacidade financeira para isso

Mas quando acontece o Mundial de 94 nos Estados Unidos, a liga de futebol que existia nos EUA era a liga do Francisco.
Sim, exatamente. Já tínhamos nesse período absorvido as equipas que estão agora na MLS: Vancouver, Seattle, Portland, Montreal, Cincinnati. Eram todas equipas da USL. Pelo sistema de franquias, eles eram equipas com muito poder. Portanto, essas equipas entraram na nossa liga, jogaram durante vários anos, até que a MLS começou e essas equipas decidiram que podiam pagar os 20 milhões ou 30 milhões por uma franquia na primeira divisão. Eu queria ser a base da pirâmide, a base com vários níveis. E chegámos a ter segunda, terceira e quarta, sendo a quarta completamente amadora, tipo campeonato regional em Portugal. Paralelamente, fizemos a primeira liga nacional juvenil, dos oito anos até aos 18 anos. Fizemos a primeira liga feminina sénior, a W-League. Muitas das grandes craques jogaram nessa liga. Eu decidi que podia juntar todos esses clubes de todas as partes do país que simplesmente jogavam em ligas locais, regionais. A nossa ideia acabou por ser que nós seríamos afiliados à MLS e iríamos fornecer jogadores nalgum acordo financeiro em que jogadores podiam simplesmente — como se fossem uma equipa B em Portugal — subir e iam-nos pagar por isso. Durante os primeiros três anos, cada equipa tinha a opção de negociar com equipas da nossa liga se queriam ser afiliados deles.
Acha que a MLS tinha sido possível e tinha conseguido manter-se até aos dias de hoje sem a USL?
Teria sido difícil. Além disso, a MLS acontece porque houve uma concorrência de três grupos diferentes para serem a chamada primeira divisão em 94, 95. No verão de 94, depois do Mundial, houve uma eleição da federação. O presidente da federação que trouxe o Mundial para cá, o senhor Alan Rothenberg, foi ele o impulsionador da MLS. No verão de 94, o prazo dele tinha acabado e houve uma eleição nova. Quem ganhasse essa eleição iria ficar com um poder enorme para decidir qual dos três grupos que ia ser premiado como a liga da primeira divisão. O presidente da federação era o líder do grupo da MLS. Ele ganhou a eleição por 1,7% com 6,5% de votos da posse de Francisco Marcos.
Fazia parte da federação por ser o diretor da liga da USL?
Eu tinha votos como presidente da terceira divisão nesse tempo. Isto é uma história pública, mas raramente contada. Eu, sozinho, a decisão foi minha. Como dono da liga, não tinha ninguém a quem responder. Se ele não ganha essa eleição, a MLS perde o voto. Ia para um outro sujeito, grande amigo meu também, mas que eu não acreditava que tivesse capacidade para fazer o que este outro senhor faria. A MLS não teria nascido. Assim, foi o grupo dele que ganhou. Dois anos depois, começaram a MLS em 1996. Eu era diretor da federação por ser parte do conselho da federação. Politicamente, foi o ponto mais importante. Depois desse campeonato do mundo e tudo isto acontecer, recebi uma chamada do presidente e dono da Umbro, o senhor Jack Stone. Ele disse-me: “Quero fazer-te uma pergunta muito direta. Tens interesse em vender a tua liga?”. Eu respondi: “Vender a minha liga? A quem?”. E do outro lado ele diz: “À Umbro?”. Ora, não comecei a liga para vender a liga, comecei para vender franquias e governá-las. E ele continua: “Eu compro com uma condição: ficas como presidente durante dez anos, no mínimo”. Dois dias depois, liguei-lhe a dizer: “Pá, quando é que vou aí à Carolina do Sul para fecharmos o negócio?”.
Mas ele deu logo um preço? Um bom valor?
Mais ou menos. Pá, olha, nunca mais trabalhei. Portanto, tudo o que eu tenho devo ao futebol.
Francisco, fala disto com um sorriso no rosto. Alguma vez trabalhou?
Não. Eu sou um sortudo enorme. Fiz tudo o que fiz e teria feito de borla se não precisasse de dinheiro para viver. Só trabalhei naquilo que amo. Nunca fiz mais nada que não futebol, nada. A minha esposa foi a minha primeira secretária, minha assistente. De futebol conhecia zero. Era patinadora. Treinava numa arena de patins que eu comprei para transformar em campo de futebol de salão.
E não ficou chateada?
Naquele tempo, disse-me: “Eu perco o campo, mas tu é que perdes. Vamos casar”. Há tanta coisa que eu fiz. São mais de 50 anos. Fiz uma entrevista aos 22 anos em que me perguntaram: “O que é que você quer fazer com o futebol?”. Eu disse: “Olha, o que eu quero simplesmente é ajudar que o futebol nos Estados Unidos eventualmente seja alguém”.
Conseguiu?
Acho que consegui. Eu acho que somos mais do que alguém. Não somos os reis do mercado, mas não precisamos de ser.
O soccer está em que lugar no ranking?
Primeiro, futebol americano. Depois basquetebol. Já ultrapassámos o hóquei no gelo, e em número de participantes e espectadores ultrapassámos o beisebol também. Repare, no primeiro jogo dos Estados Unidos no outro dia, a audiência televisiva superou os jogos da final da NBA. O beisebol é o desporto original, mas nós já superámos em número de participantes e em audiência. O beisebol é um pouco como o hóquei em Portugal.

As críticas à FIFA neste Mundial. “Se os bilhetes fossem a metade do preço, em vez de haver 500 lugares abertos, haveria talvez dez mil que não podiam entrar, porque não havia bilhetes suficientes”
Vamos falar deste Mundial. O que é que está a achar?
Bom, para já, ia ser sempre o sucesso que vai ser. Com os problemas que existem, controvérsia com a FIFA, controvérsia entre os Estados Unidos e o Irão, essas coisas, algumas delas imprevisíveis. O Mundial de 94 foi um sucesso enorme. Até hoje. Ainda o maior Mundial de todos temos em termos de audiência e só com 24 equipas, não é? Este vai superar tudo isso. Estádios ainda maiores, melhores, mais cidades. Não estou contente com várias coisas, principalmente relacionadas com a FIFA, não é?
Como por exemplo?
Os preços, para já. Os preços dos bilhetes. E se a FIFA pode cobrar o que cobra pelos bilhetes, então as cidades também podem cobrar o que entenderem pelo estacionamento de carros, por exemplo, e estão a fazê-lo. Isso vai deixar algumas nódoas. Mas de qualquer maneira vai ser de certeza, e já está provado, o Mundial mais concorrido de sempre em termos de audiências. Não há dúvida nenhuma. Se os bilhetes fossem a metade do preço, em vez de haver 500 lugares abertos, haveria talvez dez mil que não podiam entrar, porque não havia bilhetes suficientes. E portanto vai ser o Mundial com mais sucesso em termos de audiências. Não podem fazer nada acerca do clima. É o que é. Isso aconteceu também em 94 e noutros países. Tivemos que mudar o campeonato para o inverno no Qatar. Teremos que talvez pensar nessa situação eventualmente, porque, por exemplo, o campeonato do Qatar tecnicamente foi muito bom. Porquê? Porque os jogadores chegaram ao Qatar na sua máxima força. Não é, não há outra maneira de ver isso.
Acha que a FIFA devia repensar mesmo esta questão de ter um Mundial no verão, principalmente quando os clubes jogam cada vez mais jogos oficiais?
Acho que sim. Acho que seria algo que deveria ser pensado seriamente. Não sei se será assim com todos os Mundiais, porque aí depende um bocadinho de onde é que se vai jogar. Mas se nós começarmos a pensar seriamente que vamos jogar na Arábia Saudita em 2034, provavelmente de certeza que vai mudar. Portugal, Marrocos, Espanha, não será necessário mudar. Acho que teremos que ajustar isto. Se o clima está a mudar, então tudo tem de mudar um bocadinho também. Mas, voltando aos EUA, pelo nível da organização, os estádios estão a ser vistos. Portugal jogou num estádio maravilhoso. Há grandes estádios no futebol europeu? Há, mas não brinquemos com coisas sérias, OK? Tirando meia dúzia deles, estamos a brincar a isto. Os estádios que nós temos aqui são qualquer coisa impressionante. São gigantescos, têm todas as comodidades. E não vale a pena estar a dizer que o futebol é só desporto. Isso é treta. Há muita coisa para se aprender com os Estados Unidos.
Acha que este Mundial vai ter um impacto maior para os norte-americanos do que teve, por exemplo, o de 94?
Obviamente. 94 foi o acordar de muita gente. A história de que o futebol não tem importância nenhuma já acabou. Isto agora é mais ou menos a confirmação de que este desporto é real, é autêntico, vai estar cá, vai ficar. Estamos a falar de equipas agora, franquias, que estão a custar 200, 300, 400 milhões de dólares. Há três, quatro equipas na MLS que em termos de de valor estão entre as maiores do mundo.
Qual é a importância do Inter Miami, do Lionel Messi e de David Beckham, para tudo isto?
A mesma importância que o Pelé teve, que o Beckenbauer teve. E agora é ainda mais, porque é mais fácil vendê-los do que foi nesse tempo. Agora é muito mais mediático. Aquilo que eu tive que fazer para convencer jornalistas a escreverem sobre o futebol, sobre a minha equipa, e aquilo que eu posso fazer hoje… Meu Deus, não há comparação possível. É tão fácil hoje chegar a toda a gente a qualquer hora que é uma coisa incrível.

“Depois de Vasco da Gama e Eusébio, há Cristiano Ronaldo”
E Portugal? O jogo com o RD Congo não correu bem.
Não correu bem, mas eu já tinha dito a semana passada que fizemos uma grande decisão em ter jogado o último jogo de preparação com a Nigéria. Agora jogamos exatamente contra a mesma equipa. Foi a mesma coisa.
Não conseguimos aprender com a Nigéria…
Devíamos ter aprendido, mas obviamente alguma coisa ficou pelo caminho. Porque eu não vi quase diferença nenhuma. Temos o melhor meio-campo do mundo. Não tenho dúvidas nenhumas sobre isso. Os três, ou quatro, ou cinco que podem lá jogar, inclusive os três que jogaram frente ao Congo, podem jogar com qualquer equipa. Acho que houve um problema defensivamente, porque pela primeira vez tivemos uma dupla centrais que nunca jogaram juntos de início. Foi uma pena o Rúben Dias não poder jogar. E na frente todos sabemos que temos um problema a resolver.
É um problema?
Acho que é um problema, porque o Cristiano até não sair, joga. E frente ao Congo provavelmente devia ter saído ao intervalo, como saiu o Bernardo Silva. Atenção, eu sou um adepto e um fã enorme do Cristiano Ronaldo. Depois de Vasco da Gama e Eusébio, há Cristiano Ronaldo.
Depois?
Depois, OK? Mas o que é que se viu no estádio. Milhares de adeptos estiveram lá para ver o Cristiano Ronaldo e para ver Portugal. A quantidade de estrangeiros a verem o jogo de Portugal foi uma coisa incrível. E essa é uma realidade que nós não podemos escapar a ela. E eu não vou entrar nessas conversas, se há poderes por trás que exigem. Lembro os tempos do Pelé e do Eusébio, só para mencionar dois exemplos, que o mundo mais ou menos conhece bem a situação. Quando o Santos ou o Benfica jogavam um jogo em qualquer parte do mundo, era X se o Pelé jogasse ou Eusébio e X menos X se eles não jogassem. Era tão simples como isso. O Eusébio jogou infiltrado, enormes lesões, não devia ter jogado, o Pelé andava de rastos, etc. Mas essa é a realidade. Não é o caso do Cristiano. O Cristiano joga porque está bem fisicamente — 41 anos à parte. Agora, há um acordo que diz que se o Cristiano não joga, a Nike, ou neste caso agora a Puma, não paga tanto. Não acredito. Mas claro, cada vez que o Cristiano joga ou não joga, há um efeito paralelo. Certeza absoluta. Com fãs que vêm ver um jogo e ficam dececionados se ele não está.
De alguém que tem um currículo invejável no mundo do futebol: se falasse agora com Pedro Proença, o que é que lhe dizia?
Conheço o Pedro pessoalmente. Estive inicialmente na liga. Estive durante dois ou três meses como conselheiro dele. Éramos para vir aos Estados Unidos, acabámos por não poder vir, por razões que só ele entenderá. Vinha aprender a parte americana. Acho que é uma pessoa bastante inteligente. Mas também compreendo que ele foi votado e que tanto pode ser votado para dentro, como votado para fora. Portanto, está ali num trilho um bocado delicado, mas acho que ele precisa de ser absolutamente frontal, deveria ser seriamente frontal, e não esconder nada. Já se começa agora outra vez com todos os boatos acerca da mudança de treinador. Provavelmente já teria acontecido há um ano se não tivéssemos conquistado a Liga das Nações.
Gosta de Roberto Martínez?
Gosto dele como ao nível de comunicação.
E é bom a nível de treino?
Pois. Treinar dois ou três dias, tens os melhores do mundo, alguns dos melhores do mundo. No fim, eu acho que é mais uma situação daquilo que se diz em inglês man management, do que propriamente um treinador.
E Roberto Martínez é um bom manager?
Acho que sim. Essa é a minha opinião. Eu conheço, não conheço muito bem, conheço pessoalmente, mas só casualmente. É uma pessoa muito aberta. Só o facto de ele ter feito um esforço enorme para poder comunicar com os portugueses em português, acho uma coisa notável. Podem dizer que isso não tem importância nenhuma. Para mim tem importância. Representa um um compromisso com o país. Não está ali só para receber o cheque daquela semana. Há melhores treinadores? De certeza que há melhores treinadores, mas quem é que vai ser melhor? Jorge Jesus? Não sei. Acho que o jogo com o Congo não foi bom, mas já tivemos outros jogos também assim e depois voltámos. Ganhámos os dois jogos, ficámos em primeiro lugar. Tão simples como isto, não é? Quero que fiquemos em primeiro lugar para facilitarmos também o nosso calendário nos 16 avos, etc. Não vim para aqui com a ideia de que Portugal é o favorito para ganhar. Acho que somos uma das oito equipas que podem ser consideradas favoritas, podem ser sérios candidatos, os outros vêm à festa, dois ou três são chamados cavalos cinzentos.
Quem é que são?
Noruega, que ninguém está a prestar atenção. E se calhar Marrocos. São só esses.
Estados Unidos não?
Não. Se os Estados Unidos conseguirem chegar às meias finais, seria uma coisa fantástica. Qualquer coisa a partir dos oitavos já será muito bom. É preciso ver que já jogamos 24 campeonatos do mundo. Só oito equipas é que ganharam. Uma nem está cá, a Itália. O Uruguai está cá, mas é só para fazer parte da festa. São seis equipas que cá estão. Uma delas é o Brasil, que não acho que tenha hipótese. Portanto, quer dizer, se não ganharmos é um falhanço? Não acredito nisso. Não consigo pôr um rótulo de perdedor a qualquer equipa que chegue aos quartos de final e depoissaímos da nossa cidade universitária em Nova Iorque mum carrinho com 275 mil milhas já no carro, um Firebird. Em 36 horas chegamos à cidade do México a tempo de poder ver o Inglaterra-Brasil, perca um jogo.
“Saímos num carrinho com 275 mil milhas. Em 36 horas chegamos à cidade do México a tempo de poder ver o Inglaterra-Brasil”
Para terminar, quero saber mais sobre a sua experiência em Mundiais. Está a tentar bater algum tipo de recorde? Foi a todos os Mundiais desde 1970, certo? Quando como é que começou esta aventura?
Não estou a tentar bater nenhum. Eu tenho o recorde. A Guiness não reconhece, porque decidi que não ia pagar 1.500 euros pela inscrição e ter de providenciar fotos, bilhetes e três testemunhas que jurassem que sabem que eu fui, ou que estiveram lá comigo. Consigo arranjar fotografias de todos os Mundiais. Tenho uma muito pequenininha, preto e branco. Polaroid 1970. Bilhetes de todos os mundiais não tenho. Tenho muitos, mas não tenho todos, porque não fazia questão nesse tempo, pensar que ia estar presente em 15 mundiais seguidos… Portanto, sei que sou recordista. Muitas pessoas sabem que sou recordista. Gabo-me muito disso. Tenho um grande prazer em dizer isso. Começou tudo em 1970. Quatro colegas da minha Universidade, saímos da nossa cidade universitária em Nova Iorque num carrinho com 275 mil milhas já no carro, um Firebird. Em 36 horas chegamos à cidade do México a tempo de poder ver o Inglaterra-Brasil, aquela grande defesa do Gordon Banks e a cabeçada do Pelé. Mal sabia eu que esse ia ser o primeiro de uma carreira com 15 Mundiais consecutivos, que já presenciei. Como jornalista, como fã, alguns de ponta a ponta, alguns só o princípio, outros só o fim, outros só o meio. Depende. Não é questão de estar em todos os jogos. Não é possível estar em todos e essa não é a questão. A questão é ir, e especialmente a parte da fase de grupos, em que o mundo se junta muito mais do que na fase final. As pessoas criticam, dizem que a fase de grupos é fraca. Isso para mim é conversa da treta também. É a parte mais interessante. Está todo o mundo aqui a conviver. Ir à Fun Zone é uma coisa fantástica e foi uma coisa que nunca deixei de fazer. O meu filho tem, por exemplo, tem 35 anos. Ele vai no oitavo Mundial, o que é ainda mais curioso, o oitavo Mundial, que são todos os Mundiais da vida dele.
E ele está a recolher o material para o Guinness?
Ele está a recolher o material para o Guinness, mas ele jura-me a mim que vai ser o primeiro ser humano a ver todos os Mundiais de uma vida. E ele já fez oito na vida dele. Começou aos quatro anos em 94, estava cá nos Estados Unidos, mas foi aos jogos, não era estar cá em casa. Ele foi aos jogos, foi a treinos, viveu comigo em São Francisco, quando eu estava a acompanhar o Brasil no Mundial 94 como embaixador da FIFA. A minha mulher já foi a cinco, inclusive à Rússia, por exemplo. É uma experiência fantástica, que eu não trocaria por nada. E tenho realmente bastante orgulho em poder dizer isto. Estou cá e sou eu a pagar. Vou a todos os jogos de Portugal, a não ser que tenha uma obrigação familiar que me impeça de ir, mas estou a falar de jogos casa e fora, não é só os jogos de casa. Quando eu acabar este Mundial agora, vou ter 60 jogos desta época entre Portugal e Sporting, casa e fora. E isso vai continuar. Já tenho o meu programa de setembro e outubro para a Liga das Nações. Se Deus quiser, ainda tenho um outro Mundial para fazer daqui a quatro anos em Portugal e Marrocos e na Espanha. Dá-me realmente um gozo enorme.
Vai ser o último?
Vou ter 84 anos. Se lá chegar já não é uma marca muito má.
O Francisco está a planear a reforma de Mundiais mais cedo do que o Cristiano Ronaldo…
[Risos] Essa é mesmo boa. Não, acho que o Cristiano acaba agora. Acho que o Cristiano vai atingir os mil golos na liga árabe. E acho que, quando o Mundial acabar, o Cristiano acaba também na Seleção Nacional. E volto a dizer, como disse antes: “Vasco da Gama, Eusébio e Cristiano Ronaldo”. É impressionante e até é mais impressionante, talvez, a percentagem de portugueses que conseguem não admirar, não apreciar. Basta ver a projeção que o Cristiano tem dado a Portugal. É simplesmente incrível. Não quero saber dos políticos, dos intelectuais que não ligam ao futebol, não ligam ao desporto. Para mim não pega. O homem fez o que tem feito, joga para ele, não importa. E, aliás, há muita coisa que ele faz que a pessoa normal não tem conhecimento fora do futebol, fora do campo. Para mim, não são comparações. É outra época, é outro futebol, é outra história. Ele vai ter o seu lugar na História e é completamente merecido. Para ele, só desejo tudo de melhor e que faça três golos contra o Uzbequistão.
