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(A) :: O restaurante sem Estrela, by Olivier

O restaurante sem Estrela, by Olivier

Aqui floresceu uma das polémicas deste início de saison estival, juntamente com os chapéus de sol frente a áreas concessionadas e os mergulhos da selecção nacional antes de meter água com o Congo.

Arnaldo Valente
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Inês Correia
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No livro Quiosques de Lisboa (1987), Baltazar Caeiro explica que a palavra “quiosque” tem origem no francês kiosque, que deriva do turco kioushk (transliteração de köşk), que por sua vez também significa “nádega”. É uma ideia divertida que se tornou um factóide recorrente no jornalismo lisboeta. Decidi ir ver.

Não encontrei fonte que confirme que kioushk tenha algum dia significado glúteo em turco. Andei pelo Wiktionnaire francês, o Trésor de la Langue Française, um dicionário turco-inglês e outro turco-francês. Todos convergem exclusivamente nos significados “pavilhão” ou “pequeno palácio”. Para meu desconsolo, nenhuma menção anatómica.

Os próprios termos turcos para “nádega” parecem não ter relação fonética ou etimológica com köşk: encontrei kıç, popo e kalça (este último sendo, talvez, a resposta que há tanto buscamos para o mistério “o que tem o cu a ver com as kalças?”).

Aqui chegados, duas conclusões. A primeira é que, aparentemente, tenho muito tempo livre para queimar; a segunda é que a relação entre quiosque e rabiosque pode não passar de uma lenda urbana lexical, uma ideia pitoresca, talvez mal interpretada pelo próprio autor ou por ele recolhida de fonte não verificada. Um pouco como a ideia que por aí circula, de que abriu um restaurante de luxo no quiosque do Jardim da Estrela — que também decidi ir ver.

Polémicas e preconceitos

Ninguém trata o Jardim pelo nome próprio: Guerra Junqueiro. Pensando bem, também o poeta ninguém tratava assim, caso contrário isto chamava-se o Jardim do Abílio. Mas o que quero lembrar é que, para todos os efeitos, isto sempre foi o Jardim da Estrela, espaço popular, de memória afectiva e partilhada da cidade.

E é aqui que floresce uma das polémicas deste início de saison estival, juntamente com os chapéus de sol frente a áreas concessionadas e os mergulhos da seleção nacional antes de meter água com o Congo. A saber: o quiosque grande, junto à entrada que dá para a Basílica, passou a ser explorado por Olivier da Costa, gerando acusações de elitização de um lugar público, interpelações de uma associação de moradores, requerimentos da oposição a Carlos Moedas, além de um aceso debate de emojis e hashtags.

Os ingredientes estão todos lá: o cansaço com a gentrificação de Lisboa, a sensação de inflação despropositada da cidade, a suspeita de privatização do que é público, a dissonância cognitiva das redes sociais e a indignação como pose, mais os enxames de nómadas e as tostas de abacate, o ressentimento do exclusivo e a sensação de exclusão. O extenso currículo de bazófia do chefpreneur (o termo é do próprio e designa um híbrido entre chef e entrepeneur) também ajuda à festa.

O resultado são manifestações de indignação comparáveis à de Guerra Junqueiro perante o Ultimato de 1890. E há mesmo quem sugira que esta concessão cheira a esturro. Nisso não me meto, mas posso garantir que cheira a trufa. Já lá vamos.

Em resposta, Olivier garante que não se trata de um espaço de luxo, que os preços são democráticos e que, naturalmente, há aqui um conceito (termo que a gastronomia moderna pediu emprestado à filosofia aristotélica para não ter de usar expressões imprecisas como casa de bifanas ou churrasqueira).

Explica ele que o novo espaço assenta numa lógica de “all day eating”, que oferece duas cartas diferentes consoante a hora do dia, e que “dá para pequeno-almoço, brunch, almoço, lanche, sunset ou jantar”. Ora eu, que também costumo dar para isso tudo, vim experimentar.

É segunda-feira, faz uma semana sobre a inauguração e os relatos do fim de semana passado são de grande romaria e frenesim. Venho ao sunset, são sete e picos. O Instagram diz que isto havia de estar cheio, o horário diz 09h-22h, mas a porta fechada diz que não tenho sorte. Ao meu lado, um jovem casal troca beicinhos pela mesma desilusão. “Devíamos ter vindo logo no fim de semana”, lamenta ela, ao que ele responde que agora é melhor chamar um Uber. Pela conversa, vieram a pé de algum sítio fora de mão.

A dureza do soft opening

Regresso no dia seguinte perto das 13h00. Metade da centena de lugares da esplanada já ocupada, a sala interior ainda fechada, desconfio que seja porque a climatização ainda não está pronta e o calor já é de ananases.

À porta, corre um caos tranquilo, daqueles que só se aturam em dias de abertura, com indicações contraditórias e empregados em contramão. Mas o sistema lá vai tomando forma e a ordem vai acontecendo. Menos de cinco minutos e estou sentado numa mesa junto ao lago, a esplanada já composta e resta ainda uma dúzia de cidadãos por sentar.

https://observador.pt/2025/01/12/talego-a-republica-do-gerundio-tem-embaixada-junto-as-amoreiras/

As principais tribos são expats e nativos de bairros adjacentes, da Lapa a Campo de Ourique, entre uma terceira idade bem cuidada e jovens casais com quatro filhos em escadinha. O ambiente é bom, o serviço é simpático, os patos estão tranquilos.

A carta da tarde faz-se essencialmente de cinco sandes (que podem custar 13,5€ a 15€, mas são anunciadas como super sandwich), três saladas (12,5€ / 14,5€) e sete pizzas (12€ / 16,5€). Todas as entradas apresentam uma lista de ingredientes extensa como um nome de família de bem, mas um olhar mais demorado revela duas coisas.

A primeira é que os produtos não são assim tantos e se vão repetindo numa geometria variável. Os mesmos queijos com várias aparições (parmesão x7, mozzarella fiordilatte x8), o inevitável abacate reproduzido em tostas e saladas, a focaccia das sandes que parece ter origem comum na massa da pizza. Não faço um reparo, antes um elogio: isto é gestão astuta de stocks num espaço exíguo que, a este ritmo, há-de servir umas largas centenas de refeições por dia.

A segunda coisa é que a trufa continua uma assinatura da culinária lambona a que Olivier nos habituou. Encontro mel trufado na super sandwich de rosbife, descubro mortadela trufada numa pizza, amanhã hei-de levar com molho holandês trufado numa tosta Olivier — e agora que acabei de escrever esta frase percebo que me faz parecer um suíno adestrado à procura de fungos. Por hoje, vou numa super sandwich porchetta (13,5€) e numa imperial (2,5€).

A porchetta é uma gordice italiana de porco desossado, temperado de alho e ervas, enrolado e cozinhado lentamente. A carne chega tenra e húmida (falta-lhe a pele estaladiça que é magia original), com cebola caramelizada, provolone, rúcula e maionese de mostarda, tudo conforme anunciado, embrulhado num pão leve de focaccia. O conjunto é simpático e a sandes é de bom porte — embora chamar-lhe super soe a coisa de quem anda a Ozempic.

Mas deixem-me recuar a fita do tempo. A cerveja chega em três minutos, a conta chega em cinco (já com 5% de gratificação sugerida), a sandes chega em dez. Perante esta ordem de factores, questiono o jovem empregado que sentido faz uma gorjeta preventiva. Pede desculpa, com a simpatia que é constante na casa. Explica que estão ainda a “afinar o procedimento” e que tiveram de passar a pronto pagamento depois de uma “primeira semana complicada”. Em apenas dois dias, confidencia, voaram mais de 600 euros, com gente que se pôs ao fresco sem pagar. 

Aproveito a conversa para perguntar por reservas. O rapaz diz-me que ainda não estão a aceitar, talvez para a semana. Nessa altura, acrescenta, também já estarão abertos até às 22h00. Por agora fecham às 17h00, enquanto passam estas dores iniciais. “Tem sido duro”, remata ele. É a dureza do soft opening, suponho eu. E assim se explica ter dado com o nariz na porta no dia anterior. Passemos ao dia seguinte.

A latitude da democracia

A carta da manhã vigora até às 12h30 e tem perfil de brunch, que é aquela refeição inventada depois do smartphone. Muitos ovos, muitos sumos e, claro, muito abacate, outra coisa que se tornou viral neste país mais ou menos pela altura do iPhone 5.

Trago companhia e, mergulhando no conceito, apostamos numa tosta de abacate (espinafres, cogumelos, abacate, ovo a baixa temperatura, molho holandês, 12,5€). Por respeito ao chef, pedimos também uma tosta mista Olivier (cebola confitada, fiambre fumado, queijo, ovo bt, molho holandês trufado e cebolinho; 14€). A primeira é triste: não sabe muito a cogumelos, não sabe muito a abacate, não sabe muito a espinafres, não tem grande história. A segunda é uma lambarice em pão de forma que só me sabe a trufa (um fungo que tem este hábito de crescer por baixo, mas passar por cima de tudo).

Em boa verdade, nada restou no prato, nada disto é mau e nada vai desapontar os seguidores. Pouco mais tenho a acrescentar e reconheço que não é justo testar restaurantes à queima, apenas com dias de vida. Além disso, toda esta experimentação foi menos pela comida e mais pelo alarido. Juntem-lhe um sumo de laranja natural e outro que junta ananás, maçã, cenoura, curcuma e gengibre, e temos 40 paus para dois.

Considerar estes valores democráticos depende da visão de democracia que queiramos adoptar. Uma bica a 2 euros é democrático, eventualmente, no sentido da antiguidade grega, em que o estatuto de cidadão não era reconhecido a todos. E é esmagadora a percentagem de portugueses que se veem gregos para pagar isso.

Dito isto, os preços também não são monegascos nem azurianos (soa a habitante dos Açores embriagado, mas refiro-me aos indígenas da Côte d’Azur). São lisboetas mesmo, versão 2026. É a cidade que fomos deixando acontecer. Na zona da Estrela, o preço médio das casas roça já os 8000€/m² (tónica no médio).

https://observador.pt/2025/07/16/quitanda-e-dificil-comer-peixe-fresco-e-a-preco-justo-em-lisboa-felizmente-paco-darcos-e-ja-ali/

Bem sei que isto soa a resmunguice geriátrica, mas não é a novidade que me encanita. Antes do Jardim ter sido plantado, nos idos de 1850, a maior parte destas árvores que me dão sombra também não era de cá. Estou rodeado de figueiras-da-austrália (Ficus macrophylla) e cedros-do-líbano (Cedrus libani), o mundo pula e avança com transumâncias e miscigenações, e reconheço que é normal que o abacateiro (Arbor-fructus nomadus-digitalis?) se junte à horta.

O que realmente me desanima é esta normalização do gosto, sem raízes que prendam ao lugar, que trazem preços de outras latitudes e cavam meridianos entre lisboetas. Dito isto, a verdade é que a casa está cheia e já vai sendo hora de levantar as kalças da cadeira para dar lugar a outro.

Hei-de voltar para o tal sunset.

Arnaldo Valente é homem de palavra e só não dá a cara porque precisa dela para fazer a barba. Tende pouco para as tendências, não é muito sensível às sensibilidades, é fascinado por coisas sem importância e insiste em brincar com coisas sérias. Só fala do que experimenta, embora não possa falar de tudo o que já experimentou.