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(A) :: O futebol que regressou a casa, lágrimas de Eusébio e o cão que encontrou o troféu nos arbustos: as histórias do Mundial de 1966

O futebol que regressou a casa, lágrimas de Eusébio e o cão que encontrou o troféu nos arbustos: as histórias do Mundial de 1966

Os heróis não foram só os jogadores – Pickles encontrou o troféu do Mundial nuns arbustos. Para a história fica o recorde de Eusébio, que ainda hoje perdura, e a única vez que a Inglaterra foi feliz.

Manuel Conceição Carvalho
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Foi o ano em que o futebol voltou a casa pela única vez. O Mundial de 1966, em Inglaterra, ficou marcado pela vitória de Inglaterra e pela melhor prestação de Portugal num Campeonato do Mundo, logo na competição que marcou a estreia da Seleção. Os nove golos que Eusébio apontou na fase final de um Mundial – que lhe dão ainda o estatuto de recordista no mesmo parâmetro, com mais um do que Cristiano Ronaldo – foram todos apontados nesse ano. Quem assistiu àquela competição guarda, ainda hoje, memórias de golos, polémicas e protagonistas inesperados, dentro e fora de campo.

A fase de grupos arrancou a 11 de julho com um nulo entre Inglaterra e Uruguai, em Wembley, e terminou a 20 de julho com oito apurados para os quartos de final. A Alemanha Ocidental e a Argentina dominaram o seu grupo com facilidade, apresentando ao mundo um jovem chamado Franz Beckenbauer. No outro lado da tabela, Portugal venceu os três jogos da fase inicial, incluindo um triunfo por 3-1 sobre o bicampeão mundial Brasil, que caía precocemente depois de uma preparação caótica com 47 jogadores e de Pelé ter visto a sua condição física comprometida depois de um jogo intenso diante da Bulgária, que ditou a ausência do número 10 no jogo contra a Hungria (e que, de acordo com a Federação Brasileira de Futebol, fez com que ainda sentisse sentia o efeito das entradas dos búlgaros quando jogou com Portugal). A grande surpresa coube à Coreia do Norte, que bateu a Itália por 1-0 e seguiu para os quartos de final junto da União Soviética.

Nos quartos de final, disputados num único dia, 23 de julho, a Alemanha Ocidental goleou o Uruguai por 4-0, numa partida com duas expulsões do lado uruguaio. Mas o jogo que ficou para a história foi mesmo o Portugal-Coreia do Norte, em Goodison Park: os asiáticos abriram uma vantagem de três golos ainda na primeira parte, antes de Eusébio liderar a reviravolta portuguesa para um triunfo por 5-3. Nas meias-finais, a anfitriã Inglaterra eliminou Portugal por 2-1, enquanto a Alemanha Ocidental afastou a União Soviética. Portugal venceria depois o jogo do terceiro lugar, garantindo o melhor resultado de sempre da Seleção num Mundial.

A 30 de julho, mais de 96 mil pessoas encheram Wembley para a final entre Inglaterra e Alemanha Ocidental – o jogo mais controverso da história da competição. Os ingleses venceram por 4-2 após prolongamento, com um hat-trick de Geoff Hurst que incluiu o célebre “golo fantasma”, que muitas décadas depois a tecnologia viria a sugerir não ter cruzado a linha por completo. Era o único título mundial na história da Inglaterra – e o fecho de uma competição que tinha começado com um boicote africano e terminava com a consagração de Eusébio como melhor marcador do torneio.

https://twitter.com/FIFAWorldCup/status/1950481503210950772

Uma história

Quase ninguém na Europa sabia o que esperar da Coreia do Norte quando o Mundial começou – era uma seleção isolada pela Guerra Fria, sem jogos de referência conhecidos do grande público. Tornou-se a primeira seleção de fora da Europa e da América do Sul a chegar aos quartos de final, depois de eliminar a Itália com um único golo de Pak Doo-ik. Frente a Portugal, ameaçou repetir a façanha: em menos de 25 minutos, chegou a vencer por 3-0, deixando atónitos mais de 40 mil espectadores em Goodison Park. O que se seguiu pertence à história do futebol português e ao legado eterno de Eusébio.

Um herói

Foi na partida diante da Coreia do Norte, a vencer Portugal por 3-0 aos 22′, que Eusébio vestiu a capa de herói, no jogo que o elevou em definitivo ao estatuto de lenda. O “Pantera Negra” marcou nove golos em seis jogos, quatro dos quais no encontro com a Coreia do Norte, tornando-se o melhor marcador do torneio e até hoje o melhor marcador de Portugal em fases finais de Mundiais. A imagem do português a chorar depois da eliminação nas mãos da Inglaterra tornou-se, com o tempo, um dos retratos mais lembrados daquele Mundial.

https://twitter.com/FIFAWorldCup/status/1378243620138934272

Uma curiosidade

O Mundial de 1966 teve um herói incomum fora das quatro linhas: um cão chamado Pickles. Antes do torneio, a Taça Jules Rimet, o troféu do Campeonato do Mundo, foi roubada de uma vitrine de exposição no Central Hall de Westminster. Uma caça ao troféu foi instaurada – e foi Pickles quem a encontrou, enrolada em jornal, ao farejar uns arbustos em Londres.

https://twitter.com/FIFAWorldCup/status/711583170106241025

Como foram os resultados no Mundial de 1966

  • 11 de julho (fase de grupos): Inglaterra-Uruguai, 0-0
  • 12 de julho (fase de grupos): Alemanha Ocidental-Suíça, 5-0, Brasil-Bulgária, 2-0 e União Soviética-Coreia do Norte, 3-0
  • 13 de julho (fase de grupos): França-México, 1-1, Argentina-Espanha, 2-1, Portugal-Hungria, 3-1 e Itália-Chile, 2-0
  • 15 de julho (fase de grupos): Uruguai-França, 2-1, Espanha-Suíça, 2-1, Hungria-Brasil, 3-1 e Chile-Coreia do Norte, 1-1
  • 16 de julho (fase de grupos): Inglaterra-México, 2-0, Alemanha Ocidental-Argentina, 0-0, Portugal-Bulgária, 3-0 e União Soviética-Itália, 1-0
  • 19 de julho (fase de grupos): México-Uruguai, 0-0, Argentina-Suíça, 2-0, Portugal-Brasil, 3-1 e Coreia do Norte-Itália, 1-0
  • 20 de julho (fase de grupos): Inglaterra-França, 2-0, Alemanha Ocidental-Espanha, 2-1, Hungria-Bulgária, 3-1 e União Soviética-Chile, 2-1
  • 23 de julho (quartos de final): Inglaterra-Argentina, 1-0, Alemanha Ocidental-Uruguai, 4-0, União Soviética-Hungria, 2-1 e Portugal-Coreia do Norte, 5-3
  • 25 de julho (meias-finais): Alemanha Ocidental-União Soviética, 2-1
  • 26 de julho (meias-finais): Inglaterra-Portugal, 2-1
  • 28 de julho (3.º e 4.º lugar): Portugal-União Soviética, 2-1
  • 30 de julho (final): Inglaterra-Alemanha Ocidental, 4-2 (após prolongamento)