Há uma imagem poderosa que o Mundial de futebol volta a pôr diante de nós: quando Portugal entra em campo, entra com ele um país inteiro — mas esse país inteiro já não vive, já não joga, nem sequer já não trabalha apenas dentro das suas fronteiras. A Seleção Nacional é hoje, em larga medida, o espelho de um Portugal global. Muitos dos seus jogadores fazem carreira fora do país, brilham em grandes ligas internacionais, vivem a sua profissão no estrangeiro e, ainda assim, ninguém duvida da legitimidade com que representam a camisola das quinas.
E bem. Ninguém é menos português por jogar em Manchester, Paris, Madrid, Milão, Istambul ou Riade. Ninguém sente menos o hino por trabalhar longe de casa. Ninguém deixa de representar Portugal por construir a sua vida fora dele. No futebol, isto é evidente. No plano político, porém, Portugal continua a agir como se ainda não tivesse percebido essa realidade.
O contraste é difícil de ignorar. Ao mais alto nível desportivo, a Seleção é maioritariamente composta por “emigrantes futebolísticos”, jogadores que atuam fora de Portugal e que levam o nome do país aos maiores palcos do mundo. Mas, na representação democrática, os portugueses residentes no estrangeiro — cerca de 1,5 milhões de eleitores, dos quais quase 1 milhão só na Europa — elegem apenas quatro deputados para a Assembleia da República: dois pelo círculo da Europa e dois pelo círculo de Fora da Europa.
Quatro deputados. É este o peso parlamentar atribuído a uma parte decisiva da nação portuguesa.
A contradição é evidente. Quando se trata de prestígio, talento, ambição e afirmação internacional, Portugal reconhece sem hesitar o valor da sua diáspora. No desporto, celebra-a. Na economia, conta com ela. Na cultura, orgulha-se dela. Nas comunidades, invoca-a. Mas, quando chega o momento da tradução institucional dessa realidade, reduz essa presença global a uma representação mínima, quase simbólica, como se os portugueses espalhados pelo mundo fossem uma nota de rodapé da democracia nacional.
Ora, não são.
As comunidades portuguesas no estrangeiro são uma parte central do país real. São elas que mantêm viva a língua em vários continentes, que sustentam redes familiares e económicas entre Portugal e o exterior, que projetam a imagem do país, que enviaram e continuam a enviar investimento, remessas, contactos, influência e capital humano. São elas, também, que carregam Portugal no quotidiano, mesmo quando estão longe dele. Exatamente como os jogadores da Seleção.
É por isso que o Mundial oferece uma oportunidade política rara: a de usar um símbolo popular, unificador e emocional para mostrar uma desigualdade democrática que muitas vezes passa despercebida. Quando olhamos para a Seleção, percebemos imediatamente que Portugal já não cabe no seu território. Então porque é que a Assembleia da República continua a funcionar como se coubesse?
A pergunta é simples: se confiamos a representação desportiva do país, no mais alto nível, a portugueses que vivem e trabalham fora de Portugal, porque é que continuamos a aceitar que a representação política dos portugueses no estrangeiro seja tão reduzida?
O problema não é apenas quantitativo, mas também simbólico. Ter apenas quatro deputados para representar uma comunidade eleitoral desta dimensão transmite uma mensagem errada: a de que os votos dos emigrantes contam menos; a de que a sua ligação a Portugal é afetiva, mas não plenamente política; a de que servem para celebrar no discurso, mas não para pesar verdadeiramente nas decisões nacionais.
É uma mensagem injusta e desatualizada.
Portugal devia fazer com a sua democracia o que já faz com a sua Seleção: reconhecer que o país é maior do que o mapa. O que hoje existe é um desfasamento entre o Portugal sociológico e o Portugal institucional. O primeiro é mundial, disperso, ativo e profundamente transnacional. O segundo continua a tratar a emigração como um anexo.
A revisão desta representação não seria um favor às comunidades. Seria uma correção democrática. Seria o reconhecimento de que cidadania não diminui com a distância. Seria, no fundo, levar a sério uma evidência que o futebol nos mostra com clareza: há portugueses a representar Portugal ao mais alto nível em todo o lado.
E talvez esteja aí a melhor lição deste Mundial. Cada vez que a Seleção entra em campo com jogadores formados em Portugal mas consagrados no estrangeiro, o país vê refletida a sua própria condição contemporânea: uma nação global. Falta que a política tenha a coragem de acompanhar essa realidade.
Porque não faz sentido aplaudir os “nossos” quando ganham lá fora e, ao mesmo tempo, sub-representar os “nossos” quando votam lá fora.
No futebol, Portugal já percebeu que a distância não diminui a pertença. Está na hora de a democracia perceber o mesmo.