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(A) :: Portugal serviu de “comida” na festa congolesa de Houston. "Ronaldomania" em xeque

Portugal serviu de “comida” na festa congolesa de Houston. "Ronaldomania" em xeque

No estádio sentiu-se a "Ronaldomania", mas o entusiasmo murchou com o golo da RD Congo, que fez a festa lá fora. Entre muitos apoiantes de Portugal, foi difícil encontrar um português.

Miguel Cordeiro
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5, 4, 3, 2, 1… Foi desta forma, com uma contagem decrescente aos gritos no NRG Stadium, que começou o Mundial de Portugal. A ansiedade acumulada ao longo de 6 dias de campeonato do mundo foi descarregada com entusiasmo no pontapé de saída em Houston.

Perante um estádio cheio e pintado maioritariamente com as cores de Portugal, a seleção portuguesa surgiu no túnel de acesso ao relvado ao som de Lose Yourself, de Eminem, e foi nesse momento que se ouviu o primeiro grande momento de êxtase, quando Ronaldo apareceu nos ecrãs gigantes instalados no terceiro anel, atrás de cada uma das balizas. Sentiu-se a “ronaldomania” nesse momento, mas o sentimento acabaria por desaparecer ao longo do jogo, com as oportunidades desperdiçadas pelo capitão da seleção portuguesa.

Portugal estreou-se também no novo formato de entrada em campo. As duas equipas entram lado a lado, incluindo os suplentes, e posicionam-se em torno do círculo central para os hinos oficiais. A Portuguesa ouviu-se primeiro. Nos ecrãs do estádio, as imagens dos jogadores a cantar, emocionados, neste arranque do Mundial 2026 para a Seleção Nacional. Nas imagens, a letra do hino surgiu como legenda, em formato karaoke, para que todos pudessem cantar. No fim, uma imagem a preto e branco: Diogo Jota. O estádio aplaudiu de pé. A família de Diogo Jota estava nas bancadas a convite da Federação Portuguesa de Futebol.

A numerologia adorada por Roberto Martinez voltou a funcionar no jogo frente ao Congo. O selecionador nacional tem dito que o número seis é  muito simbólico para a seleção e foi precisamente nesse minuto que João Neves fez o primeiro golo de Portugal neste campeonato do mundo. Abraçado pelos colegas, o jogador do Paris Saint- Germain conseguiu completar o sonho de marcar na estreia em campeonatos do mundo.

O golo agitou as bancadas. Atrás da baliza de Diogo Costa na primeira parte, no 3º anel, uma claque de Portugal cantou de forma incansável durante todo o jogo. Depois do golo a festa nesse sector era contagiante e houve até tempo para se dar início à “onda”. Com tambores e um líder aos gritos num megafone, a claque animou o estádio que tinha muitos adeptos de Portugal, mas poucos portugueses.

O golo dos “Leopardos” e a desilusão dos portugueses nas bancadas

No relvado, o golo sentiu-se de forma diferente. O Congo começou a crescer e conseguiu o primeiro remate aos 10 minutos. Passou perto. Era o primeiro aviso para o que viria ainda na primeira parte. Os adeptos da República Democrática do Congo também celebravam nas bancadas. A “claque” dos congoleses estava mesmo atrás do banco de suplentes da equipa africana. A festa aumentou a cada minuto da primeira parte e a grande celebração aconteceu em cima do intervalo quando Wissa cabeceou para o fundo da baliza de Diogo Costa. Foi o primeiro golo do Congo em campeonatos do mundo.

Em 1974, na única vez que a República Democrática do Congo participou no Mundial, ainda com o nome Zaire, os “Leopardos” não conseguiram marcar qualquer golo nos 3 jogos da frase de grupos. Sofreram 14 golos nesse campeonato que se jogou na Alemanha Ocidental. O minuto 50 da primeira parte do jogo contra Portugal fica para a História desta equipa africana.

O intervalo mostrou o nervosismo dos milhares de adeptos da seleção portuguesa. Ronaldo não estava a brilhar e já tinha falhado oportunidades. Portugal dominava a posse de bola, mas tinha dificuldade em criar situações de perigo. E o Congo gelou as bancadas com o golo em cima do intervalo.

Para o 2.º tempo, a equipa portuguesa foi a primeira a subir ao relvado e ainda esperou alguns minutos pelos africanos. Essa vontade dos portugueses acabou por não ter grande reflexo no relvado. A organização defensiva e o rigor tático dos congoleses resistiu até ao apito final.

Martinez mexeu na equipa. Conceição, o “espalha brasas”, entrou para o lugar de Bernardo Silva. Nuno Mendes assustou e ficou no chão várias vezes, acabou por sair, rendido por Nélson Semedo. Rafael Leão foi a jogo para o lugar de Pedro Neto e a 7 minutos do fim o motor de Vitinha foi desligado por Martinez para que entrasse o pistoleiro Gonçalo Ramos. Nada funcionou. A animação das bancadas foi-se apagando e o jogo terminou num clima de desilusão. Sejam portugueses, adeptos da seleção portuguesa, ou simplesmente fãs de Ronaldo, o desânimo foi geral nas bancadas. Resistiu apenas uma festa, a congolesa. A República Democrática do Congo conquistou o primeiro ponto em mundiais e vergou a “candidata, mas não favorita” seleção portuguesa.

Fãs de Portugal há muitos, mas portugueses…

Horas antes, o cenário era diferente. Nas imediações do NRG Stadium, as cores de Portugal estão por toda a parte. Há camisolas, bandeiras, cachecois, tudo o que sirva para mostrar apoio à seleção Portuguesa. O número 7 surge em maioria, naturalmente. De falta de apoio, Portugal não se pode queixar.

Dentro do estádio a situação é semelhante. O Observador, a partir da bancada de imprensa instalada no topo do 3º anel do NRG Stadium, tem vista privilegiada para todo o recinto e não estamos a exagerar ao dizer que 80% das bancadas estão pintadas de vermelho — e nem todos os adeptos de Portugal se apresentam com essa cor nas camisolas.

Com este ambiente, seria de esperar que fosse fácil encontrar portugueses. Adeptos que tenham viajado de Portugal para ver o jogo ou imigrantes que vivem nos EUA. Na verdade, encontrar um português nas imediações do NRG Stadium é um dos trabalhos mais difíceis. O Observador tentou falar com dezenas de adeptos que vestiam as cores de Portugal. Tentámos de tudo. Altos e baixos, homens e mulheres, com camisolas de Portugal ou de clubes portugueses. Carecas e cabeludos, com ou sem bigode. Tentámos de tudo e, depois de hora e meia neste esforço, contávamos apenas uma familia de três portugueses que vive em Boston, um grupo de dois amigos que viajou de Lisboa e um brasileiro que viveu em Setúbal e em Benfica durante alguns anos.

https://observador.pt/programas/reportagem-observador/a-saga-para-encontrar-um-adepto-portugues-no-nrg-stadium/

O NRG Stadium tem 72.000 lugares sentados. Os números oficiais revelados durante o jogo indicam que estiveram no estádio 68.777 espectadores. A Federação Portuguesa de Futebol comunicou que vendeu 3.500 bilhetes a portugueses e, já em cima da hora do jogo, informou que, de acordo com os dados da FIFA, foram vendidos 10.607 bilhetes a portugueses. Ou seja, 15% do estádio. Bate certo com o que o Observador testemunhou. É uma média de 3 portugueses por cada 20 adeptos.

António Pinto e Brigitte Pinto são portugueses a viver em Palm Beach. Contam ao Observador que voaram para o Texas para ver a seleção portuguesa. Pai e filha chegam com pressa e ansiedade ao estádio de Houston: “Queremos entrar cedo, a logística aqui nunca é fácil”. Sobre a Seleção, António fala num carinho especial: “Vivemos aqui há 36 anos. É muito bom estar aqui. Foi uma prenda da minha filha. Viemos os três ver o jogo.”

México, Estados Unidos da América, Singapura, Paraguai, Venezuela, Colômbia, Inglaterra, Indonésia, China, África do Sul, Nicarágua, El Salvador e Japão. Falámos com adeptos de todos estes países e encontraríamos certamente mais nacionalidade entre os adeptos da seleção portuguesa.

Miguel Diaz, juntamente com a família, apresenta-se na entrada do NRG Stadium com a tradicional máscara mexicana e veste a camisola de Portugal. “Viemos apoiar o Ronaldo. Somos fanáticos por ele. É o melhor jogador da História”. Viajaram desde Guadalajara, no México. “É a primeira vez que o meu filho vai ver o Ronaldo. É incrivel”.

Da Indonésia, Ridick Lager tenta vestir a camisola de Portugal que comprou minutos antes de entrar no estádio. Ainda tem a etiqueta. Não é uma camisola oficial, mas custou 50 dólares. Foi comprada a um jovem mexicano que tinha um saco cheio de camisolas e bandeiras de Portugal. Ridick, que vive na Cidade do México, chama o amigo, Ashley, que também tem uma camisola da seleção portuguesa e que viajou de propósito de Singapura para ver Cristiano Ronaldo ao vivo: “A vida é feita de momentos como este. Ronaldo is the Goat! Tinha de o ver no último Mundial”.

”Portugal é o nosso prato favorito”. A festa do Congo

As cores de Portugal podem ter estado em maioria no jogo de estreia da Seleção Nacional no campeonato do mundo de 2026, mas a festa foi congolesa. O ritmo africano inundou o pré-jogo em todas as entradas do NRG Stadium. Música, dança, cânticos, trajes a rigor. Uma animação convidativa e pronta a receber de braços abertos os adversários. Muitos adeptos da seleção portuguesa aproveitaram para dançar, filmar e tirar fotografias com os congoleses.

https://observador.pt/programas/reportagem-observador/chuva-em-houston-portugal-em-maioria-com-poucos-portugueses/

Este jogo frente a Portugal representou o regresso da República Democrática do Congo ao grande palco do Futebol. A única vez que os “Leopardos” participaram no Mundial foi em 1984, na Alemanha Ocidental, numa altura em que o país se chamava Zaire.

Bleze Maviaki apresentou-se no estádio de Houston com um fato de treino da seleção do Congo. Azul da cabeça aos pés, como um apito ao peito. Vive em Nova Iorque e viajou para o Texas para ver o jogo frente a Portugal. “Viemos para acabar com o Ronaldo”, diz. Bleze mostra entusiamos neste regresso da República Democrática do Congo ao campeonato do mundo: “Estamos felizes. É uma festa. Assim que terminar o jogo vou para a fan zone, vamos todos festejar e a festa vai durar uma semana inteira”

A poucos metros de Bleze, na entrada do NRG Stadium, seis adeptas congoleses cantam e dançam à chuva perante meia dúzia de câmaras. Já o faziam antes de serem rodeadas por jornalistas. “Viemos cá para ganhar”, contam ao Observador, “somos os melhores, Ronaldo está em problemas hoje”. Vivem em Dallas e viajaram para Houston para assistir ao jogo: “Não temos medo do Ronaldo, não queremos saber, viemos para ganhar”.

Jon, também congolês, apresenta-se como “The Professor”: “Todos me chamam assim, sou conhecido em toda a parte. No Congo e aqui nos EUA toda a gente sabe quem eu sou”. Vestido com a camisola da seleção africana, faz questão de apresentar a companhia: “É a minha mulher. Está vestida como a Rainha do Congo”. Vivem há seis anos nos EUA e Jon confessa que nunca viu tantos congoleses em território norte-americano: “É lindo. Está uma festa lindissima. Depois de 52 anos estamos de regresso a um Mundial”. Sobre o desafio com Portugal deixam uma provocação: “No Congo, o nosso prato favorito é Portugal.”

Mas a seleção da República Democrática do Congo também tem apoio estrangeiro. Engel, alemão, viajou de Munique para os EUA com um grupo de quatro amigos para acompanhar os jogos do Mundial. Apresentam-se todos com as cores do Congo: “Somos sempre da Alemanha e das equipas mais pequenas. Para além disso, também estamos contra Portugal”. Estes alemães fanáticos por futebol viajaram para os EUA sem qualquer bilhete para jogos do Mundial. “Tentámos ir ver a Alemanha, mas não conseguimos. Para hoje também não temos bilhete. Vestimos a camisola do Congo e viemos tentar. Podemos dar até 300 dólares por cada bilhete, mas só encontramos a partir dos 700 dólares”.

Um lugar no Mundial desde 200 a 1.500 dólares

O Observador tentou perceber quanto é que os adeptos pagaram por um bilhete para o jogo de Portugal frente à República Democrática do Congo. Não há preços baixos. O valor mais baixo que conseguimos identificar foi 200 dólares. O mais alto foi de 1.500.

Ainda assim, todos os adeptos falam de um preço justificado. “É um Mundial. Todos querem estar aqui. Faz parte”, explica Josh, norte-americano que vive em Austin, no Texas: “Eu paguei 750 dólares e até podia pagar mais. Queria muito ver um jogo da seleção portuguesa”.

Briggite Pinto, portuguesa, confessa que pagou cerca de 300 dólares por cada bilhete. “Gastei 900 dólares nos três bilhetes. Comprei para mim e para os meus pais.”

Juan, diz que gastou 50 mil pesos — cerca de 3 mil dólares — para comprar três bilhetes: “Não é barato, mas é um Mundial. Poupei para estar aqui, agora é aproveitar e espero que ganhe Portugal”