Entre 1987 e 1994, José Moura estabeleceu contactos variados com artistas e editores ligados à música industrial, um género de que é, desde então, especialista e sobre o qual já escreveu muito. Em 1988, o belga Dirk Ivens, dos Klinik, quando soube que Moura era português, disse-lhe que era grande fã de Telectu. Moura sentiu-se na altura envergonhado, porque conhecia mal o trabalho de música “minimal repetitiva” do duo Jorge Lima Barreto (1947-2011) e Vítor Rua (1961), membro fundador dos GNR que saiu da banda e formou os Telectu em 1982, ano em que atuaram no Festival Vilar de Mouros. Dirk Ivens era também colecionador de gravações ao vivo dos Suicide e, nesse ano em que se correspondeu com José Moura, o duo de synth-punk composto por Alan Vega e Martin Rev viria a dar um concerto nas ruínas do Carmo, em Lisboa, a 8 de setembro, e que se tornaria lendário num país e numa cidade que estavam a acordar para o mundo, com uma nova movida artística e intelectual a acontecer mesmo ao lado, no Bairro Alto. A primeira parte era assegurada precisamente pelos Telectu.
Depois de Belzebu (1983), o segundo disco dos Telectu, reeditado pela Holuzam em 2018, a editora associada à loja Flur Discos, da qual José Moura é cofundador, faz agora o lançamento do terceiro disco da dupla, Off Off, editado originalmente em 1984. Esta sexta-feira, 19 de junho, às 17h, no estúdio Ruína, nas Olaias, em Lisboa — a oficina onde foi reproduzida a serigrafia da autoria do artista plástico e visual António Palolo, dobrada em várias partes de modo a servir de capa aos dois discos em vinil deste álbum duplo — será leiloada uma reprodução da gravura, seguida de uma conversa informal com Vítor Rua.
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“Trata-se da reprodução exata do que é a capa do disco, que era, essa sim, uma serigrafia original do Palolo”, explica José Moura. “Essa serigrafia era baseada numa técnica que tinha grande interesse para o Palolo na época, que era a fotocópia. É, basicamente, composta por polaroids que ele tirou ao duo, recortadas e compostas com outros recortes num mesmo plano.” A serigrafia, soube agora a Holuzam pelos serígrafos que trabalharam na reprodução da imagem para ser a cópia fiel da capa do disco original, resultou de um trabalho muito espontâneo e improvisado por parte de Palolo, feito praticamente na mesa de trabalho da impressão da serigrafia.
Já este sábado, 20 de junho, no contexto da feira de autoedição Parangona, que estará a decorrer no mercado de Arroios, em Lisboa, Vítor Rua, acompanhado de Ilda Teresa Castro, vai tocar o tema Palolo, que ocupa o lado D de Off Off. “O Palolo era uma espécie de terceiro elemento dos Telectu naquela altura, porque atuava com eles ao vivo muitas vezes”, conta José Moura, que está a preparar um livro, de 800 páginas, a ser dividido em dois volumes, sobre os Telectu, cuja pesquisa começou há dois anos e meio. António Palolo (1946-2000) tinha a seu cargo a projeção visual das atuações ao vivo dos Telectu. “O Palolo trabalhava, sobretudo, a partir de diaporamas, que eram projetados. Riscava a película para conseguir determinados efeitos visuais quando a luz era orientada de determinada forma.”
O tema Palolo de Off Off é a banda sonora de um filme de António Palolo, OM (1977-78), que tem uma duração de 95 minutos, não tem som e foi filmado em Super 8 mm. Integra a coleção CAM, da Fundação Calouste Gulbenkian, e retrata uma ideia muito própria de cosmos, centrada no simbolismo do círculo. “Palolo despejou várias tintas para uma banheira e mexeu-as de modo a provocar redemoinhos, com luzes a incidir de vários ângulos, para replicar uma espécie de Via Láctea”, descreve José Moura, acrescentando que Palolo convivia bastante com o duo no apartamento onde estes viviam e onde eram feitas projeções de filmes. Depois de numa noite ter sido projetado OM, surgiu a ideia de fazerem a banda sonora do filme em tempo real. “O filme estava a ser projetado na parede da sala e eles estavam a fazer a música enquanto olhavam para as imagens. Para caber depois no disco, tiveram obviamente que cortar, ficou com 20 minutos”, conta Moura.
A importância da reedição deste álbum reside, para o editor da Holuzam, no facto de ter sido o primeiro disco para o qual a dupla não teve qualquer apoio financeiro — não foi editado por qualquer editora, como foi o caso do primeiro, Ctu (1982, Valentim de Carvalho), cuja formação era um quarteto, e do seguinte, Belzebu (1983, Cliché Música), onde passaram a duo — e foi gravado em casa, enquanto edição de autor, a cuja produção deram o nome de 3macacos. “Vem também daí a importância que acho que este disco tem: foi uma espécie de grito de Ipiranga dos dois músicos, que decretaram não ser necessário esperar que uma editora se interessasse pelo seu trabalho”, advoga José Moura.

O paradeiro das gravações originais é, nas palavras do editor da Holuzam, nebuloso. “A remasterização do som para esta reedição foi feita em dois tempos. Primeiro, pelo António Duarte, amigo dos Telectu de longa data, que é também músico e jornalista. Ele foi um elemento dos Telectu, no regresso em 2018, quando fizemos a reedição de Belzebu.” A segunda masterização foi feita por Taylor Deupree, um músico e engenheiro de som norte-americano de renome na área da eletrónica. “Quanto às fontes, parte provém de um CD deste álbum que já tinha sido editado em 1993 — só que este CD estava incompleto. A outra metade proveio de uma digitalização que o próprio António Duarte já tinha, não sei se a partir do vinil. As bobinas a que tivemos acesso, do Vítor Rua, não têm o Off Off completo.”
“Minimal repetitivo”
A música dos Telectu divide-se em duas grandes fases, uma primeira assente no que Jorge Lima Barreto definia como “minimal repetitiva” e uma segunda, depois de Rosa-Cruz e já com o Digital Buiça, mais virada para a improvisação livre. “Essa fase dita minimal repetitiva durou praticamente toda a década de 80, com a exceção do Camerata Elettronica, editado em 1988 pela Ama Romanta”, situa José Moura. “O termo ‘minimal repetitivo’, foi, de acordo com Jorge Lima Barreto, adotado pelo próprio. É um bocado discutível, mas faz um certo sentido”, contextualiza. “Porque até aí, e era essa a lógica dele para explicar a invenção do termo, o que existia era um minimalismo mais conotado com uma certa escola americana, o Philip Glass, o Terry Riley, o Steve Reich. E, depois, existia o repetitivo, que ele dizia que tinha uma origem francesa. Ele juntou as duas coisas.”
A escola francesa estava ligada à chamada música concreta, produzida a partir da edição de fragmentos sonoros de fontes diversas, incluindo os ruídos do quotidiano — naturais ou industriais —, a que estava ligado o Groupe de Recherches Musicales, de que faziam parte os pioneiros Pierre Henry e Pierre Schaeffer. Ter autodenominado esta fase dos Telectu como tendo ido buscar o melhor das duas escolas da música eletrónica dos anos 50, 60 e 70 pode ajudar a atestar a personalidade de Lima Barreto, considerada por muitos de megalómana.
“Temos que ver que o Jorge Lima Barreto tinha um ego gigante. Não digo isto com pudor, porque ele próprio o assumia e, na imprensa, estava sempre a defender a sua dama”, corrobora José Moura, acrescentando que era também uma forma de o músico espetar uma agulha na complacência e no conformismo dominantes da época. “No Portugal dos anos 80, e para trás pior ainda, não havia muito esclarecimento em relação a músicas mais marginais, ou menos óbvias, ou menos comerciais. Para o caso deles, era o próprio Lima Barreto que tinha de chamar a atenção, que tinha que explicar tudo, porque considerava que não havia crítica à altura”, explica José Moura. “Achava que não lhe davam a atenção que merecia e, quando lha davam, achava que não percebiam nada. Sentia-se na obrigação de explicar os conceitos, as técnicas, os processos, essas coisas todas.” As ideias, os títulos dos temas e dos discos, os textos que acompanhavam os álbuns, as entrevistas praticamente todas que eram dadas, eram tudo obra de Lima Barreto. “O Vítor Rua concentrava-se na música, em melhorar a técnica, em estudar o mais possível e retraía-se bastante. Também por uma questão de feitio, não era o mais expansivo dos dois.”
Os Telectu tocavam em galerias, em inaugurações de exposições de alguns pintores, como foram os casos de Carlos Rocha Pinto (1951) ou de António Palolo. “Era um circuito muito restrito, baseado, diria, em amizades, em pessoas próximas, que se alimentavam umas às outras, porque eram um bocado apátridas nesse aspeto. Não havia uma cena para eles, eles tinham que criar a cena”, diz José Moura.
A fase minimal repetitiva culminou com o disco Live at the Knitting Factory, gravado ao vivo em Nova Iorque em 1989 e editado em 1990, com excepção do Camerata Elettronica, editado em 1988. O apogeu desta fase traduziu-se, segundo os próprios, no álbum Rosa-Cruz, editado um ano antes. Dividido em duas partes, o lado A deste disco é tocado apenas por Lima Barreto, nos sintetizadores, e o lado B exclusivamente por Vítor Rua, na guitarra. “Tratou-se de uma questão conceptual, de levar o minimalismo à sua mais profunda expressão.”

Mais do que megalómano, Lima Barreto era melómano. Estudava, consumia, escrevia sobre música de todos os quadrantes, na forma de livros e artigos de imprensa, desde finais dos anos 70. O que ajuda a explicar as dedicatórias constantes que os Telectu faziam nos seus discos. No Off Off, o primeiro tema, Diagonale, tem o nome da galeria parisiense gerida pelo crítico de arte Egídio Álvaro, uma homenagem dos Telectu a propósito da atuação que fizeram, no ano de edição do disco, no centro Georges Pompidou, a propósito das comemorações dos 10 anos do 25 de Abril. O segundo tema, Anarkě, é dedicado ao compositor Filipe Pires. O terceiro, Cornucópia, é a banda sonora de uma peça de teatro e é dedicado ao ator e encenador Luís Miguel Cintra e à sua companhia de teatro, assim como ao irmão de Lima Barreto, Luís, “Lú”, também ator. O quarto, Palolo, é dedicado ao compositor João de Freitas Branco. No tema do lado C, Cornucópia, a voz filtrada do ator João Perry lê um soneto da autoria de E. M. de Melo e Castro, o Soma 14 Vezes, que é composto apenas por algarismos. Os lados A e B subdividem-se em três movimentos cada, todos eles denominados com nomes de demónios de diversas mitologias, da persa à nórdica: três começados por A (Asmodeu, Astaroth, Ahriman) e três começados por B (Bael, Behemoth, Belial), numa continuidade temática com o disco anterior, ‘Belzebu’.
“Eles não tinham pudor em referir as origens. Estavam sempre a mencionar o Brian Eno e o Robert Fripp, o Terry Riley — as três grandes referências, para eles. Depois há nomes como o Glenn Branca, o John Surman ou o Richard Pinhas, que são menos óbvios, e que eles citavam — e é isso que é incrível, porque podiam ter feito cópias, mas não o fizeram.” O que explica o culto internacional que havia à volta dos Telectu, como foi o caso do belga Dirk Ivens, dos Klinik. “Ouvimos os discos e, tirando um momento ou outro em que se pode dizer ‘isto parece meio Robert Fripp’, o todo, a nível composicional e dos arranjos, é único. Ouves música pop rock portuguesa dos anos 80, como os Heróis do Mar, por exemplo, e muito soava a Human League, os sons são os mesmos. Não era o caso deles.”

José Moura diz ter ficado perplexo quando começou a fazer pesquisa para o livro sobre os Telectu e se apercebeu da quantidade de recortes de imprensa que havia sobre o trabalho da dupla. Surpreendente foi também o facto de Off Off, um disco único no panorama português da altura, conceptual, edição de autor, ter tido, logo de arranque, duas ou três críticas de jornais positivas. “Fiquei também perplexo com o discurso tão direto do Lima Barreto, que provocava muitas irritações. Havia, ali, uma vontade de agitar. Há quem defenda que é uma propensão situacionista do Jorge Lima Barreto, de provocar, de criar um certo caos e de chamar a atenção através da polémica”, secunda-se o editor da Holuzam nos anos de investigação feitos para o livro, ainda sem data de lançamento marcada. “Depois, há também quem diga, amigos muito antigos dele, que ‘não senhor, isso não era um plano, não era uma estratégia, ele era mesmo assim’. Terá sido um pouco das duas.”
Se os Telectu ocupam um lugar único no panorama musical português, isso ajuda a explicar que a sua história se situe num vazio, num vácuo. “Eles têm um estatuto de culto, desde os anos 80. Mas não passa disso. Ou seja, eles não atingem um patamar de reconhecimento como os seus ídolos, o Terry Riley, o Brian Eno”, considera José Moura, que arranjou uma gravação do concerto ao vivo dos Suicide em Lisboa, com os Telectu na primeira parte, ao fã belga Dirk Ivens, que ficou “satisfeitíssimo”. Os discos do duo seriam vendidos para fora por via da Recommended Records, a plataforma editorial e de distribuição do baterista inglês Chris Cutler, com quem os Telectu vieram a colaborar nos anos 90. Nenhum, Rua ou Cutler, diz Moura, se lembra como é que os discos foram parar ao catálogo da editora internacional. “Eles estão num patamar de exotismo, porque é algo que vem de Portugal, que ninguém sabe onde está e o que se faz cá.”