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(A) :: O Peso do Tempo (e da Podridão) na Praça Hugo Chávez

O Peso do Tempo (e da Podridão) na Praça Hugo Chávez

Aquela placa já não é um mero fóssil ideológico; é a autópsia visual de um regime. Um poder moldado pelo compadrio.

Eduardo Alferes Conceição
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A Arqueologia Urbana da Amadora

Há dias em que gosto de caminhar pela Amadora sem um rumo definido. Eu, a minha pipoca, o meu pipoco e a máquina fotográfica. Os quatro sem destino, apenas para ouvir o que a cidade tem para nos dizer. Nem sempre ela fala da mesma forma. Às vezes manifesta-se através das pessoas: os miúdos a sair das escolas, os reformados nas esplanadas, os comerciantes na sua teimosia diária.

Outras vezes, fala através das coisas: dos prédios, das fachadas, das placas e dos nomes.

Os nomes são particularmente interessantes porque têm uma qualidade rara: sobrevivem. Sobrevivem aos entusiasmos que os criaram, às circunstâncias que os justificaram e, muitas vezes, até à memória daqueles que os escolheram. Ficam ali, como velhos atores que continuam em palco muito depois de o público ter esquecido a peça. Quando abrandamos o passo, reparamos nestes detalhes. Uma montra que não muda há anos, um café encerrado mas intocado pelo tempo, um cartaz desbotado. Pequenos vestígios que coexistem, como se a cidade fosse um arquivo incapaz de deitar fora o que já não usa.

O Fóssil Político de Alfragide

Foi precisamente por causa de uma dessas relíquias que me detive na Praça Hugo Chávez, em Alfragide. Mesmo quando julgo caminhar sem destino, acabo invariavelmente arrastado para o magnetismo das zonas comerciais em terrenos industriais, rudes nos seus passeios, agressivas nos acessos, mas centrais na vida urbana.

E lá estavam as placas entre pedras secas, ervas queimadas pelo verão e pássaros de metal pousados para sempre.

Já não sinto indignação a olhar para aquelas placas. O que disse na Assembleia Municipal em 2024 foi claro e continua a sê-lo. O que mudou não foi a minha opinião sobre a praça. Foi a forma como passei a olhar para ela. Hoje interessa-me menos a discussão que lhe deu origem e mais aquilo que a sua permanência continua a dizer sobre a cidade.

Há nomes que envelhecem naturalmente e se fundem com a rua. E depois há nomes como este, que ficam presos num instante específico da História, incapazes de acompanhar o mundo em seu redor.

Olhar para a Praça Hugo Chávez é ser transportado para um tempo em que a Venezuela representava, para alguns, uma promessa ousada. Aquilo que outrora foi apresentado como uma homenagem ao futuro é, hoje, uma cápsula do passado. É a mesma sensação de encontrar uma fotografia antiga numa gaveta: apercebemo-nos de que ela já não fala apenas da pessoa retratada, mas sobretudo da época em que foi tirada.

A Cultura da Inércia e a Perpetuação do Poder

E aqui, a história deixa de ser sobre um ditador, cujo nome foi gravado na pedra na Amadora.

As cidades revelam-se menos pelas decisões que tomam e mais pelas que deixam em suspenso. A praça continua ali não porque exista uma multidão a defendê-la, mas porque se tornou paisagem. Um edifício degrada-se, uma loja fecha, e habituamo-nos de tal forma ao vazio que deixamos de o estranhar. Com a política sucede exatamente o mesmo. A verdadeira narrativa desta praça é a ausência de uma decisão posterior. O mundo, a Venezuela e a Amadora mudaram, mas a placa permanece protegida por uma força invisível: a inércia. E a inércia apresenta-se sempre como adiamento, esperando eternamente pelo “depois”.

As cidades envelhecem através da acumulação destas pequenas resoluções que ficaram esquecidas. Tal como uma casa de família onde se continuam a guardar objetos cujo significado se perdeu, a Amadora é viva, dinâmica, mas parece ter-se habituado de tal forma à sua própria estrutura que deixou de a questionar.

Há vinte e nove anos que a Amadora é governada pelo mesmo partido, um feudo ininterrupto desde 1997. É um facto objetivo, tão factual como a localização da Buraca, onde me esculpi. Uma geração inteira nasceu, cresceu e chegou à idade adulta sem conhecer outra realidade política. Isto não é um detalhe. É o facto central da vida política da cidade. Porque chega um momento em que o problema já não é quem governa. O problema é o que acontece a uma organização quando deixa de conceber a hipótese de não governar.

O Labirinto de Nomeações: O Custo da Máquina

A Praça Hugo Chávez já não é apenas o sintoma de uma elite política que desenvolveu uma relação demasiado confortável com a passagem do tempo. Hoje, ela é o monumento à desfaçatez de uma teia partidária que perdeu a vergonha.

Esta engrenagem sobrevive alimentada pelos impostos de quem aqui vive e trabalha. E não se trata apenas do dinheiro. Trata-se da cultura de poder que esse dinheiro sustenta.

O Aviso n.º 30213/2025/2 oferece uma leitura particularmente reveladora. Não por causa dos nomes. Os nomes são irrelevantes. O que interessa são os percursos. Encontramos quadros qualificados que há décadas orbitam sucessivos gabinetes, vereações e estruturas de apoio político. Alguns destes percursos atravessam praticamente um quarto de século da vida municipal sem nunca se afastarem verdadeiramente da órbita do poder.

Nada disto é ilegal. Mas é profundamente revelador. Porque uma organização saudável utiliza o talento para renovar instituições. Uma organização envelhecida utiliza o talento para perpetuar estruturas.

A ironia é que, mesmo para os mais fiéis, a recompensa raramente ultrapassa a órbita dos próprios gabinetes. É aqui que o espelho da autarquia se torna impiedoso: o sistema capta quadros qualificados, mas cristaliza-os. Encontramos casos de profissionais com licenciaturas e pós-graduações que permanecem retidas na base da pirâmide, arrumadas na categoria de assistentes técnicas a prestar mero apoio administrativo.

Mudam os presidentes, mudam as vereações, mudam as designações dos cargos, mas o teto de vidro permanece intacto para estes quadros. A máquina partidária absorve a sua lealdade, mas paga-lhes com uma estagnação conformada. Os corredores permanecem habitados por estas trajetórias suspensas no tempo, talentos enfiados na mesma gaveta burocrática há mais de vinte anos, reféns de um sistema onde não se cresce, apenas se permanece.

Operação Imergente: Anatomia do Desgaste

O manto de aparente imunidade da autarquia foi recentemente rasgado pela Operação Imergente.

Ver o atual presidente da Câmara e a sua chefe de gabinete constituídos arguidos por suspeitas de prevaricação, destrói qualquer narrativa de mera “gestão cautelosa”. A ferida está aberta e o reino mostra-se profundamente podre. A ironia deste caso é de um cinismo atroz: um ajuste direto de 2.200 euros para que Duarte Moral, o diretor de comunicação do PS nacional e homem de confiança de José Luís Carneiro, escrevesse o discurso do 25 de Abril na Amadora.

O valor é quase irrelevante. O que verdadeiramente impressiona é a naturalidade do gesto. Como se fosse perfeitamente normal que um discurso institucional da Câmara Municipal da Amadora precisasse de ser encomendado a um quadro nacional do Partido Socialista. Como se já ninguém sentisse necessidade de distinguir claramente onde termina o partido e onde começa a instituição.

Imagine-se o cenário nas cerimónias: o autarca a debitar loas à Liberdade através de palavras encomendadas e pagas com o dinheiro dos munícipes. Tudo isto perante o aplauso cúmplice dos que sabem que a união tem que ser temperada com sal grosso, enquanto se inaugurava a badalada peça de Vhils. Uma obra cujos gastos exorbitantes eu já havia denunciado em 2025, avisando que estávamos perante um autêntico abuso dos nossos impostos para financiar a campanha autárquica a decorrer à época. Celebrava-se cinicamente a “honra da Liberdade” na praça pública, enquanto nos bastidores se besuntava a febra para servir no piquenique.

Esta teimosia em manter a Praça Hugo Chávez ganha agora outro significado. Não porque exista qualquer relação entre uma decisão toponímica tomada em 2013 e os factos que hoje estão sob investigação. Seria intelectualmente desonesto sugeri-lo. O que existe é algo mais interessante: uma cultura política. Uma forma de olhar para o poder. Uma convicção profunda de que determinadas decisões pertencem a um círculo restrito que não sente necessidade de se justificar perante quem paga a conta. A praça não explica a Operação Imergente. Mas ajuda a compreender o ambiente político onde certas perguntas deixaram de ser feitas durante demasiado tempo.

Quando o poder envelhece desta forma, o verdadeiro desgaste não começa nos tribunais. Começa muito antes, quando a estrutura deixa de se sentir temporária. Depois, deixa de sentir necessidade de se explicar e, por fim, a criatividade procedimental torna-se uma banalidade tal que deixa de provocar surpresa.

Da Ata de 2013 ao Diagnóstico Final

Entretanto, o tempo passou.

Resta uma ata de uma Assembleia Municipal a 14 de março de 2013, onde muitos dos que lá estavam já não exercem funções. Sobra uma ironia difícil de ignorar no facto de João Paulo Castanheira, ilustre militante do CDS e um cavalheiro, a voz mais clara contra a atribuição desse nome, um homem da Amadora, eleito da Amadora, participante ativo da vida democrática da cidade, continuar à espera da homenagem que muitos consideram inevitável, enquanto o atual presidente da autarquia carrega o peso de ser arguido por prevaricação e a placa da praça permanece imóvel, como um móvel pesado que ninguém tem coragem de arrastar.

Continuarei a parar em Alfragide, mas agora a lente da minha máquina foca outra realidade. Aquela placa já não é um mero fóssil ideológico; é a autópsia visual de um regime. Um poder moldado pelo compadrio que, de tanto blindar gabinetes e queimar os impostos dos munícipes em propaganda, acabou por perder a vergonha e o olfato.

As cidades não morrem de um escândalo. Nem de uma investigação. Morrem lentamente quando deixam de exigir melhor.