“Ainda” não estamos, neste momento, a testemunhar uma “bolha” no investimento mundial em inteligência artificial (IA), “mas estamos mais perto disso do que estávamos há um ano”, afirma o principal responsável da Allianz Global Investors de investimentos em mercados acionistas. Michael Heldmann reconhece que as cotações das empresas deste setor, que têm estado no centro das valorizações recorde na bolsa dos EUA, estão em “níveis elevados” mas que não são “descabidos”. O “hype”, a “euforia”, ainda está em crescendo, considera o especialista.
Numa apresentação feita em Frankfurt, numa conferência organizada pela gestora de fundos que é detida pela seguradora Allianz, Michael Heldmann salienta que, “nas grandes disrupções tecnológicas, há uma tendência para sobrestimar o seu potencial no curto prazo mas, ao mesmo tempo, subestimar o seu impacto no longo prazo”. Estamos (ainda) numa fase em que “tendemos a pensar que a IA é a solução para todo e qualquer problema que existe no mundo”.
Não será bem assim, acautela o especialista, e os mercados financeiros irão gradualmente ajustar as suas expectativas à realidade. Porém, a longo prazo, esta é uma tecnologia com um potencial enorme que, na maior parte das áreas da economia, irá gerar “enormes ganhos de produtividade a médio prazo“, afirma Michael Heldmann. Questionado pelo Observador nessa conferência, reconheceu, porém, que o caminho até lá será turbulento.
“Temos, como investidores, de abordar o investimento em IA com disciplina e diversificação”, recomenda, acrescentando que “irá haver novos períodos de volatilidade nos próximos anos”, comparáveis àquele que ficou conhecido como o “momento Deepseek“. No ano passado, o otimismo em torno dos investimentos em IA sofreu um rombo (momentâneo) quando uma empresa chinesa pareceu ter criado um modelo de IA – o Deepseek – investindo apenas uma fração daquilo que as grandes norte-americanas, como a OpenAI, estavam a investir.
https://observador.pt/especiais/deepseek-a-startup-chinesa-que-abana-a-industria-da-inteligencia-artificial-ao-prometer-fazer-mais-com-menos/
Michael Heldmann, um doutorado em Física que trabalha há décadas na Allianz Global Investors (e viveu vários anos em Silicon Valley, na Califórnia, onde assistiu de perto ao início da investigação nesta área), denota “um crescimento exponencial na complexidade das tarefas que a IA já consegue fazer melhor do que os seres humanos“. E é sobretudo por isso que não faz sentido falar numa “bolha” insustentável no investimento nesta área, nem fazem sentido as comparações com a “bolha” das dotcom, que estourou em 2000.
“Há muitas diferenças, uma das quais é que continuamos a ver que a expansão da tecnologia continua a ser constrangida pela capacidade que existe”, o que não acontecia nos anos em que se formou a “bolha” da internet. Ou seja, na IA as grandes empresas deste setor gostariam de ter mais capacidade – ao nível de centros de dados, componentes, para satisfazer a procura crescente pelos seus serviços”, explica Michael Heldmann. Por outro lado, ao nível do “financiamento também não estamos a ver qualquer bolha de dívida a formar-se”, acrescenta.
Estamos “muito longe daquilo que vimos na bolha dotcom, mas nem todas as empresas neste setor vão ter a rentabilidade dos seus investimentos que esperam ter”, assinala o especialista da Allianz GI, garantindo que “teremos, certamente, vencedores e perdedores nesta área“.
“Estou muito preocupado” com a Europa na área da IA
Michael Heldmann frisa que as oportunidades de investimento nesta área “não estão só nos EUA, também há empresas na Ásia, na China, que são apostas muito interessantes”. Já na Europa, o cenário é mais “preocupante“.
“Estamos a mover-nos para um mundo bipolar: os EUA são o líder mas a Ásia e a China estão logo atrás, a concorrer – porém, a Europa está no meio e, infelizmente, não tem um grande protagonismo”, lamenta o especialista.
Nos EUA, “em Silicon Valley há uma maior predisposição para abraçar a mudança e participar nessa mudança”, pelo que “cabe aos responsáveis políticos europeus tomar iniciativas para fomentar esta aposta”. “As coisas estão a mover-se muito, muito rapidamente e, se não investirmos agora, dentro de um par de anos teremos um fosso do que será muito difícil recuperar“.
Parte do problema está relacionado com a regulação. “Não estou a dizer que não devemos ter qualquer tipo de regulação na área da IA, mas há espaço para ser um pouco mais rápido em algumas áreas”, afirma Michael Heldmann.
“Por outro lado, a questão do acesso a capital é um problema grave na Europa, o capital de risco é muito difícil de encontrar“, acrescenta. “Vivi muitos anos em Silicon Valley e tive alguns amigos alemães que também viviam lá e tentaram mudar-se para a Alemanha, para lançar projetos na Europa aproveitando a experiência que tinham acumulado nos EUA. Mas o acesso ao capital foi sempre – e continua a ser – um grande desafio”, afirma.
*O jornalista viajou a Frankfurt a convite da Allianz Global Investors