Cresci numa casa sem saudade do passado, de regressados de África sem nostalgia, à qual regresso a todo o momento. Havia poucos sinais do Hemisfério Sul pela casa, nem máscaras, nem estatuetas, nem mapas. A infância era livre e conduzida com mão firme. A avó ia buscar-me à escola, fazia-me o almoço, dormíamos a sesta. Recordo gestos e hábitos cheia de uma saudade que não foram os avós que me ensinaram. O chá pelas cinco. A ceia, de chá de camomila e bolinhos. O apetite da avó para os doces, à medida que foi envelhecendo, “apetece-me alguma coisa doce”, era o que dizia. Expressões da avó, “Alto!”, se o perigo se aproxima, “Pronto, pronto”, se nos estamos prestes a comover e como modo de impedir que tal aconteça, ou se nos estamos a desdobrar em demasiados agradecimentos ou a entrar por intimidades escusadas. Essa foi a casa da literatura: os avós são os leitores da minha vida, que liam romances antes de se deitarem e durante o dia e me deixavam ler livros de adultos.
Aos dez anos, com grande cerimónia, a avó ofereceu-me As Mulherzinhas, de Louisa May Alcott. Era quase tão importante como já poder ter a chave de casa, que recebi na mesma idade. Aos doze, Servidão Humana de Somerset Maugham, como antes me oferecera Coração, de Edmundo De Amicis, Júlio Dinis, Camilo, Eça, Gil Vicente, Dostoiesvki, Brontë, Dickens, Júlio Verne. O avô ia à livraria todos os dias “ver o que havia” e acompanhava as novidades. Detestava ratos de biblioteca, como chamava, entre outros, a Soares, apesar de ser um homem de esquerda, parecia considerar-se uma pessoa de acção. Para ele, “as artes superiores” eram a Literatura e a Matemática.
Todas as manhãs, o avô saía para caminhar pelo troço que ia até Carcavelos. Quando chegava a casa, repetia sempre a mesma frase, “Djaimilia, hoje já fui até Carcavelos! ”, e eu, pequena, ficava impressionada porque a distância me parecia enorme. Chegava a casa com fome e comia um naco de pão duro, num gesto que condensava a sua dieta: pão duro, laranjas amargas, peixe congelado e insípido, sopa insossa, iogurte natural e muesli sem açúcar.
Fui educada para o barulho e para o silêncio. Para saber estar sozinha, dedicada a uma coisa qualquer, sossegada, entretida comigo e com os meus pensamentos e para estar com os outros, na confusão, a falar muito alto, a correr e a brincar.
Era suposto que fosse para a cama mais cedo e, desde cerca dos oito anos, pudesse gozar de duas horas na cama a ler sozinha. A avó ia passando pelo quarto e dizendo, “só mais meia hora, vá”, ao fim de outro tanto passava para rezar comigo uma Ave-Maria, ela aconchegava-me a roupa da cama e apagava a luz.
Começou então a doença dos livros, dos contos de fadas e das histórias de aventuras, de Lucky Luke e dos Grimm e de Andersen, que a avó deixava em cima da cama para mim.
Mas quando penso no que havia de maravilhoso em deixar-me estar, deixar-me imaginar à minha vontade, a partir dos livros, mais vejo como me educava para ser livre e para pensar pela minha cabeça. É então que me dou conta de que ao educar-me para o amor aos livros a avó me educava para o segredo: para construir em mim um mundo de fantasia ao qual ninguém tem acesso, a que ainda hoje recolho. A imaginação talvez seja o maior dos poderes de uma pessoa, o reduto da sua inviolabilidade interior, aquilo que não pode ser destruído, mesmo se nos magoarem.
Foi recolhendo a esse mundo e nutrindo para sempre o quadro vivo dos primeiros dez anos da minha vida que sobrevivi a todos aqueles que quiseram destruir ou invadir a minha imaginação.
Caminho hoje pela estrada que vai de Oeiras até Carcavelos e a distância leva-me cinco minutos. Lá estão, na beira do caminho, as azedas daquele outro tempo, quando parávamos para apanhá-las e saborear as raizes alimadas. A estrada que me parecia imensa faz-se em menos de nada. A caminhada do avô, determinada pelo seu empenho em manter a forma, não me parece menos heróica. Quando falávamos ao telefone, anos depois, e porque corria em casa, como mito, que em menina eu falava muito alto, o avô atendia-me sempre exclamando “Então, Djaimilia! É o avô!” Era já adulta e gritava do meu lado, em resposta, “Avô! Sou eu, a Djaimilia!” “Djaimilia!”, respondia, e antes de começarmos a conversa continuávamos assim alguns segundos, falando aos gritos, como havíamos, segundo ele, falado toda a minha infância.