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(A) :: O memorando da capitulação americana?

O memorando da capitulação americana?

No fundo, o Ocidente precisa de recuperar o instinto de conservação, qualidade sem a qual nenhuma civilização sobrevive.

José António Rodrigues do Carmo
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Se o Memorando de Entendimento (MOU) entre os EUA e o Irão for aquilo que tem sido descrito, e isso deverá saber-se já, no dia em que este artigo é publicado, não acaba com a guerra, apenas ajuda a República Islâmica a preparar a  próxima. É, no fundo, uma capitulação envolvida em retórica para permitir à Administração americana clamar vitória naquilo que, num mundo despido de eufemismos, é uma crua derrota. No Médio Oriente os eufemismos têm cadáveres agarrados.

Segundo os termos divulgados, o MOU abre um período de 60 dias para novas negociações, estabelece a reabertura do Estreito de Ormuz, cria mecanismos de alívio financeiro ao Irão, inclui entendimentos sobre o Líbano, ignora objectivos declarados da campanha (mísseis e proxies) e  deixa para as Calendas  as questões nucleares. Tudo isto, aparentemente, sem que Israel, o principal alvo da sanha iraniana e o país que lidará directamente com as consequências reais do acordo, faça sequer parte da negociação.  Israel, o país que lutou lado a lado com os EUA,  parece estar a ser tratado como se fosse um  familiar incómodo sentado ao fundo da sala. Trump, repetindo um padrão, apunhala um aliado pelas costas a meio do combate, e passa a sua simpatia para o inimigo. Já o fez antes com a  Ucrânia, países da Europa, Japão, Coreia do Sul, etc.

A Israel trata com arrogância e exige que confie. A Teerão elogia e suplica que prometa. Aos países da Europa que aplaudam. É o tipo de coreografia que costuma anteceder o desastre.

Para o regime iraniano, 60 dias são tempo para respirar, esconder material, endurecer instalações, redistribuir urânio, reorganizar redes, aliviar pressão interna, recompor proxies e transformar cada exigência de verificação numa agressão intolerável. O regime não precisa de 60 dias para se tornar moderado, apenas para continuar a ser o que é. Irá negociar até à eternidade, começando pela cor das esferográficas.

Depois há o dinheiro. O alívio financeiro, é apresentado como incentivo. A ideia, delirante na sua ingenuidade, é que os generais receberão gordas notas de dólar e, tomados por súbitas vocações escandinavas, irão investir em direitos das mulheres, liberdade de imprensa e bolsas de estudo para dissidentes. Infelizmente não será nada disso. O regime iraniano usará o dinheiro para pagar aos Guardas Revolucionários, reforçar a repressão interna, recompor o Hezbollah, alimentar os Houthis, financiar milícias nas imediações, renovar arsenais e comprar tempo. O dinheiro não modera uma teocracia revolucionária. Sustenta-a. Trump criticou os seis mil milhões de dólares que Obama entregou ao Irão, e agora prepara-se para dar quatro vezes mais e pagar reparações de guerra no valor de mais de 300 000 milhões de dólares, disfarçadas de “reconstrução”.

O erro mais profundo, porém, é conceptual. A ameaça iraniana a Israel, à região e ao Ocidente é milenarista e assenta numa arquitectura que inclui programa nuclear, mísseis balísticos, drones, terrorismo, milícias, chantagem marítima, guerra psicológica, infiltração política e a rede de proxies concebida para permitir a Teerão atacar sem pagar o preço directo do ataque. Um acordo como aquele que parece estar a ser desenhado, deixa tudo isto à margem e é basicamente uma apólice de seguro emitida a favor do pirómano.

Se for como parece, é muito pior que o JCPOA. O acordo de 2015 foi vendido como uma vitória da moderação sobre a guerra e  da paciência sobre o maximalismo. Na prática, deu ao regime tempo, legitimidade, recursos e um caminho para a bomba, deixando intocado tudo o resto. Nada parece ter mudado. Concessões antecipadas, linguagem vaga, fiscalização esperançosa, dinheiro à cabeça e a promessa encantadora, de que desta vez os islamistas iranianos, que mentiram e mentem de forma contumaz, deixarão de mentir por respeito à suposta grandeza do actual Presidente americano.

A questão essencial, fora da bolha narcísica de Trump e das visões floribélicas europeias, é simples:  se o objectivo é impedir o Irão de se tornar uma potência nuclear, balística e terrorista, com capacidade de cercar Israel e chantagear os vizinhos e o  Ocidente, cada medida deve ser julgada pelo  critério elementar de saber se nos aproxima ou afasta desse objectivo. Uma trégua que dá tempo, dinheiro, legitimidade e margem diplomática ao regime, e apenas lhe pede declarações e reuniões, reforça a sua sobrevivência e esse é precisamente o problema.

O Ocidente perdeu o hábito de pensar de forma pragmática. Confunde política com estratégia, estratégia com táctica, táctica com sinalização de virtude.  Fala de plano de saída antes de decidir o que quer alcançar. Fala de reduzir tensões como se as tensões fossem a doença, e não os sintomas. Fala de evitar escaladas quando o agressor já escalou para lá do imaginável, já fechou rotas, já armou proxies, já lançou mísseis, já transformou em reféns populações inteiras. A paz, nestas condições, passa a ser a “segurança”  comprada ao agressor, no fundo a patética estratégia que depositou o Império Bizantino na vala comum da História.

Como se chegou aqui?

Em primeiro lugar, pela obsessão de líderes medíocres, com a ideia de que todos os conflitos podem ser resolvidos por negociação. A crença é sedutora porque dispensa escolhas desagradáveis. Infelizmente, há actores que não procuram compromissos, mas sim vitória, sobrevivência e tempo. A Guarda Revolucionária, uma organização terrorista, não se senta à mesa para ser convertida à racionalidade liberal e para respirar moderação, mas sim para medir o adversário e perceber como o irá tentar decapitar.

Em segundo lugar, chegou-se aqui pelo horror ao preço da vitória. As democracias ocidentais, incluindo esta América, querem dissuasão sem risco, guerra sem baixas, pressão sem dor e paz sem derrotar ninguém. Querem que o inimigo conclua racionalmente que deve parar, porque seria do seu interesse fazê-lo. Mas um regime islamista dirigido por uma organização terrorista, não mede o interesse como uma empresa de detergentes. Está disposto a sacrificar o seu povo, a sua economia e a sua reputação para preservar o poder e cumprir a sua missão ideológica. A América tem um poder incomparavelmente superior. Mas o poder sem estômago para o usar, é como um carro potente sem combustível.

Em terceiro lugar, pela chantagem económica. Ormuz fechado, petróleo inquieto, mercados nervosos, aliados impacientes, opinião pública cansada, tudo isto criou o caldo perfeito para vender uma vergonhosa abdicação como se fosse prudência. O regime islâmico criou a crise, depois exigiu pagamento para não a agravar, e o Ocidente acaba a felicita-se por comprar a descida de temperatura que ele próprio permitiu ao inimigo controlar.

Por fim, há a marginalização de Israel. Este é o absurdo supremo. Israel não é uma nota de rodapé nesta questão. É o alvo central. O Dia da Ressurreição, com a vinda do Mahdi,  “não chegará até haver guerra contra os judeus, e os judeus derrotados se esconderão atrás de rochas, que gritarão: Ó muçulmanos, ó servos de Deus, estes judeus escondem-se atrás de nós” . Qualquer entendimento que não leve em conta  as necessidades de segurança israelitas equivale a entregar a faca a quem declarou a  intenção de proceder a uma decapitação.

O que deve ser feito?

Primeiro, definir com clareza o objectivo de que o regime iraniano não pode reconstituir a sua capacidade nuclear, balística e terrorista.

Segundo, não dar nenhum dinheiro antes de verificação total; nenhum alívio antes de acesso completo da AIEA; nenhuma suspensão de pressão antes da localização, entrega, diluição ou destruição verificável do urânio altamente enriquecido e do outro; nenhum acordo que ignore mísseis; nenhum entendimento regional que deixe o Hezbollah armado.

Terceiro, restaurar a dissuasão, porque a diplomacia só funciona quando o outro lado acredita que a alternativa ao acordo é pior do que o acordo. Quando  Teerão percebe que Washington teme mais a escalada do que o Irão teme a derrota, a negociação terminou antes de começar. O resto é apenas teatro.

Quarto, apoiar o povo iraniano contra o regime, em vez de financiar os seus carcereiros. É obsceno declarar solidariedade às mulheres espancadas, aos estudantes presos, aos dissidentes enforcados e, no dia seguinte, premiar e elogiar os torcionários que os esmagam.

No fundo, o Ocidente precisa de recuperar o instinto de conservação, qualidade sem a qual nenhuma civilização sobrevive. Tem de reaprender a distinguir prudência de cobardia, negociação de rendição, paz de apaziguamento. Se este MOU for o que parece, não estamos perante o início da estabilidade. Estamos perante a primeira prestação da próxima guerra e o fim dos EUA como poder confiável.

E quando os mísseis voltarem a cair, quando o Hezbollah voltar a disparar, quando se  voltar a perguntar onde está o urânio, quando os mesmos  líderes regressarem às televisões para explicar que ninguém podia prever, convém deixar desde já patente que tudo isto se podia prever  Só não quiseram ver. E uma cegueira deliberada não é ingenuidade. É cumplicidade suicida!

P.S. Se quando se conhecer o acordo, se verificar que desmonta a ameaça nuclear, impede a reconstrução das centrifugadoras, trava o rearmamento do Hezbollah e limita os mísseis iranianos, tudo o que escrevi acima muda de figura e teremos um  texto aceitável.  Se não, será apenas mais uma ilusão vendida como paz, que acabará por ser paga com sangue, daqui a pouco tempo, a menos que algo mude em Teerão.