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(A) :: A discussão, o plano de vingança e as pistas falsas. O que levou uma madrasta a matar a enteada de oito anos em Valpaços

A discussão, o plano de vingança e as pistas falsas. O que levou uma madrasta a matar a enteada de oito anos em Valpaços

Lara apanhou o autocarro como sempre, mas não chegou à escola. Madrasta surpreendeu-a no portão e levou-a para a serra, onde a terá asfixiado. Quereria vingar-se do pai, depois de uma discussão.

Miguel Pinheiro Correia
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A família era discreta. Tirando o pai, nascido e criado na pequena aldeia de Celeirós, em Valpaços, os vizinhos pouco sabiam do que se passava naquela casa amarela colada à estrada. Viam-nos juntos, sobretudo, nas festas de verão. No dia a dia, com o casal a trabalhar, só viam a “menina bonitinha” que ficava quase à porta de casa à espera do autocarro que a levava à escola.

A rotina matinal manteve-se na quarta-feira, horas antes de Lara ter sido encontrada morta na Serra da Padrela, a cerca de 30 km de casa e a 20 km da escola. O motorista do autocarro levou-a até ao local habitual, mas, ao contrário do que sempre aconteceu, a criança de oito anos não passou o portão. Antes, a madrasta raptou-a à vista de todos os pais que, àquela hora, deixavam os filhos para mais um dia de aulas. Os alarmes não soaram até ao final do dia, quando o pai estranhou a ausência da filha.

Ouça aqui as últimas horas da criança de oito anos no podcast “A História do Dia”

https://observador.pt/programas/a-hist-ria-do-dia/as-ultimas-horas-de-uma-menina-de-oito-anos/

O alerta foi dado, num primeiro momento, para a Guarda Nacional Republicana (GNR). Os militares ouviram os apelos do pai e juntaram as peças. Somados os indícios, foi acionada a Polícia Judiciária (PJ), que desde cedo começou a afunilar as suspeitas na madrasta da criança. Quando a encontraram, a cerca de 60 km dali, a mulher assumiu a autoria do crime.

Se, por um lado, confessou o rapto e homicídio de Lara, por outro, ainda tentou dificultar o trabalho dos inspetores com pistas falsas. “Demorou algumas horas [a localizar o cadáver] porque ela indicou-nos vários locais onde não estava”, admitiu David Martins, diretor da PJ de Vila Real.

Antes de surgirem os primeiros raios de luz, os faróis dos carros da polícia e as luzes que sinalizam as inúmeras turbinas eólicas eram a única iluminação da acidentada Serra da Padrela, entre Valpaços e Vila Pouca de Aguiar. Aí, entre pinheiros e castanheiros, a madrasta terá deixado a criança, já morta, depois de a ter asfixiado. Essa é a convicção da PJ, que aponta os motivos: uma relação do casal marcada por desavenças e uma discussão tensa com o filho da suspeita.

No Café Fontes, nos portões das casas e junto à capela da localidade, os vizinhos de Celeirós repetem a tese da PJ até fazer sentido. Em negação, lamentam a morte da “bonequinha” que por ali passava. “Não acredito nisto. É impossível tentar perceber como se faz uma coisa destas. Coitados daqueles avós”, lamenta um vizinho e amigo da família que, antes de Lara, tinha visto o pai crescer.

Casal chegou a terminar a relação, mas pai de Lara quis reatar. “Mal sabia ele que estava a ir buscar a morte da filha”

Aquela casa discreta e tapada por árvores onde Lara viveu os últimos anos nem sempre foi a sua casa, mas aquela aldeia sempre conheceu muito bem o seu apelido. “O pai sempre foi muito bom moço”. As memórias felizes da infância do pai da criança ajudam a disfarçar as lágrimas de quem conhecia a família.

Enquanto tira os óculos para limpar os olhos, António traça o perfil atual da aldeia da freguesia de Friões. O movimento diário que antes se sentia, agora só é intensificado no verão, quando regressam ali os emigrantes que tiveram de partir do norte de Portugal para o centro da Europa. Ele foi um dos rostos dessa migração, tal como aconteceu, numa fase posterior, com os dois irmãos do pai de Lara, Carlos.

Os três cresceram na aldeia, mas só Carlos ficou por Trás-os-Montes, onde acabaria por conhecer a mãe da criança, que vivia noutra localidade perto de Celeirós. O casal separou-se depois do nascimento da menina, quando a mulher passava por uma depressão. Os problemas psicológicos levaram a que o pai ficasse com a guarda da filha nos primeiros anos de vida.

“Há cerca de cinco anos”, como indicou a própria PJ, o pai de Lara começou uma relação com Eulália. Pouco depois, a mulher abandonou Macedo de Cavaleiros, a sua terra natal, e foram os três viver para a casa amarela em Celeirós. Durante estes anos, a relação do casal não foi fácil e chegaram a afastar-se, mas acabaram sempre por reatar. “Uma vez, ela foi embora e ele foi atrás dela. Mal sabia ele que estava a ir buscar a morte da filha”, resume um vizinho.

No portão de casa, uma das vizinhas também recorda a família que poucas vezes era vista junta. “O pai trabalhava muito, ela [a madrasta] quase nunca a vi. Via mais vezes a Lara, que andava na catequese e na escola com as minhas netas”, diz, enquanto pede para não ser identificada — “aqui somos poucos, todos nos conhecemos”. A criança de oito anos estava a uma semana de fazer a primeira comunhão na Paróquia de Friões, lamenta a vizinha com os olhos fixos no chão. “Era uma menina linda de morrer.”

Conta que os três nem sempre estavam sozinhos. “Às vezes, ao fim de semana, estava aí o filho da madrasta, que até fez anos há pouco”. A PJ explica que este menor, peça central na teoria da investigação e filho de um anterior relacionamento de Eulália, “está institucionalizado em Bragança por mau comportamento”, motivo pelo qual só estava com a mãe sábados e domingos. Segundo o Correio da Manhã, na origem da institucionalização estarão agressões aos avós.

Ao Observador, fonte oficial da CPCJ de Valpaços garantiu apenas que, no momento do desaparecimento, não estavam abertos processos de acompanhamento a Lara. A mesma fonte não adiantou, para já, se no passado foram desencadeados processos de acompanhamento — que, tendo havido, podem ter terminado com arquivamento ou reencaminhamento para o Ministério Público. O Observador perguntou ao MP se tinha conhecimento de algum processo, mas não obteve respostas até à publicação deste artigo.

Vizinho ouviu muito barulho durante a noite e estranhou. Corpo de Lara foi encontrado de madrugada na serra

Desde que regressou de França, onde ainda tem um filho, um dos vizinhos que conversaram com o Observador voltou a ter mais contacto com os avós de Lara. “Vivia mais perto dos avós do que do pai, por isso não o via muito”. O mesmo não se podia dizer da filha. “Ela vinha aí apanhar o autocarro para ir para a escola”, conta. E, nas férias, via-a a passear com os avós e os primos emigrantes que passam o verão em Celeirós com o resto da família.

Na quarta-feira, não a viu. O dia longo estava quase a terminar quando viu passar a avó da criança na rua. “Como já era de noite, achei estranho e ainda perguntei: ‘Vai passear a estas horas?'” Não esperava a resposta. “Disse-me que a menina estava desaparecida, que ninguém sabia dela.”

Voltou para casa e tentou não pensar no assunto, enquanto torcia para que encontrassem Lara, com vida. Quando já tinha conseguido adormecer, acordou sobressaltado de madrugada com berros vindos da casa dos avós. “Eram umas 5h30. Achei estranho”. A temer o pior, tentou falar com outro familiar para saber o que tinha acontecido. Um dia depois de ter recebido a informação da morte da “bonequinha”, como repete várias vezes, continua no mesmo estado: negação.

“Não há palavras. Ainda vamos vendo bastantes notícias de mortes, mas assim… Já vi muitas mães ou pais que matam filhos, mas uma pessoa nunca espera que nos toque a nós”, diz, a chorar, enquanto olha para a casa da família e o local onde, sem falha, Lara apanhava o autocarro.

Enquanto este vizinho ansiava por um final feliz para o desaparecimento da criança, a família desesperava. “A comunicação de perigo foi recebida por esta CPCJ [de Valpaços] no momento imediato em que foi denunciado o seu desaparecimento, nomeadamente às 18h51m do dia 17 de junho de 2026. Nesta sequência foram efetuadas as diligências imediatas em estreita articulação com a Polícia Judiciária e GNR”, refere esta CPCJ numa nota enviada ao Observador.

O pai só se apercebeu quando, à hora habitual, não viu a filha chegar a casa. “A investigação da PJ teve início na sequência da comunicação, ontem, ao final da tarde, do desaparecimento de uma criança, na localidade de Carrazedo de Montenegro”, referiu a PJ em comunicado. Assim que os inspetores realizaram diligências, conseguiram “apurar indícios de que a vítima teria sido alvo de agressão violenta, da qual resultou a sua morte, ao que tudo indica por asfixia mecânica”.

As conversas com as testemunhas e o historial do casal levou a PJ a identificar rapidamente Eulália como “presumível autora dos factos, bem como a recolha de indícios consistentes da sua alegada intervenção na morte da menor e na subsequente ocultação e abandono do cadáver, em zona florestal, na serra da Padrela, em Vila Pouca de Aguiar”.

Uma das vizinhas só soube da morte na manhã de quinta-feira, quando um familiar de Lara lhe contou. Outro, que vive mais isolado, só se apercebeu quando viu os jornalistas à porta da casa de Carlos. “Eu vi a notícia da morte de uma criança no Facebook, mas era de Valpaços, não era daqui”. Confrontado com a realidade, ficou abalado e dirigiu-se ao Café Fontes na expectativa de saber o que tinha acontecido ou para ouvir alguém dizer que não passava tudo de um engano. “Como é que se faz isto a uma criança”, disse, horas depois, novamente em frente à casa da família.

“Tudo indica que será vingança”. Madrasta não gostou de ver pai de Lara a corrigir o seu filho

No meio de muita especulação, nas conversas entre vizinhos, nos comentários nas televisões e nas mensagens nas redes sociais, o diretor da PJ de Vila Real tentou explicar o foco da investigação e, principalmente, qual o motivo para este alegado homicídio — uma pergunta que ecoava em todos os espaços onde o tema era discutido.

“Para já — ainda estamos em fase de investigação — tudo indica que será uma questão de vingança”, apontou David Martins, que mencionou a hipótese de a mulher ter ciúmes por o marido dar mais atenção à filha. Mas o diretor aponta para um episódio concreto.

“O que terá despontado esta situação terá sido o filho da [suspeita] — ele está institucionalizado em Bragança por mau comportamento”. Este fim de semana, quando celebrava o seu 12.º aniversário, o menor terá tido “um comportamento violento”. As agressões tornaram-se mais evidentes e o padrasto interveio, segurando o braço do agressor. “A mãe não terá gostado dessa situação e terá sido isso que a terá levado a vingar-se na criança.”

Depois do desaparecimento de Lara, a PJ encontrou a madrasta em Macedo de Cavaleiros, de onde é natural. “Na companhia dela fomos realizando diligências, ela acabou por confessar que foi a autora do crime”, não sem antes indicar algumas localizações erradas, que acabaram por atrasar a descoberta do corpo, acrescentou David Martins, que reforça a tese de um homicídio motivado por desejo de “vingança” e “desavenças com o marido”.

“A detida será presente à autoridade judiciária competente para primeiro interrogatório judicial e aplicação das medidas de coação tidas por adequadas. A investigação prossegue, no âmbito de inquérito titulado pelo Ministério Público de Valpaços”, refere a PJ no comunicado enviado às redações.

Psicólogos estiveram na escola a apoiar alunos

À porta da escola onde, na quarta-feira, Lara não chegou a entrar, reuniam-se, na tarde de quinta-feira, dezenas de pais. A concentração não estava relacionada com o homicídio, mas o tema era incontornável nas conversas. “É uma vergonha não haver aqui uma homenagem à miúda”, dizia um pai, que preferiu não dizer o nome.

Tinha umas flores preparadas para trazer, mas terá que levá-las, agora, à Serra da Padrela, onde foi encontrado o corpo. Os pais que ao final da tarde ainda estavam em frente ao portão esperavam uma turma que tinha ido de visita de estudo ao Zoo de Santo Inácio, em Gaia. “Até foi melhor eles hoje não terem ficado na escola”, comentavam. Quando o autocarro deixou as crianças, os pais perguntaram pelos “leões” e “girafas”, na tentativa de distrair os filhos da tragédia que agora abala a comunidade escolar.

“Eles ainda não têm noção, estas coisas não os afetam tanto”, entende um encarregado de educação. Outro contraria: “O meu pediu-me para ligar a televisão para ver as notícias sobre a Lara.” Certo é que, esta quinta-feira, estiveram psicólogos na escola a apoiar os alunos, sobretudo os mais próximos da menina encontrada morta. Para já, garante fonte escolar ao Observador, foi cancelada a festa de final de ano letivo que teria lugar na próxima semana.

Apesar dos pedidos de alguns pais, a escola e o agrupamento ainda não prestaram esclarecimentos oficiais sobre o caso. Os encarregados de educação mostram-se indignados com a forma como foi possível raptar uma criança que já estava a entrar na escola e tentam saber se Eulália tinha autorização para levar Lara.

“Ela aborda a criança e diz que a vai levar. O que é certo é que a criança cedeu, entrou no carro e a partir daí ela leva-a para a serra, caminha com ela alguns metros e asfixia-a”, resume David Martins, da PJ de Vila Real.

Enquanto Eulália aguarda para ser presente a um juiz, o pai da criança voltou a casa dos avós, em Celeirós, para fazer o luto pela morte da filha. Foi lá que esta quinta-feira também recebeu apoio psicológico.

“É difícil pedir justiça para um caso destes. Nada parece justo para o que aconteceu. Nada vai trazer a Lara de volta”, desabafa um dos vizinhos da família.