São muito poucos os países que beneficiam de verdadeiros adeptos no Mundial 2026. O preço dos bilhetes, a viagem longínqua para quem parte da Europa, da Ásia ou de África e as dificuldades de entrada nos EUA afastaram todos aqueles que, em condições normais, colocariam parte do orçamento anual à disposição da própria seleção nacional. O Qatar, porém, quis solucionar o problema.
De acordo com a Associated Press, o governo do Qatar decidiu oferecer a mil adeptos uma viagem totalmente paga para assistir ao jogo desta quinta-feira contra o Canadá. Os qataris viajaram nos últimos dias para Vancouver através de aviões fretados pelo próprio emir do Qatar, o sheikh Tamim bin Hamad Al Thani, e estão alojados em hotéis de luxo — num investimento suportado pelo Fundo de Contribuição Social e do Desporto do país e pela própria Federação que inclui voos, alojamento, transporte local e todas as outras despesas.
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“Antes de tudo, quero agradecer a todos os que fizeram o esforço de viajar até aqui. Estamos muito conscientes da responsabilidade que temos. Vamos fazer tudo o que for possível para que saiam felizes do estádio, para que fiquem orgulhosos de nós”, disse Abdulaziz Hatem, o capitão dos qataris, sendo que o país também convidou jovens do país que estão a estudar nos EUA e no Canadá.
Assim, esta quinta-feira e em Vancouver, o Qatar defrontava o anfitrião Canadá depois do empate na ronda inicial contra a Suíça, sendo que também os canadianos tinham empatado com a Bósnia. Julen Lopetegui lançava Edmilson Junior, Akram Afif e Assim Madibo no ataque qatari, para além do “português” Pedro Miguel na defesa, enquanto que Jesse Marsch apostava em Cyle Larin e Jonathan David no setor ofensivo, deixando ainda Alphonso Davies no banco e contando com Stephen Eustáquio no meio-campo.
A primeira parte foi de absoluto sentido único. Cyle Larin abriu o marcador à passagem do quarto de hora inicial, numa recarga a um remate forte de Jonathan David que Mahmud Abunada defendeu para a frente (16′), David aumentou a vantagem com um grande pontapé de primeira que não deu hipótese ao guarda-redes (29′) e o mesmo David bisou já nos descontos e numa recarga, desta feita, a um cabeceamento de Larin que Abunada defendeu (45+3′). Pelo meio, Homam Ahmed foi expulso com cartão vermelho direto — ou seja, ao intervalo em Vancouver, o Canadá estava a dominar por completo o Qatar e a equipa de Julen Lopetegui até já estava em inferioridade numérica.
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A segunda parte começou com um momento de grande tensão: Assim Madibo fez falta sobre Ismael Koné e o canadiano sofreu uma lesão arrepiante, aparentemente uma fratura exposta, saindo de maca, mas consciente e a acenar às bancadas. Já Madibo, que começou por ver cartão amarelo, foi expulso por decisão do VAR e deixou os qataris com nove elementos com praticamente todo o segundo tempo por disputar.
Já depois da hora de jogo, Nathan Saliba — que tinha acabado de entrar para o lugar de Ismael Koné — carimbou a goleada de livre direto (64′), celebrando de forma tímida com a camisola do colega de equipa que saiu lesionado. Até ao fim, Jacob Shaffelburg também marcou (75′) e Jonathan David fechou as contas e o hat-trick (90+2′). O Canadá goleou o Qatar em Vancouver e carimbou a primeira vitória de sempre num Campeonato do Mundo, marcando mais golos num único jogo do que em todos os jogos disputados em Mundiais até aqui — tinha três, fez seis em 90 minutos.
A estrela
- Naturalmente, Jonathan David. O avançado da Juventus marcou na primeira parte, aumentou a vantagem à beira do intervalo e fechou as contas já nos descontos, carimbando um hat-trick que vai ficar para sempre na história do Canadá. Aos 26 anos, a principal referência ofensiva canadiana está a dar cartas no Mundial 2026 e a agradecer a aposta total de Jesse Marsch — que contrasta com os poucos minutos que o jogador teve com Luciano Spalletti ao longo da última temporada.
O joker
- Como uma espécie de homenagem, Ismael Koné. O médio de 24 anos do Sassuolo estava a ser um dos destaques do Canadá neste Campeonato do Mundo e até era um dos jogadores da competição com maior probabilidade de subir de valorização, cotação e interesse na sequência da competição. Depois de uma bela exibição na estreia contra a Bósnia, Koné estava novamente a contribuir e muito para a prestação canadiana quando sofreu uma lesão arrepiante que o deixa desde já de fora do que resta do Mundial 2026.
A sentença
- Com este resultado, o Canadá tem agora quatro pontos e está na liderança do Grupo B, já que a Suíça tem os mesmos pontos, mas menos golos marcados. Os canadianos carimbaram a primeira vitória de sempre em Campeonatos do Mundo e marcaram mais golos num único jogo do que em todos os disputados na competição até aqui: apontaram seis e tinham três, dois marcados em 2022 e outro já na jornada inaugural, contra a Bósnia. De recordar que, se ficar na liderança do Grupo B, o Canadá garante desde já que joga em casa e em Vancouver tanto nos 16 avos de final como, se for caso disso, nos oitavos de final.
A mentira
- O entusiasmo com o jogo inaugural do Qatar foi manifestamente exagerado. Apesar de o empate contra a Suíça ter sido um ótimo resultado, a prestação da equipa de Julen Lopetegui contra o Canadá tornou evidentes todas as fragilidades individuais e coletivas dos qataris. Se é certo que as duas expulsões e a consequente inferioridade numérica não ajudou, a verdade é que os canadianos já estavam a vencer por dois golos de diferença quando apareceu o primeiro cartão vermelho direto.