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(A) :: Quem mais jura, mais mente

Quem mais jura, mais mente

Se a pós-verdade é a mentira sincera dos “factos alternativos”, então uma parte dos media contemporâneos escreve torto por linhas direitas

Paulo Nogueira
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A revolução digital reconfigurou o jornalismo. Eu próprio, que escrevo nos jornais desde a deriva dos continentes, nem me lembro da última vez em que li um deles em papel. Claro, conteúdos continuam a ser produzidos: reportagens, notícias, etc. Como disse Arthur Sulzberger Jr., publisher do “New York Times” até 2018, “Newspapers cannot be defined by the second word — paper.  They’ve got to be defined by the first word — news.”

E procissão ainda vai no adro. Martin Baron, VIP do Boston Globe e do Washington Post (retratado no filme “Spotlight”), com 18 Pulitzers: “Se a imprensa tradicional tem uma função na polarização das redes sociais? Muita gente vai às redes porque quer saber a verdade e valoriza os que a investigam. Se trazemos algo relevante, não importa se beliscamos a direita ou a esquerda, cumprimos a nossa função.”  É o que já gracejava Chesterton: “O jornalismo consiste em dizer que ‘Lorde Jones morreu’ a pessoas que não sabiam que Lorde Jones estava vivo”.

Pior é quando os media são a voz do partido único. Na URSS, o “Pravda” (ironicamente, “Verdade” em russo), era o diário com maior circulação do mundo (10 milhões de exemplares) – e também o menos lido: os russos podiam ser obrigados a comprá-lo, mas não podiam ser obrigados a lê-lo. Na ditadura militar brasileira, houve diários submetidos à censura prévia. No “Estadão”, ela era comunicada em cima da hora, e o espaço destinado à notícia proibida na primeira página era preenchido com versos d’ “Os Lusíadas” – denunciando implicitamente que a edição fora censurada.

Hoje um jornal tem vídeos, podcasts, fotos e textos constantemente atualizados. No “Estadão”, escrevo duas versões: uma mais curta, para a edição em papel, e outra mais longa, para a edição online (na qual o tamanho não interessa). Como o “Observador” é exclusivamente digital, posso maçar os leitores com  minhas crónicas chatas e compridas. Já o “NY Times” segue em papel: 127 hectares com 63 mil árvores são usados para imprimir a edição de domingo.

No Congresso da WAN-IFRA (Associação Mundial dos Editores de Jornais), AG Sulzberger, filho do outro e atual publisher do “NYT”, deu uma canelada nas empresas de IA: “São parasitas.  Praticam o roubo descarado de conteúdos para treinar chatbots, com lucros astronómicos, sem que os produtores das fontes sejam pagos.”

Pena que o “NYT” não seja tão cioso noutras praias. Faço das tripas coração para não esquecer de que ninguém é dono da verdade nem infalível. Para Orwell, “jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique”. Só que este “alguém” podemos ser nós próprios – a nossa facção ideológica, social, étnica, religiosa.

No século XXI, o ativismo alastrou das universidades, com a “marcha sobre as instituições”: profissões de fé sobre as respectivas identidades importam mais do que a verdade em causa, e dizem às elites o que elas querem ouvir, permitindo que se sintam  confortáveis ​​com as conclusões a que já chegaram e instruindo o resto do mundo sobre quais pensamentos são aceitáveis ​​e quais não o são.

O filósofo Maarten Boudry foi convidado para o programa jornalístico “Affspraak”, da emissora pública belga, a VRT. O tema era uma pesquisa sobre os jovens, revelando crescente intolerância às pessoas LGBT e o ressurgimento de valores conservadores. Um em cada três jovens disse que não queria trans no seu círculo de amigos. Comentaristas da VRT ganiram de pânico moral, e culparam o suspeito do costume: a “masculinidade tóxica”.

Boudry casualmente acessou um memorando confidencial da emissora, indicando que muitas daquelas opiniões “controversas” eram de entrevistados estrangeiros. A VRT omitiu os dados demográficos, realçando apenas “a intolerância, misoginia e valores conservadores entre os jovens na Flandres”.  Boudry confrontou a VRT em rede nacional. Deixou a emissora com cara de tacho, desencadeando um sismo político.

Já a ABC (Australian Broadcasting Corporation) nasceu depois I Guerra Mundial, com duas convicções: 1) A opinião pública tornara-se uma força volátil, inflamável e vulnerável ao fanatismo. O desafio era canalizá-la para a razão, a civilidade e o respeito mútuo. 2) Uma fé inabalável nas elites iluministas como guardiãs das novas instituições. Como disse o pai da BBC, John Reith, “poucos sabem o que querem e muito poucos do que precisam”, mas esses poucos deviam estar ao leme. Nunca lhes passou pela cabeça que aquelas instituições caíssem nas mãos de uma seita que encoraja aquilo que tinham sido criadas para evitar.

Agora a ABC confiou um programa prime a Grace Tame. Tame lidera coros sobre “globalizar a Intifada”, e considera falsas as imagens do Massacre de Bondi, em 14 de dezembro de 2025, quando um ataque antissemita trucidou uma celebração do feriado de Hanukkah na mais badalada praia australiana. A carnificina deixou 16 mortos (incluindo uma menina de dez anos) e 38 feridos. Tame, que já venceu o prêmio “Australiana do ano”, encolheu os ombros: “Não lamentamos fascistas”.

Rob Hurley, por 13 anos Chefe de Programas Políticos da BBC, desvendou como a emissora britânica alinhou nas guerras culturais. Em 2022, Fran Unsworth demitiu-se do cargo de Diretora de Notícias, receando ser cancelada pela redação por “não estar do lado certo da história”. Em dezembro passado, Tim Davie renunciou à direção da BBC, acusado de viés editorial. Durante 5 anos, Davie chamou “transfóbica” a mínima ressalva sobre a questão transgénera: “Temos de ser porreiros!”

Hurley exemplificou o que era ser fofinho: “Toda a equipa foi convocada para um evento do grupo All About Trans, que convenceu a BBC e o Channel 4 a desembolsarem 200.000 libras.” Um novo Guia de Estilo — que orienta os jornalistas da emissora sobre a linguagem – brotou, adotando o princípio da “autoidentificação”: referir a alguém pelo género com que se identifica e não pelo sexo biológico. Se alguém se professasse mulher, era mais feminina do que Marilyn Monroe, mesmo que fosse Átila, o Huno. E todos os dias os funcionários passam pela estátua de Orwell à porta da BBC, com a inscrição: “Se a liberdade significa alguma coisa, é o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”

Southampton, Inglaterra, 23h30, 3 de dezembro passado. Henry Nowak, 18 anos, britânico, branco, cruza na rua com Vickrum Digwa, sikh de 23, que traz duas adagas à cintura. Há um altercação e Digwa esfaqueia Nowak. O irmão de Digwa chama a polícia, alegando falsamente que Nowak proferira injúrias raciais. A mãe de Digwa esconde a arma do crime. Estatelado, Nowak suplica socorro, com hemorragia interna. “Não acho que foi esfaqueado, meu”, rosna um polícia, algemando a vítima eviscerada. “Não consigo respirar”, balbucia Novak, ecoando George Floyd (exceto por Novak não ser um delinquente contumaz, nem ter metanfetamina nem fentanil no organismo, como Floyd). À 0h30, Henry é declarado morto.

No mês passado, antes da divulgação das imagens das câmeras corporais da polícia que refutaram Digwa, o partido Reform UK deu uma abada nas eleições municipais britânicas. Os eleitores estavam fulos com os políticos que infligiram a imigração em massa, e que chamam “supremacista branco” a quem discorda dela. Em Espanha,  o “El País” , em vez de se concentrar nas falhas dos polícias, titulou num primeiro e único texto: “Extrema-direita de Nigel Farage incita o ódio após jovem ser esfaqueado por sikh”. O jornal estampou uma grande foto de Farage, mas nem um poro da vítima. Na Grã-Bretanha, o  “Guardian” papagueou: “O etnonacionalismo brande uma agenda xenófoba, e o líder do Reform UK fala do assassínio de Nowak”.

O chefe da polícia de Hampshire – que algemou o Nowak agonizante – proclamou em 2022 que “ser antirracista, ético e inclusivo é a nossa prioridade suprema”.  Quem esperava que fosse o combate ao crime, que tire o cavalinho da chuva. O Plano de Ação Racial da Polícia refere a necessidade de tratamento “equitativo” e não “igualitário” – a igualdade perante a lei que se lixe. Digwa sabia que chamar alguém “racista” era o seu ás na manga para um tratamento preferencial, que inverte vítima e culpado. Como alertava Eça de Queiróz, “para aparecer no jornal, há assassinos que assassinam”.

Noutro desvario “interseccional”, o maior portal de notícias do Brasil, o UOL, publicou ontem um vídeo a especular se os três golos que Messi marcou no Mundial contra a Argélia não seria uma “tentativa racista de apagar o legado de Pelé”. Naquele mesmo dia, o francês Mbappé também bateu o recorde do brasileiro – mas ele pode, pois não é ariano como o argentino. Antes, uma colunista acusara de racismo o treinador do Brasil, o italiano Carlo Ancelotti,  por não ter escalado o mulato Endrick na estreia contra o Marrocos. E daí se 7 dos 11 jogadores que começaram o jogo eram negros, assim como mais 4 nas substituições?

Em 11 de maio, numa crónica no “NY Times”, Nicholas Kristof disse que guardas israelitas praticavam a violação como método de tortura contra palestinianos. A alegação mais vil baseava-se numa fonte anónima, descrita como um “jornalista” de Gaza. Segundo ela, em 2024 um palestino foi despido, vendado e algemado numa cela. Então, “um cão foi chamado”. O tratador das IDF instruiu o melhor amigo do homem a violar fogosamente o prisioneiro, e os guardas riram-se às gargalhadas.

Todos os abusos precisam de ser investigados de modo completa e imparcial. Nenhum Estado merece isenção de escrutínio. Mas, além de não haver qualquer testemunha da cena, asseguram os especialistas que é simplesmente impossível treinar cães para violar  humanos. Não há um único caso registado na história, desde Adão e Eva. Porque alguém diria tal disparate? E um jornal sério publicaria uma alegação dadaísta autoautenticável?

Bem, é que no dia seguinte seria divulgado o relatório “Silenced No More”, de 300 páginas, produzido pela Comissão Civil sobre os Crimes do Hamas contra Mulheres e Crianças no 7 de Outubro. Essa organização independente, financiada por fundações, doadores privados e a embaixada da Alemanha em Israel, passou dois anos a averiguar mais de 10.000 fotografias, 1.800 horas de filmagens e 430 relatos de sobreviventes, reféns libertados e pessoal forense, além de autópsias. Que terroristas do Hamas abusaram sexualmente de mulheres em Israel em 7 de outubro de 2023 já era óbvio. Imagens transmitidas para o mundo todo — filmadas pelos próprios algozes — mostraram jovens judias arrastadas como reféns, seminuas ou com manchas de sangue nas calças rasgadas.

Antes de 2023, feministas do #MeTwo insistiam que as vítimas de agressão sexual nunca mentiam. Precisávamos  de #AcreditarEmTodasAsMulheres. Faltou a ressalva: desde que não fossem judias. Quando o governo israelita divulgou vídeos expondo o horror, jornalistas exigiram “provas conclusivas” de que a barbárie fora  “intencional”. Na famigerada “Flotilha da Liberdade”, a gazeteira-mor Greta Thumberg negou-se a assistir os vídeos das violações que Israel disponibilizou-lhe – como um cardeal de Pádua terá recusado espreitar pelo telescópio de Galileu Galilei, para não comprovar que a Terra que girava em redor do Sol (ao contrário da militonta sueca, isso não passa de aldrabice anticlerical: os astrónomos do Vaticano foram os primeiros a confirmar as observações de Galileu com telescópios.)

Só em março de 2024 a ONU reconheceu que a violação tinha sido usado como arma de guerra no 7 de outubro de 2023. A Anistia Internacional levou mais de dois anos para a mesma conclusão. “A violência sexual foi sistemática, generalizada e intrínseca ao 7 de outubro”. Ao contrário do #MeToo, os pesquisadores da Comissão não se limitaram a crer nas mulheres: passaram a pente fino todas as provas.

O que brota não é “uma coleção de incidentes isolados, mas um padrão coerente de violência, perpetrada em múltiplos locais e fases, desde os ataques iniciais, passando pelo sequestro, até o cativeiro prolongado e a circulação digital de abusos”. O Hamas filmava as infâmias enquanto eram perpetradas. E transmitiam-nas em direto, às vezes através das próprias contas de redes sociais das vítimas. Assim, não apenas amigos e familiares eram obrigados a testemunhar o sofrimento infligido aos seus entes queridos, como os sobreviventes sempre suspeitariam da existência de um registo de sua provação. Nem Hitler teve coragem de assumir preto no branco a Solução Final.

A Comissão concluiu que o 7 de outubro constitui crime de guerra e contra a humanidade, segundo o direito internacional. Tal veredito devia cessar as abjetas demonstrações de apoio ao Hamas nas ruas das cidades do mundo inteiro, que encorajam atentados antissemitas. Aqueles que insistiram em provas mais “conclusivas” deviam pedir desculpas, ou fechar a matraca. Mas isso não vai acontecer: o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) — citado por Kristofff— foi apanhado a remover discretamente nomes de terroristas da sua lista de “repórteres” mortos em Gaza.

No dia 10 de maio, o  “NY Times” usou o obituário de Abraham Foxman, reverenciado diretor da Liga Antidifamação dos EUA, para apoiar a falácia de que as ações de Israel em Gaza justificam o antissemitismo. Em maio de 2021, Foxman cancelou publicamente a sua assinatura do ‘NY Times”, pelo que chamou “calúnia contra o povo judeu na primeira página”. Pena que – ops! – o “NYTimes” se tenha esquecido de incluir essa informação no melífluo necrológio de Foxman.

Há outra frase de Chesterton: quando deixamos de crer em Deus, passamos não a acreditar em nada, mas a crer em qualquer coisa. Faz parte da condição humana puxarmos a brasa para a nossa sardinha (que tendemos a considerar caviar). E o pluralismo é a essência da democracia. Mas, ao vender o seu peixe, os media não devem prescindir dos imperativos básicos da objetividade e isenção. Instituições não são idiossincrasias, nem podem admitir a má-fé, omissão evasiva ou criação de espantalhos . Caso contrário, os media corresponderão ao epigrama de Bernard Shaw: “Um jornal é algo que não consegue distinguir entre um acidente de bicicleta e o colapso da civilização”.

A primeira vítima mortal das guerras culturais é a verdade, que degenera em self-service e relações públicas. Quando uma civilização deixa de crer em todas as suas tradições, os seus jovens irão buscar significado noutro lado qualquer. Incluindo o niilismo. De Southampton  – precisamente onde Henry Novak foi assassinado -, há 100 anos zarpou o Titanic. Hoje parece que todo o Ocidente seguia a bordo.