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Estamos a enganar os alunos

É claro que as advertências que antecedem o exame nacional mostram qual é o modelo de aluno que estamos a criar: o aluno ao qual é dito que saber de mais pode sair caro.

P. João Basto
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Não sou contra os exames nacionais. Acho até necessário que um aluno, que termina a escolaridade obrigatária, seja testado num vasto campo de conhecimentos gerais, para lá das suas disciplinas específicas. Não sou, também, contra programas e metas curriculares. Não me parece sensato que seja um aluno ou um professor, de maneira isolada, a definir o que se deve dar ou não numa determinada disciplina. Como não sou necessária e ideologicamente contra a atual forma dos exames. Não me parece evidente que perguntas diretas sobre um texto sejam mais fáceis do que o antigo “comentário global”. Quem já teve de responder a coisas como “Defina res extensa em Descartes”, sabe que é bem mais difícil espetar palha no meio de uma questão direta. No entanto, algo de errado se passa. E, sim, estamos a enganar os alunos.

Esta semana, vigiei o exame de português. Por causa da burocracia exigida, confesso que fui mais nervoso para a sala do que muitos alunos. Acreditem: é preciso quase um doutoramento para não incumprir com alguma norma. Mas, ainda assim, creio que o problema está noutro lado. E esse lado não é a epiderme da polémica em torno do famoso cartoon.

Julgo que não vou contar nenhum segredo. Antes do início de um exame, aos vigilantes é pedido que leiam um conjunto de advertências. No meio de coisas simples, como a obrigatoriedade do uso de caneta azul ou preta, ou a impossibilidade de se escrever para lá das margens, é comunicado aos alunos que “só é permitida a expressão em língua portuguesa nas respostas às questões das provas e exames, excetuando-se, obviamente, as disciplinas de língua estrangeira” e que “não é permitido escrever comentários despropositados ou descontextualizados, nem mesmo invocar matéria não lecionada”.

Para mim sempre foi elucidativo que “escrever comentários despropositados ou descontextualizados” estivesse ao mesmo nível de invocar matéria não lecionada. Bem sei que, em português, invocar e evocar são expressões próximas, mas segundo o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, invocar é referir, citar e trazer ao assunto ou à discussão. Mas, antes de tudo, devíamos perguntar: afinal, o que é matéria não lecionada? Imaginemos que um aluno, num exame de português escreve que “a genialidade de Alberto Caeiro está, também, na subversão e reinvenção que ele opera na tradição bucólica inaugurada, entre outros, por Bernardim Ribeiro”. Dado que o autor de Menina e Moça não está no programa de Português, o aluno que escrever esta frase está a incorrer numa ilegalidade? Se num exame de filosofia um aluno se referir a Boécio, Pedro Lombardo, Michael Oakeshott ou James Madison, todos eles autores nunca referidos no programa oficial da disciplina, deve ser sancionado? E se sim de que forma? Afinal de contas escrever “quero sair daqui para fora” num exame, é igual a evocar autores como Fernão Mendes Pinto ou Camilo Pessanha?

Mas vamos à obrigatoriedade de se escrever em português, à exceção de exames de línguas estrangeiras. Ora, é bom que se diga que isso pode impossibilitar, até, a própria realização do exame de português. Dou um exemplo. A certa altura, no capítulo III de Os Maias, Carlos pergunta ao avô: “Não é verdade que eu era capaz de governar o dog-cart?”. A palavra surge, aliás, 16 vezes na obra. Mas se o aluno se vir obrigado a interpretar um excerto onde a mesma aparece, já sabe: nunca a pode incluir numa resposta. O mesmo se diga do aluno que falar da Blitzkrieg num exame de História, do Crossing-over num exame de Biologia ou do Spin num exame Físico-química.

Dir-se-á: esta argumentação é um exagero. Não me parece. Acerca deste último aspeto, no meio de tantas minudências, nunca se faz uma ressalva face à linguagem técnica de cada disciplina ou a termos necessários para uma resposta adequada.

Mas, acima de tudo, é claro que as advertências que antecedem o exame nacional mostram qual é o modelo de aluno que estamos a criar: o aluno ao qual é dito que saber de mais pode sair caro. E os alunos já perceberam isso. Já perceberam que saber mais pode ser prejudicial. Já perceberam que mais leitura, mais estudo, mais crítica não vale a pena. E já perceberam que as obras de “leitura obrigatória” não são, realmente, para ler.

É bom que tenhamos esta noção: a maioria dos alunos de Humanidades – vou restringir-me a estes – pode passar toda a sua vida escolar, em particular, o secundário, sem ler um único livro. Também para quê? Para depois terem a mania que são inteligentes? Ainda vão para o exame falar de Sófocles ou Dante. Era o que mais faltava.

O ano passado, conheci um aluno que teve uma classificação abaixo do esperado no exame de português porque, embora tivesse uma expressão escrita irrepreensível e resposta corretas, “ostentava uma linguagem muito barroca”. Este ano, mal saí da sala, mesmo vivendo em Viana do Castelo como eu, outro aluno perguntou-me o que eram as “varinas” – palavra que surgia no poema de Cesário Verde colocado em exame – questionando-me se, por acaso, esse termo não era sinónimo de “prostituta”. Não sei que vendedoras de peixe ele frequenta, mas não são as mesmas que as minhas. Mas posso, desde já, fazer uma aposta. Tenho relativa certeza que este tirará melhor nota que o primeiro.