Entre 7 de junho de 1968, quando foi assassinado José Antonio Parfines Arcay, um guarda civil de 25 anos, enquanto controlava o trânsito numa estrada nacional no País Basco, e 20 de outubro de 2011, quando a ETA anunciou um cessar-fogo permanente, 864 pessoas morreram e sete mil ficaram feridas em Espanha devido a ações diretas do grupo terrorista nacionalista basco. A última vítima foi Jean-Serge Nérin, um polícia francês de 52 anos, que foi assassinado durante um tiroteio envolvendo membros da ETA nos subúrbios de Paris. Nascido no final dos anos 50, ainda durante a ditadura franquista, para promover a cultura basca, na década seguinte, o grupo evoluiu para uma organização paramilitar separatista, que defendia a independência da região histórica do País Basco, Euskal Herria. O período mais negro da história da estrutura terrorista basca corresponde aos anos 80, quando foram perpetrados os ataques mais mortíferos, com recurso a carros-bomba, como o da Praça da República Dominicana, em Madrid, em 1986, e o do hipermercado Hipercor, em Barcelona, em 1987, que provocaram, ao todo, 33 mortos.
É sobre estes dez anos, os chamados anos de chumbo da ETA, que fala As Feras, o mais recente livro de Clara Usón, considerada uma das vozes mais importantes da literatura espanhola contemporânea. Recentemente publicado em Portugal pela Elsinore, com uma belíssima tradução de Rita Graña, As Feras é um romance híbrido, no qual se entrelaçam “pessoas e factos reais com personagens e acontecimentos fictícios”, como explica a própria autora, no final da obra, para assim se construir um retrato vívido e realista do País Basco nos anos 80. A história é contada por diferentes narradores, cada um com a sua própria perspetiva dos acontecimentos e da atuação da ETA e das forças de segurança, em especial dos Grupos Antiterroristas de Libertação (GAL), na luta contra o terrorismo basco. Acompanha de perto os anos de juventude de María Ortega, uma adolescente nascida nas Canárias “por acidente”, que se muda com a família para a província da Biscaia, no País Basco, onde o pai, um polícia alcoólico e problemático, com um currículo manchado por inúmeros processos disciplinares, é colocado. Enquanto tenta encontrar o seu lugar num mundo em ebulição, María, uma jovem sem qualquer sentido de pretensa por causa das inúmeras mudanças da família a reboque do pai, um homem machista e violento, vê-se confrontada com a escalada de violência, que acaba, também, por pesar no destino do seu núcleo familiar, tal como aconteceu com tantos outros civis, que sofreram as consequências de uma guerra que, supostamente, não os devia envolver.
A vivência traumatizante de María Ortega em Euskal Herria, região que acaba por deixar, estabelecendo-se em Inglaterra, faz com que desenvolva uma obsessão pela terrorista basca Idoia López Riaño, cuja história se cruza, em As Feras, com a sua própria.
Nascida em 1964, no País Basco, de pais migrantes (o pai era da comunidade de Castela e Leão e a mãe da Estremadura), Riaño entrou para a ETA em 1980, com apenas 16 anos, influenciada pelo namorado, José Ángel Aguirre Aguirre, influente membro da organização. Dois anos depois, integrou o comando Oker, composto por alguns dos membros mais infames do grupo terrorista basco. Além da Tigresa, como Riaño era conhecida fora da ETA, o comando Oker era composto por Aguirre Aguirre (o líder), Ramón Zapirain Tellechea e Arturo Cubilla, mas foi Riaño, a única mulher do grupo, que, com o tempo, alcançou “uma fama sinistra”. O comando foi desmantelado em outubro de 1985, depois de ter participado em, pelo menos, 31 atentados, entre os quais se incluem o assassinato de Ángel Facal Soto, de 42 anos, coproprietário de uma empresa de rebocadores; de Joseph Couchot, de 49 anos, um empresário francês da área dos transportes; e de Máximo Antonio García Kleiner, de 29 anos, membro da Polícia Nacional. Os alvos preferenciais da ETA eram as forças de segurança e os colaboradores do governo espanhol, entre os quais se incluíam funcionários públicos como juízes e advogados. Contudo, ao longo dos seus mais de 50 anos de atividade, a organização terrorista vitimou, sobretudo, civis. Ao todo, terão morrido 343 pessoas, em oposição, por exemplo, aos 206 guardas civis e 149 polícias nacionais assassinados durante o mesmo período. No caso da morte de Facal Soto, a ETA alegou que o homem de 42 anos era traficante de droga, enquanto que, segundo o que foi noticiado na altura, Couchot teria ligações aos GAL, surgidos em 1983, com o apoio da polícia, para combater a organização terrorista através do chamado “terrorismo de Estado”.

Até à sua detenção nos anos 90 em França, de onde foi extraditada, mas não imediatamente, para Espanha, Riaño participou nalguns dos ataques mais brutais da organização terrorista, incluindo o atentado da Praça da República Dominicana, perpetrado pelo chamado comando Madrid, do qual fazia parte, juntamente com Juan Manuel Soares Gamboa, José Ignacio de Juana Chaos, Antonio Troitiño, Inés del Río e José Arrieta Zubimendi, e na tentativa frustrada de assassinato do presidente do Supremo Tribunal espanhol, Antonio Hernández Gil, em 1986. Em 2003, a Tigresa foi condenada a 1.573 anos de prisão pela morte de 21 pessoas, entre 1984 e 1986, tendo assumido apenas duas, as de Ángel Facal Soto e de Joseph Couchot. Durante os 23 anos em que esteve presa (ao abrigo da lei então em vigor, só podia passar, no máximo, 30 anos na prisão), passou por vários estabelecimentos prisionais espanhóis, tendo cumprido a reta final da pena na prisão basca de Nanclares de la Oca, em Álava. Depois de ter usufruído de oito precárias, foi libertada em 2017, aos 52 anos, e desapareceu dos radares do público e da imprensa.
Clara Usón dedica muitas páginas do seu romance à Tigresa, descrevendo pormenorizadamente, mas de forma não sequencial, o seu percurso dentro da ETA — desde a sua entrada para o grupo em 1980 até à sua expulsão em 2011, quando, para conquistar alguns benefícios dentro na prisão, assinou um documento em que renegou a organização e pediu perdão às vítimas —, e a sua transformação numa figura quase lendária do terrorismo basco, com ênfase na sua beleza hipnótica — os “olhos azuis enormes” e a “copiosa cabeleira de caracóis pretos que desenhavam caracolinhos na testa” —, a qual, de acordo com a autora, lhe permitiu alcançar muitos sucessos, dentro e fora do grupo terrorista basco. É isso mesmo que diz María, que vai narrando a história de Riaño a par da sua, e que, nos primeiros capítulos de As Feras, é entrecortada por comentários feitos pela própria Tigresa, que, a certa altura, se chateia com a narradora e desaparece do romance, argumentando que as palavras que lhe são atribuídas são “todas falsas, com exceção de uma ou outra”.
A sua beleza tem muito que ver com a sua fama. A mulher fatal, a bela assassina, fascina-nos porque parecem encarnar uma contradição; de uma terrorista esperamos um rosto agreste, duro, violento, quase conseguimos compreender que mate por rancor ou desespero. Uma mulher feia tem direito à amargura. Uma mulher bonita deve estar agradecida à sua boa fortuna, e desatar aos tiros contra desconhecidos é um ato de ingratidão suprema.”
A beleza de Riaño, enfatizada várias vezes ao longo do livro, serve a Clara Usón para tecer inúmeras considerações acerca da natureza do mal e da forma como é entendido, sobretudo quando tem origem numa mulher bonita. “Talvez de forma inconsciente, arrastemos a marca da velha associação platónica do bem, do belo e do verdadeiro, ou talvez, seja pura inveja”, afirma. O machismo e a misoginia são outros dois temas centrais do romance. As vidas de todas as mulheres retratadas na obra são, de alguma forma, marcadas pelo preconceito, incluindo da própria Tigresa, que inicialmente terá tido dificuldades em afirmar-se no seio da ETA. Contudo, foi o facto de ser mulher, e uma mulher extremamente bela, que fez com tivesse sucedido onde muitos teriam falhado. “A beleza pode ser um fardo, um peso, uma nódoa, um incómodo”, mas também pode ser uma vantagem. Ao descrever a vida de Riaño na prisão, Clara Usón fala sobre a forma como a terrorista basca tentou reabilitar a sua imagem, afastando-se da imagem da “mulher fatal, vaidosa, fria, sanguinária, bipolar, psicopata”. Abraçou uma nova causa, a violência de género, começou a apresentar-se como um “modelo de virtudes”, que incluíam a inconformidade e a indignação perante a justiça, e a afastar-se da ETA, contra a qual se dizia ter rebelado desde 1986, embora os factos mostrassem o contrário.
Uma pessoa tão bela não pode ter um passado repulsivo; se a cara é o espelho da alma, um rosto belo forçosamente há de refletir uma alma boa, o bom, o belo…, por isso, Idoia aplicou-se a retocar a estética do seu passado, tirou-lhe as verrugas e as cicatrizes, apagou os seus crimes como o dermatologista apaga a laser as manchas da pele, foi uma cirurgiã drástica, corta-se o que sobra! E era muito o que sobrava, tudo o que fizera desde que passou à clandestinidade em 1985 até à sua captura em 1994, quase dez anos de vida eliminados. Após a operação de embelezamento, o seu passado melhorara muito, dava gosto de vê-lo, e Idoia, qual mãe orgulhosa, não se coibia de o exibir e de se vangloriar dele nas suas múltiplas cartas.”
O impacto da beleza na perceção do mal e do outro é ainda explorado através da comparação de Idoia López Riaño com María Dolores González Catarain, conhecida como Yoyes, “a única mulher que atingiu a cúpula da ETA”. Tal como Riaño, González Catarain entrou para a organização terrorista basca ainda muito jovem, no início dos anos 70. Em 1973, após a morte acidental do namorado, durante uma explosão em Getxo, na Biscaia, fugiu para França, onde se tornou membro pleno do grupo e onde chegou a desempenhar funções de chefe política. Com o passar do tempo, e ao contrário de Riaño, González Catarain começou a questionar os valores e os métodos dos seus camaradas, acabando por abandonar o movimento e exilar-se no México, no início dos anos 80. No diário que deixou, Yoyes interroga-se como é que se pode “identificar com dirigentes que a única coisa que sabem fazer é aplaudir os atentados da ETA e pedir mais mortos”, admitindo que um dos seus objetivos era lutar contra a mentalidade machista predominante e impor-se “como mulher num mundo de homens”, o que só terá conseguido fazer quando “já era demasiado tarde”. Quando regressou ao País Basco, em 1985, após ter negociado um salvo-conduto com o governo espanhol, foi assassinada na praça da sua terra natal, Ordizia, diante do filho, por membros da ETA. O grupo terrorista reivindicou o ataque, acusando Yoyes de traidora, um “crime” que também foi imputado à Tigresa depois de ter renegado o grupo em 2011. Só que Riaño teve mais sorte.
Segundo Clara Usón, as diferenças entre Yoyes e a Tigresa não terminam aqui. A aparência de ambas terá ditado a maneira como ambas eram, e são, vistas, e o facto de uma ter ficado para a posteridade e a outra não.
Yoyes não é bonita, os traços do seu rosto são agradáveis, mas, como os das santas nos quadros religiosos, não incitam à luxúria, antes à contemplação serena; os rostos das putas, esses sim, são, ou deveriam ser, voluptuosos, sensuais, convém-lhes que o sejam, disso depende a sua subsistência: assim as quer o imaginário masculino”.
A sua beleza [da Tigresa] tem muito que ver com a sua fama. A mulher fatal, a bela assassina, fascina-nos porque parece encarnar uma contradição (…). Uma mulher feia tem direito à amargura.”
Embora o objetivo da autora seja claro — sugerir uma reflexão acerca do impacto do machismo e da misógina na forma como as mulheres são tratadas e retratadas —, a caracterização de Riaño é exagerada. Sempre que o seu nome surge, aparece acompanhado por alguma referência à sua beleza excessiva, aos seus olhos azuis e aos seus fartos caracóis negros. E não vá o leitor ter-se esquecido de como era bela e vaidosa, é também inúmeras lembrado de que Riaño era uma mulher alta e que usava roupas justas, mesmo quando devia tentar passar despercebida, incluindo em tribunal.
Sei sim que era — e é — muito bonita. Mede mais de um metro e setenta, tem uns olhos azuis enormes que lhe cobrem a cara a cara, durante muitos anos usou sempre o mesmo penteado, uma copiosa cabeleira de caracóis pretos que desenhavam caracolinhos na testa e desciam em cascata sobre os ombros e as costas. Era magra, tinha boa figura, poderia ter sido atriz ou modelo.”
Era a mulher mais bonita que ela alguma vez vira, tinha uns olhos azuis imensos e uma cabeleira negra e encaracolada que lhe chegava ao rabo. Ao erguer-se, revelou ser tão alta quanto Julen, ia vestida com um blusão de cabedal e umas calças tão justas que pareciam collants, se calhar até era modelo.”
(…) ostentava a sua habitual cabeleira escura, comprida e encaracolada, com uns caracolinhos graciosos a enfeitar-lhe a testa, e os seus enormes olhos azuis realçados por um traço negro (…). Sentada no banco dos réus, parece uma atriz a representar uma reclusa; as reclusas de verdade não são tão belas (…).”
As mesmas descrições, repetidas até à exaustão, e sem que se acrescente nada em relação à primeira de todas, logo no primeiro capítulo.
Outro problema tem a ver com a estrutura do próprio romance. Clara Usón não é a primeira escritora a recorrer a vários narradores, mas, neste caso, não funciona, tornando a narrativa desnecessariamente mais complexa e a história mais difícil de acompanhar, sobretudo naqueles capítulos que versam sobre a história da ETA. O livro denota uma apurada e exaustiva pesquisa, feita previamente pela autora, mas existem momentos em que os dados fornecidos são tantos que se tornam avassaladores, sobretudo para os leitores que conhecem apenas os traços gerais do que se passou em Espanha durante o período retratado, ou para aqueles que não os conhecem de todo. Por outro lado, esses capítulos, mais históricos, afastam-se tanto do pendor ficcional da obra que parecem tratar-se de pequenos ensaios e não de ficção inspirada na realidade. Já a presença efémera da própria Tigresa, que se assume o papel de comentadora da sua própria história quando dialoga diretamente com a narradora nos primeiros capítulos, é difícil de compreender. Se não faz falta e está destinada a desaparecer pouco tempo depois, porque é que surge de todo?
Há quem peque por escassez e há quem peque por excesso, como é o caso de Clara Usón, que na ânsia de fazer mais e mais, alcançou menos, afastando o leitor daquele que seria, certamente, o seu principal objetivo: convidar a uma reflexão profunda e informada sobre as ações da ETA e o seu impacto duradouro na sociedade basca e espanhola, apresentando, para isso, diferentes perspetivas e vivências. A narradora, María Ortega, que reconta os acontecimentos dos anos 80 na idade adulta, é um símbolo do trauma da violência que aterrorizou Espanha durante tanto tempo e que acabou, também, por apanhar a sua família. Incapaz de lidar com o que aconteceu, María tenta fugir do passado, saltando de casa em casa, de emprego em emprego. Mas os fantasmas de outros tempos acabam por encontrá-la e María é obrigada a olhar para o passado de frente. Como é que é possível enterrar um passado que teima em doer? Talvez a única solução seja tentar seguir em frente, como María tentou fazer. Teimosamente tentar seguir em frente.