Terça-feira, 26 de Maio, Assembleia Municipal de Lisboa. Um dia surpreendente. Discutiu-se uma proposta da Iniciativa Liberal que pretendia devolver ao seu lugar, devidamente restauradas, as coroas de palmas das quatro colunas do alto do Parque Eduardo VII. As coroas foram retiradas e contava-se que regressassem, não do outro mundo mas do cemitério de Carnide, onde as guardou, por alturas de 2023, um empreiteiro de obras públicas a mando da Câmara. Pertencem ao topo das colunas e devem ser repostas tão depressa quanto possível. A assembleia concordou com a ideia sensata de que os monumentos não devem permanecer amputados das suas partes por mais do que o tempo estritamente necessário para acções de manutenção. Resolvida a questão das coroas, a surpresa estava no entusiasmo com que a IL celebrava, no seu documento e depois verbalmente, a “glória”, a “dignidade” e a “monumentalidade simbólica” daquele conjunto. Dizia, entre outros arroubos, que “a ausência das coroas de palmas no topo das colunas monumentais do Parque Eduardo VII (…) empobrece a leitura estética e simbólica do local”.
O Parque Eduardo VII não é um jardim no sentido comum do termo e, se virmos bem, nem sequer é um parque. Desenhado nos anos 40 por Keil do Amaral, quem verdadeiramente determina o carácter do Parque é o regime, que vê nele a possibilidade de se representar a si próprio. Com base num eixo central alinhado com o prolongamento da Avenida da Liberdade, o Estado Novo constrói um desenho geométrico disciplinado ao longo de um rectângulo estreito que sobe até formar uma perspectiva monumental, rematada pelas quatro colunas de inspiração autoritária que marcam o domínio visual sobre a cidade. O propósito daquele conjunto é sobretudo urbano e político, no sentido de afirmar a autoridade e a força do Estado. Nada de propriamente original comanda quer a intenção, quer a forma do Parque, uma versão portuguesa de conjuntos construídos em todo o mundo autoritário, da Alemanha nazi à antiga URSS. À maneira suavizada do dr. Salazar, o Parque Eduardo VII é uma representação cénica do fascismo. Não vale a pena fingir que uma coisa é outra coisa.
A memória histórica deve ser preservada, por muitos motivos e até porque nos mostra o melhor e o pior que já produzimos enquanto sociedade. E os momentos da vida de uma nação devem ser apreciados segundo o ar do seu tempo. Mas a ideia de preservação não é ilimitada. Sobretudo, ela não deve colidir com interesses supervenientes da sociedade. Lisboa tem falta de jardins, de sombra, de espaços aprazíveis de permanência. A faixa central do Parque Eduardo VII, constituída por desenhos geométricos construídos em sebes de bucho, só serve para ser olhada. Ocupa uma área enorme no centro da cidade sem servir funções comparáveis às de uma área verde de uso urbano. Devia ser transformada num verdadeiro jardim, com árvores e com sombra, e bancos para as pessoas conversarem. As colunas e respectivas coroas de palmas podem e devem ser preservadas; a cenografia vegetal não é sagrada. Faz confusão perceber que a cidade muda constantemente, excepto neste ponto. Que terá de especial o Parque Eduardo VII para ser tratado pelos poderes públicos com este amor acrisolado?
Os anos passam, os governos mudam, a perplexidade mantém-se: nem a esquerda nem a direita, ninguém quer mexer naquilo. A direita admira a monumentalidade. A esquerda passa a vida a combater símbolos, muda por decreto os hábitos sociais, pessoais, religiosos, políticos e urbanos. Mas tolera o simbolismo do poder, com a naturalidade de quem vê no Estado a origem, a motivação, a legitimação de tudo. Há um lado autoritário no grão filosófico da esquerda que a leva a esta relação estranha com o Estado Novo. Ainda hoje, passados mais de cinquenta anos, a própria esquerda não consegue derrubar o simbolismo autoritário para devolver o Parque à cidade, como a democracia devolveu a palavra à nação.