Portugal ainda não recuperou da onda de calor excecional de maio e já se prepara para enfrentar um novo episódio em que as temperaturas máximas poderão aproximar-se e até ultrapassar os 40 graus em várias regiões do interior, que estão já sob aviso laranja ou amarelo. Além dos dias de inferno, as noites também não arrefecem e serão ou tropicais (mais de 20ºC) ou tórridas (mais de 26ºC), com as consequências que isso traz à saúde e a subida dos riscos de incêndio que causam. O Governo admite mesmo colocar o país em estado de alerta caso a evolução da situação o exija e proibiu já fogueiras e queimadas, bem como o tradicional lançamento de balões pelo São João.
O Instituto Português da Meteorologia e Atmosfera (IPMA) lançou um aviso para temperaturas acima do normal de 22 a 28 de junho onde fala em valores acima dos normais para a época, mas também de alguma incerteza quanto aos locais mais afetados. No entanto, alerta para temperaturas máximas entre 22ºC e 42ºC e mínimas entre 15ºC e 25ºC. O pico desta onda de calor será nos dias 23 e 24, quando a temperatura máxima deverá ser superior a 35°C em todo o país, com exceção da faixa costeira, e a pior noite a de 23 para 24, quando a temperatura mínima deverá ser superior a 20°C em quase todo o continente.
https://twitter.com/ipma_pt/status/2067974997876883793
O fenómeno não é exclusivamente português: Espanha prepara-se também para temperaturas acima dos 40 graus em várias cidades e emitiu avisos laranja para a população; França enfrenta a primeira vaga de calor oficial de 2026 e tem em estado de alerta 53 departamentos, com o próprio Presidente Macron a falar da prevenção necessária para a “canicule“; e até o sul do Reino Unido entrou em critérios de onda de calor e colocou os seus meios em prontidão.
https://twitter.com/meteofrance/status/2068013693535723530
https://twitter.com/AEMET_Esp/status/2067922791991558602
https://twitter.com/metoffice/status/2067911461939052611
A sucessão destes episódios está a levantar uma questão cada vez mais relevante entre meteorologistas e climatólogos: porque é que este calor intenso regressa tão depressa e fica cada vez mais tempo e porque é que parece cada vez mais difícil ao Atlântico travar estas vagas de calor (sim, é do mar que tudo depende).
É normal haver duas ondas de calor tão próximas?
Não é inédito, mas também não pode ser considerado normal. Rita Cardoso, climatóloga e investigadora do Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, faz questão de distinguir as duas coisas. “Haver duas ondas de calor tão seguidas não é nada que não tenha já acontecido. Estou-me a lembrar de 2003. Foi um ano muito quente também, com muitas ondas de calor. Portanto, não podemos dizer que nunca aconteceu. Mas também não podemos dizer que seja normal.”
Segundo o IPMA, Portugal regista em média cerca de uma onda de calor por ano. Mas uma média climatológica não significa que todos os anos tenham exatamente um episódio deste género. Há anos sem ondas de calor significativas e há anos, como 2003, em que vários episódios extremos se sucedem durante o mesmo verão. O que pode tornar 2026 diferente não é apenas o facto de estarmos perante uma segunda vaga de calor em poucas semanas. É sobretudo a altura do ano em que tudo começou.
“O que foi anormal foi a data. Foi demasiado cedo. Ainda foi em maio que tivemos uma onda de calor daquela intensidade. E isso é que é anómalo.” A climatóloga recorda que já houve ondas de calor logo no início de junho, incluindo em 2022, mas não em maio e muito menos com a intensidade observada este ano. O episódio de maio destacou-se precisamente por ter surgido antes daquilo que historicamente era considerado o período mais favorável a este tipo de fenómenos, que é entre o fim de junho e agosto.
A sucessão entre a onda de calor de maio e o novo episódio previsto para esta segunda metade de junho — já em pleno verão, que começa este domingo, às 9h24 — levanta assim uma questão importante: estaremos apenas perante coincidências meteorológicas ou trata-se de um padrão que se começa a repetir com mais frequência? A resposta, segundo a climatóloga Rita Cardoso, exige olhar para os mecanismos que alimentam estas vagas de calor.
Porque é que o calor regressa tão depressa?
Uma parte importante da resposta está no estado dos solos. Depois de uma onda de calor intensa, a quantidade de água disponível à superfície diminui rapidamente. E, quando isso acontece, a forma como a energia solar é utilizada muda completamente.
“Quanto mais secos estiverem os solos, menos energia do sol é usada para evaporar a água que está no chão. Como não há água no solo para evaporar, essa energia é toda usada para aquecer.” É uma explicação simples, mas fundamental para perceber porque é que uma segunda vaga de calor encontra condições mais favoráveis para se desenvolver.
Em condições normais, uma parte significativa da energia solar que chega à superfície é consumida na evaporação da água existente no solo. Quando essa água desaparece, quase toda a energia disponível passa a aquecer diretamente a superfície terrestre e o ar. O resultado é um aumento mais rápido das temperaturas e uma maior facilidade em gerar novos episódios de calor extremo.

“É normal que as temperaturas subam. Quando as ondas de calor começam a ser muito intensas, evapora muita da água que está no solo e depois as temperaturas ficam mais elevadas.” É um ciclo que se reforça a si próprio: o calor seca os solos, os solos secos facilitam mais aquecimento e esse aquecimento favorece novas ondas de calor.
É por isso que os climatólogos olham para a sequência de maio e junho com especial atenção. A segunda vaga não começa num território neutro. Começa num território que já foi aquecido e que perdeu parte da capacidade natural de se defender do calor.
O Atlântico “está a ferver” e já não consegue arrefecer Portugal?
Durante décadas, o Atlântico foi um dos principais moderadores do clima português. Mesmo nos dias mais quentes do verão, a influência marítima ajudava a travar os extremos de temperatura, sobretudo no litoral. Mas Rita Cardoso acredita que esse papel está a mudar. “O Atlântico não consegue limpar este calor porque está quente. Essa é a razão. Estamos a viver outro tipo de clima. O clima global aumentou cerca de um grau e meio. O que se passa é que o Atlântico está mais quente. O Atlântico está a ferver nos mapas da temperatura.”
Os números que observa nos modelos meteorológicos ajudam a perceber a dimensão do problema. “Estou a olhar para o mapa do Centro Europeu e temos anomalias de temperatura no Atlântico da ordem dos seis graus. E da ordem dos cinco graus fora da nossa costa.” Mesmo junto a Portugal, onde a nortada costuma ajudar a manter as águas mais frias, as temperaturas continuam acima do normal, segundo Rita Cardoso.
https://twitter.com/US_Stormwatch/status/2067316304194019429
“Nós temos sempre o vento norte, a nossa nortada, que torna o Atlântico mais fresco. Mas mesmo assim estas temperaturas estão positivas. São anomalias positivas mesmo junto à costa”, explica. Mas, mais impressionante ainda, diz, é aquilo que acontece noutras regiões do Atlântico Norte. “Há uma faixa enorme de temperaturas com anomalias acima dos cinco e seis graus. E então naquela zona do Mar do Norte, do Canal da Mancha e do Golfo da Biscaia estamos na ordem dos seis e sete graus.”
Segundo a climatóloga, isto significa que o oceano está a fornecer calor adicional à atmosfera numa altura em que historicamente ajudaria a moderar as temperaturas continentais. “É água quente que evapora e ar quente que sobe e já não transporta frescura para o continente.” O resultado é um Atlântico menos eficaz a travar os extremos e uma Europa Ocidental mais vulnerável às ondas de calor que vêm do Norte de África ou dos trópicos. E até a outros fenómenos que se alimentam de água e ar quente, como tempestades e furacões tropicais.
Porque é que Portugal, Espanha, França e Reino Unido estão a aquecer ao mesmo tempo?
A explicação está na circulação atmosférica à escala europeia. A atual vaga de calor não é um fenómeno isolado sobre Portugal. Está ligada a uma configuração atmosférica que abrange grande parte da Europa Ocidental. “Há uma coisa que é importante. A corrente de jato. São ventos muito intensos na alta atmosfera que circulam o globo”, explica Rita Cardoso. A posição atual do jet stream está a favorecer a instalação de uma extensa área de alta pressão sobre a Península Ibérica e França.
“Neste momento o jet stream está a passar por cima de Portugal e por cima de França. Faz ali uma ondinha.” Essa ondulação permite que o ar quente se acumule durante vários dias consecutivos e favorece a expansão da massa de ar quente desde a Península Ibérica até ao Reino Unido.
https://twitter.com/WXWatcher07/status/2067294722561888588
Ao mesmo tempo, existe uma forte área de alta pressão em altitude. “Não entra no continente qualquer depressão fria ou de chuva porque temos uma alta pressão por cima, em altitude, bem por cima da Península Ibérica. E que se vai estendendo também para França.” O mecanismo é simples: “Como é uma alta pressão, os ventos são descendentes e quando descem aquecem.”
É por isso que muitos meteorologistas internacionais utilizam a expressão “cúpula de calor”. Como resume Rita Cardoso, esta estrutura “faz uma espécie de cúpula de aquecimento e não deixa o ar frio entrar nem o ar quente sair”.
Os efeitos já são visíveis em toda a Europa Ocidental. A AEMET prevê temperaturas superiores a 40 graus em várias regiões espanholas e valores superiores a 40ºC em algumas zonas, como noticiou o El País. A Météo-France declarou a primeira vaga de calor de 2026 e recordou que cerca de dois terços das vagas de calor registadas em França desde 1947 ocorreram já no século XXI: a Reuters noticiou já a extensão do alerta laranja para 53 departamentos a partir desta sexta-feira. O Met Office prevê igualmente condições para que a onda de calor chegue a várias zonas do sul de Inglaterra.
O que torna esta onda de calor diferente?
Para Rita Cardoso, climatóloga e investigadora do Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, há duas palavras que resumem o problema: intensidade e duração. “Diria que vai ser a intensidade e a duração que está prevista para ser bastante duradoura e prolongada.” O que mais preocupa a climatóloga não é apenas a possibilidade de máximas próximas dos 40 graus. É sobretudo o facto de estas temperaturas surgirem muito acima daquilo que seria normal para junho.
“Vamos ter anomalias de temperatura muito grandes, da ordem dos 16 aos 20 graus relativamente ao habitual nesta época.” Em algumas regiões, os termómetros poderão marcar valores até 20 graus acima daquilo que seria expectável para a segunda metade de junho. Isso ajuda a explicar porque é que o episódio está a ser acompanhado com tanta atenção por serviços meteorológicos de vários países.
A situação surge ainda poucas semanas depois da onda de calor de maio, o que aumenta a sensação de persistência e reduz a capacidade de recuperação dos solos, da vegetação e até das populações mais vulneráveis.
Segundo a Copernicus, a vaga de calor de maio na Europa Ocidental foi precoce e intensa, com anomalias diárias superiores a 10ºC em partes de França, Inglaterra e País de Gales. E maio foi também o segundo maio mais quente de sempre desde que há registos.

Podemos chegar aos 45 graus?
Ainda é cedo para dizer se Portugal vai aproximar-se dos recordes absolutos de temperatura, mas os especialistas não excluem valores extremamente elevados em várias regiões do interior. Rita Cardoso prefere a prudência. “Não sei. A esta distância não se pode saber.” Ainda assim, a climatóloga considera que as previsões atuais justificam atenção especial, sobretudo porque os modelos continuam a apontar para temperaturas muito acima do normal em praticamente toda a Península Ibérica.
“As previsões apontam para 40 graus. E França não está habituada a isto. Nós também não. Normalmente as temperaturas são mais baixas, mas com anomalias de 16 graus chegamos aos 30 e aos 40 graus facilmente.” É precisamente essa dimensão das anomalias que mais preocupa os especialistas. “Vamos ter temperaturas com anomalias muito grandes, da ordem dos 16 a 20 graus relativamente ao habitual nesta época.” Isto significa que, em várias regiões da Península Ibérica e de França, os termómetros poderão registar valores até 20 graus acima daquilo que seria considerado normal para a segunda metade de junho.
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Segundo as previsões mais recentes do IPMA e dos principais modelos meteorológicos europeus, as regiões mais expostas em Portugal deverão ser o interior Norte, o interior Centro e grande parte do Alentejo. Distritos como Bragança, Vila Real, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora, Beja e Santarém poderão aproximar-se ou ultrapassar os 38 graus, com alguns modelos a apontarem para valores próximos ou superiores aos 40ºC nos dias mais quentes. Lisboa poderá atingir 33 a 35 ºC e até cidades tradicionalmente mais moderadas pela influência marítima, como Porto ou Aveiro, deverão ultrapassar os 30ºC.
No Alentejo, onde a temperatura de base já é naturalmente elevada nesta altura do ano, Rita Cardoso acredita que o cenário pode ser particularmente exigente. “O Alentejo já é quente e acaba por haver um limite à temperatura. Estou a ver o mapa das anomalias do Centro Europeu e ele está a dar para o Alentejo mais seis graus. O que não parece muito, mas terá temperaturas acima dos 38 e dos 40ºC. A base já é muito elevada.”
Também Espanha se prepara para um episódio potencialmente histórico. A AEMET prevê máximas superiores a 40 graus em várias regiões do sul, centro e nordeste do país. Córdoba poderá aproximar-se dos 44ºC, Sevilha dos 41, Saragoça dos 43, Badajoz dos 41 ou 42 e Madrid dos 40ºC. Em França, a Météo-France colocou 53 departamentos sob vigilância por calor, com alguns modelos a apontarem para temperaturas próximas dos 42ºC em Paris, Toulouse e Lyon. No Reino Unido, o Met Office prevê temperaturas acima dos 30ºC em várias regiões do sul e leste de Inglaterra, valores muito elevados para os padrões britânicos.
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Portugal conhece bem os extremos térmicos. O recorde absoluto de temperatura máxima continua a pertencer à Amareleja, onde se atingiram 47,3ºC a 1 de agosto de 2003. O recorde absoluto de temperatura mínima mais elevada foi registado em Faro, onde os termómetros nunca desceram abaixo dos 32ºC na noite de 26 de julho de 2004. Mais recentemente, junho de 2025 tornou-se histórico quando Mora atingiu 46,6ºC, estabelecendo um novo recorde nacional para o mês. Nesse mesmo mês, o IPMA registou 30 novos extremos de temperatura máxima e seis novos extremos de temperatura mínima.
Por enquanto, os modelos não permitem afirmar que Portugal voltará a aproximar-se desses valores recorde. Mas permitem concluir uma coisa: o país prepara-se para enfrentar um dos episódios de calor mais significativos dos últimos anos, numa altura em que o verão ainda nem sequer entrou oficialmente em pleno.
Porque é que o calor mata?
Uma das ideias mais repetidas pelos especialistas é que o verdadeiro perigo nem sempre está nas máximas da tarde. Muitas vezes está nas noites. “As pessoas já não aguentam o calor. As pessoas vulneráveis não conseguem arrefecer. Não é só desidratação. O organismo não consegue arrefecer e normalmente é isso que vai causar a mortalidade excessiva”, diz Rita Cardoso.
Segundo Rita Cardoso, o problema surge quando o corpo humano deixa de conseguir libertar o calor acumulado durante o dia. É por isso que as noites tropicais, em que a temperatura não desce abaixo dos 20 graus, são tão preocupantes. “O que nós chamamos noites tropicais são dramáticas para pessoas vulneráveis. Com certeza vão aumentar o número de enfartes, as pessoas vão ficar descompensadas em todas as suas patologias. E isso vai ser dramático”, teme a climatóloga.
Os números recentes mostram que não se trata de um risco teórico. Segundo dados da DGS e do INSA, em 2025 foram registadas 1300 mortes em excesso depois da vaga de calor do final de julho, sobretudo entre pessoas com mais de 75 anos. A climatóloga recorda ainda a vaga de calor de Paris em 2003. “A mortalidade excessiva foi uma coisa assombrosa. Mesmo em Portugal tivemos mais de sete mil mortos e não foi tão intenso como em Paris. Em Paris chegou aos 20 mil.”
https://observador.pt/especiais/dias-de-40-a-45oc-preocupam-os-especialistas-mas-noites-de-20-a-25oc-preocupam-ainda-mais-o-perigo-das-noites-tropicais/
Foi depois dessa tragédia que vários países começaram a desenvolver planos específicos para proteger idosos e grupos vulneráveis. “Em França começaram a retirar as pessoas de casa, levar os idosos para locais frescos e manter contacto com eles.” Espanha adotou medidas semelhantes e, em alguns episódios extremos, chegou a limitar atividades ao ar livre. “Em Espanha chegam a fechar a construção civil nestes dias e a fechar todos os trabalhos e atividades ao ar livre.”
Miguel Telo de Arriaga, diretor dos Serviços de Prevenção da Doença e Promoção da Saúde da Direção-Geral da Saúde, tinha também já avisado no Observador que “pode haver aumento da mortalidade, mas também da procura de cuidados de saúde” e falado das “mortes silenciosas”. “Muitas vezes aquilo que acontece não é haver um problema de saúde direto por parte do calor”, disse Miguel de Arriaga, acrescentando: “O calor funciona quase como um gatilho para exacerbar algumas doenças de base que as pessoas já têm. Acaba por promover a descompensação dessas doenças.”
A DGS já ativou o plano de contigência de nível 1 para estes dias.
O que significa isto para os incêndios?
Se há tema que preocupa Rita Cardoso quase tanto como a saúde pública é o risco de incêndio. “Bem podíamos rezar a todos os santinhos para que não haja nenhuma ignição nestes próximos dias.” A especialista faz questão de distinguir risco de incêndio de perigo de incêndio, mas a mensagem é clara. “Os mapas de perigo de incêndio estão no máximo. A previsão é para extremos de perigo de incêndio, principalmente no Centro e Sul. No Algarve e Centro de Portugal vai ser brutal.”
https://twitter.com/ProteccaoCivil/status/2067939189333676098
A preocupação não resulta apenas das temperaturas elevadas. Resulta também do estado da vegetação e da quantidade de combustível disponível no terreno. As tempestades do inverno deixaram muitas árvores caídas e muito material vegetal acumulado. “Nós temos combustível no chão. Árvores caídas que têm estado a secar. Depois daquelas tempestades todas tivemos estes dias secos e tem estado tudo a secar.”
Se surgirem ignições, o cenário pode tornar-se muito complicado. “Esperemos que não haja grandes ignições. Mas vai ser complicado. Se começar a haver ignições vamos ter o Centro a arder”, garante a climatóloga especializada em clima mediterrânico e modelação climática regional.
A Proteção Civil e a GNR também já estão em campo para estes dias.
Há realmente influência das alterações climáticas?
A pergunta correta não é se as alterações climáticas causaram esta onda de calor. A pergunta correta é que diferença fazem as alterações climáticas para que isto aconteça. A resposta mais sólida do ponto de vista científico é que aumentam a probabilidade, a intensidade e a duração dos episódios de calor extremo. A mesma configuração atmosférica que há décadas podia gerar uma onda de calor atua hoje sobre um planeta mais quente, oceanos mais quentes e solos mais vulneráveis à seca. “Os extremos são mais extremos”, resume Rita Cardoso.
https://twitter.com/StevenTual_off/status/2067889023100522798
Segundo a climatóloga, o principal efeito está na intensidade dos fenómenos. “A intensidade é maior devido às temperaturas mais elevadas no Atlântico.” Mas os efeitos vão muito além disso. As projeções climáticas apontam para um aumento do número de ondas de calor, da sua duração e da área afetada. “A previsão em termos de número de ondas de calor por ano vai andar à volta das duas ou três.” E, em alguns cenários, a duração média destes episódios poderá aumentar significativamente. “Pode ir até aos 12 ou 13 dias em média em zonas como Trás-os-Montes e Beira Interior.”
Tudo isto está a alterar a própria ideia de verão. “Estamos a caminhar para verões mais longos.” E a frase que talvez melhor resuma a dimensão da mudança é a que Rita Cardoso deixou para o fim: “O verão já não tem três meses fixos. Estamos a estudar não julho, agosto e setembro, mas maio, junho, julho, agosto e setembro. Cinco meses de verão, sim.”
E quando fala do que sente ao olhar para algumas destas projeções, Rita Cardoso não procura palavras mais suaves. “É absolutamente assustador.”
Que calor vai afinal fazer em Portugal e porque é que há tanto cuidado com as previsões?
Portugal entrou esta sexta-feira numa fase de subida progressiva das temperaturas, com calor mais intenso no interior Norte, Centro e Alentejo entre sábado e quarta-feira. O IPMA prevê a persistência de valores elevados de temperatura no fim de semana. Há avisos amarelos de calor para vários distritos pelo menos até terça-feira, com alertas laranja para Vila Real, Guarda e Bragança.
O pico do calor vai concentrar-se entre terça e quarta-feira, com uma provável descida das temperaturas a partir de quinta-feira, sobretudo no litoral e no norte. Lisboa pode chegar aos 33ºC, Porto aos 33ºC, Coimbra aos 40ºC, Viseu aos 42ºC, Braga aos 39ºC, Castelo Branco aos 40ºC e Alentejo interior perto dos 38ºC a 40ºC.
Ao fim da tarde de sexta-feira o IPMA emitiu o primeiro comunicado explicando então que “o estado do tempo em Portugal continental irá ser influenciado por uma crista anticiclónica sobre a Península Ibérica e uma depressão com expressão em altitude a oeste do continente”. E que a “ação conjunta destes dois centros de ação” resultará no transporte de “uma massa de ar quente com origem no norte de África sobre a Península Ibérica” e a consequente subida das temperaturas.

De acordo com os dados dos modelos numéricos mais recentes, segundo o IPMA, as temperaturas máximas deverão assim atingir valores entre 30 e 42°C, com as mais elevadas a ocorrerem no interior. Na faixa costeira ocidental, a temperatura máxima deverá variar entre 22 e 30°C. A temperatura mínima irá subir igualmente, em especial na primeira metade da semana, onde grande parte do território do continente terá valores acima de 20°C durante a noite, ou seja, noites tropicais. Os dias com temperaturas mais elevadas deverão ser na terça-feira e quarta-feira, dias 23 e 24.
O IPMA faz questão de lembrar que “os valores previstos, apesar de acima do normal, são relativamente habituais nesta época do ano na maioria das regiões”. E que apenas em algumas estações na região do interior Norte as previsões atuais indicam valores próximos aos máximos anteriormente registados, daí o alerta laranja.
Há ainda alguma incerteza sobre o posicionamento exato da depressão em altitude, e ela terá grande impacto nos valores de temperatura, quer no sentido de se manterem valores elevados, caso a mesma se desloque mais para oeste, quer no sentido de uma diminuição, caso se aproxime mais do continente.
Quanto a trovoadas, como as que têm estado a fazer estragos na zona norte e em algumas zonas de fronteira, é provável que continuem. “Se tivermos água no solo é uma coisa, daí as trovoadas que temos tido, mas se os nossos solos secarem não conseguimos ter nuvens. As trovoadas são fenómenos em que a água evapora durante o dia, vai evaporando, e à porta das 18h00 começam as trovoadas. Na previsão do tempo de larga escala é impossível prever a formação de trovoadas”, diz Rita Cardoso.
Como se não bastasse, vamos ter poeiras do deserto. Isso é garantido.
https://twitter.com/MeteoredPT/status/2067591526918558025
https://twitter.com/MeteoredES/status/2067566265154085201
Mas que verão vamos ter afinal?
As previsões de larga escala que saíram no fim da semana e que são apenas um guia não mostram um verão avassalador e insuportável de quente, mas sim, tal como no ano passado, algo instável. Julho e agosto terão alguns episódios de calor, haverá risco de trovoadas e depois setembro e outubro podem vir com tempestades e fenómenos tropicais e subtropicais.
https://twitter.com/bestweather_/status/2068012991937716658