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“Toy Story 5”: os brinquedos contra a ameaça dos ecrãs (e o medo da garagem)

Em "Toy Story 5", de Andrew Stanton e McKenna Harris, os nossos conhecidos brinquedos perdem a atenção da pequena Bonnie para um "tablet" chamado Lilypad. Eurico de Barros dá-lhe quatro estrelas.

Eurico de Barros
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“A era dos brinquedos acabou!”, proclama de forma apocalíptica, em Toy Story 5, um brinquedo que foi abandonado no jardim de um casa e trocado por um smartphone pela criança a que pertencia. Não é para menos. Tal como Jessie e o seu fiel cavalo Bala constatam logo a seguir, após subirem ao telhado da casa chamados por outro brinquedo descartado, em todas as moradias do bairro brilham na noite as luzes dos smartphones, tablets e computadores a que estão agarrados os adultos – e também as crianças, esquecidas dos seus brinquedos, da interacção humana, social e lúdica implícita no acto de brincar umas com as outras, do prazer de usar a imaginação para o fazer.

[Veja o “trailer” de “Toy Story 5”:]

https://www.youtube.com/watch?v=c51ND9Hdbw0

Felizmente, a pequena Bonnie, de 8 anos, a dona de Jessie, Bala e de todos os brinquedos já familiares desta série de filmes de animação digital da Pixar, iniciada há pouco mais de 30 anos com o revolucionário Toy Story — Os Rivais (1995), ainda brinca com os seus brinquedos, adora Jessie e Bala e os pais nunca lhe puseram um ecrã nas mãos. Mas infelizmente, Bonnie é muito, muito tímida, não consegue fazer amigos, e por não ter um tablet e ainda ligar aos brinquedos tradicionais, é vista como um anacronismo e excluída pelos outros meninos e meninas. O mundo digital não tem lugar para bonecada de plástico, de corda ou com pilhas.

Vendo a filha sozinha e triste, os pais de Bonnie decidem comprar-lhe um tablet para crianças, o Lilypad, que tem o formato de uma rã verde, fala e põe a menina a fazer amigos num instante – só que online, no Pond, uma comunidade virtual para os mais miúdos. Amigos que estão no ecrã com avatares e não ao pé de Bonnie. Mas esta fica logo viciada em Lilypad e deixa de ligar aos seus brinquedos. Que ainda por cima ouvem um sermão presunçoso do tablet, que lhes explica porque é que é melhor e mais útil para Bonnie e a sua felicidade do que eles. E após a menina ter ido a uma festa de pijama com as amigas e estas terem feito troça dela por ter levado Jessie e Bala, e ainda ligar a brinquedos, o panorama fica mais negro para estes.

[Veja uma entrevista com os atores principais que dão voz a “Toy Story 2”]

https://www.youtube.com/watch?v=saCO7QwuQfU

A partir daqui, tudo se complica. Os brinquedos são fechados numa caixa na garagem, Jessie e Bala ficam perdidos numa quinta ao tentar que Bonnie conheça Blaze, a azougada menina que ali vive e é a parceira de brincadeiras ideal para ela, e Woody (que perdeu cabelo, ganhou barriga e usa um poncho como o de Clint Eastwood nos westerns de Sergio Leone) interrompe a sua missão de, com Bo Peep, resgatar brinquedos órfãos de dono, e vem ajudar Buzz Lightyear a encontrar Jessie e Bala. Estes, entretanto, travaram conhecimento com um trio de brinquedos a pilhas pertencentes a Blaze, e que pelas suas características estão entre o mundo analógico e digital. E há ainda uma esquadrilha de Buzz Lightyears à solta e à procura do Comando Estelar e do seu líder.

Ao contrário do que muitos – e em especial os admiradores dos Toy Story – poderiam temer, Toy Story 5, realizado por Andrew Stanton e McKenna Harris, não é um título a mais na franquia, o filme redundante que a Pixar não precisava de ter feito. Em especial após o auge narrativo e de emoção atingido por Toy Story 4. Esta quinta fita, que tem agora a castiça e determinada cowgirl Jessie no centro da ação, volta a glosar, com pertinência de enredo e sem abuso lacrimal, um dos principais temas da série: a inevitabilidade e a tristeza da separação (e não só pela obsolescência dos brinquedos e gadgets). E introduz um novo: o perigo das novas tecnologias, que sugam a atenção e o tempo das crianças, alterando a relação entre elas, fazendo-as esquecer os brinquedos, e a brincadeira e os jogos em comum (Stanton e Harris dão um tratamento visual especial às animadas e disparatadas sequências em que as crianças brincam juntas).

[Veja uma entrevista com “Toy Story 5”:]

https://www.youtube.com/watch?v=-VtEwje7QOI

Toy Story 5 apresenta também todas as qualidades técnicas e formais, narrativas e emocionais, que puseram os filmes da série nos píncaros da excelência do cinema animado. A verosimilhança e empatia na humanização dos brinquedos e na relação e nos laços que criam com as “suas crianças”, como Jessie nunca cessa de repetir; a caracterização individualizada, bem vincada, de todos os brinquedos, sejam principais, secundários ou apareçam só por minutos; o dom da comédia, do pequeno gag e da piada em segundo plano até ao slapstick escancarado; a ideia de que as personagens aprendem sempre alguma coisa umas com as outras, e podem mudar nesse processo (ver como Lilypad age quando percebe o mal que, sem querer, fez a Bonnie); a recusa de esquematismos e simplificações (apesar de mostrar os seus perigos se usadas obsessivamente, Toy Story 5 não demoniza as novas tecnologias); e last but not least, a superior e inatacável qualidade da animação.  

[Veja uma sequência do filme:]

https://www.youtube.com/watch?v=KNOFgIAyqNU

Tal como os quatro filmes anteriores, Toy Story 5 tem um punhado de sequências puramente deslumbrantes de elaboração, encenação e impacto visual, destacando-se as que envolvem a esquadrilha de Buzz Lightyears perdida, e que podem também trazer e sublinhar significado ao contexto da história. É o caso daquela em que os brinquedos transportados pelo ar e os Buzz Lightyears que os trazem atravessam uma casa da entrada principal às traseiras, e os humanos que lá moram, adultos e crianças, nem sequer dão por eles, de tão absorvidos que estão pelos seus vários ecrãs. Ou a outra em que Jessie e Bala mostram aos seus três novos amigos com pilhas a alegria única e esfuziante que é brincar com a sua criança.

Uma palavra ainda para o magnífico trabalho dos atores que dão voz aos vários brinquedos, e com elas, personalidade, temperamento e manias, como os já nossos mais do que conhecidos Tom Hanks (Woody), Tim Allen (Buzz Lightyear), Joan Cusack (estupenda Jessie), e as novidades de nomes como Greta Lee (Lilypad), Conan O’Brian (o “escatológico” Smarty Pants) e até Keanu Reeves numa breve participação no motard acrobático Duke Caboom. E a mensagem de Toy Story 5 passa clara e naturalmente, sem ser forçada ou impingida: é divertido, útil e educativo estar ligado ao mundo virtual. Mas é ainda melhor desligar os ecrãs, acionar a imaginação e vir brincar a sério e com alegria no mundo real.