(c) 2023 am|dev

(A) :: Crise na CNE. Orçamento para 2027 chumbado por maioria simples

Crise na CNE. Orçamento para 2027 chumbado por maioria simples

CNE não vai conseguir cumprir calendário para apresentar orçamento à Assembleia da República. Proposta de 3,1 milhões previa contratação de mais seis funcionários, que gerou contestação.

Mariana Furtado
text
Luís Rosa
text

Quando todos os elementos da Comissão Nacional de Eleições (CNE) voltaram a sentar-se à mesma mesa nos plenários, o pior parecia ter passado. Depois de satisfeitas (ou quase) as exigências de informação financeira por parte de cinco membros — que estiveram na origem da rutura interna — a aprovação do Plano de Atividades e Orçamento para 2027 poderia ser uma formalidade. Mas não foi assim. Resultado: rejeitado.

Ao que o Observador apurou, o documento foi chumbado por maioria simples, num plenário em que estava presente um número total de nove elementos. O Observador conseguiu confirmar que os cinco membros que contestam o rumo atual da CNE (Teresa Leal Coelho, Rodrigo Roquette, João Tomé Pilão, Mafalda Castro de Sousa e Miguel Ferreira da Silva) votaram contra a proposta apresentada pelo presidente João Carlos Trindade — o que, por si só, seria suficiente para ditar o chumbo. Contudo, não é claro se mais algum membro do plenário se juntou a esse grupo no chumbo ou se absteve.

https://observador.pt/2026/05/06/cinco-elementos-da-cne-suspendem-participacao-no-plenario-por-lhes-ser-vedado-o-acesso-a-dados-da-gestao-financeira/

As razões para o chumbo — e a consequência: Finanças podem determinar o orçamento

Ao que o Observador apurou, as razões para o chumbo prendem-se com o que é visto como um despesismo injustificado: um volume de despesa previsto de 3,1 milhões de euros para um ano praticamente sem eleições (à exceção do ato eleitoral para o Conselho das Comunidades Portuguesas).

Contudo, segundo explicou Sérgio Pratas (membro do plenário da CNE) ao Observador, este valor continua a ser inferior ao orçamento de 2026 (3,5 milhões de euros), ano de eleições presidenciais, e ao previsto para 2025 (cerca de 3,7 milhões de euros) — que concentrou legislativas, autárquicas e as regionais da Madeira.

https://observador.pt/programas/resposta-pronta/teresa-leal-coelho-ha-um-descontrolo-financeiro-na-cne/

Outra das questões suscitadas era a do mapa de pessoal que, segundo a proposta de orçamento para o próximo ano, previa a contratação de mais seis funcionários que não tinham sido contratados no ano anterior.

Sérgio Pratas explica, por outro lado, que a proposta de orçamento para 2027 já contempla a contratação dos seis funcionários. Sobre esta matéria, o jurista esclarece que, durante a discussão pré-votação (a qual, segundo o próprio, foi apressada), os restantes quatro membros, incluindo o próprio presidente do órgão, demonstraram abertura para rever a necessidade destas contratações, ou, pelo menos, de parte delas.

Nesse sentido, Sérgio Pratas e um outro membro colocaram a hipótese de reduzir o número de contratações de seis para três — aquelas que consideram verdadeiramente relevantes. Uma delas estaria ligada à área do site, outra seria para o gabinete de estudos (com foco na implementação da lei em atos eleitorais), enquanto a restante considerada essencial abrange as áreas de recursos humanos e orçamento. Ainda assim, para garantir a aprovação da proposta de orçamento, Sérgio Pratas admitia a possibilidade de se acordar a contratação de zero funcionários.

Sendo um órgão tutelado pela Assembleia da República, é ao Parlamento que a CNE tem de apresentar o orçamento. E tinha até esta sexta-feira para o fazer. Perante a não aprovação — e a impossibilidade de apresentar uma nova proposta a tempo — o valor ficará ao critério do Ministério das Finanças. Uma coisa é certa: valerá o anterior, de 2026, embora com alterações que a tutela entenda necessárias.

https://observador.pt/especiais/duas-auditorias-bloqueio-de-dados-financeiros-e-mil-processos-pendentes-anatomia-da-rutura-na-comissao-nacional-de-eleicoes/

Este é mais um episódio da guerra entre as duas facções dentro da CNE, num cenário onde parecia ter sido acordado um armistício, após o regresso dos cinco elementos que haviam suspendido a sua presença no plenário. A decisão foi justificada com o facto de estarem a ser privados de dados e informações que consideravam vitais para conseguirem exercer o seu mandato, acusando a direção de um “descontrolo financeiro” e uma “cultura de obscuridade”.

A rutura já se tinha tornado evidente no início de abril quando o grupo enviou uma queixa ao Conselho Superior da Magistratura (o órgão disciplinar dos juízes) contra o presidente da CNE, o juiz conselheiro João Carlos Trindade, por decisões que consideram atentar “contra a legalidade democrática”, tal como revelou o Observador em exclusivo no início de abril.

(Notícia corrigida com o valor do orçamento da CNE para 2025 e acrescentadas declarações de Sérgio Pratas às 18h00 de sexta-feira)