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(A) :: Um Mundial, Dois Relatos

Um Mundial, Dois Relatos

O último jogo do Mundial vai marcar o fim desta saga em que tive de partilhar a atenção do meu namorado com jogadores de todo o mundo.

Matilde Prucha
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Já viram aquela imagem em que há um número pintado no chão e quem está de um lado diz que é um seis, e a pessoa do outro lado insiste que é um nove? O desenho é o mesmo, a perspetiva é que é diferente.

É mais ou menos isto que estou a viver com o meu namorado relativamente ao Mundial de futebol, que tem enchido as notícias e os ecrãs por todo o globo. Decidi, então, descrever estas duas perspetivas – ambas escritas por mim, mas apenas uma vivida na primeira pessoa.

1.A febre dos cromos

Estamos todos a par da febre dos cromos, certo? Eu não sabia bem no que me estava a meter quando lhe ofereci a caderneta. Entretanto, passaram semanas até conseguirmos comprar mais cromos porque, aparentemente, toda a gente teve a mesma ideia, e aqueles pedacinhos de papel autocolante andavam esgotados em todo o lado.

A caderneta está a ser feita pelos dois – a diferença é simples: eu fico entusiasmada com os cromos brilhantes; ele, com os cromos dos jogadores do Porto.

Quase todos os dias aponto, ao lado de cada equipa, a pontuação dos jogos. Ele sabe os resultados todos de cor, e eu comento como se estivesse efetivamente a saber do que falo.

2.Os horários indecentes

Os jogos têm horários estranhos e há demasiados por dia. É assim que posso resumir a minha opinião relativamente ao calendário do Mundial. Por outro lado, aposto que o J está convencido de que estes são os melhores 40 dias que acontecem de 4 em 4 anos.

Quando me diz que há jogos mais tarde, à noite, eu sugiro que veja no dia seguinte em diferido. Se não abrir nenhuma rede social, consegue ter o mesmo efeito surpresa se visse no momento da transmissão. Com a vantagem de não estar no limbo entre tentar não adormecer em frente ao ecrã e sonhar com um hat trick improvável.

Mas não. Aparentemente futebol só conta se for em direto, portanto facilmente concluímos que o horário de sono do J não anda assim muito constante. O meu, por outro lado, mantém-se inalterado com este evento que agita fãs de todo o mundo: chega à minha hora de ir dormir, vou para a cama, e no dia seguinte, juntamente com a mensagem de bom dia, pergunto-lhe como ficou o jogo.

Quando estamos a “ver juntos” um jogo – ou seja, quando o jogo acontece num horário civilizado – a dinâmica altera-se um pouco.

Estamos os dois no mesmo sofá: ele com os olhos colados na televisão, e eu deitada com o meu kobo nas mãos, imersa no mundo do livro daquela semana.

Quando há um golo e ele celebra, eu desvio o olhar para o ecrã para ver a repetição em trinta e sete ângulos diferentes.

Como muitos adeptos de futebol, o J também assume, por vezes, o papel de treinador de bancada: “Abre, abre! Recua! Bom passe…” Apetece-me dizer-lhe “Sabes que eles não te conseguem ouvir, certo?” Mas, na verdade, acho querido todo esse entusiasmo.

3.Quando joga a seleção

Portugal estreou-se neste Mundial no dia 17 de junho. Enquanto o J planeava sair a tempo do trabalho para conseguir ver o jogo, às 18h, eu marcava uma aula de ginásio para as 19h.

Cheguei a casa e – adivinharam bem – sentei-me no sofá a ler no kobo, enquanto ainda não eram horas de sair. O J mandou-me mensagem a informar do primeiro golo, e eu até estranhei não ter ouvido buzinas na rua.

No ginásio, ninguém falou de futebol, mas imaginei que talvez estivéssemos todas a pensar no mesmo: escolhemos ir treinar, em vez de ir ver Portugal jogar. Quando a aula terminou, fiquei a saber que Portugal estava empatado. E foi assim que o jogo terminou.

Enquanto o J me dizia que tinha perdido a esperança na nossa seleção, eu jantava com a minha avó que me dizia “Bem, empatar sempre é melhor que perder”. Não sei se os adeptos ferrenhos concordam, mas eu anuí com a cabeça.

O próximo jogo é na véspera de S. João, e esse planeio ver – bem, o máximo que me for possível, tendo em consideração o horário do jogo e da minha saída do trabalho. O terceiro jogo é à meia noite e meia, o que já me parece demasiado tarde para eu estragar o meu querido horário de sono.

4.A celebração do golo do Qatar

Fomos a um casamento no último fim de semana, e a meio do jantar dei por mim a ver o meu namorado a celebrar um golo do Qatar. Como assim?!

Pois, é que não é só Portugal que acelera o coração a este grupo de adeptos, fervorosos com o Mundial, do qual o J faz parte. Para trazer (mais) dinamismo a esta competição, os amigos juntam-se e fazem apostas para o resultado de cada um dos 104 jogos.

E, sim, o J tinha apostado num empate no jogo Qatar-Suiça, portanto a celebração foi, de facto, justificada.

Curiosamente, esta é a parte em que estou mais investida. Para além de perguntar sempre ao J qual foi o resultado dos jogos, questiono ainda qual tinha sido a sua previsão. E fico feliz quando acerta, claro!

Os amigos usam uma aplicação onde todos registaram as suas previsões, e vão acompanhando um ranking que, supostamente, determina quem mais percebe de futebol – ou, sendo honesta, quem teve mais sorte nas apostas que fez.

Quando eu tento entrar na brincadeira e fazer a minha própria aposta, apercebo-me que não faço ideia por onde começar. O J conhece os jogadores, o seu histórico e capacidades – eu, com sorte, sei localizar no globo o país onde eles jogam.

Faltam 31 dias para isto terminar (não é que esteja a contar…)! O J vai celebrar o final do Mundial, ainda mais se Portugal chegar lá. Eu também vou celebrar, claro, mas por motivos ligeiramente diferentes: é que o último jogo vai marcar o fim desta saga em que tive de partilhar a sua atenção com jogadores de todo o mundo.