Enquanto o país parava para assistir ao Portugal-RD Congo no Mundial de Futebol, Marcelo Rebelo de Sousa deslocou-se discretamente a Pedrógão Grande para uma homenagem às vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande, que incluiu a presença numa missa em Vila Facaia, uma das aldeias mais afetadas em 2017. “Convidámos o nosso Presidente do coração, foi ele que nos acompanhou sempre”, explicou ao Observador a presidente da Associação de Vítimas de Pedrógão Grande. O atual Presidente, António José Seguro, também foi convidado, mas “declinou o convite” por ter outros compromissos — o que Dina Duarte compreende.
Ao contrário do que aconteceu em todas as outras atividades relevantes, Marcelo Rebelo de Sousa quis passar despercebido e não publicou nada no site do seu gabinete de Ex-Presidente. A imprensa também não foi informada. O ex-chefe de Estado quis prestar esta homenagem a título pessoal. Além de querer evitar leituras de disputa do espaço mediático com António José Seguro, que estava fora do País. A presença de Marcelo acabou por se notar apenas em planos de corte de uma das duas televisões que acompanhou a homenagem junto a um memorial e através das fotografias que o secretário de Estado da Proteção Civil publicou nas redes sociais. O antigo Presidente só posou — a contragosto, ao contrário do que é habitual — para a fotografia quando desafiado pelo fotógrafo do Governo.
A presidente da associação de vítimas explica que Marcelo está sempre convidado. “Esteve sempre connosco nos últimos nove anos. Esteve no território, presente. Temos uma dívida de gratidão e reconhecimento. Teve a postura que era necessária, de dar os puxões de orelhas a quem era necessário. Além de dar apoio afetivo e emocional“. Dina Duarte diz ao Observador que “é uma coisa estrondosa” a memória visual do ex-Presidente que “sabe o nome de todas as vítimas e familiares”.
Em 2023, Costa e Marcelo não estiveram presentes nos seis anos da tragédia, o que levou as vítimas a dizer que estavam “esquecidas pelo poder”. De tal forma, que o então Presidente justificou que tinha um périplo previsto pela zona e marcou o 10 de Junho no ano seguinte precisamente para aqueles concelhos afetados. Presidente e primeiro-ministro visitariam o Pedrógão na inauguração do memorial dez dias depois.
As faltas justificadas impedem nova polémica. Apesar de António José Seguro não ter estado presente este ano, as vítimas compreendem que tenha “outras preocupações“. A presidente da associação elogia no entanto o novo chefe de Estado por ter “a noção do que é o interior”, até porque, destaca “é um homem que veio do interior.” Prefere, aliás, que esteja presente nos 10 anos da data, no próximo ano, para simbolizar o “virar de página” que as pessoas de Pedrógão Grande precisam. Afinal, este ano só se comemoram os nove anos da tragédia, não era uma data redonda. A ausência de Seguro foi justificada pela participação na COTEC, em Veneza, onde voltou a alertar para os desafios da Inteligência Artificial.
Luís Neves pediu para estar presente
A associação de vítimas não convidou o primeiro-ministro nem, numa fase inicial, o ministro da tutela, compreendendo que não é necessária a presença ao mais alto nível na cerimónia todos os anos, mas convidou os dois secretários de Estado do ministério: o da Proteção Civil, Rui Rocha, e o das Florestas, Rui Ladeira. O ministro da Administração Interna, ao saber da existência cerimónia, fez saber que gostaria de estar presente e a associação acabou também por convidá-lo.
Luís Neves decidiu, no entanto, não colocar o evento na agenda oficial do Ministério da Administração Interna. Ainda assim, com duas televisões e uma rádio local presentes, o governante aceitou dar declarações deixou “um abraço muito fraterno” aos familiares das vítimas e afirmou que “todos temos que aprender com o que correu mal, para que no futuro esses erros possam não suceder”. Já Marcelo Rebelo de Sousa evitou as câmaras e manteve-se o mais possível fora dos planos (embora alguns planos gerais o tenham apanhado).
Marcelo e a marca de Pedrógão que ficará para sempre
Marcelo Rebelo de Sousa tem como uma das marcas dos seus mandatos presidenciais o facto de estar na chefia do Estado quando se deu uma das maiores tragédias — os incêndios do verão e outono de 2017 — e nunca mais o esqueceu. O próprio, nos vários balanços que fez do mandato, colocou sempre a pandemia e os incêndios como os momentos mais difíceis, sendo que no caso dos fogos ficou mais evidente o falhanço do Estado.
O Presidente seguiu logo para o terreno horas depois de se saber o que se passara na chamada “estrada da morte” e assistiu de perto a tudo. Ficou muito tempo sem falar do que se passara até que, ainda antes dos incêndios de outubro, deu uma primeira entrevista ao Observador a explicar o que viveu naquela noite e a defender-se das críticas de ter ido atrapalhar para o terreno.
https://observador.pt/especiais/marcelo-fala-pela-primeira-vez-do-que-viu-no-dia-do-fogo-de-pedrogao-numa-situacao-de-emergencia-ha-tudo-menos-protocolo/
Quando tudo se repetiu em outubro de 2017, Marcelo ficou furioso com as falhas do Estado. A 18 de outubro fez uma comunicação ao País em que basicamente pressiona a demissão da ministra da Administração Interna, ao dizer que o “Presidente da República pode e deve dizer novamente que espera do governo que retire todas, mas todas, as consequências da tragédia de Pedrógão, à luz das conclusões dos relatórios, como de resto o governo se comprometeu publicamente a retirar.” Ao que acrescentou que o chefe de Estado “pode e deve dizer que abrir um novo ciclo inevitavelmente obrigará o Governo a ponderar o quê, quem, como e quando melhor serve esse ciclo.” A ministra demitiu-se no dia seguinte.
Marcelo teve nesse momento um dos momentos mais tensos com o Governo de António Costa e, para pressionar o Executivo, pôs o seu segundo mandato no cepo. A 5 de maio de 2018, antes de uma nova época de incêndios, Marcelo avisou que não se recandidataria se um cenário igual ao de 2017 se repetisse: “É um cenário [de recandidatura em caso de nova tragédia] que se não coloca no meu espírito. Não vai acontecer“.
O ex-Presidente quis esta quarta-feira mostrar que, mais importante que a euforia do futebol, era homenagear as vítimas de 2017. O chefe de Estado, apurou o Observador, ainda conseguiu espreitar o final da primeira parte entre a cerimónia do memorial e a missa que, tendo começado às 19h00, não lhe permitiu ver a segunda parte do jogo.
Sendo Marcelo o que o jornalista do Expresso e biógrafo do ex-Presidente, Vítor Matos, descreve na biografia como um “cristão providencialista, ele acha que os seres humanos nascem para cumprir uma missão terrena e acredita na parábola dos Evangelhos, em que cada um deve descobrir os seus talentos e pô-los a render”. O falhanço do Estado em Pedrógão foi também de quem o chefiava e, indiretamente, da missão que tinha de proteger os portugueses. Marcelo nunca o esquecerá e, também por isso, nunca deixará de ir a Pedrógão Grande mesmo depois de ter deixado a função presidencial.