Hoje trago um tema transversal por que oiço dizer por todo o lado que é preciso ser humilde. Mas porquê? Se calhar não se percebe bem em que consiste uma pessoa ser humilde. Ou um país, ou um jogador de futebol, ou um papa, ou um político, ou eu. À primeira vista parece que com essa afirmação me estão a impor limites, uma pretensão de me impedir certas atitudes ou pensamentos. Uma espécie de tampa ou rolha. Mas com que direito? E, já agora, com que inteligência? A artificial? É que a mim sempre me agradou aquela postura de “bar aberto”…
Ronaldo tem que se conter, apesar de ser um portento, já não tens idade, o futebol não se compadece com primeiras donas. Trump tem que se conter diante dos inocentes, e o mesmo se diga de Putin. E esta “trindade” e quejandas encontram-se em cada esquina, e não só na big picture (que se calhar não é assim tão big…). Então não é que me cruzo todos os dias e em cada hora com elas? E muitas vezes eu sou uma delas. E não deverei sê-lo? Poder posso. Mas pergunto: posso sê-lo à custa de tudo e de todos? Ou então a palavra “dever” não estará ela a mais? Ou haverá uma ética a preferir?
Parece que quando há saúde e dinheiro essas perguntas não existem. Que está tudo bem. Não há saco para filosofias. Estará tudo bem ou nem por isso?
Ontem assisti na televisão a uma conversa com um médico que diz que se pode chegar novo a velho, também título de um livro seu que vendeu muito, até lá fora. Palavras do costume viradas ao contrário, como se pudéssemos adiar o que parece não se querer, isto é “morrer”. Mas a verdade é que morremos mesmo, quase sempre quando já não somos novos. Todos sabemos que para lá caminhamos, embora não seja claro e evidente o que isso seja.
Não por acaso Martin Heidegger teve tanto sucesso, bom agora lembrar porquê, passados 50 anos da sua morte. Pena que não tenha seguido o mestre, Husserl, que percebeu a falência do idealismo – de todo ele – e mergulhou na intencionalidade que vai ao miolo das coisas: é preciso ser rigoroso e ir “às coisas mesmas”, repetiu vezes sem conta o pai da fenomenologia.
Pelo contrário, Heidegger fixou-se na descrição das categorias da existência, do ser lançado no mundo, o da-sein, nome com o qual me quis baptizar (não, obrigada). O homem do Sein und Zeit, ficou preso ao Zeit, ao tempo, numa incapacidade de ver para além dele ( talvez também por isso não se tenha distanciado o suficiente do nazismo). A morte é a possibilidade que mata todas as outras possibilidades – que definem o da-sein -, facto diante do qual me vem a angústia, e assim posso viver autenticamente. E este discurso fenomenológico existencial agradou.
Mas não se aguentou racionalmente e por isso Heidegger mergulha na poesia, com Hölderlin no coro e ao colo. Mas, meu caro, há que distinguir filosofia e poesia, e a morte não se enfrenta com ilusões, ou instrumentalismos que muitas vezes é a isso que a poesia é reduzida – bem entendida ele é antes bar aberto…
Parece então que a morte dá de bandeja a chave da vida. Camus viu no suicídio o único tema da filosofia. Suicidar-me ou não eis a questão! Comparados com os que decidem viver apesar de sem saberem porquê, os suicídios são em número muito menor ( mas não sei o ratio). E destes há os silenciosos, conheço alguns. Um tio meu atirou-se a um poço, e era muito rico.
E há os famosos, Antero, Camilo e por aí. Mas, olhando de cima, todos se esbatem em vidas curtas – 70, 80 anos é a duração média da vida do homem, diz o salmo, o que é isto na linha de uma história milenar? – que forem interrompidas, mas todas comungando de um mesmo destino, o pó, o nada, ou outra “coisa”?
Como se enfrenta a morte, essa grande desconhecida? Por paradoxal que seja só há um caminho, vivendo. E neste ponto foi um homem também da fenomenologia, Paul Ricoeur, que o escreveu umas semanas antes de morrer, aos 92 anos, e bem, o livro póstumo Vivant jusqu’ à la mort : “du fond de la vie, une puissance surgit, qui dit que l’ être est être contre la mort” – e não “para a morte”, com defende Heidegger.
Essa potência que surge no fundo da vida é o busílis da questão. É ela que nos faz querer estar e continuar, contra a morte. Não por acaso o Papa Leão XIV o lembrou na sua primeira encíclica, que não é sobre a Inteligência artificial (IA) mas sobre a natureza humana. Com efeito o homem é a grande ou magnífica natureza porque pode descobrir em si essa potência que dá conta do facto de existirmos, que dá conta da vida e da morte.
Só que essa grandeza humana exige tempo, é descoberta com muito labor e sob uma condição que Santo Agostinho – o pai espiritual do Papa – identifica nas Confissões e permite chegar ao conhecimento do humano em todas as suas dimensões. Exige o que a IA tende a dificultar: silêncio, contemplação, empatia, criatividade humana e relações autênticas.
Exige-se uma ética e sua razão de ser, exige-se pôr os pés na terra, humildade – que vem de humus, terra. É daqui que vêm as regras do jogo, os limites e os direitos.
É ainda uma citação de santo Agostinho na encíclica Magnífica Humanidade, que esclarece a razão da inquietude humana, sempre à busca de mais e melhor, das excelências e da imortalidade. Nas suas Confissões di-lo como ninguém: “Criaste-nos para Vós Senhor e o nosso coração anda inquieto enquanto não repousar em Vós”.
A vontade de ir para além da sua natureza é explicada pelo facto de Deus ter gravado no nosso coração um desejo de felicidade: ele é a criatura feita à imagem e semelhança de Deus. Ou seja, o homem tem um vazio que nada do que é natural sabe preencher. Por isso a natureza humana só se ultrapassa permanecendo em si mesma abrindo-se à vida sobrenatural da qual poderá participar se verdadeiramente o quiser. O que tem uma implicação que distingue o humanismo cristão de todos os outros humanismos, tornando-o assim um verdadeiro humanismo: o homem realiza-se com a participação na vida de Deus, a graça, que só mesmo Deus, que o criou, lhe pode proporcionar, assim ele o saiba querer.
Sim, a encíclica de que falamos e nos mergulha nas raízes da humildade é sobre a IA mas não só. É sobre o que, na era da IA, andamos aqui a fazer com ela e com o resto. O que andamos aqui todos a fazer? É aí a pergunta do Papa. E como bom filósofo aponta para a resposta, dando provas. Como matemático abre o jogo. “Dois amores fazem duas cidades: o amor de si mesmo até ao desprezo de Deus, a cidade dos homens; e o amor de Deus até ao desprezo de si, a cidade de Deus”. Só uma delas faz o homem grande.
O documento dá conta da necessidade de uma decisão amorosa. Dois amores fazem duas cidades, mas só um deles faz o homem grande. A inteligência artificial pode ajudar a essa grandeza, aumentando a capacidade do homem na direção da paz, que todos desejam alcançar. Que cidades são essas? São duas cidades que não são cidades históricas, mas são realidades espirituais que se vão desenvolvendo no tempo, irmanando os homens em torno do amor que cada um escolhe. Elas constroem-se através de uma luta que se trava no coração de cada pessoa, que esse não muda.
Recapitulando, afinal ser humildade é chamar as coisas pelos nomes, pegar o touro de frente, por assim “pequeno” me poder tornar “grande”. Dentro dos limites poder ser grande. Presunção e água benta cada um toma a que quer, sendo que a bola está em saber querer. A partir daí, e ainda o bispo de Hipona, “ama e faz o que quiseres” – e não apenas “lo que puédes”, como anda a cantar por estes dias Bad Bunny por esta nossa Europa fora.