(c) 2023 am|dev

(A) :: Normalização do tráfego em Ormuz vai demorar meses e pode correr mal, mas já se sentem impactos nos preços do petróleo e dos combustíveis

Normalização do tráfego em Ormuz vai demorar meses e pode correr mal, mas já se sentem impactos nos preços do petróleo e dos combustíveis

Há quase 100 milhões de barris retidos no Golfo prontos a sair, mas regresso à normalidade demora meses. Petróleo já baixou e combustíveis podem descer até 10 cêntimos. E ainda pode tudo voltar atrás.

Ana Suspiro
text

“Liguem os motores. Deixem o petróleo fluir”. Foi assim que Donald Trump assinalou no domingo o memorando de entendimento para as negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irão. O acordo de cessar-fogo que permite reabrir o Estreito de Ormuz era para ser assinado esta sexta-feira, mas o Presidente americano antecipou o momento com uma assinatura eletrónica feita em Versalhes durante a cimeira do G7. Horas depois, conta a agência Reuters, três superpetroleiros com bandeira da Arábia Saudita, a transportar seis milhões de barris de petróleo, navegaram pelo Estreito de Ormuz. Os navios iranianos também já podem passar.

São os primeiros sinais de retoma da circulação de navios no estreito que foi oficialmente fechado pelo Irão a seguir aos primeiros ataques de que foi alvo pelos Estados Unidos e Israel no final de fevereiro. E muitos mais seguirão. O petróleo já está abaixo dos 80 dólares por barril e antecipa-se uma descida acentuada dos combustíveis na próxima semana que pode chegar aos 10 cêntimos no gasóleo. Mas este cenário pode voltar para trás. Se as negociações romperem antes de ser alcançado um acordo firme e se a retoma dos fluxos de energia no Golfo Pérsico ficar comprometida até ao final do terceiro trimestre, o petróleo pode atingir um preço recorde de 140 a 160 dólares, avisa o banco de investimentos ING.

Quanto petróleo está pronto para sair de Ormuz?

De acordo com o vice-presidente americano, JD Vance, nas primeiras horas de liberdade de navegação, cerca de 12,5 milhões de barris terão atravessado o Estreito de Ormuz.

Segundo a consultora Kpler, citada pela agência de notícias Reuters, a reabertura do Estreito de Ormuz pode libertar no mercado 93 milhões de barris de petróleo não iraniano retidos no Golfo Pérsico. Há mais 72 milhões de barris de petróleo iraniano que ficaram presos em petroleiros pelo bloqueio naval dos Estados Unidos aos portos e pelas sanções internacionais cujo levantamento é um dos temas fortes da negociação.

A plataforma Vortexa, que mostra o trajeto dos navios mercantes, revela que há 54 superpetroleiros presos no Golfo, carregando 87 milhões de barris.

Quanto tempo vai demorar a retoma normal do tráfego?

A Agência Internacional de Energia (AIE) sinaliza que o tráfego comercial no Estreito de Ormuz já estava a crescer em junho face ao nível de maio para os 12 milhões de barris por dia. Mas avisa que uma recuperação total não será imediata. Isto porque será necessário retirar primeiro as minas dos principais canais de navegação. É também preciso esperar que as cadeias de abastecimento estabilizem.

O corte no abastecimento de petróleo e produtos refinados a partir do Golfo provocou uma queda do fornecimento mundial que vai demorar a recuperar para os níveis anteriores. A AIE estima uma quebra de 3,9 milhões de barris da oferta mundial em 2026 que só será ultrapassada em 2027, ano para o qual antecipa uma retoma de oito milhões de barris para 110,3 milhões de barris diários.

Que outros impactos teve esta disrupção na procura?

Há movimentos contraditórios. Por um lado, registou-se uma queda das reservas mundiais para o nível mais baixo desde 1990, com a retirada de 163 milhões (1,8 milhões de barris por dia) dos stocks dos países da OCDE. Essas reservas foram usadas como almofada contra o corte no fluxo de petróleo e produtos petrolíferos vindos do Golfo Pérsico e terão agora de ser repostas, o que levará a um aumento de procura que pode contrariar uma descida dos preços.

Por outro lado, as refinarias da Ásia, que são os maiores clientes do petróleo do Médio Oriente, já contrataram as cargas de que necessitam para operar entre junho e agosto e há várias refinarias chinesas que têm paragens para manutenção programadas para este verão. São reduções da procura que podem pressionar o petróleo ainda mais para baixo.

“Um aumento de larga escala na procura de petróleo parece improvável, a não ser que Pequim relaxe as restrições à exportação de produtos refinados ou avance com uma nova ronda de restabelecimento de reservas estratégicas de petróleo”, refere um analista da Kpler citado pela Reuters.

Como reagiu o consumo em Portugal?

As primeiras semanas do conflito foram marcadas por corridas semanais aos postos de combustível em Portugal, com os condutores a procurarem atestar o depósito antes das subidas mais expressivas do preço. Estas corridas foram seguidas por uma retração da procura de combustíveis. Dados da ENSE (Entidade Nacional para o Setor Energético) mostram uma queda acentuada do consumo em maio, face ao mesmo mês do ano passado.

O consumo caiu mais no gasóleo — 15% — do que na gasolina, onde a descida foi de 6,7%. Já o consumo de jet para a aviação, cujo risco de escassez foi notícia, cresceu 1%. Em termos acumulados desde o início do ano, a ENSE aponta para uma estabilização do consumo de combustíveis. O jet e a gasolina tiveram crescimentos na casa dos 4%, enquanto a procura por gasóleo encolheu 2,1%.

Como estão a reagir os preços do petróleo e dos combustíveis?

O petróleo já está a descer há uma semana e esta quinta-feira negociava abaixo dos 80 dólares por barril. O Brent estava perto dos 77 dólares, ainda sete dólares acima do nível praticado antes do ataque inicial ao Irão.

Os combustíveis também estão a baixar, mas de forma mais moderada e lenta. Já na semana passada, o gasóleo teve uma descida de 3 cêntimos por litro. Para a próxima semana antecipa-se uma baixa mais acentuada no gasóleo, na casa dos 10 cêntimos por litro, e cerca de metade na gasolina. Estas previsões têm como base as cotações até quarta-feira ao fim do dia.

O que vai acontecer aos apoios dados aos preços?

O pacote de apoios mais robustos dirigidos aos setores mais expostos — transporte de mercadorias, transportes públicos, táxis, agricultura, bombeiros e instituições de solidariedade social — termina no final de 30 de junho. A ministra do Ambiente e Energia já admitiu a sua interrupção caso os preços baixem, até porque, frisou Maria da Graça Carvalho, o custo é elevado e uma parte está a ser financiada pelo Fundo Ambiental. Estes apoios correspondem a 10 cêntimos por litro no gasóleo.

O Governo aplicou ainda um mecanismo de devolução dos ganhos do IVA, através da redução do imposto petrolífero que é ajustado semanalmente em função da variação dos preços finais. Esta medida conduziu a uma descida progressiva, mas limitada, do imposto, que já foi várias vezes invertida quando houve baixas pontuais dos preços. Segundo a portaria do Governo, esta ajuda só vigora enquanto os preços estiverem 10 cêntimos mais altos do que na primeira semana de março.

Qual é a situação dos preços face à que estava antes de começar o conflito?

Tendo por base o preço médio registado no início desta semana, o gasóleo está quase 23 cêntimos por litro mais caro do que na primeira semana de março. A gasolina tem um custo acrescido de quase 22 cêntimos por litro. O nível de impostos cobrados por litro mantém-se igual, cerca de 84 cêntimos no gasóleo e 97 cêntimos na gasolina.

Pode correr bem, mas e se correr mal?

O banco de investimentos ING divulga uma análise com três cenários para a evolução do preço do petróleo Brent para o terceiro e quarto trimestres.

87 e 85 dólares por barril. Num quadro em que o cessar-fogo de 60 dias resulte num acordo de longo prazo, ainda que não resolva todos os problemas, os petroleiros podem sair do Golfo. Esta recuperação no fluxo normal ainda exige desminagem, mas cria as condições para devolver a confiança às empresas de navegação para enviarem os seus navios tanque para abastecer.

110 e 100 dólares por barril. Há um impasse nas negociações que é acompanhado de episódios de escalada no conflito, ainda que menores. Os fluxos de energia vão continuar condicionados até ao final de julho, período ao fim do qual o mercado atinge um ponto de viragem em que a alta dos preços é sustentada pela falta de produto. Esta pressão da procura vai reforçar os esforços para que se chegue a um entendimento sobre a circulação no Estreito de Ormuz.

160 e 140 dólares por barril. As negociações rompem ainda durante os 60 dias do cessar-fogo e há um regresso a uma escalada forte no conflito por parte dos Estados Unidos e do Irão. A navegação no Estreito permanece fortemente constrangida devido à retoma de ataques e contra-ataques. Os houthis, aliados do Irão, combatem as exportações pelo Mar Vermelho com mais ataques ao porto de Fujairah, principal infraestrutura dos Emirados Árabes Unidos, e a outras estruturas energéticas. Este cenário assume uma disrupção forte dos fluxos comerciais durante o terceiro trimestre, que é um período de grande procura de produtos petrolíferos, o que elevará os preços para níveis que resultem na destruição de procura de forma a reequilibrar o mercado petrolífero.