Cinco membros do grupo neonazi Movimento Armilar Lusitano (MAL), entre eles um agente da PSP em funções na Polícia Municipal de Lisboa, um agente imobiliário, um soldador e um engenheiro de sistemas, foram acusados pelo Ministério Público de crimes de terrorismo. Ao todo, nove pessoas ligadas ao MAL foram acusadas de 29 crimes, entre os quais tráfico de armas e detenção de arma proibida.
O agente da PSP e número 2 do grupo neonazi foi o único acusado de dois crimes de abuso de poder e de dois crimes de acesso ilegítimo. Disse ter obtido a morada do primeiro-ministro Luís Montenegro, em Lisboa, e informação sobre o policiamento a que estava sujeita, e uma possível ação foi discutida pelos neonazis.
“Consegui a morada de um certo atual primeiro-ministro, aquele conhecido pelo Monstro Negro”, escreveu num grupo do Signal. Contudo, considerou que o sequestro do primeiro-ministro estaria fora de hipótese, mas que deveriam “cogitar dispararem uma granada de 37mm através de uma janela para o interior da casa de Luís Montenegro”. “Sequestro é para esquecer, mas uma granada de 37mm disparada por uma janela adentro não está fora da ementa”, afirmou.
https://observador.pt/especiais/movimento-armilar-lusitano-o-grupo-neonazi-que-gastou-milhares-de-euros-em-armas-3d-e-explosivos-e-ameacou-marcelo-e-gouveia-e-melo/
Marcelo Rebelo de Sousa ameaçado com lançador de foguetes antitanque
Contudo, também Marcelo Rebelo de Sousa foi referido, igualmente com menção a armamento. Em março de 2024, dez dias depois das eleições legislativas, outro membro do MAL viu uma imagem partilhada no grupo do Signal de um RPG3, que se trata de um lançador de foguetes antitanque portátil. “Que maravilha! Isto era capaz de abater o nosso PR, não?”, perguntou.
Além de Marcelo Rebelo de Sousa e Luís Montenegro, também foram considerados “alvos” do Movimento Armilar Lusitano e colocados numa chamada “lista dos indesejáveis”, pessoas como Marques Mendes, Cavaco Silva, ou Carlos Moedas, além de outros políticos como as irmãs Mortágua ou Rui Tavares, celebridades como Nuno Markl, Ricardo Araújo Pereira, Tânia Graça ou Diogo Faro, além de associações como o Observatório de Violência Obstétrica, a Habita, o Climáximo, a ILGA ou o Movimento Vida Justa.
“Nenhum dos cinco arguidos (…) tinha algo, em concreto e pessoal, contra nenhum dos indivíduos e entidades referidos, com que não privavam ou conheciam”, lê-se no despacho de acusação a que o Observador teve acesso. “Trata-se de Governantes, Políticos, Partidos e Movimentos, Jornalistas, Comentadores, Académicos, Artistas, Activistas, organizações, sendo que a maioria dos nomes e organizações está associada, de forma directa ou indirecta, a causas ou ao debate público português relacionados com a inclusão social, imigração, anti-racismo, anti-fascismo, diversidade, direitos das minorias, activismo cívico ou a sectores políticos normalmente identificados como centro-esquerda e esquerda.”
A base de dados tinha os que “entendiam ser todos os responsáveis pelo declínio da nossa Nação” e os membros do MAL queriam “investigá-los, ponderando a criação de Tribunais Populares para julgar e punir os condenados”. As intenções não chegaram a ser executadas por falta de meios humanos e materiais, considera o Ministério Público.
https://observador.pt/2026/05/06/investigacao-ao-grupo-neonazi-movimento-armilar-lusitano-ja-tem-mais-de-10-arguidos/
Neonazis compraram bidões, encheram-nos de provisões e enterraram-nos
Segundo a acusação, o Movimento Armilar Lusitano nasceu, a partir de outros movimentos neonazis, em setembro de 2019 como um “grupo/movimento de extrema-direita, nacionalista, neonazi, fascista, supremacista branco, anti-sistema, aceleracionista, conspiracionista, negacionista, autoproclamado defensor da soberania nacional”. Num grupo do Telegram, a data de nascimento de Hitler foi assinalada pelo fundador do MAL em 2023 com um elogio a “um dos homens mais brilhantes que nasceu”, mas também suscitou um protesto. “Tava a ver que ninguém lembrava…”, respondeu outro membro.
O MAL “propunha enfrentar as ameaças contra Portugal e os Portugueses e apresentar uma clara alternativa ao regime instalado”, “apoiado por uma milícia paramilitar”. Para este intuito, o contributo do agente da PSP, que tinha conhecimento acima da média sobre armamento e explosivos, era essencial: chegou mesmo a organizar treinos de recruta para novos elementos. A ele, cabiam também as entrevistas para perceber “se os candidatos reuniam os requisitos e perfil necessário para serem membros do MAL” e uma das compras essenciais de… bidões.
Com 60 litros e pelo preço de dez euros, a compra do bidão suscitou discussão no Signal entre cinco membros do MAL sobre que provisões lá seriam guardadas. Uns sugeriram armas, outros material de primeiros socorros e alimentos. “Se ou quando viermos a precisar disso, teremos mulheres para cozinhar enquanto temos de ir limpar o sebo a alguém”, previu o líder do MAL. Nove dias depois, enterraram o bidão cheio de alimentos e bebidas de validade alargada, máscaras, acendalhas, fósforos, sabonete e álcool na Arrábida. Duas semanas depois, um deles foi visitar o bidão e disse que o esconderijo estava como o deixaram. Foi o primeiro de pelo menos três: o segundo, com alimentos e bebidas no valor de €100, foi enterrado em Monsanto, Lisboa, mas o terceiro não cumpriu o seu destino: acabou esquecido em casa de um deles.
https://observador.pt/2025/06/27/pelo-menos-uma-dezena-de-policias-e-militares-pertenciam-a-grupo-neonazi/
Impressoras 3D usadas para armas e explosivos potentes encontrados em buscas
Quando, em junho de 2025, o Movimento Armilar Lusitano foi desmantelado pela Unidade Nacional Contra Terrorismo da Polícia Judiciária (UNCT-PJ), as casas dos seus elementos foram alvo de buscas. Em suportes digitais que pertenciam ao polícia, foram encontrados ficheiros relacionados com explosivos, propelentes e pirotecnia, mas também sobre armas e munições artesanais. Contudo, o arsenal não era só virtual. Na sua casa, eram guardados explosivos como TNT, cordão detonante, detonadores elétricos e granadas.
Uma das munições encontradas tinha capacidade para uma explosão e projeção de fragmentos até uma distância de 25 metros, “com efeito particularmente devastador, até dois metros de distância e 1,5 metros de altura”, indica o despacho de acusação.
Na casa dos número 1 e número 2 do MAL, estavam quatro impressoras 3D. Em casa do polícia, foram encontradas várias armas criadas através deste método de fabrico, e, em casa de uma outra pessoa, estava uma faca de lâmina curta também feita por uma impressora.
Segundo o Ministério Público, os dois líderes do MAL “agiram com a intenção, concretizada, no âmbito e para os fins do MAL, de adquirirem por si mesmos, receberem e transmitirem, uns aos outros reciprocamente, conhecimentos relativamente ao fabrico em 3D e utilização de explosivos, armas de fogo ou outras armas e substâncias nocivas e perigosas, cujas características conheciam, com a intenção concretizada de, no âmbito e para os fins do MAL, nomeadamente para as usarem em ações futuras contra os referidos alvos, deterem e fabricarem cada vez mais armas em 3D e deterem e manusearem aquelas substâncias para as quais bem sabiam não terem qualquer licença e que eram proibidas”.
Quatro dos suspeitos do Movimento Armilar Lusitano, entre eles o líder e o número 2, encontram-se em prisão preventiva.