Defende o direito de Pedro Passos Coelho em dizer o que pensa, não alimenta (mas também não esvazia) eventuais planos do antigo primeiro-ministro para o futuro e deixa um conselho a Luís Montenegro e companhia: aproveitem os conselhos de Passos, ouçam e aprendam qualquer coisa. Caso contrário, as coisas podem correr mal. “Se o PSD não tiver juízo, pode ser engolido pelo Chega.”
Em entrevista ao Observador, no programa Vichyssoise, Miguel Relvas, antigo ministro e braço direito de Pedro Passos Coelho, lamenta que o Governo liderado por Luís Montenegro esteja mais preocupado com a conservação do poder do que em fazer verdadeiras reformas do país. E é nesse aspeto concreto que começam as comparações com António Costa. “Este Governo é muito parecido com o do PS. E isso irrita-me profundamente.”
Quanto ao congresso do partido, que vai acontecer esta semana e servirá essencialmente para celebrar a reeleição de Luís Montenegro como líder do PSD, Miguel Relvas, que assistiu às voltas e voltas do partido ao longo de mais de 30 anos, dá um conselho que pode ou não ser premonição: “Quem vai para o congresso a pensar que é dono do partido, esqueça. Toda a liderança é efémera.”
[Ouça aqui a Vichyssoise com Miguel Relvas na íntegra]
https://observador.pt/programas/vichyssoise/este-governo-e-parecido-com-o-de-costa-e-isso-irrita-me/
“Desafio a Passos é infantil. Não me parece inteligente, nem razoável”
Estamos a poucos dias do Congresso do PSD. O partido chega aqui depois de um período marcado por críticas abertas de Pedro Passos Coelho a Luís Montenegro, que tanta tinta fizeram correr. Hugo Soares e, mais recentemente, Miguel Pinto Luz desafiaram o antigo primeiro-ministro a ir ao Congresso. Entende que Passos devia ir a este Congresso?
Luís Montenegro também faltou a congressos quando Rui Rio era líder e não deixou de vir a ser, mais tarde, presidente do partido. Acho um pouco infantil esta ideia do ‘vem cá, vamos aqui lutar…’ Não me parece nem inteligente, nem razoável. Pedro Passos Coelho esteve calado dez anos e nunca ninguém lhe disse para ir ao Congresso. A questão é saber se ele tem razão ou não tem razão naquilo que tem dito. Se dói ou não dói ouvir aquilo.
Mas seria um palco privilegiado para dizer a Montenegro tudo o que pensa sobre esta governação.
Os partidos andam a alhear-se da realidade. Estão desatualizados. O PSD e o PS começam a correr um grande risco. Da mesma forma que apareceu o Chega à direita, não é impossível amanhã aparecer uma força política à esquerda do Partido Socialista com contornos semelhantes. Os congressos deviam evoluir para o modelo da convenção americana, serem um espaço de afirmação, de espetáculo.
Antigamente eram congressos eletivos.
O que mais me surpreendeu foi a marcação deste Congresso. Gosto de futebol, conheço os calendários. Quando estava na atividade política, nunca ousei desafiar a força do futebol. Luís Montenegro e Hugo Soares, que conheço há muitos anos, gostam tanto ou mais de futebol do que eu. Aliás, Montenegro vai sair do Congresso a correr para ir para o jogo de Portugal. Pergunto porque é que eles foram marcar o congresso para uma altura como esta. Querem passar despercebidos. Não há aqui erros. Não se cometem erros desta dimensão. Ninguém comete. Portanto, fizeram um Congresso que não vai existir.
“A ideia que existe é que o Governo está paralisado”
Voltando a Pedro Passos Coelho. Miguel Poiares Maduro, outro antigo ministro desse governo, disse o seguinte: “Passos compreende que, provavelmente, o seu tempo político já passou”. Concorda?
Se há uma coisa que odeio na política é o achismo. É a forma que muitas pessoas têm de dizer coisas, que muitas vezes são banais, para parecerem importantes. Quando Pedro Passos Coelho não está de acordo com alguma coisa, diz. É uma figura importante na sociedade portuguesa, foi um grande primeiro-ministro e fez reformas reais. Nunca andou a dizer: “Nós fazemos reformas”. Faziam-se. Devo dizer que uma das coisas que me custa… Não é preciso andar todos os dias a dizer que se fazem reformas quando não as fazem. Quem tem que dizer se os governos fazem reformas são vocês [comunicação social], são as pessoas na rua. Há hoje muitas formas de saber foi ou não foi feito. Isto apalpa-se, olha-se, sente-se e vê-se que não é real. E a ideia que existe é que o Governo está paralisado. A culpa é de quem analisa ou de quem não faz?
Mas o que é que tem de acontecer para o antigo primeiro-ministro voltar à política?
Pedro Passos Coelho não está na vida política. Ele pronuncia-se sobre aquilo que deve ser a ação do Governo. Tem sido convidado para televisões, para rádios e para jornais para ser colaborador e não aceita. Não está na pista a correr para ser algo na política. Vejam Mário Centeno: está com tanta vontade de voltar à dança que foi fazer um programa semanalmente para a CNN. Passos, se quisesse, e isso eu sei, teria um espaço em qualquer uma das televisões. Aí saberíamos que ele estava mesmo interessado. Agora, acho que está aí preocupado com o país e também esperava que o PSD pudesse fazer diferente. Mas respondem: ‘Ah, mas o Governo não tem minoria, é difícil de fazer reformas’.
Mas podia defendê-las.
Um governo minoritário estava livre para ser um governo de apresentação. Um governo reformista não é aquele em que todos os dias um ministro dá uma entrevista que já sei como é que terminam: “Somos o governo mais reformista dos últimos 30 anos”. O país não sente isso porque essa não é a realidade. Falam muito do governo minoritário de Cavaco Silva, mas esquecem-se que esse governo foi para o confronto. Este também deveria ter ido. Apresentava as propostas, o Parlamento votava ou não votava. O país começava a perceber que havia um caminho, sabia que havia convicções, que havia certezas. Foi isso que Pedro Passos Coelho fez. Fizeram-se reformas, em situações muito difíceis, muito delicadas, e depois ganhou as eleições com quase 37%. O cidadão não quer votar em quem lhe promete facilidades quando elas não existem. Em quem lhe promete o céu quando eles sabem que não vão ter céu.
Já vamos retomar essa ideia. Sobre o episódio dos “prostitutos políticos”. Há muita gente a considerar que Pedro Passos Coelho ultrapassou uma linha vermelha. Não existe o risco de as aparições constantes e cada vez mais críticas virem a banalizar a palavra do antigo primeiro-ministro e dilapidar o capital de apoio que Passos ainda tem no PSD e à direita?
Acho que ele tem um grande capital de apoio no país. E uma personalidade política que fez o caminho dele não tem de se preocupar com o partido; tem de se preocupar com o país e com o espaço político em que está inserido. Pessoalmente, compreendo a linguagem utilizada. Não me choca. Pedro Passos Coelho foi genuíno, disse aquilo que pensava. Eu já disse isso a alguns membros do governo: considerem estes conselhos como assessoria gratuita. Não se zanguem. Ouçam e pensem. Se estas pessoas, que andaram na vida política, que tiveram relevância na vida pública, que fizeram coisas, fazem estas afirmações, é porque querem ajudar. Quem não quer ajudar faz isto de uma forma…
Mais sibilina? Mais conspirativa?
De uma forma mais discreta. Aliás, como os membros do Governo. Há desentendimentos entre membros do Governo e isso é dito de uma forma discreta. Em público dizem uma coisa e em privado dizem outra. E depois querem ser levados a sério. Não são.
Num primeiro momento, disse que há possibilidade de existirem novos partidos. Há pouco disse que Pedro Passos Coelho não tem de se preocupar com o partido, tem de se preocupar com o país e com o espaço que representa. Aquela ideia que chegou a circular há um par de semanas, da possibilidade de existir um novo partido à direita com Pedro Passos Coelho como líder faz-lhe sentido?
Não. Não vejo Pedro Passos Coelho noutro partido que não o PSD. Meto as minhas mãos no fogo. É uma conversa que alguns alimentam mais em proveito próprio. Pedro Passos Coelho é uma pessoa com convicções. O que ele quer é que o PSD arrepie caminho.
“Se o PSD não tiver juízo pode ser engolido pelo Chega”
Luís Montenegro tem estado aquém das expectativas?
Acho que devia olhar para o Governo com mais intensidade. Tem que coordenar mais o governo. Não é possível, por exemplo, que um ministro da Presidência [António Leitão Amaro] retenha durante três meses, e eles não podem desmentir, a PSU, para agora estarmos a discutir à pressa. E as reformas que este governo quer fazer são todas baseadas na questão dos fundos comunitários. E isso é muito pouco. Sempre que posso, gosto de defender o Governo. Tenho é tido dificuldades. O problema não é meu. Este Governo é muito parecido com o governo de António Costa e isso irrita-me profundamente.
Em que sentido?
Gostam de estar submetidos à ideia de que são poder. E o objetivo é perceber como é que conseguem continuar no poder. Acho que é muito mau. Temos de ter convicções. E quem vai para este Congresso a pensar que é dono do partido e que o partido o ama, esqueça. O que vi sempre em 30 anos de vida política era o seguinte: mudavam os líderes, mas a primeira fila e a segunda eram quase sempre os mesmos. Isto é um bocado como o futebol: ninguém manda embora 23 jogadores; é mais fácil mandar embora um treinador. Quem acha que o partido gosta deles, que os acha muito bonitos e tal, que o partido é deles… Não é. Toda a liderança é efémera.
O PSD corre o risco de ser engolido pelo Chega nas próximas eleições?
Se não tiver juízo, sim. O PSD vai ter que perceber qual é o seu espaço. Esta ideia do “somos do centro” não existe. O centro é um ponto de chegada; não é um ponto de partida. Mário Soares trouxe o PS da esquerda para o centro. Sócrates teve uma vitória fantástica em 2005 à conta dos eleitores do PSD, conquistou a direita. Hoje, o PSD não consegue chegar aos 30% em eleições. E isso é muito mau. Nunca chegará à maioria absoluta. Portanto, o PSD tem de ser capaz de se assumir como um partido centro-direita. Da direita, chega ao centro. Precisamos de gente arejada. São todos muito penteadinhos. Há pouca gente despenteada, ousada.
Se, porventura, o PSD perder as próximas eleições legislativas, mas existir uma maioria de direita no Parlamento, seria uma janela de oportunidade para Pedro Passos Coelho regressar?
Será para qualquer um que esteja disponível para o ser. Em democracia, as lideranças são avaliadas pelo sucesso junto dos eleitores, caso contrário os partidos deixam de existir.
Mas Pedro Passos Coelho aceitaria ser líder do PSD?
Não lhe perguntei, mas estaríamos a falar no futuro. Não há que ter medo. O PSD passa a vida a falar de Sá Carneiro. Sá Carneiro sempre que era posto em causa ia-se embora. Depois voltava. Com Cavaco Silva, quem ia embora era os que o contestavam. Mas eram líderes. Eram afirmativos. Pedro Passos Coelho é um político fora da caixa. Quando ele disse “que se lixem as eleições”, o partido, nesse dia, ficou em pânico. Eu ouvi gente a perguntar: “Mas ele vai-se embora?”. Claro que não. Na política, precisamos de gente com coluna vertebral.
“Campanha com Leitão Amaro? Estou mais próximo de Pedro Duarte”
Vamos entrar no segundo segmento do nosso programa, o bloco Carne ou Peixe, onde só pode escolher uma de duas opções. Preferia voltar a fazer uma campanha eleitoral ao lado de: Pedro Duarte ou António Leitão Amaro?
Não desgosto de António Leitão Amaro. Mas estou mais próximo de Pedro Duarte.
Viaja muito por motivos profissionais. Quem gostaria de ter ao seu lado num voo intercontinental: Luís Montenegro ou André Ventura?
Preferia Luís Montenegro, sem qualquer dúvida. Mas não mudaria de lugar se fosse André Ventura.
Com quem gostaria de ir ver um jogo a Alvalade: Miguel Poiares Maduro ou Pedro Santana Lopes?
Conheço Poiares Maduro, mas gosto e tenho prazer em conversar, divergir e em divertir-me com Pedro Santana Lopes. É uma pessoa de quem gosto. Vamos estar para a semana num casamento em que somos padrinhos. Ele de um lado, eu do outro.