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Rivalidades, intrigas e frustrações. Montenegro II: uma família já não tão feliz à procura de sobreviver

Ministros incompatibilizados, conspiração crescente, dúvidas sobre resultados, receios quanto ao futuro, um fantasma incómodo e o sonho de uma maioria. O retrato de um Governo à procura de novo fôlego

Miguel Santos Carrapatoso
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Quando a notícia saiu, o impulso imediato foi perceber quem era a toupeira. A 6 de maio, o Diário de Notícias tornava públicos os planos do Governo para os médicos tarefeiros e para a reorganização do INEM. O jornal citava “fonte do setor”, mas assumia que a informação era incompleta e que não tinha tido acesso ao conteúdo integral dos diplomas, mesmo dizendo que seriam discutidos no Conselho de Ministros do dia seguinte — o que efetivamente veio a acontecer. Ou seja, a informação não tinha sido passada pelos canais oficiais do Governo, que, como sempre aconteceu com este e outros executivos, dá ‘cachas’ aos jornais para marcar a agenda política e mediática em determinados momentos. Tinha existido uma fuga de informação.

Nada disto é estranho. Fugas de informação fazem parte do jogo do rato e do gato entre quem está no poder e quem escrutina o poder. O que foi estranho foi o que aconteceu no Ministério da Saúde. Houve quem olhasse para aquela fuga, que não estava inteiramente correta e que trazia medidas controversas para o setor sem o enquadramento pretendido, como uma tentativa deliberada de deixar a ministra Ana Paula Martins numa posição (ainda mais) delicada. Uma fuga de informação organizada por um elemento do Governo interessado em prejudicar uma ministra que alguns pares consideram ser um ativo tóxico que Luís Montenegro segura até ao limite. Fizeram-se perguntas, procuraram-se culpados e exigiram-se respostas bem para lá do que seria razoável para o impacto que a notícia acabaria por ter. Mas o que este episódio verdadeiramente ilustra é o clima de paranoia e de conspiração que se instalou no interior do próprio Governo.

Nas últimas semanas, o Observador falou com mais de uma dezena de fontes ligadas direta ou indiretamente ao Governo. E o retrato que fica está longe de ser o de uma família feliz. Um patriarca que liga e desliga como um interruptor. Um Governo onde se passam culpas sobre ineficácia na comunicação e onde se vai assumindo internamente uma perda de fulgor preocupante. Um Executivo que acaba de sofrer uma derrota pesadíssima na reforma laboral. Um ministro com sede de protagonismo e (para os detratores) excesso de poder. Governantes em manifesto sub-rendimento e uns poucos com tiques de deslumbramento.

Uma equipa onde há já demasiada gente a pensar no futuro — no imediato (as próximas eleições) e no mais longínquo (o pós-Montenegro). Um Governo onde se desvalorizam as sucessivas más sondagens, mas onde alguns já vão percebendo, com consternação crescente, que eleitores sem dinheiro no bolso, comida na despensa e combustível no carro tornam o caminho demasiado estreito. E, com pouco mais de dois anos de poder, vão crescendo as frustrações, as invejas e os ressentimentos. A família que este fim de semana se vai reunir em Anadia para o 43.º Congresso do PSD já esteve bem mais feliz.

"Falta planeamento político, falta uma ideia do que se quer para o país, falta liderança”, diz ao Observador um senador social-democrata insuspeito de nutrir qualquer antipatia por Luís Montenegro — antes pelo contrário. “Esse governo de 1985 era minoritário mas enfrentava o Parlamento. Combatia. O país percebia que havia um caminho. Este não”, insiste a mesma fonte

“Não é Cavaco quem quer…”

À cabeceira senta-se Luís Montenegro, patriarca incontestável, o maestro que dita o ritmo e a estratégia do Governo, que ouve muito, em particular Hugo Soares, líder parlamentar e número dois de facto do PSD, mas que decide quase sempre sozinho. Que trabalha com pequenas equipas (Miranda Sarmento, Rangel, Leitão Amaro, Castro Almeida, Abreu Amorim e o mesmo Hugo Soares são o núcleo de coordenação política), que premeia a lealdade, que tem horror a fugas de informação e que desenvolveu uma relação com a comunicação social que contamina e condiciona o resto do elenco governativo. De resto, existe quem, mesmo no Governo, diga dentro de portas aquilo que já há muito se percebeu fora delas: existe um antes e um depois da Spinumviva.

O caso deixou marcas profundas. Luís Montenegro não esquece a forma como jornalistas, articulistas e comentadores fizeram a cobertura mediática de uma matéria que o primeiro-ministro continua a achar que pertence à sua esfera estritamente pessoal e familiar. Mais um golpe — porventura o derradeiro — na relação entre o próprio e uma bolha mediática que, sente Montenegro, nunca o aceitou como um igual, subvalorizando-o nos momentos mais cruciais. Um estranho entre a elite, um “homem de Espinho” na corte lisboeta, o ponta de lança do ‘povo’ contra a “jornalada”, termo usado amiúde entre alguns dos homens de Montenegro.

Esta perceção ajudou a alimentar uma mentalidade de cerco que se estendeu ao núcleo mais restrito do líder e que, em bom rigor, também se alimenta (e alimenta) de um certo zeitgeist. A comunicação social ora é tratada com muita desconfiança, ora com hostilidade. O Governo comunica pouco e o estritamente necessário. Ao mesmo tempo, também se procura emular a mitologia cavaquista que Montenegro nunca escondeu admirar — também Aníbal Cavaco Silva, o “homem de Boliqueime”, era desprezado pelas elites, e também Aníbal Cavaco Silva era atacado pelos jornais, em particular pel’O Independente.

Acontece que esta mentalidade de cerco, a resultar, teria de ser acompanhada por um desempenho governativo que furasse a bolha e falasse diretamente para o eleitorado. Fazer, fazer, fazer, ocupando a agenda mediática, sem dar espaço à oposição para reagrupar e reagir. Um governo ultraminoritário é como uma bicicleta em andamento: se parar, cai. Montenegro sabe-o e foi por isso que organizou um primeiro elenco dedicado ao combate político, que saltava de tema em tema todas as semanas.

Deu frutos. Um ano depois da primeira vitória, Montenegro apresentou-se a votos numas eleições que foram um referendo à sua integridade como primeiro-ministro e ganhou de forma folgada. Só que, daí para cá, algo mudou. No interior do Governo, reconhece-se isso mesmo e adiantam-se explicações. As possíveis, pelo menos. Não todas necessariamente concordantes entre si, o que também revela alguma hesitação sobre o que devia estar a ser feito e não está.

Há coisas a acontecer, mas a comunicação não está a ser bem feita. O país não está a receber bem as ‘boas notícias’ — o foco da opinião pública e publicada está agora nos problemas que existem e não nas expectativas que a AD criou naquele primeiro ciclo (veja-se como Luís Montenegro se queixou de ninguém ter ligado nenhuma ao que disse perante empresários alemães). A ideia, pelo menos inicial, de que a legislatura estava para durar convidou a uma certa letargia nos corredores do Executivo. Há gente encantada com o título de ‘senhor ministro’ e com as comodidades que vêm com o cargo. A economia não dispara e os custos de vida crescem. Os grandes dossiês (Saúde, Habitação) demoram tempo a resolver, as necessidades do país não páram de aumentar e culpar o PS começa a ser curto. A reforma do Estado avança, mas demorará anos até render votos (se é que vai render).

A guerra no Irão e o comboio de tempestades consumiram tempo, energia, foco e os recursos orçamentais que, porventura, poderiam ajudar a fazer uns brilharetes e a subir nos índices de popularidade. O apagão foi um teste de stress não necessariamente bem-sucedido. A grande aposta — a nova lei laboral — foi um assumido desastre em termos de comunicação, acabou como se viu e ninguém consegue antecipar exatamente o real impacto na popularidade do Governo. Os sermões de Pedro Passos Coelho sobre a falta de espírito reformista puseram o país a olhar para o lado lunar da governação e deixaram Montenegro na defensiva. O mesmo Montenegro que, vão lamentando alguns ministros, liga e desliga, aparece e desaparece, arranca e pára.

Não é Cavaco quem quer. Falta planeamento político, falta uma ideia do que se quer para o país, falta liderança”, diz ao Observador um senador social-democrata insuspeito de estar alinhado com Pedro Passos Coelho e de nutrir qualquer antipatia por Luís Montenegro — antes pelo contrário. “Esse governo de 1985 era minoritário mas enfrentava o Parlamento. Combatia. O país percebia que havia um caminho. Este não”, insiste a mesma fonte — crítica, de resto, replicada por Miguel Relvas numa recente entrevista ao Observador.

Ora, num Governo que se habituou a ser montenegrocêntrico por necessidade (a renovação geracional também roubou dimensão política ao elenco) e por feitio (se se decide em circuito fechado, não se estimula a iniciativa individual), os momentos em que o primeiro-ministro desliga notam-se muito mais. Quando a estrela de Montenegro apaga, o Governo deixa de brilhar. “O primeiro-ministro é o coração do Governo. É ele que bombeia o sangue. Às vezes o coração bate mais devagar, outras vezes bate mais depressa. O importante é que continue a bater”, relativiza um dos elementos mais centrais do Governo, mesmo não escondendo a apreensão com o momento atual do Executivo.

Durante muito tempo — em particular durante grande parte da discussão sobre a reforma laboral —, Montenegro deixou a ministra e o Governo como um todo expostos ao desgaste. E quando chamou o processo a si, o estrago já estava feito. Em rigor, além da resposta que deu a Pedro Passos Coelho, pouco de Montenegro ficou na retina desde que foi reeleito primeiro-ministro. Na verdade, existe um lado assumidamente tático nesta gestão dos tempos — no Parlamento, o próprio primeiro-ministro chegou a assumir-se como um corredor “com endurance” e que “não sprinta nos primeiros cem metros”.

Traduzindo: as eleições hão de chegar antes do tempo (2028 é o ano? Ou antes?) e será preciso oxigénio para o combate e trunfos para vender. Mas, entretanto, o tempo passa e a gestão do dia a dia agrava a perceção externa de que o Governo está parado (“Parece que estão cansados de estar no poder”, lamenta outro senador do PSD) e, pior ainda, acentua a falta de coesão interna. A cerca que separa o Governo da bolha está a ruir — não a partir de fora, mas por dentro.

Um ministro que é um alvo, um problema e um ativo

Quando o texto da revista Visão começou a circular, a 24 de abril, houve ministros a atirarem-se para o chão de tanto rir. Citando fonte do Governo, lia-se o seguinte: “Leitão Amaro tem um poder enorme. O primeiro-ministro ouve-o mais do que a Hugo Soares”. Se a primeira parte da premissa tem toda a razão de ser — Leitão Amaro tem de facto um poder enorme no Governo —, a ideia de que o ministro da Presidência tinha superado Hugo Soares nesta hierarquia muito própria era uma fantasia.

Hugo Soares é um aliado de sempre, visita de casa, companhia de férias e confidente do primeiro-ministro. São a dupla que efetivamente manda no país político. Pior: para os detratores de Leitão Amaro e para o círculo mais próximo de Montenegro, esta ideia tinha sido plantada pelo gabinete do ministro para o promover na praça pública, algo que inevitavelmente se viraria contra o próprio e o deixaria ficar mal visto no interior do Governo. Tinha sido mais um tiro no pé de uma figura que alimenta cada vez mais resistências entre os pares.

Num Executivo onde os ministros têm receio de alimentar conversas com jornalistas (o tal clima de paranoia) e onde todos procuram saber quem fala com quem — Luís Montenegro chegou a admoestar, em Conselho de Ministros, os seus ministros mais conspirativos —, relatos como os da revista Visão e de outros órgãos de comunicação social — alimentados, naturalmente, por gente de ‘dentro’ — têm visado quase sempre o mesmo ministro.

Dos casos mais delicados (como o que envolve o cunhado do próprio ministro) até aos boatos mais absurdos (mas com intenção clara de desgastar pessoalmente Leitão Amaro), passando pelas críticas de um setor com grande força de contestação (o da comunicação social) e pelas gaffes que o próprio vai cometendo (o vídeo com as mangas de camisa arregaçadas fez as delícias dos rivais), os ataques vão-se repetindo constituindo um padrão: António Leitão Amaro, uma peça fundamental na engrenagem deste Governo, tem há muito um alvo desenhado nas costas.

É um processo, em parte, reativo. Alguns colegas de Governo criticam-lhe a pulsão centralizadora, a vaidade que revela nos longos briefings pós-Conselhos de Ministros, o autoritarismo desproporcional, a forma como se relaciona com os pares e como exerce o poder que lhe é emprestado por Luís Montenegro, com solidariedade a menos e decibéis a mais — de resto, o desconforto causado pelos excessos de António Leitão Amaro foi confirmado ao Observador por vários ministros do atual Governo.

Garante-se que está cada vez mais isolado, que os outros ministros estão cada vez menos disponíveis para o ouvir (“Já ninguém lhe passa cartão“, hiperboliza-se a partir do Executivo) e é apontado como o grande responsável pela “má comunicação” do Governo — é António Leitão Amaro quem decide se os ministros falam, quem pode dar entrevistas e que temas devem ser prioritários em cada momento.

Esta escalada de influência de Leitão Amaro fez com que Pedro Esteves, formalmente o responsável pela comunicação do Governo, fosse sendo relegado para um segundo plano, quase complementar, de assessor de imprensa de Luís Montenegro — “também nunca demonstrou estar à altura”, vai-se concedendo a partir do núcleo duro do montenegrismo. Em cima disto, o ministro da Presidência tem o poder muito próprio de controlar o pipeline legislativo, aquilo que vai ou não a Conselho de Ministros, o que lhe dá um duplo poder: o de condicionar politicamente as agendas dos outros Ministérios, pondo e retirando determinados diplomas da gaveta; e o de definir como e quando devem ser comunicadas as novidades do Executivo. Portanto, se existe a perceção pública de que o Governo está parado, é responsabilidade de Leitão Amaro, confluem os críticos internos.

Luís Montenegro não desconhece o ambiente do balneário que lidera, obviamente. Saberá que Leitão Amaro não é exatamente um pacificador e que comete excessos. Já presenciou alguns, aliás, em Conselhos de Ministros mais tensos. Conhece e tolera as suas ambições políticas (“É o único que está a correr em pista própria”, denuncia um rival). Saberá igualmente que há governantes que se vão incompatibilizando com o ministro da Presidência e que os processos demoram mais porque, em parte, o ministro se envolve exaustivamente no desenho dos diplomas dos outros — em muitos casos, vão defendendo aqueles que reconhecem os méritos de Leitão Amaro, não fosse ele e a sua equipa e muitas medidas seriam feitas com os pés.

Ao mesmo tempo, Luís Montenegro reconhece-lhe inteligência política e uma capacidade de trabalho notável — e não abdica dessas qualidades. E sabe, porque intui, que grande parte dos ataques externos existe porque derrubar Leitão Amaro seria ferir com gravidade o Governo que lidera. Além disso, há um lado instrumental em deixar o ministro da Presidência com tanta liberdade para usar o chicote: manter os ministros sob tensão permanente é um convite à rivalidade; e a sã rivalidade costuma alimentar a produtividade. Que seja Leitão Amaro a fazer o papel de polícia mau não é necessariamente um problema. Se Leitão Amaro escorregar pelo caminho, queimar pontes e prejudicar as suas aspirações futuras, será um problema inteiramente dele.

Além disso, as zangas e os amuos entre Leitão Amaro e outros ministros não são, seguramente, a maior das dores de cabeça de Montenegro. A ministra Maria do Rosário Palma ajudou a hipotecar a reforma laboral. Ana Paula Martins, na Saúde, teve de ser segurada várias vezes pelo primeiro-ministro. Rita Júdice, na Justiça, continua a marcar passo sem que se lhe reconheça uma reforma de fundo. Fernando Alexandre começou como ministro-estrela e foi perdendo brilho — e também a exposição mediática.

A captação do ex-diretor da PJ e novo ministro da Administração Interna, Luís Neves, é um pin que Montenegro carrega com orgulho. Chegou com força, minou a narrativa do Governo sobre o aumento da insegurança e ainda deu um chega para lá a Carlos Moedas. Está com vontade de mostrar trabalho e isso é bom. Mas já se percebeu internamente que tem o coração na boca e pouca prudência política — ter-se atravessado pelo SIRESP e ter dito que o país estava preparado para enfrentar a época de incêndios na antecâmara de um verão muito quente pode vir a ser um problema. Não o único — e não necessariamente o mais grave.

Chegará o momento em que será preciso matar ou ser morto. Apesar das sondagens animadoras para o PS e da queda (registada em várias sondagens) de Luís Montenegro, os sociais-democratas continuam convencidos de que, em futuras eleições legislativas, serão os socialistas a pagar o preço político de um Parlamento tripartido. Se assim acontecer, começará o terceiro ciclo de afirmação de Montenegro — o da maioria absoluta.

A manta está a ficar curta

Por muitas voltas que se dê, a Economia, a grande promessa da AD, não explode. Joaquim Miranda Sarmento dizia que crescer acima dos 3% era peanuts, mas agora que está no Governo cresce a 2% e com dificuldades. A despesa pública está a crescer acima do previsto, o que reduz margem de manobra política para distribuir prebendas. O défice está ao virar da esquina — e, se acontecer, lá se vai a fama da direita com contas certas. O salário médio aumentou, é um facto, mas a inflação comeu uma parte dessa evolução. O acesso à Habitação, apesar dos sinais positivos, continua a ser uma chaga social. A Saúde é um sorvedouro de dinheiro e de capital político. E a guerra no Irão trouxe o drama do combustível (ainda mais) caro e agravou a fatura do supermercado.

O ministro das Finanças já avisou que será difícil continuar a reduzir o IRS e garantir o bónus anual aos pensionistas. Luís Montenegro resistiu à tentação de mexer no IVA do cabaz alimentar e em responder de forma mais musculada à crise nos combustíveis — o Observador sabe que ministros houve que ficaram reticentes com a contemporização do primeiro-ministro, que optou por uma abordagem mais prudente que lhe permitisse reagir a um eventual prolongar da crise. Montenegro ganhou a aposta, a guerra terminou e vai dar para respirar fundo. Mas os problemas não desapareceram. Em alguns casos até se agravaram. É difícil imaginar um caminho cheio de flores que permita ao Governo como um todo recuperar a imagem de fazedor e as expectativas que sobre ele recaíam.

E isso preocupa quem, no Governo, vai tentando olhar para o dia de amanhã. Os ciclos eleitorais estão cada vez mais curtos e o tempo que Montenegro precisa para sprintar e apresentar os tais brilharetes prometidos pode não existir. Ao mesmo tempo, a vida útil dos governos por essa Europa fora está cada vez mais precária — veja-se o que está a acontecer à supermaioria de Keir Starmer no Reino Unido.

Acreditar que o Governo e Luís Montenegro serão para sempre imunes ao ar dos tempos é uma fezada, vai-se avisando a partir do Executivo. O conservador eleitorado português só por duas vezes mostrou cartão vermelho a um primeiro-ministro em exercício, Santana Lopes e José Sócrates III, ambos em circunstâncias absolutamente excecionais. Mas o tempo do bipartidarismo acabou e as ameaças hoje são outras e mais exigentes.

Pedro Passos Coelho está a marcar este Congresso do PSD sem ter posto um pé em Anadia. Nem vai pôr, apesar de todos os desafios que lhe fizeram. "Os serviços do PSD poderão confirmar que não me inscrevi para ir ao Congresso", diz o próprio ao Observador. Marcou o ponto que queria marcar, continuará a dizer o que pensa e deverá apresentar até ao final do ano, com Sérgio Sousa Pinto, um programa de reformas estruturais para o país. Se tem sido difícil escapar de um fantasma que faz intervenções avulsas, imagine-se como será difícil controlar a agenda mediática e política se o fantasma tiver um proto Programa de Governo nas mãos

Fé num terceiro ciclo. E na maioria absoluta

A crise política há de chegar antes das eleições legislativas de 2029. É uma ideia, aliás, partilhada por todos no PSD e que vai tendo eco entre elementos do Chega e do Partido Socialista. Do lado dos sociais-democratas, o grande objetivo é chegar a esse momento com a narrativa certa — a vitimização é arma de todos os governos minoritários e Montenegro já a usou com maestria quando foi desafiado por Pedro Nuno Santos durante a crise da Spinumviva. O chumbo do Chega ao pacote laboral, depois de todo o drama montado, vai servir, seguramente, para isso. Aliás, já está a servir.

A lição de Aníbal Cavaco Silva sobre as “forças de bloqueio” está bem presente na sebenta que Luís Montenegro carrega consigo. Se não estivesse, o santo padroeiro do atual primeiro-ministro fez questão de o recordar recentemente: é preciso enfrentar com coragem a oposição, atacar as forças populistas, demonstrar visão de futuro nas reformas estruturais e dramatizar com o cenário de eleições antecipadas, culpando quem as provocar. Mas convém não tropeçar nas próprias palavras, clamar vitória antes do tempo e acabar driblado à frente de toda a gente.

Depois de longos meses, o Governo nem sequer conseguiu levar a água ao seu moinho na reforma laboral. Uma derrota pesada para um Executivo acusado de imobilismo. A fatura acabará por chegar. Em duas dimensões: não há como medir aquela que seria a real adesão dos portugueses à reforma proposta, mas as primeiras sondagens eram desastrosas; por outro lado, a aliança-quase-formalizada com o Chega pode funcionar como uma clarificação definitiva e libertar o PS da dança a três em que vai tropeçando desde que perdeu o poder.

No que diz respeito ao Governo, esta dança a três até estava a dar muito jeito. Foram os socialistas quem salvou os dois Orçamentos de Luís Montenegro — José Luís Carneiro, aliás, nem exigiu grande coisa em troca. Mas a paciência (ou o receio de ir a votos) do PS há de ter um fim. Esteve por um fio à boleia das nomeações para o Tribunal Constitucional, tema que será irrelevante para a grande maioria dos eleitores. Mas o quase acordo PSD – Chega na reforma laboral foi de outro campeonato e deu margem ao líder socialista para ouvir as vozes que no seu partido (Eduardo Ferro Rodrigues, Eduardo Cabrita, Mariana Vieira da Silva, seguramente Pedro Nuno Santos) defendem o chumbo do próximo Orçamento do Estado.

Para já, Carneiro guarda o jogo e não se compromete com nada. Mas a tentação para ganhar vida própria na oposição a Montenegro será grande. Se o PS se puser de fora, sobrará o Chega para viabilizar o Orçamento do Estado — coisa que nunca fez. Tendo o PSD na mão, as exigências de André Ventura serão grandes, eventualmente incomportáveis, e as negociações muito imprevisíveis. Uma fotocópia do que acabou de acontecer com a reforma laboral. Depois do verão, o Parlamento passará três meses embrulhado num psicodrama orçamental que vai, mais uma vez, trazer enorme desgaste para o Governo. Depois, já se sabe, mete-se o Natal e o Ano Novo… Mais uma vez: Montenegro pode não ter o tempo que desejaria para sprintar.

A manterem-se os dados que hoje existem, o risco de chumbo do Orçamento do Estado para 2027 é bem real, o que, não sendo um drama absoluto (António José Seguro já disse que não dissolveria automaticamente o Parlamento e os duodécimos não seriam uma desgraça por si só), será um enorme desafio. Ninguém no Governo ignora que está cada vez mais difícil mexer as peças no tabuleiro.

A diferença entre a glória (maioria absoluta) e a derrota estará na capacidade de convencer os eleitores de que não foi possível fazer mais por culpa da oposição. Com consecutivas sondagens a darem a AD como terceira força política e José Luís Carneiro como candidato bem posicionado a primeiro-ministro, não se pode dizer que essa mensagem está a ser bem assimilada.

Chegará o momento em que será preciso matar ou ser morto. Para já, ninguém perde o sono com a queda de Luís Montenegro nos estudos de opinião, ainda que também ninguém no Governo encontre uma explicação racional para essa quebra. Aposta-se que, quando as coisas apertarem e houver eleições no horizonte, tudo voltará aos eixos. Os sociais-democratas continuam convencidos de que, em futuras eleições legislativas, serão os socialistas a pagar o preço político de um Parlamento tripartido. Se assim acontecer, começará o terceiro ciclo de afirmação de Luís Montenegro, que não esconde, a quase três anos daquilo que seria o fim natural da legislatura, o desejo de conseguir uma maioria absoluta.

Apesar de tudo, também se assume o óbvio: qualquer cenário alternativo (a vitória do Chega ou do PS) seria o fim definitivo de Luís Montenegro. Mas não só. Com toda a nova geração do partido dentro do Governo e colada aos sucessos e insucessos de Montenegro, em caso de derrota, o partido ficaria entregue a Pedro Passos Coelho. Assim ele o quisesse, claro — e Pedro Passos Coelho, para lá de todas as intervenções públicas, já não esconde que está disponível para salvar o partido desse hipotético naufrágio.

O mesmo Pedro Passos Coelho que está a marcar este 43.º Congresso do PSD sem ter posto um pé em Anadia. Nem vai pôr, apesar de todos os desafios que lhe fizeram — Hugo Soares, Pedro Duarte, Miguel Pinto Luz. “Os serviços do PSD poderão confirmar que não me inscrevi para ir ao Congresso”, diz o próprio ao Observador.

Pedro Passos Coelho marcou o ponto que queria marcar, continuará a dizer o que pensa e deverá apresentar até ao final do ano, com Sérgio Sousa Pinto, um programa de reformas estruturais para o país. Se tem sido difícil escapar de um fantasma que faz intervenções avulsas, imagine-se como será difícil controlar a agenda mediática e política se o fantasma tiver um proto Programa de Governo nas mãos. Mais uma nuvem no horizonte de Luís Montenegro.

Mas uma eventual derrota de Luís Montenegro em futuras eleições legislativas não será apenas uma oportunidade para Pedro Passos Coelho e um problema para a nova geração de dirigentes e governantes. Constituirá um dilema profundo para o partido. Com os dados que hoje se conhecem, é difícil imaginar que a esquerda consiga uma maioria de deputados no Parlamento, pelo que a derrota de Montenegro obrigaria o PSD a ter de tomar uma decisão definitiva: governar com o Chega ou permitir que o PS governe. Seria, nas palavras de um influente social-democrata que se habituou a pensar o futuro do partido, a “grande cisão” do PSD.

Luís Montenegro não esquece a forma como jornalistas, articulistas e comentadores fizeram a cobertura mediática da Spinumviva, uma matéria que o primeiro-ministro continua a achar que pertence à sua esfera estritamente pessoal e familiar. Mais um golpe — porventura o derradeiro — na relação entre o próprio e uma bolha mediática que, sente Montenegro, nunca o aceitou como um igual, subvalorizando-o nos momentos mais cruciais. Um estranho entre a elite, um “homem de Espinho” na corte lisboeta, o ponta de lança do ‘povo’ contra a “jornalada”

Uma guerra a cozinhar-se para o pós-Montenegro

A convicção de que estão todos no mesmo barco — se Montenegro falhar, falham todos —, é um excelente incentivo para que todos torçam pelo sucesso do primeiro-ministro e desejem longa vida ao líder. Mas isso não significa que os pesos pesados do montenegrismo (António Leitão Amaro, Hugo Soares, Miguel Pinto Luz) tenham desistido de aspirar a voos maiores. Pelo contrário: os corredores do partido, onde antes sobrava espírito de entreajuda e lealdade, começam a ficar impregnados com o cheiro da conspiração.

O primeiro, pelo peso político e centralidade que tem neste Governo, está a ganhar uma experiência e exposição mediática assinaláveis. O segundo, número dois de facto deste PSD, dificilmente será líder logo a seguir a Montenegro. Mas a forma como está a preparar Alexandre Poço no grupo parlamentar do PSD foi notada por quem acompanha esta corrida feita na sombra. Em breve, aposta-se, Hugo Soares estará no Governo a tocar outra música. Hoje não ambiciona ser ministro, nem presidente do partido — não o deverá ser, seguramente, imediatamente a seguir a Montenegro. Mas o mundo, em especial na política, dá muitas voltas.

O terceiro, Miguel Pinto Luz, que já foi efetivamente a votos no PSD, acaba de dar uma entrevista, na véspera do Congresso, onde se posiciona para esse mesmo futuro pós-Montenegro. “Quando terminar este percurso farei a minha avaliação familiar, pessoal e política daquilo que será o futuro. Hoje estamos ainda no início de uma longa jornada do primeiro-ministro Luís Montenegro”, disse. E vai ter algum trabalho para apresentar: revolução fiscal na construção, solução para o novo aeroporto e TAP vendida parcialmente.

Mas quem conhece bem a forma de Montenegro pensar não tem dúvidas em dizer que o próprio já sinalizou o seu sucessor direto: Pedro Duarte. O primeiro-ministro libertou-o para ser presidente da Câmara Municipal do Porto e fez dele conselheiro de Estado, equiparando-o politicamente a Carlos Moedas — eterno candidato à presidência do partido, ainda que sem o entusiasmo de outros tempos. A autonomização de Pedro Duarte (veja-se o que já disse sobre o referendo à regionalização, a forma como atacou Pedro Passos Coelho ou como relativizou a reforma laboral na véspera da grande festa do Governo) também acontece com o incentivo tácito de Luís Montenegro.

Eventualmente, todas estas personagens terão de se enfrentar pela sucessão de Luís Montenegro, numa corrida que estará sempre condicionada por Pedro Passos Coelho — será sempre a sua disponibilidade ou indisponibilidade a ditar as hipóteses de cada um. O que muitos sociais-democratas esperam que não aconteça é que estas rivalidades latentes contaminem prematuramente o Governo. “Quem está no Governo a pensar nessas corridas, devia ter mais juízo“, alerta um ministro sénior do Executivo, por quem já não passará qualquer corrida à sucessão de Luís Montenegro.

O futuro da Aliança Democrática no poder inspira demasiadas reservas e dispensa bem lutas fratricidas. Não costuma dar bom resultado — veja-se o fim penoso do cavaquismo e como acabou a maioria absoluta de António Costa, com um friso de candidatos a futuros líderes que ainda hoje medem forças entre eles. O Governo pode já não ser uma família feliz; mas terá de manter as aparências se quiser aguentar o embate. “Todas as famílias felizes são parecidas umas com as outras; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”