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Os salários não são o problema português

Continuamos a querer os resultados de uma economia avançada sem criar, de forma consistente, os incentivos que a produzem.

Diogo Ferreira Gomes
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Ou melhor: são um problema. Mas não são “o problema”.

A discussão pública portuguesa tem uma característica curiosa. Passamos uma quantidade extraordinária de tempo a falar de salários. Falamos dos salários baixos, dos salários médios, do salário mínimo, dos salários dos jovens, dos médicos, dos professores, dos engenheiros e de praticamente toda a gente que receba um recibo de vencimento.

O que raramente discutimos é porque razão os salários são aquilo que são.

Sobretudo, continuamos a discuti-los como se fossem uma escolha.

Nos últimos dias voltou a discutir-se o custo de pagar salários mais elevados em Portugal. Em alguns casos, pagar melhor implica um aumento desproporcionado do custo para a empresa, não apenas pelo salário em si, mas pela forma como o sistema está desenhado. Como quase sempre acontece, a conversa centrou-se imediatamente nos impostos. Uns apontaram o dedo à carga fiscal. Outros defenderam a progressividade do sistema. Cada lado ocupou rapidamente a sua posição habitual.

Talvez a questão mais interessante esteja noutro sítio.

O verdadeiro problema português poderá até nem ser fiscal, mas estratégico.

Há pelo menos vinte anos que o país diz querer exatamente as mesmas coisas: mais produtividade, mais qualificação, mais inovação, mais valor acrescentado, mais retenção de talento e mais crescimento económico.

São objetivos consensuais. Surgem em programas de governo, em relatórios empresariais, em estudos académicos e em discursos políticos de praticamente todas as cores.

O curioso é que continuamos a falar deles como se fossem objetivos novos.

Talvez porque os resultados continuam por aparecer.

Portugal parece aquele aluno que todos os anos promete que este será finalmente o ano em que vai estudar a sério. A intenção existe. O diagnóstico também. O plano, por vezes, até parece convincente. O problema é que o método permanece surpreendentemente semelhante ao dos anos anteriores.

Queremos salários de país desenvolvido.

Queremos reter engenheiros, investigadores, médicos, programadores, gestores e outros profissionais qualificados.

Queremos centros tecnológicos, inteligência artificial, laboratórios de investigação, exportações de elevado valor acrescentado e empresas capazes de competir à escala global.

O que raramente discutimos é se o país continua, em muitos aspetos, organizado para uma realidade diferente.

Há algo de contraditório em exigir resultados de uma economia altamente produtiva enquanto preservamos muitos dos pressupostos de uma economia de baixos salários.

Queremos reter talento.

Continuamos surpreendidos quando um jovem qualificado aceita uma proposta para ganhar o dobro no estrangeiro.

Queremos produtividade.

Debatemos os resultados com muito mais entusiasmo do que debatemos as condições que os produzem.

Esta é, talvez, a principal fragilidade do debate português.

Falamos incessantemente dos sintomas e pouco das causas. Portugal discute salários como se fossem decisões administrativas, quando são resultados económicos.

Um salário não é uma política pública. É uma consequência.

Os salários não aparecem no fim do mês por geração espontânea. Resultam de uma combinação complexa de produtividade, investimento, qualificação, concorrência, inovação e incentivos económicos.

Um país não enriquece porque decide pagar melhor. Consegue pagar melhor porque enriqueceu.

Um salário elevado não nasce de um decreto, de uma campanha institucional ou de uma conferência sobre competitividade. Nasce de uma economia capaz de gerar valor suficiente para o sustentar.

A discussão fiscal regressa aqui, não como protagonista, mas como parte de uma questão mais ampla.

Um país pode escolher tributar mais ou menos. Pessoas razoáveis podem discordar sobre o nível adequado de redistribuição ou sobre a intensidade da progressividade fiscal.

Existe, no entanto, uma pergunta à qual é mais difícil escapar.

Os incentivos do sistema estão alinhados com os objetivos que o país afirma perseguir?

Quando uma empresa investe mais, exporta mais, produz mais ou decide pagar melhor a um trabalhador altamente qualificado, encontra um caminho facilitado ou um percurso cheio de fricções?

A resposta interessa mais do que qualquer discussão ideológica sobre impostos.

Refere-se à coerência do modelo.

O debate nacional sobre salários tem, aliás, uma característica quase meteorológica. Observamos o fenómeno, lamentamos o resultado e aguardamos pela previsão seguinte.

Entretanto, os problemas repetem-se.

O país mudou de ambição.

Nem sempre é evidente que o sistema tenha mudado com ele.

Queremos competir através do conhecimento, da tecnologia, da especialização e do talento. Queremos uma economia mais sofisticada, mais produtiva e com salários mais altos.

Tudo isso exige uma condição simples: pessoas e empresas altamente eficientes que possibilitem a devida remuneração.

Apesar disso, continuamos frequentemente a olhar para salários elevados como uma exceção que precisa de explicação, em vez de um resultado que deveria ser normal.

Continuamos a querer os resultados de uma economia avançada sem alterar, de forma consistente, os incentivos que a produzem.

Talvez por isso o debate nacional sobre salários se pareça tantas vezes com uma conversa sobre consequências e tão poucas vezes com uma conversa sobre causas.

Portugal não precisa apenas de salários mais altos.

Precisa de um modelo económico que os produza de forma natural.

Porque a prosperidade não se decreta. Constrói-se.

Portugal passa uma grande parte do tempo a discutir como distribuir riqueza. Continua desconfortavelmente relutante em discutir como criá-la.

Talvez o problema português não seja a distribuição da prosperidade. Talvez seja a sua escassez.

Um país que continua a tratar salários elevados como acontecimentos extraordinários talvez esteja a revelar algo mais profundo: não uma dificuldade em distribuir riqueza, mas uma dificuldade em criá-la.

Essa continua a ser a discussão que evitamos ter.