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Guerras online, mistério dos "nove magníficos", comparações com Jesus e projeto político. Uma viagem ao mundo de Gustavo Santos

Gustavo Santos quer Acordar Portugal e fazer uma Revolução — e está pronto a morrer por isso. Ordem dos Médicos pede regulamentação e Ordem dos Enfermeiros abre processo a um dos seus braços-direitos.

Mariana Marques Tiago
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João Porfírio
photography

Estamos no início de junho e à hora marcada, no ponto de encontro previamente definido, Gustavo Santos surge no seu Porsche Carrera preto. Da janela, faz-nos sinal para o seguirmos até à sua casa, cuja localização pede que não seja revelada. O influencer — que ganhou protagonismo pelas posições antivacinas durante a pandemia e que antes foi apresentador de televisão — criou este ano a Associação Movimento Acorda (A.M.A) e prepara-se agora para receber o Observador no seu quintal para uma longa conversa apenas com a natureza como cenário.

Gustavo Santos está tranquilo, surge de sorriso no rosto. Poucas semanas antes desta entrevista, a postura era bastante diferente. Na página de Instagram que gere, o influencer tinha publicado um vídeo onde se dirigia diretamente ao Observador e expunha a reportagem que, nesse momento, ainda começava a ser preparada (e que mais tarde nos levaria a sua casa). Dizia que a A.M.A estava “sob investigação”, algo que via como “enorme honra” porque isso significava que o movimento que criara estava “a tocar nas hemorróidas do sistema”. A motivação para esse vídeo era só uma: no dia anterior, o Observador tinha enviado um email para vários locais que acolheram eventos da A.M.A. (e nunca ao próprio Gustavo Santos). O objetivo desses emails era perceber se a associação tinha pago pelo espaço, qual o valor daquele aluguer específico e de que forma esse preço cobrado ao influencer contrastava (ou não) com os valores habitualmente praticados pelas instituições gestoras desses espaços.

Os emails foram enviados a 20 de maio para 12 dos locais que até esse momento tinham acolhido sessões promovidas por Gustavo Santos. Ainda assim, e apesar de as perguntas não terem sido enviadas para o fundador da A.M.A., o influencer teve acesso a esses pedidos de esclarecimento e, no vídeo que divulgaria um dia mais tarde nas redes sociais — que reuniu mais de 5.800 likes e mais de 640 comentários —, decidiu não só ler o email na íntegra, como também comentar o “trabalho, de facto, de verdadeira investigação” que estava em curso. “Aguardamos pela matéria”, desafiava, em jeito de conclusão. Esse seria, na verdade, apenas o primeiro vídeo em que o influencer se dirigia diretamente ao Observador.

Esta forma de reagir não é novidade. Gustavo Santos adota sempre o mesmo modus operandi quando é visado por alguma figura ou entidade com projeção pública. É o que acontece, por exemplo, com Joana Marques: se a humorista lança um episódio da rubrica da Rádio Renascença “Extremamente Desagradável” e o influencer é o visado, é expectável que a seguir surja uma reação em vídeo. Outro exemplo (mais recente) é a espécie de batalha digital em que se envolveu com Guilherme Duarte. Também num vídeo, o humorista disse que, “se não fossem as redes sociais, [Gustavo] era o chalupa da aldeia”. A resposta não tardou e Gustavo Santos devolveu o comentário com uma caracterização: Guilherme Duarte era caracterizado como um “soldadinho de chumbo da cidade”, alguém incapaz de descobrir a verdade “por medo” — um epíteto recorrente lançado contra quem discorda das posições do influencer ou tece algum tipo de crítica às suas posições públicas.

https://observador.pt/2025/11/23/gustavo-santos-faz-video-sobre-palido-e-pre-obeso-nuno-markl-humorista-zen-responde-e-apaga-comentario/

Agora, em sua casa, Gustavo não perde o sorriso e pergunta se queremos beber ou comer algo. Na mão segura a primeira refeição do dia: um copo de água com limão, sal integral, curcuma, pimenta caiena e pimenta preta. Este é, já não sabe “há quanto tempo”, o ritual de todas as manhãs. E, garante, tem-no ajudado a que não adoeça.

Está vestido com uma camisola branca da A.M.A (porque diz que a cor o “protege das energias”) e usa no pulso direito uma pulseira de cobre (que diz ser “energeticamente poderosíssima”). Apressa-se a ficar sem chinelos e põe os pés diretamente na relva. A produtora de conteúdos da associação, Xénia Pereira, liga a câmara e o microfone — exigência inegociável para que pudéssemos realizar esta entrevista — e, logo depois, Gustavo Santos senta-se numa das duas cadeiras de baloiço estrategicamente posicionadas. Está pronto para falar.

A conversa vai tocar vários temas: a associação que constituiu em abril deste ano, o que Gustavo Santos tem feito nos últimos anos no campo profissional e onde quer chegar com este movimento que acaba de criar. Como pano de fundo, a conversa também vai abordar as sessões em que centenas de pessoas têm participado um pouco por todo o país e onde se desaconselham pais a vacinar os filhos, onde os tratamentos oncológicos são altamente demonizados e onde o influencer vai deixando sinais de que a A.M.A pode, afinal, ser apenas uma etapa para outro tipo de objetivos. No horizonte pode estar a ideia de avançar para a construção de um projeto político.

Gustavo Santos promete “transparência” — essa ideia estará, de resto, no segundo vídeo que publicará e em que se dirige ao Observador, sugerindo que o trabalho sobre a A.M.A., por alguma razão, teria ficado pelo caminho. Apesar da garantia de que aceita responder a todas as dúvidas, há perguntas que vão ficar sem resposta. Sobretudo, aquelas que permitiram perceber quem são os fiéis que Gustavo Santos levou consigo para a associação. O influencer recusa-se a revelar os nomes dos seus “nove magníficos”.

“Jesus foi bom naquilo que fez e eu sou bom naquilo que faço”

Cerca de quatro semanas antes desta entrevista, Gustavo Santos estava de pé, num palco, em frente a um grupo de cerca de 70 pessoas. É dia 10 de maio de 2026 e estamos em Óbidos — “à paisana”, como dirá Gustavo mais tarde, apesar de frisar várias vezes que nestes encontros todos são bem vindos.

No Parque Tecnológico da cidade começa, por volta das 10h, mais uma palestra da Associação Movimento Acorda. Desde 2025 que Gustavo organiza estes eventos com o objetivo de divulgar a sua mensagem. O primeiro foi em Sintra, a 15 de março, e logo depois seguiram-se encontros em cidades como Penafiel, Faro, Guimarães, Aveiro, Santarém e Coimbra.

O evento em Óbidos é o 27.º da lista e depois desse já houve mais cerca de uma dezena. À medida que a sala vai enchendo — o que acontece com alguma rapidez —, ao fundo ouve-se uma música que ganha um ritmo cada vez intenso, enquanto uma voz de mulher canta em inglês algumas palavras sobre “perdão”. Gustavo encaminha as pessoas para as cadeiras e todas têm de se sentar no lugar que lhes é indicado. O keynote speaker do encontro assegura-se de que não ficam lugares por ocupar. Está uma vez mais vestido de branco, com uma camisa de manga curta rendilhada aberta até ao peito, e calças de ganga. Também nestes eventos costuma descalçar-se. Nesta manhã de maio, talvez pelo frio que se faz sentir na sala, optou por não tirar as botas.

Está sozinho no palco com um microfone de lapela. Ao seu lado está um quadro branco, que nas próximas três horas há de ser preenchido por várias frases em que condensa os seus princípios orientadores. A primeira vez que Gustavo dá uso ao marcador que tem na mão é para escrever: “Amar-te-ás sobre tudo e todas as coisas.” Não é uma nova versão dos mandamentos da Igreja Católica, há de garantir em entrevista ao Observador. Mas admite que, “se escrevesse um livro sobre os dez novos Mandamentos”, este estaria lá. Logo atrás viria outro: “Não julgarás.” E ainda mais um: “Não te vacinarás”, tal como escreveu no quadro branco de Óbidos.

Na sala, a ouvir Gustavo Santos, estão maioritariamente mulheres de meia-idade. Algumas chegaram ali sozinhas e outras organizaram-se em grupo. Também há casais novos com crianças pequenas. E alguns homens (em menor número), que em cada pequena pausa aproveitam para sair da sala numa tentativa de apanhar ar, fumar (em confronto direto com as orientações de saúde que Gustavo apregoa) e tentando fugir de possíveis interações sociais.

As cadeiras estão colocadas à direita e à esquerda e no meio fica obrigatoriamente um corredor, que Gustavo usará para se deslocar entre as pessoas. Atrás da zona das cadeiras, ao fundo da sala, há mesas com alguns dos livros publicados por Gustavo e camisolas da A.M.A para venda e é para lá que a maioria das pessoas se dirige no final do evento, sem ser necessária publicidade.

O influencer começa por destacar algumas “caras conhecidas” que ali estão, como um casal que se fez acompanhar do filho adolescente e que tinha estado no primeiro destes eventos. Olha para cada um dos participantes com uma atenção demorada, na tentativa de perceber quem são os novatos em cada encontro — e, possivelmente, se há jornalistas “infiltrados”. Gustavo não detetou o Observador neste evento e quando soube que marcámos presença mostrou-se surpreendido por o seu radar ter falhado.

Logo nos instantes iniciais, o influencer deixa um aviso à plateia: “Não quero que vocês me sigam. Não presido a um partido político. Não lidero uma igreja. Não quero os vossos améns.” Quem o ouve, em Óbidos, deve fazer apenas isso: ouvir. E depois pensar por si próprio, “viver a sua verdade”.

Diz que recebeu uma missão de Deus e que nada — nem mesmo os seus cinco filhos — estão à frente disso. “Ninguém nesta vida é mais importante que vocês, nem os vossos filhos. Eles [os filhos] sabem que, se há uma coisa que é mais importante na vida do pai, é a sua missão.” A frase é dita de forma intensa, no mesmo tom que usa em muitos dos vídeos que publica nas redes sociais. A sala permanece em silêncio.

Diz também acreditar em Deus e em Jesus. O primeiro “como frequência” e o segundo “como homem”, há de explicar mais tarde em entrevista ao Observador: “Deus é uma frequência. E a essa frequência chamo amor incondicional. Jesus encarnou essa frequência e foi julgado e perseguido, injustiçado e morto.”

Para uma pessoa que diz não querer criar nem liderar uma Igreja — mesmo depois de em criança ter pensado em ser padre —, Gustavo compara-se frequentemente a Jesus. E dramatiza o discurso. “Não tenho medo [de dizer a verdade]. Podem até, no limite, tirar-me a vida. Matam o homem, mas não matam a alma. Estarei lá em cima a guiar e reencarnarei com mais força”, diz em Óbidos.

No jardim de sua casa, confrontado com a comparação que ressoava do discurso em Óbidos, o influencer rejeita paralelismos e atira: “Jesus foi bom naquilo que fez e eu sou bom naquilo que faço. Não há comparações.” Depois, acontece um daqueles momentos que o influencer gosta de destacar para lhes atribuir algum tipo de significado superior. Enquanto fala sobre a mensagem de “amor incondicional” que Jesus trouxe ao mundo, Gustavo é interrompido por uma borboleta que passa à sua frente — e que ele interpreta como um sinal. “São daquelas coisas… É a primeira vez que estamos a falar sobre Jesus e passa aqui uma borboleta.” Depois interrompe o discurso, aparentemente comovido com o momento. Fica com os olhos marejados. E aponta para o rosto, como se indicasse a emoção óbvia que sente por ter vivido aquele instante.

É habitual Gustavo emocionar-se. Isso acontece pelo menos uma a duas vezes em cada sessão em que se junta com os seus seguidores. Em Óbidos, o influencer orientou uma dinâmica com foco no perdão. Pedia aos partipantes para se colocarem frente a frente, fecharem os olhos e imaginarem estar a perdoar alguém com quem tinham assuntos pendentes. A imagem da plateia fê-lo emocionar-se. Algo semelhante aconteceu também em outros eventos, como em Braga. E também em Coimbra, quando foi abordado por pessoas. São momentos cujos registos acabam, muitas vezes, por ser divulgados e amplificados nas redes sociais.

Gustavo parece gostar de transmitir uma imagem de homem vulnerável, que está em sintonia com as suas emoções, alguém que é assertivo e ao mesmo tempo está totalmente focado no seu objetivo. Mas negar qualquer comparação com Jesus é, na verdade, pura retórica. Porque sempre que se refere a essa figura também vinca, várias vezes, que enfrentará o que for preciso — e quem for preciso — para levar a sua “verdade” avante. Tal como fez o filho de Deus.

Jesus, elabora o influencer, “não era um fofinho”. “A ideia que tenho de Jesus é de um homem que dava murros na mesa e dizia: ‘Esta é a minha verdade’. É exatamente isso que eu faço”, explica. E, numa nova comparação, acrescenta: Jesus, “como todos aqueles que trouxeram a verdade, foi morto e isso não está fora das minhas cogitações.”

“Em casa, todos sabem” que pode estar a correr risco de vida ao falar abertamente sobre aquilo que diz ser “a verdade”, principalmente porque toda a sua agenda é divulgada publicamente, diz Gustavo. “Estou muito consciente [disso]. A minha conversa aqui em casa é: ‘Eu estarei cá o tempo que estiver, até Deus querer. E enquanto aqui estiver vou cumprir o meu papel’.” Gustavo acredita que pode vir a ser atacado, porque “todos aqueles que trazem a verdade são alvos”. “Quero entregar alternativas ao sistema, mas o sistema não gosta disso.”

Neste momento da conversa, a pergunta impõe-se: com as recorrentes referências à morte, aos riscos que corre, a essa ameaça que parece pairar permanentemente sobre a sua cabeça, Gustavo já enfrentou o perigo? Já esteve minimamente próximo de uma situação limite? O influencer ouve as questões, adota uma cara séria e responde afirmativamente. Fica a sensação de que vai partilhar uma história traumática, um evento que o tenha marcado para sempre. Depois, conta: “Já me pediram: ‘Vem ter comigo a esta rua, mas vem sozinho’. Nunca fui.”

"Todos aqueles que trazem a verdade são alvos... A minha conversa aqui em casa é: estarei cá o tempo que estiver, até Deus querer"
Gustavo Santos em entrevista ao Observador

Mas Gustavo também fala sobre as “ameaças espirituais” de que diz ter sido alvo ao longo dos últimos anos. “Há muitas ameaças que vão para lá daquilo que se vê, daquilo que se ouve e daquilo que se escreve. Há muita ameaça espiritual. Há pessoas que querem tanto mal que há trabalhos que são feitos para mandar abaixo”, diz, explicando, finalmente, que é por isso que usa roupa branca, uma pulseira de cobre e um colar. São, diz, a sua proteção contra esse outro tipo de ataques. “Sei onde eu estou espiritualmente e fisicamente. Sei onde me estou a meter. Então o trabalho mínimo que tenho que fazer é ir o mais claro possível, levar alguns artefactos que me possam proteger.”

A sua ideia de perseguição não fica por aqui. Além de dizer que corre risco de vida e que sofre ameaças espirituais, acusa também a comunicação social de o perseguir e tentar silenciar — porque toda a comunicação social “é controlada” pelo sistema, repete várias vezes. Num dos mais recentes vídeos partilhados no Instagram — e que lhe garantiu muitos likes e comentários —, Gustavo voltou a criticar o Observador por ter feito uma entrevista em sua casa e, até então, ainda não ter sido publicado o resultado desse trabalho. Seria, admite, por um eventual medo em expôr a verdade. “Semanas passaram (…) e nunca mais saiu nada e da matéria nunca mais nada se soube. E é por isso que estou a fazer este vídeo, para vos dizer/lembrar que a conversa foi toda filmada e que pedaços vão ser aproveitados e partilhados neste perfil. Onde não há medo, prospera a verdade e a verdade é ameaçadora, sobretudo quando não pode ser condicionada, adulterada nem desvirtuada”, ouve-se no vídeo.

Essa é uma linha definidora das intervenções públicas de Gustavo Santos: ele é o defensor da “verdade”. Mas da “sua” verdade. Uma “missão” que o coloca de um lado e contra os outros, o tal “sistema”. Uma missão que, recorrentemente, também o leva a rejeitar procedimentos e intervenções médicas porque, garante, elas são mais mortais que a própria doença. Uma missão que já o levou a defender inúmeras vezes nas suas palestras, nos seus vídeos e em entrevistas que deu a outros influencers a ideia de que um problema de saúde — seja ele qual for: de uma simples inflamação na pele a um cancro agressivo — só tem uma explicação: a “falta de amor próprio” da pessoa que adoeceu. “A única forma de tu te curares é amando-te. A maior causa de morte do mundo é o desamor próprio. Uma pessoa que se ame não fica doente”, voltou a dizer muito recentemente.

“Caiu uma informação do céu”: o dia em que Deus “chamou” Gustavo para criar um partido

Gustavo Santos já contou inúmeras vezes, nos últimos dois anos, a história de como recebeu um “chamamento” para a missão que lhe estava destinada. Mas agora, em entrevista ao Observador, vai mais longe no tom profético. E é mais claro nos detalhes, no que pensou, naquele momento, que seria essa missão — e que passos deu para pôr em marcha a construção, de raíz, de um novo partido político em Portugal.

Foi em 2024 que Gustavo percebeu que tinha como missão mudar “o sistema”, essa expressão que remete para algo abstrato e que o influencer diz ser liderado “por entidades supranacionais e entidades a quem nunca ninguém viu os rostos”. Entidades que, repete a cada novo encontro com os seus seguidores, estarão a controlar a população através da doença e do medo.

Nesse ano, o influencer estava a sair de casa com um dos filhos para ir buscar comida — e foi aí que tudo mudou. “Fomos os dois de carro. Íamos a dançar e a brincar e a fazer cócegas. E, de repente, foi literalmente isto: caiu-me uma informação do céu (ou o que tu quiseres chamar). A informação era: ‘Vais fazer isto; chama-se isto e estes são os pilares’.” Gustavo relata que naquele momento, enquanto conduzia, “não estava a pensar em nada”, mas de repente tudo lhe foi mostrado. “Foi algo que me foi revelado. Sou um homem que acredita em Deus e acredito que isto foi uma revelação.”

Antes de chegar a este momento que apelida de “chamamento” — e mesmo sem qualquer formação na área da saúde —, o antigo apresentador já tinha despertado para certos temas por culpa da pandemia (à qual se refere com aspas). Esse “foi um grande despertar para fora”, diz. “Há estes dois grandes despertares: um para dentro e um para fora. Para dentro é perceber qual é a minha verdade. E para fora é perceber a verdade que nos rodeia (ou a mentira).”

Inicialmente, revela, estava convencido de que Deus lhe teria dado um sinal para entrar na política. Foi assim que começou por interpretar o sentido da sua missão. “A minha primeira ideia, quando isto me surge, é um partido político. E, por isso, comecei a reunir pessoas para formar um partido. No carro, tive a certeza! Cheguei aqui a casa, à Mafalda [Rodiles], e disse-lhe: ‘Vou pôr-me na política’.”

Gustavo partilha a vida com a apresentadora e ex-atriz Mafalda Rodiles desde 2022 e foi ela “a primeira pessoa a saber” da missão que o influencer teria ‘recebido’. Gustavo conta que a sua companheira “não aprecia” política, por isso, foi necessário ter uma conversa sobre o assunto: “Disse-lhe: ‘Se isto não fizer sentido para ti, temos que falar’. Porque quando eu recebo este tipo de informações, isto coloca-se à frente de tudo. Porque eu sei de onde vem (ou sinto de onde vem) e é para ser feito.”

Depois de receber a missão de Deus, Gustavo pôs mãos à obra. Começou a reunir-se semanalmente “com malta que ia escolhendo para formar esse partido”. Mas, em “dois ou três meses”, percebeu que na política “há traições, há interesses secretos”. Na verdade, o projeto que estava a construir ruiu porque os envolvidos não se entenderam — ou Gustavo não se entendeu com essas pessoas. “Escolhi-as [às pessoas] uma a uma. Dessas pessoas que escolhi — na altura eram umas 10 —, hoje só falo com três. E aí percebi: caraças, isto é a política. Isto não pode ser um partido político. É impossível ser um partido político, porque já percebi como é que isto funciona. Se for para a política, não posso continuar a ser o homem livre que sou, porque tenho de obedecer a um sistema.”

A “política” com que contactou nesses meses revelou-se “incompatível” com os seus valores e, conta, levou “muito tempo a perceber”, afinal, qual era a tarefa que tinha em mãos — e qual a via para a executar. “Eu digo assim a Deus: ‘Isto que me mostraste é o quê, então? Não é um partido, não é uma fundação… É o quê?’.”

Diz que teve de esperar “bastante tempo” e ter “muita humildade na espera” para perceber qual era a verdadeira missão que tinha recebido. “É um movimento! É tudo o que és. Não é uma coisa de direita, nem uma coisa de esquerda. É uma coisa para a frente e para cima. Foi daí que nasceu o movimento Acorda”, conta.

Atirou-se “completamente sozinho” para a criação da A.M.A., enquanto associação sem fins lucrativos. “Os pilares do movimento Acorda são: Dar, Evoluir, Unir, Ser. D.E.U.S.! Porque eu acredito que foi daí que veio esta revelação.”

A 10 de abril de 2026, no Cartório Notarial de Santarém, a associação de Gustavo Santos foi oficialmente registada como um movimento humanitário, apartidário e não religioso, que visa criar uma comunidade de pessoas “livres, soberanas e saudáveis”. Neste dia, Gustavo apareceu no cartório notarial vestido de branco e a seu lado estavam Xénia Pereira e Ana Brandão, produtora de conteúdos da associação e enfermeira, respetivamente. Os três assinaram o documento como outorgantes, na “qualidade de membros da comissão organizadora ou instaladora” da A.M.A.

Xénia Pereira e Ana Brandão são os braços-direitos de Gustavo. Tal como o influencer, nesse dia apareceram também vestidas de branco da cabeça aos pés. No vídeo publicado no Instagram que oficializa o momento, surgem os três abraçados a sorrir e a unir mãos no momento da escritura. Vê-se o momento em que os papéis são carimbados e o papel onde surge, pela primeira vez, a A.M.A. como associação. Gustavo surge, no final, a sair do cartório confiante. Garante que “o mundo saberá” o que é a A.M.A. “As sementes que deixamos no coração da terra continuarão a germinar e a florir. Temos muitos anos pela frente… Que nos lembremos sempre de que estamos ligados e que somos guiados por Deus; nada a temer, só confiar”, diz.

"Quando chegar o governo certo, ele pedirá para nós [A.M.A] colaborarmos com ele. E eu posso garantir que isso vai acontecer"
Gustavo Santos em entrevista ao Observador

Futuro na política? Gustavo não diz que não

Há grandes coisas planeadas para o futuro da A.M.A., garante Gustavo. E um regresso a esse universo da política — desta vez, a sério — não fica fora desses planos. Mas antes disso, é preciso dar outros passos para aumentar a sua visibilidade e atrair seguidores. Para isso, nada melhor do que recorrer a um dos temas que mais assegura likes, comentários e partilhas nas redes sociais de Gustavo Santos: o cancro.

A 16 de junho, o influencer anunciou que a A.M.A. tinha disponibilizado o seu primeiro ebook com o título “O cancro: causas, clímax e cura”.  Este livro em formato digital apresenta a “verdadeira cura”, diz Gustavo. “Não pretende substituir nem reduzir outras visões, apenas acrescentar consciência e conhecimento deliberadamente oculto”, explicou. Admite ainda que podem vir a ser realizados retiros e garante que “nunca” venderá cursos online, desvendou à revista Sábado, que também esteve presente num dos eventos organizados pelo influencer.

Nem um mês depois, o influencer lançou um segundo livro, desta vez sobre o sol (talvez o segundo tema que mais visualizações lhe traz), com o título “O Sol: propagandas, perigos e poderes”. Mas tudo isto é apenas “uma brincadeira comparado com o que a A.M.A. vai fazer” no futuro, antecipava então.

Quando, durante a entrevista, as questões incidem sobre o futuro da associação, o tom muda e Gustavo Santos torna-se mais sério, quase institucional. “As pessoas que trabalham comigo não sabem onde é que isto [a A.M.A.] vai dar ainda. Só eu sei, já vi”, garante. É como se ele fosse o início e o fim de tudo. Foi ele quem teve a “visão”, quem recebeu o “chamamento” e é só com ele que a “missão” pode ser cumprida. A partir daqui, o próprio discurso volta a aproximar-se do exotérico, do religioso, com Gustavo Santos a partilhar que todas as noites, antes de dormir, comunica “com uma frequência”. “É como se estivesse a falar com o meu Eu superior, uma parte minha sagrada.”

Gustavo só deixa cair o secretismo para partilhar algo que já afirmou publicamente noutras ocasiões: “Vamos ter influência na política, na saúde e nas escolas”. No plano da saúde — uma área em que o influencer se destacou pelas posições críticas que foi assumindo em relação às vacinas contra a Covid-19, num primeiro momento, e contra o sistema de saúde como um todo, mais tarde —, o objetivo é que a A.M.A. se torne uma entidade incontornável na definição de políticas de saúde. Tão relevante, concretiza, como a Direção-Geral de Saúde. “Temos a DGS e teremos a A.M.A. também. Não para ir contra a DGS, mas para colaborar com a DGS, se esta assim entender.”

E quanto ao resto? “Quando chegar o governo certo, ele pedirá para colaborarmos com ele. E posso garantir que isso vai acontecer.” O objetivo é que a A.M.A. “seja uma espécie de aragem” — e não um polvo, porque essa imagem está “muito associada ao sistema” — uma entidade “leve, que traga o lado bom”.

Questionado sobre se pondera entrar a sério na política (e se imagina, por exemplo, que o tal governo “certo” possa até vir a ser encabeçado por si), Gustavo começa por responder que, no futuro, não se vê “a fazer isso”. Mas rapidamente se percebe que a ideia não está completamente fora dos planos: “Talvez, se calhar daqui a muitos anos… Agora não. A política vibra numa frequência muito baixa e eu vivo numa frequência muito alta.”

O plano nunca é assumido na totalidade — até porque só Gustavo Santos sabe para onde vai e como lá vai chegar. Mas a ideia será esta: a política, como é feita atualmente, está carregada de “frequências muito baixas”; e, para sequer imaginar que possa vir a intervir nesse plano, é preciso subir o “nível da frequência”. Como? Talvez com uma intervenção permanente no espaço público, seja com vídeos publicados diretamente nas suas redes sociais, seja com vídeos em que conversa com pessoas que pensam como ele, seja ainda com os encontros regulares para os quais convida quem quiser a participar e a “ouvir”. Tudo isso, pode-se concluir, ajudaria a ‘elevar a frequência’. E a construir uma base de apoio que se pretende que seja cada vez maior.

Ao mesmo tempo que Gustavo recusa deixar claras as suas pretensões em relação à política, recusa também adiantar a cor ou o nome do partido que poderá liderar o país, caso não venha a ser ele a executar essa missão. O antigo apresentador já disse várias vezes, e em diversas ocasiões, que não vota e procura usar isso a seu favor, como se dissesse que não tem amarras políticas.

Mas ao mesmo tempo que se esforça por provar a sua liberdade, mostra também que a política faz parte do seu mundo, ainda que de forma muito pontual. Desde que estreou o seu podcast “Acorda”, em outubro de 2025, a única pessoa a ser convidada para falar sobre política foi Alexandre Sousa. Apresenta-se como nacionalista e tem ligações ao partido Chega, tendo sido candidato à Assembleia Municipal de Sintra nas eleições autárquicas de 2025.

O episódio soma mais de 4,1 mil visualizações no Youtube e foca-se em temas como a necessidade de regular a imigração, de investir na energia nuclear, de privatizar toda a comunicação social e de sair da União Europeia — temas que não costumam fazer parte dos vídeos e da mensagem que o influencer difunde. Antes disto, em janeiro de 2025, Gustavo era convidado para conduzir um debate sobre “Verdade e Liberdade”, dinamizado pela comissão política da concelhia do partido Chega de Famalicão.

Ao Observador, garante, no entanto, que há “zero” ligações entre o partido Chega e a A.M.A. Depois de relativizar o convite para a palestra de janeiro, explica que Alexandre Sousa foi ao seu podcast porque a ideia era ter “alguém da política”. “Não era para ser, sequer, o Alexandre. A pessoa que era para ir marcou férias e não conseguiu. Mas o Alexandre percebe de política, percebe de imigração, percebe o sistema, é um estudioso. Não é porque tem uma conotação ligada ao Chega.”

Gustavo acrescenta também que gosta “imenso da Rita Matias” e garante que “nunca” falou com André Ventura. “Nunca. Há coisas no André que admiro. Há coisas com as quais não me identifico”, afirma, numa tentativa de mostrar que há uma separação entre si e o partido de Ventura. O influencer quer mostrar que não se envolve em política, mas que está informado (e pode comentá-la precisamente por considerar-se uma figura imparcial). É a mesma lógica que usa para justificar os conselhos de saúde que promove: não é médico, e afirma-o várias vezes, mas mesmo assim decidiu criar uma associação que se baseia em informações de saúde e pretende ser uma espécie de oposição à DGS.

O dançarino que virou apresentador e acabou influencer anti-vacinas

Na verdade, o influencer não só não é formado em saúde, como também não tem licenciatura ou formação superior em qualquer outra área. Ainda estudou Educação Física e Desporto numa universidade da capital, mas desistiu a seis meses do fim porque queria seguir o seu sonho: dançar.

Estávamos nos anos 2000 quando iniciou a sua carreira de bailarino profissional. Juntamente com o cantor João Portugal, o grupo apresentava-se na televisão sob o nome Hexa Plus. O grupo de Gustavo Santos marcou presença em atuações em programas como o Domingo Fantástico e o Big Show SIC. Em 2001, em Los Angeles, sagrou-se campeão do mundo.

Mas foi uma questão de tempo até o corpo ceder e Gustavo ser forçado a desistir do sonho. Conta com frequência que esse foi um dos momentos da sua vida em que foi “ao fundo do poço”. Mas rentabilizou a fama que tinha adquirido e participou no Big Brother Famosos 2, tendo terminado em 9.º lugar. Daí foi um passo até chegar a apresentador do programa “Querido, Mudei a Casa”. Mas, uma década depois — sem um “obrigado” ou “um telefonema”, disse na altura em entrevista à revista Flash —, era dispensado pela TVI. Foi graças à televisão que a imagem de Gustavo Santos se criou e ganhou destaque, mas agora critica todos os que ainda trabalham nessa área.

A televisão é para os “yes man”, para aqueles que dizem “sim” a tudo, afirma. Gustavo, por outro lado, garante que mesmo enquanto esteve na televisão se diferenciou e nunca pertenceu ao rebanho. Aliás, destaca que por essa altura o amor-próprio já era um tema central na sua vida, daí ter publicado aquele que diz ser “o livro mais vendido de sempre em Portugal” nesta área: “Ama-te”.

A mãe de Gustavo desejava que o filho fosse médico, mas não foi bem isso que aconteceu. Tendo o amor-próprio como ponto de partida, Gustavo chegou, inevitavelmente, àquilo que apelida de saúde e estilo de vida saudável, ao mesmo tempo que começou a apresentar-se como o “amplificador da voz de Deus”. Mas pelo caminho tem sido desmentido pela comunidade médica nas redes sociais. Afinal, onde é que Gustavo vai buscar as informações que partilha?

Apesar de não ser formado em Medicina, afirma com confiança que os médicos “não foram ensinados a curar; não sabem mais.” O influencer garante que não tem “nada contra” esses profissionais, até porque “se tivesse não trabalhava com dez”, aponta. A diferença é que os “seus” são médicos que dizem a verdade, “sem medos”.

Esta dezena de especialistas com quem trabalha são os que têm marcado presença em alguns dos eventos organizados pela A.M.A. e “todos” eles, afirma, são constantemente “perseguidos” pelo que dizem. A mensagem que propagam levou a que alguns nem possam “estar a exercer na própria terra; no próprio país”. “Esse é o preço a pagar. Estamos apenas a começar e vamos ver a altura do preço.”

Nesta lista de médicos incluem-se, por exemplo, Maria Emília Gadelha. Exerce no Brasil e em Portugal (com a cédula 78.039). E nas eleições legislativas de 2025 chegou a ser candidata ao círculo Fora da Europa pelo ADN. À semelhança de Gustavo Santos, apresenta-se como antivacinas, tendo sido desmentida pelo jornal brasileiro Estadão em 2022. Em causa estavam informações erradas sobre a vacina da Covid-19: a médica alegava que esta injeção levava o corpo a produzir uma proteína que provocava lesões nas paredes dos músculos, desencadeava processos inflamatórios e podia até levar à morte.

Rachel Furtado também faz parte desta lista. É médica no Brasil e em Portugal (com a cédula 69.365) e fez o mestrado na Universidade de Lisboa. Esta médica com pós-graduação em Nutrologia é frequentemente convidada por Gustavo para falar sobre como conseguiu curar um cancro com diagnóstico terminal através do jejum e alterando os hábitos de vida.

Na lista de médicos de Gustavo constam mais profissionais de saúde formados no Brasil, país que tem cerca de 500 faculdades de Medicina (o que facilita a entrada neste curso), segundo o bastonário da Ordem dos Médicos. Carlos Cortes realça que o CFM (Conselho Federal de Médicos) — organismo homólogo da Ordem dos Médicos — adotou “um exame de entrada” para garantir que os profissionais que se juntam têm preparação adequada.

Mas as fontes de Gustavo não ficam por aqui: “Sigo [na internet] vários médicos espalhados pelo mundo a falar precisamente sobre estes temas. Vou ao meu Instagram e só me aparecem coisas sobre saúde; a verdadeira saúde.”

Além de ser guiado pelo algoritmo, Gustavo explica que por vezes os médicos que ouve dão apenas “referências” sobre certos temas. Por isso, e porque “há coisas” que admite não entender, vai “pesquisar a fundo”. É o que acontece cada vez que lê “a ficha técnica de uma vacina”. “A única fonte é irmos a uma ficha técnica de uma vacina, que está disponível no Google, e perceber” o que fazem as diferentes componentes das mesmas, explica ao Observador. Gustavo diz que lê as bulas com frequência e garante até saber mais sobre este tema do que qualquer outro profissional.

Doentes que optam por seguir exclusivamente a medicina alternativa têm um risco de morte 2,5 vezes superior
Dados de 2018 do Jornal do Instituto Nacional do Cancro, publicado pela Universidade de Oxford e citado pela Sociedade de Literacia em Saúde

Fazer a revolução. E “Portugal é apenas o início”

Segundo Gustavo Santos, cada evento ou palestra é diferente, por isso os temas que aborda vão “depender muito daquilo que sente no momento”. Mas há um assunto absolutamente incontornável: a falta de amor-próprio — que “é o primeiro sinal em como temos de acordar”. “Pessoas que não se amam, pessoas que não se respeitam e que não se colocam em primeiro lugar estão mais propensas a ficar doentes”, garante.

E daí, é apenas um passo até entrar no círculo vicioso do sistema Hospital — Médico — Farmácia. Diz que é para ajudar as pessoas a sair deste sistema (ou a nem entrar) que fala perante plateias como a de Óbidos, que em silêncio escutou o antigo apresentador de televisão dizer que “Portugal é apenas o princípio” para este movimento.

“Daqui a uma mão cheia de anos, todos os que aqui estão podem ter a certeza — e isto emociona-me muito — que serão muitos mais os que estarão connosco do que aqueles que estarão contra nós”. Uma vez mais, promete um futuro, mas não o desvenda, deixando as palavras no ar. Sabemos apenas que Gustavo quer fazer uma revolução. E só o sabemos porque recorreu à plataforma habitual, o Instagram, para o comunicar: a 10 de outubro, em Santarém, terá lugar o mega-evento “ACORDA PORTUGAL – CNEMA 10|10”.

A ideia, lê-se no site, é juntar uma dezena de médicos, mais de mil pessoas e “aliar o poder do portal 10|10 ao amor que corre nos nossos corações e enraizar o grande despertar”.

No anúncio do evento, Gustavo recorre, pela primeira vez, ao uso explícito da inteligência artificial para se apresentar como o líder de um batalhão. É ele quem guia as várias mulheres e homens que o seguem, em linha, preparados para conquistar Santarém. “Nós somos a verdade. Nós somos a revolução”, lê-se na publicação.

O criador da A.M.A. surge a sair de um tanque com as bandeiras de Portugal e da Associação Movimento Acorda e, rodeado de seguidores (apesar de dizer que não quer que ninguém o siga), levanta uma pinha. Há quem chore a olhar para este momento, tal como acontece com o próprio Gustavo em muitas das dinâmicas que faz nos seus eventos. A pinha é o símbolo do movimento e está “muito associada à glândula pineal, que é onde sentimos o contacto com a nossa própria essência e com a divindade”, explicou em entrevista num talk show.

Na imagem de abertura do vídeo e também no final surge a capa da revista The Economist, lançada em novembro de 2025, sobre as previsões para este ano de 2026. Na caricatura surgem Donald Trump e Benjamin Netanyahu, tanques de guerra, robôs, foguetões, vacinas e até submarinos. E Gustavo, com uma pinha na mão, parece querer acabar com tudo isto.

A desinformação divulgada por Gustavo Santos explora "necessidades humanas, como a procura de segurança, esperança e controlo perante situações de incerteza"
Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde

“Factos descontextualizados com falsidades” geram “alarme injustificado”

Gustavo Santos diz que gosta de receber as pessoas “de braços abertos”, tratando-as como também ele gosta de ser tratado. O influencer adapta o seu comportamento e modo de agir ao contexto em que se insere. Se no vídeo em que menciona o Observador diz que os jornalistas chegaram a sua casa com “rostos frios” que ele “aqueceu” com as suas “boas-vindas”, no vídeo da conquista de Santarém surge com um rosto duro de quem está focado no futuro.

Em Óbidos, voltou a adotar uma postura calorosa, recebendo as pessoas “de braços abertos”. Numa primeira fase, Gustavo Santos tentou relacionar-se com cada uma das 70 pessoas que ali estava, elogiando-as e fazendo-as sentir-se especiais. “Não é fácil estar aqui. Não é fácil, hoje em dia, sermos pessoas acordadas ou que queremos acordar”, disse, mostrando-se orgulhoso pelo passo que cada um deu.

Focou-se depois num dos grupos que compunha a plateia (e que tinha maior representatividade): mulheres de meia idade. Aproveitou para explorar o facto de muitas vezes sentirem necessidade de se colocarem em segundo plano em detrimento de outras pessoas. Quantas vezes “coloco o outro à minha frente; acima de mim, ou cuido dele, mesmo que seja um descuido para mim?”, perguntou.

E depois passou à fase da doutrinação. Disse que se alguém tiver de decidir “entre o que me apetece ou o que tem que ser”, deve fazer apenas o que lhe apetece. Confrontado com as suas próprias palavras, em entrevista ao Observador, diz que “isto pode ser visto como egoísmo, mas é amor-próprio”. Mesmo que a minha decisão afete pessoas que o rodeiem ou dependam dele: “Isto é colocares-te em primeiro lugar, porque esta é a tua vida… Porque és livre, és soberano, mandas na tua vida.”

Gustavo atira depois ao segundo grupo que compõe a plateia: famílias com crianças pequenas. E aí o foco principal são as vacinas, até porque “não há uma que faça mais bem do que mal”, garante. Diz que algumas das vacinas administradas às crianças têm componentes como alumínio, mercúrio, formol, polisorbato 80, células de tecido pulmonar de fetos abortados com 14 semanas e células de macacos verdes. “Uma criança pode levar com tudo”, critica.

Da plateia ouvem-se palavras de censura e veem-se cabeças a anuir. O problema é que esta afirmação “mistura factos descontextualizados com falsidades, gerando alarme injustificado”, reage a Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde (SPLS), num pedido de esclarecimento feito pelo Observador relativamente a esta e a outras afirmações do influencer.

No caso do alumínio, o componente é “usado como adjuvante em ALGUMAS vacinas”, como é o caso da hepatite A ou B. “A dose por vacina é de 0,125 – 0,625 mg”, sendo que, para comparação, “o leite materno contém cerca de 0,040 mg por litro.” Mais: “A quantidade nas vacinas é biologicamente insignificante e é excretada rapidamente pelos rins.”

Quanto ao mercúrio (ou tiomersal), explicam, “a maioria das vacinas pediátricas atuais nos países desenvolvidos é LIVRE de tiomersal”. Já o formol efetivamente está presente, porém “a quantidade nas vacinas é inferior à que existe naturalmente na maioria dos alimentos”, como por exemplo pêras (que contêm cerca de 60 mg por quilograma). No que toca ao Polissorbato 80, trata-se de um “emulsificante comum em alimentos, cosméticos e medicamentos”, explica a SPLS. E clarifica que, tendo em conta a dose usada na vacina, “não é um espermicida”.

Relativamente ao uso de células de fetos abortados, esta sociedade explica que, inicialmente, “algumas vacinas (como a da varicela e hepatite A) foram desenvolvidas usando linhas celulares humanas derivadas de tecido fetal de abortos espontâneos ocorridos nos anos 60”. Mas “as vacinas finais NÃO contêm tecido fetal — contêm apenas o vírus atenuado produzido nessas células”. E por fim, quanto ao uso de células de macacos verdes, a sociedade explica que “a linha [celular] Vero (rim de macaco verde africano) é usada na produção de algumas vacinas (como rotavírus)”, mas estas células “não estão presentes no produto final”.

Claro que a contextualização — e em muitos casos o desmentido — de cada uma das afirmações de Gustavo Santos requer um processo mais complexo — e certamente bem mais demorado — de procura de dados científicos e de enquadramento dos dados disparados pelo influencer em jeito de crítica à administração, em concreto, de vacinas. Esse é um dos segredos da fórmula de comunicação: mensagens simples, facilmente apreensíveis pelo maior número de destinatários e um tom dramático na expressão.

O Observador fez um levantamento de todas as informações de saúde que Gustavo Santos transmitiu nesta palestra em Óbidos. Face ao elevado número, apenas 10 foram depois remetidas à Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde. As respostas foram elaboradas por três médicos desta organização: Cristina Vaz de Almeida (presidente da SPLS e especialista em Literacia em Saúde ), Ricardo Mexia (médico de Saúde Pública) e Iris Almeida (médica Psicóloga).

Num documento com 19 páginas, estes especialistas responderam a todas as informações— e desmentiram cada uma delas com base em diversas fontes, estudos e referências. A SPLS desmente, por exemplo, que seja recomendável às pessoas vacinadas contra a Covid-19 uma espécie de “limpeza” feita com elementos como zeolite, zinco e dente de leão para “remover todos os metais”.

“Promover ‘detox pós-vacinal’ serve dois objetivos nocivos: aumentar a hesitância vacinal, ao sugerir que as vacinas deixam substâncias tóxicas que precisam de ser removidas; vender produtos sem evidência a populações vulneráveis”, aponta esta organização. E refere que a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera estas informações de Gustavo Santos uma ameaça à saúde pública.

"Não é aceitável substituir evidência por narrativas que podem levar pessoas a recusar vacinas, abandonar tratamentos oncológicos eficazes ou adotar práticas sem benefício demonstrado"
Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde

Só quem vive com raiva e rancor tem cancro

As três horas de evento de Gustavo Santos em Óbidos não servem apenas para falar (ou ouvi-lo falar) sobre vacinas. Um dos tópicos mais explorados tem a ver com o cancro. Na ótica do influencer, só tem cancro quem escolhe “viver com raiva, rancor, ódio, culpa, vergonha (…) em vez de viver com alegria, compaixão, amor”.

Na verdade, segundo o próprio, o caminho para não ter cancro é simples: “Seres melhor pessoa para ti.” Os tratamento usados hoje em dia, continua, não salvam vidas. “A quimioterapia só pode salvar doentes enquanto há sistema imunitário; numa fase muito cedo”, considera Gustavo, acrescentando que este tratamento surge “de uma reunião entre médicos e indústria farmacêutica, em que pensam assim: ‘Como é que a gente consegue sacar mais guita a este gajo que vai morrer?’.”

Não é a primeira vez que o influencer partilha estas ideias. Na sua página de Instagram já o fez várias vezes e gerou sempre polémica e reações (de apoio e crítica), o que lhe aumenta a visibilidade. Estamos perante um fenómeno psicológico chamado “efeito de verdade ilusória”, explica a Sociedade de Literacia. Consiste em repetir uma informação muitas vezes, “mesmo sem evidência científica que a suporte”, aumentando assim “a probabilidade de ser percecionada como verdadeira”.

Mas afinal, como é que se pode combater o cancro, alguém pergunta em voz alta. “Sauna, infravermelhos, boa alimentação e jejum”. Segundo Gustavo, “a partir da 16.ª hora [de jejum], o corpo entra em autofagia e começa a comer-se a si próprio; aquilo que não interessa”. “Se tiveres cancro, começa a alimentar-se dessas células cancerígenas… O jejum é imprescindível para qualquer cura, não só do cancro.”

Uma vez mais, nada disto é verdade, esclarece a Sociedade de Literacia em Saúde. “Não existe evidência de que sauna ou terapia de infravermelhos trate o cancro. A hipertermia (temperatura elevada) tem alguma investigação, mas num contexto médico rigoroso, com equipamento específico, e SEMPRE como complemento”. Já a boa alimentação é parcialmente verdade, aponta a SPLS, porque uma “alimentação adequada é importante para suporte nutricional”. Quanto à autofagia, o processo “está em investigação científica no contexto oncológico”. “Em humanos, a evidência é preliminar. Não existe evidência de que o jejum em si cure cancro”, apontam os médicos desta sociedade.

"É preciso responsabilidade no que é dito, sobretudo quando é uma voz com um eco muito grande. Devia haver uma maior atenção e até regulamentar estas matérias"
Carlos Cortes, Bastonário da Ordem dos Médicos

Ordem dos Médicos pede mais regulamentação e responsabilização

A Sociedade de Literacia em Saúde censura aquilo que Gustavo Santos difunde e que o próprio encara como parte da sua “missão”. Para os três especialistas da SPLS, é “essencial” questionar a ciência e a medicina, mas “não é aceitável substituir evidência por narrativas que podem levar pessoas a recusar vacinas, abandonar tratamentos oncológicos eficazes ou adotar práticas sem benefício demonstrado”.

No documento de 19 páginas enviado ao Observador, os especialistas lembram que, quando “informações que contrariam a evidência científica” são divulgadas por “figuras com elevada visibilidade pública”, como é o caso de Gustavo, “o potencial de influência aumenta significativamente”. Em agosto, por altura da publicação deste artigo, Gustavo Santos tinha 109 mil seguidores na rede social Instagram (a sua principal plataforma). Já o instagram da Associação Movimento Acorda (A.M.A.) reunia 24,3 mil seguidores.

Segundo a Ordem dos Médicos, “as pessoas não procuram mais orientação ou ajuda nos influencers” do que junto de profissionais de saúde. No entanto, “hoje há plataformas de comunicação totalmente diferentes, como redes sociais e vídeos… As pessoas comunicam assim e cruzam-se com pessoas como o Gustavo Santos, que hoje têm maior capacidade de difundir informações falsas”, afirma Carlos Cortes ao Observador.

Para o bastonário dos médicos, “é preciso responsabilidade no que é dito, sobretudo quando é uma voz com um eco muito grande”. “Tem de haver intervenção e temos de saber usar as nossas liberdades. Devia haver uma maior atenção e até regulamentar estas matérias.”

Comparando o papel dos médicos àquilo que Gustavo Santos diz nas suas plataformas e eventos, os primeiros “têm um código, um juramento, e têm uma das profissões mais escrutinadas, precisamente pela responsabilidade associada”. Já o antigo apresentador não: “Pode dizer o que lhe apetecer, ter um impacto negativo sobre outras pessoas e não ser responsabilizado.”

E se algo correr mal na saúde de alguém? “Não tenho responsabilidade nenhuma”

A desinformação partilhada por Gustavo Santos, diz a Associação de Literacia, “atua sobretudo ao nível emocional, explorando necessidades humanas, como a procura de segurança, previsibilidade, esperança e controlo perante situações de incerteza”, afetando pessoas que se encontram em situações de maior vulnerabilidade.

É assim que Gustavo consegue reunir cada vez mais apoio. Muitas vezes, quando alguém se encontra numa posição fragilizada, “procura comunidades que validem os seus medos e preocupações” — o que explica o porquê de tanta gente procurar a sua ajuda ou orientação. “Perante situações de ameaça ou incerteza, os seres humanos tendem a procurar explicações que reduzam a ansiedade e restaurem a sensação de controlo”, explica a SPLS.

Isto pode levar a “decisões prejudiciais para a saúde”, assim como a uma “sobrecarga psicológica significativa”, já que as pessoas são “constantemente confrontadas com mensagens contraditórias entre aquilo que dizem os profissionais de saúde e aquilo que encontra nas redes sociais”. Além disto, “quando os resultados prometidos não se concretizam, surgem frequentemente sentimentos de frustração, desilusão, culpa, vergonha e desespero”, e o doente acaba por se culpabilizar pelo insucesso da sua cura.

Na entrevista em sua casa, Gustavo é confrontado com os dementidos da Sociedade de Literacia em Saúde e não se mostra particularmente surpreso. Responde que está seguro da sua missão e das informações que tem para espalhar pelo mundo. Isso parece bastar-lhe. Mas, perguntamos, e se um dia alguém seguir os ‘conselhos médicos’ de Gustavo Santos e acabar por se encontrar numa situação de saúde mais complicada por causa disso? O que faria o influencer nessa situação? “Não tenho responsabilidade nenhuma nas escolhas das pessoas”, atira sem hesitar. “Chego lá [aos eventos], partilho a minha visão e informo sobre coisas que elas nunca ouviram, sobre temas em que estamos completamente formatados e fechados.” É apenas isso, diz, tranquilamente, em conversa com o Observador.

Mesmo assim, Gustavo Santos reitera: “Um dos princípios do movimento Acorda é: ‘Não me sigam, sigam-se a vocês’. Não quero responsabilidade sobre a vida das pessoas.” Insistimos. E se, por influência das suas intervenções, um casal decidir não vacinar um filho e essa criança não vacinada vier a desenvolver complicações? Gustavo Santos critica o facto de a pergunta “olhar para o lado que interessa ao sistema”. Ele, por sua vez, olha “para o outro lado, que é: porque o pai ou a mãe vacinou a criança, a criança agora tem este diagnóstico” de doença.

Ao Observador, a Sociedade de Literacia em Saúde salienta que os doentes que optam por seguir exclusivamente a medicina alternativa têm um risco de morte 2,5 vezes superior, de acordo com dados de 2018 do JNCI (Jornal do Instituto Nacional do Cancro, na sigla inglesa), publicado pela Universidade de Oxford.

Dos fundadores anónimos à inexistência de financiamento

“Um ano e 26 dias depois da primeira apresentação pública e mais de dois anos após a revelação, nasceu a A.M.A.”. Foi com esta frase, num vídeo publicado no Instagram, que Gustavo anunciou o registo oficial do movimento Acorda enquanto associação em Santarém. Nesse excerto, agradece “aos nove magníficos”: “Fomos, cada um de nós, escolhido por Deus. Convosco, o mundo saberá quem somos.”

Partilha com o Observador que estes “nove magníficos” são os sócios-fundadores, onde o próprio Gustavo se inclui, e são pessoas “extraordinárias” que foi “conhecendo ao longo do caminho”. Conta que foi ele próprio a convidá-las para se juntarem ao seu projeto, porque sentia que “tinham a verdade dentro de si”. No entanto, recusa-se a revelar os nomes de cada um deles.

Detalha que são estes nove sócios-fundadores quem compõe os órgãos da A.M.A. (a Direção, Mesa da Assembleia Geral e Conselho Fiscal), mas considera que “não faz sentido” dizer quem são. A par destes sócios-fundadores, a A.M.A. já tinha angaridado, em junho, mais “30 e poucos” membros. Todos pagam as quotas, diz, sendo que podem fazê-lo de três formas: mensalmente (no valor de 10 euros), semestralmente (no valor de 60 euros) ou anualmente (no valor de 100 euros).

E quanto a financiamento? “Não temos nenhum financiador”, garante, acrescentando que está seguro de que no futuro essa “abundância chegará”. Até lá, os eventos de fim de semana que se realizam de 15 em 15 dias de norte a sul do país são pagos pelos “próprios que trabalham” na associação. “Vamos para Portimão, por exemplo, e somos nós que pagamos as portagens e os combustíveis. E somos nós que pagamos as refeições. Não saiu um cêntimo da associação Acorda.”

Desde que Gustavo realizou a sua primeira palestra, a 15 de março de 2025, até à publicação deste artigo, foram realizados 32 eventos. Gustavo e a sua associação fizeram palestras em hotéis, restaurantes, numa associação de futebol, num quartel de Bombeiros e até no auditório de uma paróquia.

Houve ainda fundos para ir à Suíça, num evento que juntou emigrantes portugueses no país. Nos planos próximos está ainda um evento em São Paulo, no Brasil, que já está a ser alinhavado, revela.

Lista de todos os eventos da A.M.A até final de junho

1.ª temporada

  • 15 março 2025: Sintra (Sociedade Filarmónica “Os Aliados”)
  • 5 abril 2025: Lisboa (Dance Factory Studios)
  • 12 abril 2025: Penafiel (localização imprecisa)
  • 13 abril 2025: Porto (Histórias com Alma)
  • 26 abril 2025: Faro (Salão de São Luís)
  • 10 maio 2025: Guimarães (Auditório da Igreja de São Pedro de Azurém)
  • 11 maio 2025: Aveiro (Hotel Melia Ria)
  • 11 maio 2025: Leiria (Festival Desnatura)
  • 24 maio 2025: Lisboa (Dance Factory Studios)
  • 1 junho 2025: Porto (Histórias com Alma)
  • 7 junho 2025: Azeitão/Setúbal (Casa na Quinta)
  • 8 junho 2025: Santarém (Restaurante “O Brandão”)
  • 28 junho 2025: Coimbra (Hotel D. Luís)

2.ª temporada

  • 27 setembro 2025: Leiria (Festival Fesnatura)
  • 28 setembro 2025: Sintra (Camélia Gardens)
  • 5 outubro 2025: Caldas da Rainha (Toca dos Láparos)
  • 11 outubro 2025: Coimbra (Hotel D. Luís)
  • 12 outubro 2025: Porto (Histórias com Alma)
  • 19 outubro 2025: Santarém (Restaurante “O Brandão”)
  • 26 outubro 2025: Quarteira (Hotel Zodíaco)
  • 7 dezembro 2025: Sintra (Camélia Gardens)
  • 21 dezembro 2025: Porto (Histórias com Alma)
  • 15 março 2026: Porto (Histórias com Alma)

3.ª temporada

  • 25 abril 2026: Braga (Associação de Futebol de Braga)
  • 26 abril 2026: Porto (Histórias com Alma)
  • 9 maio 2026: Coimbra (Hotel D. Luís)
  • 10 maio 2026: Óbidos (Parque Tecnológico de Óbidos)
  • 23 maio 2026: Santarém (Santarém Hotel)
  • 24 maio 2026: Sintra (Auditório dos Bombeiros Voluntários)
  • 6 junho 2026: Portimão (Jupiter Algarve Hotel)
  • 7 junho 2026: Lisboa (VINYL)
  • 21 junho 2026: Genebra,Suíça (Centre Sportif de Versoix)

Os espaços que usa são “sempre cedidos ou pagos por particulares que nada têm a ver com a A.M.A”, garantiu em entrevista à Sábado. No entanto, o Observador apurou que a associação se comprometeu a fazer uma transferência sob a forma de donativo aos Bombeiros Voluntários de Sintra, um dos espaços que acolheu eventos do influencer.

O mega-evento de outubro, em Santarém, vai realizar-se numa sala com capacidade para 1.200 pessoas, sendo que o aluguer do espaço tem um custo de 3.600 euros. O valor foi revelado numa palestra da A.M.A. em Sintra, na qual a revista Sábado marcou presença e onde Gustavo Santos disse: “Sabem quem pagou? Não fomos nós. Houve um casal que se sentiu tão impactado que disse: ‘Deixe-me pagar’.”

Para reservar lugar no evento é preciso pagar 20 euros. O objetivo, lê-se no site oficial, é “garantir a organização logística do encontro”, entregando um valor que “funciona como sinal de compromisso”. Porém, essa verba pode ser devolvida no dia do evento, se a pessoa assim o desejar. Convidados para falar nesta palestra estão: Maria Emília Gadelha, Felipe Trofino, João e Tiago Gomes, Rachel Furtado, Márcia Carvalho, Juliana Varão e Ana Brandão (um dos seus braços-direitos).

Uma enfermeira com processo disciplinar e uma produtora de conteúdos: os braços-direitos de Gustavo

O núcleo duro da A.M.A. é composto por três pessoas: Gustavo Santos, Xénia Pereira e Ana Brandão, os três que estiveram no registo da associação em Santarém.

Xénia Pereira é quem, ao lado de Gustavo, recebe a equipa do Observador na casa do criador da A.M.A. Trabalha há muito como designer gráfica, editora de vídeo e fotógrafa freelancer e é agora responsável por produzir e editar conteúdo para a associação. É vista por Gustavo como a pessoa que “dá cor e estrutura ao movimento”, disse o próprio num vídeo publicado em dezembro do ano passado. E, tendo em conta que já ilustrou capas de livros na editora do seu pai, foi escolhida por Gustavo para fazer a nova capa do livro “Carta Branca”, que foi agora reeditado 20 anos depois da primeira publicação.

A par de Xénia — e igualmente seu braço-direito — surge Ana Brandão. É enfermeira desde 2010, quando se licenciou na Escola de Saúde de Santarém (o mesmo local onde se vai realizar o grande evento de outubro e onde a A.M.A. foi registada). Especializou-se em Reabilitação cinco anos depois e foi a partir daí que entrou no mundo da medicina alternativa: fez o curso de Nutrição Ortomolecular, uma Pós-Graduação em Ozonoterapia Médica e uma formação em Naturopatia.

É uma das principais palestrantes convidadas para os eventos de Gustavo Santos e o seu envolvimento no projeto é tal que o restaurante dos seus pais, Restaurante “O Brandão” (também em Santarém), foi palco para um dos eventos da A.M.A., a pedido da própria Ana Brandão.

Recentemente, a Ordem dos Enfermeiros instaurou um processo disciplinar a esta profissional de saúde, avançou esta entidade ao Observador. No entanto, a Ordem recusa esclarecer a data em que o processo foi instaurado ou o motivo para essa decisão, alegando que, “nesta fase, [o processo] encontra-se sujeito a sigilo, não sendo possível prestar quaisquer comentários ou divulgar outros elementos”.

Ana Brandão foi a convidada de Gustavo Santos no evento de Óbidos em que o Observador marcou presença. Lá, afirmou já ter “perdido o medo”. “Não posso ter medo de ficar sem cédula, porque o meu compromisso é com as pessoas. Quando tirei o curso assumi um compromisso com as pessoas, não é com o hospital, não é com a Ordem dos Enfermeiros.”

Nesse mesmo evento, a enfermeira partilhou ainda que, ao fazer mais formações na área da nutrição, entendeu que a alimentação dos hospitais não é adequada. Por isso, assume a determinado momento, passou a ter uma abordagem diferente com os doentes: deitar fora essa alimentação e aumentar o soro. “Não sabem a dor que é saber dos malefícios do pão e do leite e ter um doente e a única coisa que tenho para lhe dar ao pequeno-almoço é uma papa com leite, com sopas de pão”, começou por contar.

E depois relatou que se debatia internamente sobre o que devia fazer com tal papa: “Vai para a sanita? Fica aqui? Depois alguém vem e vai ver que não dei a comida…” No meio da indecisão concluía que “um doente ia ficar melhor ao fazer um jejum”. E, assim, decidia “aumentar o soro” dos doentes e e dar-lhes água. E isto aconteceu várias vezes, revelou, tendo afirmado apenas: “Já deitei tantas papas fora.”

A afirmação gerou vários aplausos de orgulho na plateia composta por cerca de 70 pessoas. Para a enfermeira que anda lado a lado com Gustavo Santos, fala nos seus eventos e também se veste de branco, “se deixamos de fazer o certo, aquilo em que acreditamos, e se começamos a fazer algo porque o outro diz, isso corrói-nos por dentro”.