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(A) :: Uma versão enganadora da história da humanidade. Parte 2: a vida idílica das sociedades paleolíticas

Uma versão enganadora da história da humanidade. Parte 2: a vida idílica das sociedades paleolíticas

"A Maldição de Golias", de Luke Kemp, apresenta-se como “uma releitura radical da história humana através do colapso das sociedades”, mas fica muito aquém — ensaio crítico de José Carlos Fernandes.

José Carlos Fernandes
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[Este é o segundo de seis artigos sobre A Maldição de Golias. O anterior pode ser lido aqui: Uma versão enganadora da história da humanidade pt. 1: Hobbes vs. Rousseau]

A Pax Paleolithica

Na introdução de The war of the world: History’s age of hatred (2006), o historiador Niall Ferguson afirma que “os cem anos que se seguiram a 1900 são, sem dúvida, o século mais sangrento da história, muito mais violento, quer em termos relativos, quer em termos absolutos, do que qualquer era anterior”. No final do livro, Ferguson acaba por reconsiderar e admitir que “talvez o século XX não tenha sido tão excepcionalmente sangrento, quando se toma em consideração a explosão demográfica desse século e a concentração regional e cronológica da violência letal organizada que testemunhou”. Porém, prossegue Ferguson, o século XX foi “indiscutivelmente único” em alguns aspectos – um deles foi “a forma como sociedades civilizadas foram capazes de despertar os mais primitivos instintos assassinos nos seus concidadãos. Os alemães não eram índios da Amazónia. E, todavia, governados por um líder democraticamente eleito e equipados com armamento industrial conduziram a guerra na Europa Oriental como se fossem impelidos por pulsões genuinamente pré-históricas”.

Se fosse hoje, talvez Ferguson tivesse omitido a frase “Os alemães não eram índios da Amazónia”, pois os índios da Amazónia têm acesso à Internet, mesmo em regiões remotas (cortesia da Starlink), e as redes sociais inflamar-se-iam com acusações de racismo e talvez o distinto historiador britânico deixasse de ser convidado para fazer palestras em universidades brasileiras. Ainda que A Maldição de Golias não faça referência a The war of the world, é provável que também Kemp repudie energicamente a perspectiva de Ferguson sobre a inclinação das comunidades pré-históricas e das tribos da Amazónia do nosso tempo para comportamentos violentos. Kemp despende várias páginas a contestar “as muitas narrativas conhecidas [que] sugerem que o Paleolítico era uma zona de guerra, com taxas de homicídio entre os 15 e 25%” e defende que “o Paleolítico é mais ou menos tão pacífico quanto o mundo moderno” (pg. 43). Lá mais para a frente, Kemp, que não prima pela coerência, acaba por contradizer-se, ao afirmar que, hoje, “a violência e as mortes por doença estão a níveis historicamente baixos” (pg. 401), mas, durante boa parte do livro, empenha-se em retratar sistematicamente as comunidades caçadoras-recolectoras – do passado e do presente – como inatamente pacíficas e a atribuir aos Estados (os “Golias”) um comportamento inatamente violento. Kemp argumenta que, antes da formação dos Estados, os actos violentos tinham sobretudo natureza pessoal: “os crimes passionais são tão antigos quanto as emoções humanas; a guerra, contudo, é um fenómeno moderno” (pg. 46).

Embora Kemp não esclareça o que entende por “moderno”, seria mais rigoroso escrever que “a guerra organizada é um fenómeno moderno”. A falácia da “guerra como fenómeno moderno” é desmontada por Azar Gat no magistral War in human civilization (2006): “a adopção da agricultura, que levou à emergência de sociedades de grande escala e, depois, de Estados, tornou todas as actividades humanas – incluindo o conflito – muito maiores em escala, altamente coordenadas e integradas e coercivamente hierárquicas. […] Que a guerra seja usualmente definida como violência organizada em grande escala é meramente um reflexo do facto de que as sociedades humanas se tornaram grandes e organizadas. Assim, insistir em que a ‘verdadeira guerra’ só surgiu com o Estado e as políticas de Estado equivaleria a colocar artifícios conceptuais no lugar do processo dinâmico da história humana” (pg. 664).

Se a guerra organizada surgiu, naturalmente, com a organização, ou seja, com os primeiros Estados, já a escaramuça frouxamente planeada e conduzida é certamente tão antiga quanto a humanidade e, ainda que possa parecer ao observador moderno amadora, errática e ineficaz, quando se contabilizam as vítimas em função do número de intervenientes conclui-se que não é menos mortífera do que a guerra organizada.

Na verdade, a guerra, na variante “desorganizada”, nem sequer é um exclusivo humano, como demonstra a “Guerra dos Chimpanzés de Ngogo”, que, há meses, teve efémero destaque nos mass media e que se arrasta desde 2015, opondo duas facções surgidas no seio de um grupo de chimpanzés no Parque Nacional de Kibale, no Uganda, e que causou, desde 2018, 28 mortes confirmadas (num total de duas centenas de indivíduos). Recorde-se que, entre 1974 e 1978, no Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia, ocorreu fenómeno similar, que foi acompanhado de perto pela célebre primatologista Jane Goodall e ficou conhecido como “Guerra dos Chimpanzés de Gombe”.

[Episódio da “Guerra dos Chimpanzés de Ngogo”:]

https://youtu.be/X6m7Ti7NC9E

Também é preciso considerar que, mesmo que fosse possível fazer uma estimativa aproximada da frequência de conflitos no Paleolítico, há um factor que invalida comparações com a frequência de conflitos no período histórico: a população global de Homo sapiens talvez não chegasse a um milhão de indivíduos no início do Paleolítico Superior (50.000 a.C.) e seria de cerca de sete ou oito milhões no final desse período (10.000 a.C.), quando algumas comunidades apostaram na agricultura e na sedentarização. Com densidades populacionais tão baixas, não faria sentido os grupos desgastarem-se a guerrear-se quando era tão fácil encontrar um território vazio de humanos – um factor que Kemp não contabiliza.

Os anjos bons e os anjos negros

Entre as “narrativas conhecidas” sobre a violência na era pré-Estado que Kemp contesta está Os anjos bons da nossa natureza (2011, The better angels of our nature: Why violence as declined), de Steven Pinker, “que estima em 15% a taxa de violência [entenda-se: a taxa de morte violenta] do Paleolítico” (pg. 43).

Vale a pena determo-nos em Os anjos bons da nossa natureza, por ser, tal como War in human civilization, uma obra de referência no domínio na história da violência. Nele, Pinker defende que “a violência tem vindo a declinar por longos períodos de tempo e é possível que estejamos hoje a viver a era mais pacífica da nossa existência”. A diminuição generalizada da violência resultou, segundo Pinker, de seis tendências: a primeira delas, que baptizou como “Processo de Pacificação”, foi a transição das comunidades de caçadores-recolectores para as primeiras civilizações agrárias, que “acarretou uma redução das razias e vindictas crónicas que caracterizavam a vida num estado de natureza” (Pinker, pg. 23).

Ao Processo de Pacificação seguiu-se, segundo Pinker, o Processo Civilizacional, iniciado na Idade Média e em que a “manta de retalhos de territórios feudais” foi consolidada em grandes reinos e o estreitamento das relações comerciais favoreceu a cooperação sobre o conflito; os autores citados por Pinker estimam que, na Europa, a taxa de mortes violentas na Idade Média fosse 10 a 15 vezes superior à do nosso tempo. A Revolução Humanitária, ocorrida na Era das Luzes, viu surgir “os primeiros movimentos organizados visando abolir formas socialmente sancionadas de violência, como o despotismo, a escravatura, a tortura judicial, as chacinas supersticiosas, os castigos sádicos e os maus-tratos infligidos aos animais”. Com a Longa Paz, iniciada após a II Guerra Mundial, “as grandes potências e a generalidade dos Estados Desenvolvidos deixaram de travar guerras uns com os outros” (seria mais correcto falar em “travar guerras directamente uns com os outros”, uma vez que as potências continuaram a digladiar-se através de interpostos países – as “proxy wars”). A quinta tendência, a Nova Paz, iniciada com o término da Guerra Fria, tem, infelizmente, vindo a ser desmentida na terceira década do século XXI. A sexta tendência, a Revolução dos Direitos, simbolicamente iniciada com a proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, traduziu-se na diminuição da violência “contra as minorias étnicas, as mulheres, as crianças, os homossexuais e os animais”. A solidez dos factos e argumentos apresentados por Pinker ao longo de um milhar de páginas não é abalada pela refutação empreendida por Kemp.

Do chuço à Tsar Bomba

No acima mencionado War in human civilization, também Azar Gat, após passar em revista numerosos estudos, uns de natureza arqueológica, outros na observação das comunidades actuais que continuam a viver em moldes paleolíticos ou neolíticos, e em relatos de ocidentais que foram assimilados, em jovens, por comunidades de caçadores-recolectores e, anos depois, regressaram à ‘civilização’, tira conclusões que contrariam frontalmente a argumentação de Kemp: “As provas sugerem que os caçadores-recolectores, no seu ambiente natural evolutivo e no seu modo de vida natural evolutivo, […] envolveram-se largamente em conflitos entre eles” (pg. 35). Gat vai ainda mais longe, ao afirmar que esses povos “viviam sob o constante receio do conflito violento e que este moldava a sua vida quotidiana. A morte em combate estava entre as principais causas da sua mortalidade” (pg. 25).

É, pois, errado associar a emergência dos Estados – os “Golias”, na terminologia de Kemp – e ao começo da guerra: “Ainda que a dimensão das sociedades que se envolviam em conflitos, e consequentemente, as suas hostes armadas, tivessem aumentado espectacularmente, criando a falsa impressão de que as guerras conduzidas por Estados eram particularmente letais e destrutivas, e que, deste modo, só elas merecem a designação de ‘verdadeira guerra’, o custo em vidas dos conflitos humanos diminuiu, efectivamente, sob os Estados. […] Foi a violência do potentado triunfante, institucionalizada sob a forma de monopólio mais ou menos efectivo, que impôs a ‘paz civil’, ao mesmo tempo que extraía recursos da sociedade e providenciava ‘protecção’ ao estilo da Mafia” (Gat, pg. 664-65).

Na pg. 445 de A Maldição de Golias surge um gráfico que mostra a evolução da “energia libertada por projécteis ao longo do tempo”, que mostra como o progresso tecnológico induziu uma vertiginosa escalada do poder destrutivo das armas (ou, como escreve Kemp, que “mais energia e mais dinheiro têm sido, de forma consistente, convertidos em armas mais destruidoras”). O gráfico começa no início da “era cristã”, com uma “besta pesada”, cujo projéctil representaria uma energia de 100 joules, e vai até 1961, com uma bomba nuclear (não identificada, mas provavelmente a “Tsar Bomba”, a mais poderosa arma nuclear jamais construída), a que é atribuída uma energia de um milhão de biliões (1 seguido de 18 zeros) de joules, ou seja, 1570 vezes mais do que a energia libertada, conjuntamente, pelas bombas atómicas detonadas em Hiroshima e Nagasaki.

[Detonação da “Tsar Bomba”, Novaya Zemlya, URSS, 30 de Outubro de 1961. O topo do “cogumelo” atingiu 65 km de altitude:]

https://youtu.be/YtCTzbh4mNQ

Não há dúvida de que os arsenais nucleares representam uma ameaça intolerável à existência da humanidade e que as colossais quantidades de energia e dinheiro consagrados a eles (e a material bélico não-nuclear, mas tremendamente destrutivo e dispendioso) poderiam ter aplicações infinitamente mais proveitosas, mas não devemos ser levados a estabelecer uma correspondência linear entre violência efectiva e energia associada a projécteis. O armamento sofisticado do nosso tempo é operado exclusivamente por uma elite de especialistas, em circunstâncias restritas e de acordo com regras rigorosas (que, é certo, não evitam a ocorrência de “danos colaterais”). No tempo dos chuços de madeira e dos machados de pedra, estes estavam disseminados por toda a comunidade e eram usados, sem grande cerimónia, nos conflitos com outras tribos (ou até, internamente), frequentemente por razões fúteis.

Gat conclui que “a revolução industrial-tecnológica […] tem, fundamentalmente, reduzido a prevalência da guerra e que “a razão para esta mudança é o facto de a opção violenta como forma de satisfazer desejos humanos se ter tornado muito menos promissora do que a opção pacífica da cooperação competitiva. Para mais, quando a sociedade é próspera e está saciada e as necessidades mais prementes dos indivíduos estão asseguradas […], são menores os incentivos para correr riscos que possam envolver a perda de vida ou ferimentos graves” (pg. 672). Remata Gat: “Dada a dramática mudança de condições e para aqueles cujas condições mudaram dramaticamente, a opção violenta – o martelo – na caixa de ferramentas comportamentais dos humanos tem vindo a tornar-se menos prático, ao mesmo tempo que as ferramentas pacíficas têm ganho maior uso” (pg. 673).

Os encantos da vida no “estado de natureza”

No imponente Guerra! Para que serve?: O papel do conflito na civilização, dos primatas aos robôs (2014, War! What’s it good for? Conflict and progress), Ian Morris acompanha Gat e vai até um pouco mais longe, defendendo que, por paradoxal que possa parecer, a guerra entre Estados tem sido um poderoso agente a favor do progresso e da redução da violência. Segundo Morris, os estudos arqueológico e antropológicos mostram que “as sociedades da Idade da Pedra eram, normalmente minúsculas” e que “tendiam a viver numa lógica de suspeição ou mesmo de hostilidade para com os forasteiros. As pessoas resolviam, em geral, os seus diferendos de modo pacífico, mas se alguém decidisse usar a força, estaria sujeito a muito menos restrições do que aquelas a que os cidadãos dos Estados modernos estão habituados. A maioria das mortes ocorria em pequena escala […] mas, sendo as populações igualmente reduzidas, a violência, ainda que de baixo nível, causava prejuízos terríveis. Segundo a maior parte das estimativas, entre 10 e 20% de todas as pessoas que viviam em sociedades da Idade da Pedra morreu pela mão de outros seres humanos. […] Se o leitor teve a sorte de ter nascido no século XX industrializado, tem, em média, dez vezes menos probabilidades de morrer de modo violento […] do que se tivesse nascido numa sociedade da Idade da Pedra” (pg. 21-22). Morris conclui que, “a verdade clara, como Hobbes compreendera, é que, ao longo de 10.000 anos, a guerra fez o Estado e o Estado fez a paz” (pg. 37).

Outro livro fundamental sobre a evolução da violência nas sociedades humanas é O mundo até ontem: O que podemos aprender com as sociedades tradicionais? (2013, The world until yesterday: What can we learn from traditional societies?), de Jared Diamond, que consagra ao tema “paz e guerra” três capítulos que se estendem por 120 páginas. Diamond, que passou muitos anos nas selvas da Nova Guiné, ajuda-nos a compreender a banalidade da violência nas sociedades tradicionais: nestas, os homens “são encorajados desde a infância a matar, ou, pelo menos a aprender a matar, mas a maior parte dos cidadãos dos Estados modernos aprendem constantemente que matar é errado” (pg. 200), o que leva a que, nestes últimos, mesmo os soldados, que, durante a recruta, são treinados e psicologicamente formatados para matar, sintam grande relutância em fazê-lo – e talvez muitos não fossem disso capazes se, ao longo do século XX, o processo bélico não se tivesse tornado, graças ao progresso tecnológico, cada vez mais distante e impessoal.

Kemp identifica o modo de vida nómada, que limita as posses individuais ao mínimo, como um dissuasor da guerra entre grupos: se os bens saqueáveis da outra tribo são irrisórios, porquê arriscar a vida a tentar obtê-los? Diamond reverte facilmente este argumento: “Os exércitos estatais poupam vidas e fazem prisioneiros, pois têm como alimentá-los, guardá-los, obrigá-los a trabalhar e impedir que fujam. Os ‘exércitos’ tradicionais não fazem prisioneiros, pois não têm como fazer nada disso, nem como usar prisioneiros. Quando cercados ou derrotados, os guerreiros tradicionais não se rendem, pois sabem que vão acabar por ser mortos. […] O objectivo da guerra entre [sociedades tradicionais] era apoderar-se do território inimigo e exterminar inimigos de ambos os sexos e idades”, abrindo-se excepções para mulheres núbeis, destinadas a casarem-se, à força, com os vencedores, e crianças jovens, para serem criadas de acordo com os usos da tribo vencedora (pg. 204-05).

Em O mundo até ontem, Diamond tem o mérito adicional de lançar luz sobre um aspecto por vezes negligenciado no debate sobre a guerra entre sociedades tradicionais: as suas motivações. “A resposta mais comum é vingança pela morte de elementos da tribo” – mas esta resposta apenas revela o que faz a guerra prolongar-se indefinidamente entre comunidades vizinhas. E o que a faz começar? “Nas terras altas da Nova Guiné, as respostas mais comuns são ‘mulheres’ e ‘porcos’ […] Os yanomami, bem como muitos outros povos, também apontam as mulheres com uma das causas, ou mesmo a principal causa da guerra” (pg. 220). Em sociedades tradicionais sedentárias e mais complexas, a obtenção de escravos pode também ser um relevante motivo para a guerra – ao contrário do que postula Kemp, a escravatura não começou com os primeiros Estados, ainda que tenha alcançado sob estes uma dimensão inaudita.

Finalmente, Diamond aponta dois motivos imateriais para a guerra entre sociedades tradicionais: a feitiçaria, i.e., a crença de que um feiticeiro da tribo vizinha anda a infernizar a nossa vida; e a “ideia de que os nossos vizinhos são intrinsecamente maus, hostis, sub-humanos e traiçoeiros, merecendo ser atacados, cometessem ou não recentemente alguma acção maldosa em particular” (pg. 222). Conclui Diamond que “os estudos etnográficos sobre as sociedades tradicionais […] fora da superintendência do governo estatal mostraram que a guerra, o homicídio e a demonização dos vizinhos têm sido a regra e não a excepção, e que os membros dessas sociedades que abraçam as regras são em geral pessoas normais, felizes e adaptadas, não monstros” (pg. 235).

Retomando o caso da Nova Guiné, o seu mapa linguístico acaba por ser influenciado pela natureza das relações entre as suas comunidades tradicionais: a ilha é um caso único de diversidade linguística, ao concentrar em 786.000 km2 (1.4 vezes a área da França) 830 línguas diferentes (representando 10% do número total de línguas do mundo), o que faz com que os neoguineenses tenham de usar como língua franca um crioulo derivado do inglês, o tok pisin. Esta profusão de línguas resulta da topografia extremamente acidentada da ilha, da natureza auto-suficiente das suas comunidades (assente em formas ancestrais de agricultura) e da hostilidade e desconfiança mútuas que reinam entre as tribos. Estas manifestam-se na vigilância ciosa dos territórios de cada tribo e pela punição severa dos intrusos, o que limita os contactos entre tribos, inibe trocas culturais e impossibilita que alguém movido pela curiosidade vagueie livremente pela ilha.

Guerras de números

Um dos primeiros estudos quantitativos abrangentes sobre violência nas sociedades pré-históricas e nas sociedades “pré-Estado” do nosso tempo foi War before civilization: The myth of the peaceful savage (1996), do arqueólogo Lawrence H. Keeley. Os factos apurados por Keeley estilhaçam o “mito do selvagem pacífico”: a probabilidade de um indivíduo do sexo masculino ser morto numa guerra é de 60% entre os jívaros (Brasil), 43% entre os xamatari (do grupo yanomami, Brasil/Venezuela), 37% entre os mae enga (Nova Guiné), 33% entre os dugum dani (Nova Guiné), 32% entre os murngin (actualmente designados por yolnu; Austrália), 24% entre os namowei (do grupo yanomami, Brasil/Venezuela), 21% entre os huli (Nova Guiné), e 17% entre os gebusi (ou gobasi; Nova Guiné). Por comparação, no século que Niall Ferguson classificou como “o mais sangrento da história” e que passou por dois conflitos mundiais avassaladores, a probabilidade de um indivíduo do sexo masculino ser morto numa guerra foi de 1.5-3% para os europeus e de 1% para os americanos. Na Europa e nos EUA do século XXI essa probabilidade tem sido inferior a 0.001%.

Kemp ignora War before civilization e, quando refere estudos que indicam elevados níveis de violência nas comunidades “pré-Estado” do nosso tempo, é para os desvalorizar: nas pg. 42-43, interpreta as elevadíssimas taxas de homicídio entre os aché, do Paraguai (55% das mortes), como resultado da acção de “traficantes de escravos e colonos paraguaios” e as igualmente assustadoras taxas de homicídio entre os hiwi, da Venezuela (30% das mortes), como tendo sido causadas, em boa parte, por “rancheiros invasores”, não por conflitos entre hiwi. Porém, há indícios de que, nalguns casos, a influência do Estado moderno sobre estas comunidades pode ser inversa: no caso dos san (em tempos conhecidos no Ocidente como bosquímanos), a taxa de homicídio é hoje relativamente baixa, mas, antes de as potências coloniais terem imposto a sua autoridade sobre os seus territórios, há indícios de que os san se trucidariam com tanto empenho como a maioria das comunidades de caçadores-recolectores.

Em O mundo até ontem, Jared Diamond refere que os membros das sociedades tradicionais cujas guerras constantes foram interrompidas pelos governos coloniais têm consciência de como estas intervenções exteriores melhoraram as suas vidas e de a ausência de um governo centralizado os ter impedido de “deter os ciclos de mortes por vingança”. Como admitiu a um antropólogo um membro dos auyana (ou awiyaana), da Nova Guiné, “a vida é melhor desde a chegada do governo, porque agora um homem pode sair de casa para urinar sem recear ser abatido” (Diamond, pg. 208). “O grosso dos indícios arqueológicos e dos relatos orais sobre a guerra antes do contacto europeu torna implausível afirmar que os povos eram tradicionalmente pacíficos até à chegada dos maléficos europeus, que estragaram tudo” (pg. 210). No livro Yanomami warfare: A political history (1995), o antropólogo R. Brian Ferguson já tinha chegado a conclusões análogas: “Todas as guerras yanomami que conhecemos ocorrem dentro da […] ‘zona tribal’, uma extensa área fora do controlo administrativo do Estado”.

Seja como for, quer os adeptos de Hobbes quer os adeptos de Rousseau ganhariam em reconhecer que a estimativa dos níveis de violência nas comunidades tradicionais da actualidade requer prudência, pois ainda que estas comunidades possam manter parte dos seus modos de vida ancestrais, o seu comportamento é, inevitavelmente, modificado pelo contacto com o mundo moderno.

Quanto às estimativas de violência nas sociedades do Paleolítico e Neolítico com base na arqueologia, a sua fiabilidade é limitada, dada a escassez de esqueletos bem preservados e o facto de a morte violenta nem sempre deixar marcas inequívocas. O elevado grau de incerteza destas avaliações torna-se ainda mais evidente quando nos damos conta de que mesmo os estudos que avaliam a violência nas sociedades desenvolvidas da actualidade nem sempre são dignos de crédito.

Por exemplo, na pg. 35, Kemp afirma que está arraigada na sociedade a ideia – que Kemp entende ser errada – de que “as catástrofes trazem ao de cima o pior que há nas pessoas, levando a motins, saques, roubos e violência” e fundamenta esta afirmação nos resultados de um inquérito a 488 cidadãos britânicos. Ora, não só 488 britânicos não representam a humanidade, como, quando se consulta a nota, os detalhes sobre o estudo revelam que a amostra usada está fatalmente enviesada, uma vez que inclui “120 agentes de eventos desportivos, 115 agentes de polícia, 89 membros do público, 78 estudantes e 46 profissionais de segurança”. Ou seja, 58% dos inquiridos trabalham na área da segurança, pelo que é natural que sobrevalorizem o papel da sua profissão na manutenção da ordem pública e creiam que, sem eles, numa situação de calamidade, se geraria um pandemónio, com cada um a lutar egoisticamente pelos seus interesses. A perspectiva de Kemp até pode ser correcta, mas o estudo que escolheu citar é incapaz de a validar.

Fantasias paleolíricas

“Durante a esmagadora maioria da história da humanidade, não havia chefes, nem comandantes nem aristocracia. Não havia nenhum dos sinais comuns de disparidade de poder. […] Estes indícios só surgem de forma inequívoca há cerca de 11.000 anos […]. Os nossos antepassados paleolíticos eram igualitários” (pg. 49). Estas afirmações de Kemp baseiam-se no argumento de, “num mundo de clima volátil e recursos escassos, [ser] necessário estar constantemente em movimento […] [o que] limitava a quantidade de recursos que podiam ser transportados ou acumulados”. A presunção é razoável, mas não autoriza o salto seguinte de Kemp: “Todos os indícios sugerem que, no Paleolítico, o poder político era amplamente partilhado e as decisões respeitantes ao grupo eram tomadas democraticamente” (pg. 51). Dado que, na ausência de escrita, de ruínas de cidades e monumentos e de outros vestígios materiais relevantes, é quase impossível aquilatar da qualidade da democracia ou da natureza do sistema de governação, a afirmação de Kemp é temerária.

Na pg. 54, Kemp reincide na temeridade, agora no campo da igualdade de género: “Os nossos antepassados do Paleolítico praticavam, provavelmente, uma igualdade relativa entre os sexos, particularmente quando comparados com os reinos agrícolas posteriores”. É uma asserção tão pouco digna de crédito quanto o velho cliché, de sentido oposto, do “homem das cavernas”, de moca ao ombro, a arrastar a companheira pelos cabelos.

[A violência no Paleolítico segundo Buster Keaton e Wallace Beery; excerto do filme Three ages (1923), realizado por Buster Keaton e Edward F. Cline:]

https://youtu.be/plN278rduP8

É possível que esta imagem idealizada dos caçadores-recolectores de Kemp se inspire não só em Rousseau (ver capítulo “Com Rousseau e o bom selvagem” em Uma versão enganadora da história da humanidade pt. 1: Hobbes vs. Rousseau), como em John Zerzan, fundador e figura de proa do anarcoprimitivismo, cujo radicalismo pode ser aferido por ter acusado Noam Chomsky de não ser um verdadeiro anarquista, antes “um esquerdista liberal, em termos políticos, e um completo reaccionário na sua especialidade académica, a teoria linguística”, e por se ter correspondido regularmente com Ted Kaczynski e visitado este na prisão (a amizade entre Zerzan e o terrorista conhecido como “Unabomber” acabou por dissolver-se quando ambos reconheceram que, apesar de estarem unidos pela advocacia do primitivismo e da rejeição da tecnologia e da civilização, tinham divergências essenciais). Numa das suas obras seminais, Future primitive (1994), Zerzan denunciou a ideia, profundamente enraizada na sociedade, de uma “existência pré-civilização de privação, brutalidade e ignorância [que] fez da autoridade uma dádiva benévola que nos resgatou da selvajaria. O ‘homem das cavernas’ e o “Neanderthal’ ainda são invocados para nos lembrar onde estaríamos sem religião, governo e trabalho assalariado. […] Hoje podemos ver que a vida antes da domesticação/agricultura era, na realidade, dominada pelo lazer, pela comunhão com a natureza, pela sabedoria sensual, pela igualdade de género e pela saúde. Esta foi a natureza humana, por um par de milhões de anos, antes de termos sido escravizados por sacerdotes, reis e patrões” (pg. 5).

A visão anarcoprimitivista da Queda do Homem

Zerzan também prefigurou Kemp ao eleger a adopção da agricultura como o momento fatídico da história da humanidade. Aos que se interrogam por que ocorreu esta adopção apenas há 10.000 anos e apenas nalgumas regiões, e não há 1 milhão de anos em todos os locais onde havia hominídeos, Zerzan responde que o que é intrigante é que a humanidade tenha, de todo, cometido a insensatez de escolher um modo de vida assente na agricultura, quando é óbvio que “o abandono da vida de caçador-recolector trouxe um declínio em tamanho, estatura e robustez óssea” (Future primitive, pg. 12).

Segundo Zerzan, a agricultura trouxe “um forte incremento na divisão do trabalho, estabeleceu os alicerces materiais da hierarquia social e iniciou a destruição do ambiente. Sacerdotes, reis, trabalho árduo, desigualdade de género e guerra são algumas das suas consequências imediatas” (pg. 11). Depreende-se daqui que, para Zerzan, não há que tirar partido pelo pastor Abel ou pelo agricultor Cain, pois ambos são símbolos da degenerescência da Humanidade – para trás tinham ficado os tempos ditosos em que os seus pais habitavam o Jardim do Éden e viviam, sem qualquer esforço, do que a terra dava (o que não incluía a caça, a dar crédito ao Génesis, o que infirma um paralelismo entre a Bíblia e a paleontologia, uma vez que a segunda sugere que a dieta paleolítica era abundante em carne).

Alguns investigadores acham intrigante a quase total ausência de inovações tecnológicas durante um período de mais de 2 milhões de anos do Paleolítico. Longe de atribuir tal estagnação prolongada às limitações intelectuais do Homo sapiens e dos hominídeos que o precederam, Zerzan defende que “é muito plausível que a inteligência, respaldada no sucesso e satisfação do modo de vida caçador-recolector, seja a razão fundamental para a notória ausência de ‘progresso’. A divisão do trabalho, a domesticação e a cultura simbólica foram, evidentemente, recusadas até muito recentemente. […] Atendendo às capacidades presentes entre os povos antes da civilização, [pode dizer-se que] estes preferiram, durante muito tempo, a natureza à civilização” (pg. 9) – uma visão que Kemp apadrinha e a que consagra os capítulos 4 e 5 de A Maldição de Golias: “É claro que a agricultura oferece alguns benefícios. […]  Mas é difícil perceber por que é que o caçador-recolector médio haveria de preferir mais calorias e famílias maiores em vez de menos trabalho, mais tempo de lazer, melhor alimentação e saúde” (pg. 100).

Aos olhos de Zerzan, a cultura, cujo desenvolvimento foi concomitante com o da agricultura, é um instrumento de repressão e desempenhou papel crucial na “domesticação” da mulher e à sua relegação para um estatuto subalterno: “A cultura […] requer a firme subjugação do instinto, da liberdade e da sexualidade. Toda a desordem deve ser banida, o visceral e o espontâneo devem ser domados com mão firme. A criatividade das mulheres e a sua própria natureza como entidades sexuais são pressionadas a dar lugar ao papel, expresso em todas as religiões de agricultores, como Grande Mãe, ou seja, como fecunda geradora de homens e comida” (pg. 19).

Apesar das sintonias entre Kemp e Zerzan, a sanha anticivilizacional do segundo é, mais profunda e abrangente, indo ao ponto de lamentar o desenvolvimento da linguagem, da matemática e da arte, a primeira por funcionar como um sucedâneo da experiência real; a segunda por ter promovido a obsessão com a mensuração, o cálculo e o controlo, pilares do Estado hierárquico e tirânico; e a terceira por “converter o sujeito em objecto e este em símbolo”, apartando o homem da natureza e estando “na base da invenção do mundo simbólico e da Queda do Homem”. Só faltou a Zerzan defender que a adopção da postura bípede também foi um erro.

A seguir: Dos primeiros impérios à queda de Roma.