Uma das coisas que não deixa de me deixar perplexo nos dias de hoje é que aquilo que seria quase unanimemente apontado como a grande riqueza das democracias Ocidentais até há muito poucos anos atrás — a sua diversidade de pensamento e opinião — deu lugar, repentinamente, não apenas a um pastoso e cinzento, ainda que histérico, monocórdico unanimismo, como, pior, passou a exaltar-se e celebrar-se esse mesmo unanimismo, vilipendiando, ostracizando, silenciando, as poucas vozes que ousem dissonar da opinião majoritária. É, portanto, uma verdadeira inversão de um dos princípios mais estruturais do Ocidente, um princípio que se esvai num vazio de debate público, de investigação académica, de discussão política.
Em boa verdade, ao melhor estilo de criança mimada, as mais ridículas figurinhas do establishment tendem ainda a vangloriar-se de uma coisa e do seu contrário. Veja-se, por exemplo, a facilidade como a sinistra burocrata-chefe da toda-poderosa Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, lava a boca com a superioridade da diversidade, pluralismo e democracia europeia nos mesmíssimos parágrafos em que promete milhões para combater a “desinformação” nas diabólicas redes sociais — por desinformação, entenda-se toda a informação que contrarie a narrativa oficial carimbada por Bruxelas. Curiosamente, como foi no caso da COVID, ainda que nenhum responsável o admita, a alegada “desinformação” tendeu a acertar muito mais que a “informação” oficial imposta a megafone, máscara obrigatória e injecções que definiam se se podia ir ou não ao emprego, ao restaurante e ao barbeiro.
Não. A única diversidade que de facto se defende, e apregoa, de forma efectiva na Europa, é a racial, cultural, religiosa, devendo, em boa verdade, ler-se esta apologia da diversidade como um combate sem tréguas à herança cultural, espiritual e genética europeia. Esta outra perversão, uma auto-flagelação exótica historicamente, absurda racionalmente, tão extraordinária como a abdicação da pluralidade intelectual antes mencionada, é, aliás, a arma com que se justifica o tal unanimismo que veio substituir a base plural da cidadania democrática europeia. Umas coisa não estará, portanto, separada da outra.
Que estas radicais alterações passem despercebidas à maioria dos habitantes do espaço público — políticos, jornaleiros e pseudo-especializados comentadores — não deixa também de ser extraordinário. E, talvez por isso mesmo, revelador de que algo apodrece profundamente nas sociedades europeias. No entanto, para todos os demais, uma minoria, que se vão apercebendo desta perniciosa mudança sócio-cultural em curso, convém apontar que a grande ilusão que mantém a narrativa coerentemente de pé — apesar de ridiculamente insana — não está tanto na subtileza da revolução, que de subtil nada tem, mas no facto de nada ter de recente. Pelo contrário, colhemos agora os frutos de um processo que já corre desde há muito no Ocidente.
Alexander Soljenítsin, provavelmente o intelectual do século XX com maior autoridade moral para criticar o autoritarismo, homem marcado pelo Gulag e pelas atrocidades da URSS, bem que alertou, já em 1978, para quem quisesse ouvir, que os tão apregoados princípios de diversidade e pluralismo Ocidentais não eram assim tão diversos, nem plurais. No seu célebre discurso em Harvard, Soljenítsin, longe de celebrar a liberdade da imprensa Ocidental, apontou nela uma das maiores fraquezas da nossa democracia: uma máquina de informação sem relevância, entregue à superficialidade sensacionalista, capaz de fabricar opinião pública e de silenciar vozes incómodas sob o pretexto da neutralidade que usa e abusa sem qualquer vislumbre de responsabilidade moral — ou, pelo menos, de uma moral que se reconhecesse como tal.
Noutro campo, na academia, no mesmo discurso, Soljenítsin denunciou ainda o conformismo intelectual, onde a verdadeira diversidade de pensamento fora, pensava ele já naquela altura, substituída por modas ideológicas transitórias que, sem proibir abertamente, excluem o dissidente com a elegância fria da irrelevância — hoje traduzidas no de-funding, no ostracismo mediático, ou nos ataques de uma turba sem fim de alegados “estudantes”, normalmente auto-imaginados como “activistas”, ignaros mentais que, aos urros, tentam silenciar quem consideram não ter o “direito” de exprimir discurso que entendam como sendo “ofensivo” ou de “ódio”.
No final, e parece-me que mais importante ainda, foi na própria estrutura do espaço público que Soljenítsin observou uma estranha cobardia civil: um Ocidente rico em direitos e pobre em coragem, onde o pluralismo se revelava, afinal, uma ilusão bem-educada, um uníssono disfarçado de orquestra por acaso bem-afinada, mas onde todos, por receio de serem considerados diferentes, acabam tocando a mesma música, não porque o desejem, mas porque, mais preocupados com a promoção, com a reputação, ou a possibilidade de alardear virtudes publicamente louvadas, não se atrevem a desafinar. A clarividência da análise, uma que, ainda que escapando à análise dos maiores especialistas da especialidade contemporânea, apenas assusta porque demasiado certeira, apenas pode indicar que o problema acima indicado, mais do que deste tempo, já virá de tempos ainda anteriores aos dos reparos de Soljenítsin.
De facto, antes de 1978, já muitos outros avisos tinham soado. Em 1984, escrito entre 1946 e 48, publicado em 1949, Orwell não pintou uma distopia assim tão distante, talvez hoje em dia descartada como “ficção” apenas pelo facto da data ficcional já ter passado — chamasse Orwell o seu livro de 2044 e talvez estivéssemos a prestar mais atenção. Nesse livro, como Soljenítsin 30 anos depois, Orwell dissecou o tempo com um bisturi que nos antevê com uma presciência implacável.
Sob o olhar omnipotente do Grande Irmão, o romance intuiu o horror supremo da tirania moderna — mais que a força bruta, esta culmina na colonização totalizada da alma e na destruição do espírito individual. Desde os “dois minutos de ódio”, onde se canalizava para um bode expiatório a frustração com a colectivização, passando pela “novilíngua”, que reduzia o pensamento a meros slogans, assim permitindo que a memória fosse reescrita diariamente pelo carimbo do “Ministério da Verdade” difundido de forma omnipresente pelos ecrãs, terminamos defronte de uma realidade maleável pelas mãos do poder que, a cada momento, lá vai instituindo uma narrativa oficial, verdadeira, correcta, ainda que oposta à anterior. O que mais aterroriza não será tanto o sofrimento físico, mas a liquefação da verdade e da individualidade num vazio onde nada faz sentido, ou melhor, nada precisa de fazer sentido para ser aceite pela população — a cada momento, consoante a narrativa, até as palavras encontram novos significados.
Orwell, já profundamente doente, mas com uma angustiada lucidez, finaliza a sua visão terrífica mostrando como o totalitarismo perfeito não precisa de campos de concentração quando consegue fazer o homem desejar a sua própria prisão. Nas linhas finais de 1984, quando Winston, em lágrimas, assume perante ele próprio amar o Grande Irmão, é na aparente “libertação” da personagem principal que vemos a maior tragédia humana — a abdicação da individualidade pela imersão acéfala, acrítica, na torrente do colectivo. Eis, em suma, a verdadeira essência do autoritarismo Orwelliano: não aquele poder duro e implacável que nos impõe contra a nossa vontade, ainda que exista, mas aqueloutra, mais profunda, que, de forma mais ou menos evidente, é bem-sucedida em convencer-nos a verdadeiramente desejar para nós aquilo que é a vontade do tirano.
Aliás, o mesmo fez Aldous Huxley em O Admirável Mundo Novo, publicado ainda antes, em 1932, onde o totalitarismo consegue ser mais subtil e disfarçado: aí, o colectivismo não se impõe pelo terror, mas pela difusão da felicidade obrigatória, no caso atingida pelo escapismo que a soma, uma droga, oferece a toda a população. A felicidade colectiva impõe-se, então, por uma estratificação social genética onde o laboratório substituiu a família e o pensamento individual, crítico, foi aniquilado pela necessidade de estabilidade social coletiva assente na abundância do conforto e do consumo que garante a ausência de ansiedade, de medo, de agruras, individuais — o último safe space, portanto. Does it ring a bell?
Na sua essência, a conclusão dos dois autores, mesmo que assim não tão aparente, é a mesma: o indivíduo subjugado, derrotado, destruído, vergado, de sua própria vontade impondo, apoiando, crendo e amando o poder despótico que o regula, limita, molda e controla. Discordavam, no entanto, na forma como esse último estádio de amor à própria servidão poderia ser alcançado. Na carta que Huxley envia a Orwell a 21 de Outubro de 1949, poucos meses após a publicação de 1984, ainda que reconhecendo a grandeza e a importância do livro, aquele não resiste a afirmar que o terror bruto do Grande Irmão — a famosa bota que esmagava a individualidade para o resto dos tempos — assim ao estilo soviético, seria demasiado dispendioso e instável na vida quotidiana futura. Para Huxley, o verdadeiro poder tirano seria mais subtil, e por isso mais eficiente, passando pela sedução: condicionamento desde o berço, a narco-hipnose, o prazer organizado e a arte suprema de fazer o homem amar, desejar, o statu-quo, não se imaginando sequer como podendo, ou querendo, viver fora da sua própria servidão.
Ou seja, já há praticamente 100 anos que, para alguns espíritos mais prescientes, a nossa actual condição, ainda que tratada de forma alegórica, exagerada, pelo menos por enquanto, era algo de algum modo expectável. (Num aparte, apenas por aqui se vê a diversidade de profundidade intelectual que pode existir entre seres humanos: note-se o abismo entre estes autores que viram há décadas aquilo que hoje a maior parte não consegue sequer vislumbrar). Em suma, o processo para o qual somos alertados há pelo menos 100 anos é aquele da desestruturação da sociedade, do desaparecimento da família, da atomização social, e da abdicação desses indivíduos da sua liberdade individual face ao colectivo, curiosamente por vontade própria.
Ora, um processo tão complexo, capaz de perverter por completo os valores de uma civilização inteira, ainda para mais a mais poderosa da e bem-sicedisa da História humana, bem como tão longo, centenário mesmo, não pode ser explicado por causas passageiras, modas, ou simples coincidências. Não. Um processo com a dimensão de mudança, previsto pela capacidade de antevisão que aqui se descreve, só pode ser conduzido, como Leo Tolstoi explicava em Guerra e Paz, pelas “grandes correntes da história” — as forças impessoais, colectivas e quase imperceptíveis que movem os povos, muito mais do que as acções individuais, fortuitas, dos “grandes homens”, como Napoleão.
De onde vem, então, esta auto-destruição do pluralismo, da democracia, no fundo, da liberdade, no Ocidente? Em Political Ideas in the Twentieth Century, escrito em 1950, Isaiah Berlin aponta essa transformação subtil que também vislumbrava como uma importante tendência já, então, na Europa Ocidental. Longe dos grandes combates ideológicos sobre princípios fundamentais, Berlin repara que a vida política do pós-guerra se deslocara para discussões técnicas e instrumentais visando aquilo que Charles Taylor, muito mais tarde, em 1989, estabelecerá como o valor máximo da modernidade Ocidental: a “afirmação da vida ordinária”. Berlin resume esse valor como reduzindo a política à procura de consensos tecnocráticos sobre quais os melhores métodos para garantir um mínimo de estabilidade económica e social. Consequentemente, focando-se o debate no material e ordinário, os debates sobre os fins últimos da existência humana, como as grandes causas, tornaram-se abstractos e académicos, relegados perante as urgências do dia-a-dia para as franjas do debate público — como até hoje, onde no discurso público pouco mais se discute do que a vírgula do orçamento que permite melhorar a vida doméstica de cada cidadão.
Berlin não se ilude, porém, com esta aparente neutralidade pragmática. O que parece um abandono sereno de velhos valores não é para ele, na verdade, simples materialismo, mas, pelo contrário, o resultado de uma fé cega e quase desesperada nos novos valores propalados pela modernidade — razão, ciência, tecnologia. Uma adesão irracional, dogmática, portanto, marcada, como todos os dogmas, por intolerância feroz perante o cepticismo, ou, por outras palavras, a dissensão — o que explica o crescente horror Ocidental ao “negacionista”. De onde nasce tal fervorosa crença nos novos valores? Para Berlin, do vazio legado pelo desaparecimento dos anteriores e do terror a esse vazio, bem como a ânsia de segurança que cada homem passou a carregar dentro de si próprio como forma de aplacar aquele medo existencial face ao desconhecido e a morte que antes o Cristianismo integrava.
Berlin explica: ao contrário do que a modernidade racionalista imaginou, os homens são mais que meros cogitos de racionalidade, pelo que carecem de crer que, à falta de melhor termo, “no final vai ficar tudo bem”. Ou seja, que serão salvos ou, pelo menos, que existe um caminho para essa salvação, um caminho que os liberte dos grilhos da angústia humana perante o desconhecido, a tragédia, a catástrofe e a morte que caracterizam a vida terrena. Uma libertação espiritual, portanto, que apenas se atinge para lá da razão — o tal salto de fé que Hamman e Kierkegaard tanto advogaram como a verdadeira essência do conhecimento e do caminho para a “verdade” redentora, salvífica, transcendente face à condição humana. Apenas que, na nova fé, a salvação já não vem do além Cristão, mas, ao contrário de todas as crenças anteriores, é oferecida, convenientemente, antes da morte: no mundo material do aqui e agora que a razão, a ciência e a tecnologia irão, algures no futuro, resolver.
Eis então, aqui, o busílis da questão, o momento inicial da inversão, ou perversão, dos valores que fizeram o Ocidente democrático e liberal: o triunfo como ideal salvífico do dogma pseudo-científico, racional, exacto, matemático, como princípio moral norteador do Bem e da Criação. Ora, é essa crença na certeza científica que tudo vem perverter: primeiro, porque onde há certeza não cabe discussão e pluralismo; segundo, porque o verdadeiro princípio revolucionário que trouxe a libertação face ao Antigo Regime para as populações, para o conhecimento, para os mercados livres, para a ciência, como se sabe, foi precisamente o exorcismo do dogma no altar da única coisa que caracteriza verdadeiramente o conhecimento humano — a dúvida. A ilusão de certeza — uma ilusão facilmente demonstrável como Popper argumentou —, apenas representa, portanto, um imenso retrocesso intelectual.
Não será, assim, de estranhar que, à medida que os novos dogmas triunfam, se pervertam as velhas virtudes. A pouco e pouco, ao longo de mais de um século, as instituições mudam, os princípios re-interpretam-se, a sociedade reorganiza-se. E, onde antes a dúvida, a verdadeira ciência aberta a todos, bem como a opinião, o conhecimento, as vontades primordiais, se batiam de forma honesta e frontal num pluralismo democrático, livremente ordenado de forma espontânea pelas próprias regras da sociedade, ao fim de tanto tempo com o novo dogma a afirmar-se, agora, triunfante, majoritário, o vemos tudo vir regular.
Das instituições aos mercados, das pessoas às opiniões, para o nosso bem, para a nossa salvação, vivemos hoje um exercício, acima de tudo, de abdicação: da sociedade face ao Estado que criou para se auto-regular e para o qual abdica agora o monopólio moral do Bem e do Mal; do indivíduo face ao colectivo para o qual abdica alegremente da sua responsabilidade individual de garantir por si próprio o seu destino, a sua felicidade, a sua “salvação”; da civilização face ao mundo, porque não se reconhece já nos valores que a criaram.
No final, sobra uma conclusão: muito enganados andam aqueles que imaginam que é com uma mudança de governo, ou de regime, que o problema se resolve. Não é. É todo um “admirável mundo novo” que se ergue diante dos nossos olhos, um mundo de conformismo, irrelevância, ignorância e autoritarismo travestido de diversidade, ciência e liberdade — enfim, o triunfo máximo da novilíngua. Caberá, portanto, a cada um decidir como enfrentar os resultados desta abdicação generalizada.