O livro, sabe-se à cabeça, é uma edição revista de um livro já publicado em 2022, pela Edições Húmus, a que se juntaram uns textos escritos entretanto. Em 16 ficções curtas, Ana Cláudia Santos revela-se ao leitor como uma escritora de mão forte, de mão que agarra a prosa e a maneja como quer.
O primeiro conto, “Princesa da Moda”, é um tratado sobre a infância. Em pouco mais de meia dúzia de páginas, a autora condensa o que fica dos primeiros anos, uma espécie de pó que fica agarrado a vida inteira. Através do Google Street View, a protagonista volta ao lugar da sua infância, e procura um passado cristalizado: àquelas ruas há-de corresponder determinada gente, nelas há-de ser encontrada uma amiga antiga, amiga de circunstância, só porque a passagem do tempo cristalizou tudo à volta. A autora parte desse presente e, numa prosa polida, entrando a pés juntos, leva o leitor para o passado, e ei-lo a ver a vida através de duas lentes, num movimento bem feito: afinal, também a narradora registara “a desarmonia da paisagem”:
A memória obscureceu os verdadeiros contornos do lugar, e os meus olhos focam-se agora nas superfícies com uma atenção comparativa. Vejo o desarranjo territorial, a coexistência do novo-urbano com o semi-rural, as casinholas tristes entre os prédios como ervas daninhas, que nem todas as árvores e buxos dos parques de públicos são capazes de embelezar.” (p. 18)
Nisto, a narradora dá em simultâneo o presente e o passado, o que não a impede de julgar, ou sentir, que há qualquer coisa de estático numa infância que foi perdida, ou num lugar que se deixou em novo. O que se vai vendo, com o desfiar da prosa, é uma tendência para identificar o ponto em que a inocência toca na falha, e as expectativas parecem fugir do trilho. A própria passagem do tempo aparece com um misto de nostalgia e de violência, implicando sempre um ilusão quebrada, que passa pelo desencontro entre o que foi cogitado ou imaginado e os acontecimentos. O conto não é um caso isolado, havendo vários outros que partem de situações aparentemente inócuas e que vão desvendando alguma inquietação, bastando a identificação de uma memória ou de um desvio para deslocar a narrativa para um território emocionalmente mais amplo.
A autora prima pela mestria com que doma a estrutura do conto, e fá-lo com uma discrição elegante, já que a qualidade nunca se impõe como demonstração de força, como insegurança que precisa de encontrar formas de atirar virtudes ao leitor. Em vez disso, a prosa é robusta, a leitura é escorreita, e o texto serve as cenas e as personagens. E, ao invés de meramente descrever, Ana Cláudia Santos observa, não criando meros cenários, não fazendo das personagens veículos de uma ideia. Há um olhar permanente atento ao detalhe, e em textos curtos encontramos narrativas densas, que impressionam pela consistência.

Em “Contrariedades de uma rapariga”, por exemplo, temos uma prosa seca e incisiva. Sobretudo, a autora consegue agarrar o leitor sem aparentar dar grandes saltos. O texto flui, quase como se tivesse caído na página sem esforço. E, entre contos de natureza muito diversa, parece ter uma tendência para querer captar os momentos de mudança, ou de sublinhar o transitório, o volátil. Por exemplo:
E a vida era com certeza um aeroporto, uma estação de comboios, uma gare marítima, onde uns se deixam e outros se recebem. A protagonista estava zangada: o rapaz era um desencanto, teve de ir, com pressa.” (p. 105)
Particularmente bem conseguido será ainda “O diário português”. A autora brinca com a ideia das expectativas, fintando-as ante uma individualidade indestrinçável, com sentido de humor:
Deram conselhos e ensinaram, inventando, invejando. Aos dezasseis anos, aquele seria o Verão da minha vida, e todo o meu ser deveria estar desperto para uma viagem irrepetível. Foram mais imbecis do que previ. (…)
Claro que me apetecia viajar para longe e esquecê-los mal entrasse no avião.” (p. 113)
Sobretudo, percebe-se, na prosa de Ana Cláudia Santos, uma tentativa de agarrar o que é passageiro, marcando-o, fixando-o. Ou seja, cristalizando-o através do texto. E o talento é de tal ordem que nem precisa do fim do livro para o confirmar: a meio, já se sabe que se está perante uma grande contista.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.