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A fortaleza ignorada: o preço do silêncio europeu sobre a Roménia

Corredor por onde escoam os cereais ucranianos, futuro maior produtor de gás natural da UE, maior base da NATO em construção na Europa, sistema antimíssil do flanco sul, tudo isto é Roménia.

Rui Pedro Salselas
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Quando os líderes europeus falam do flanco leste, a Roménia raramente aparece nos primeiros lugares da conversa. A Polónia tem a posição de referência regional e os países bálticos têm a narrativa de fronteira máxima. A Roménia aparece a seguir, sendo útil, fiável, quase nunca definidora do debate, e isso é um erro com custos reais. A Roménia faz fronteira com a Ucrânia em cerca de 650 quilómetros, e tem, em Constanța, o principal hub logístico da NATO no Mar Negro, a 333 quilómetros da ponta mais ocidental da Crimeia, além de que faz fronteira com a Moldávia. São poucos os aliados que combinam, no mesmo espaço, estes três elementos. Isto significa que, em termos concretos, vai além da posição defensiva. É energia, é logística, é a âncora de segurança de um país vizinho que ainda não é membro da Aliança. E é exatamente devido a esses fatores que a Roménia continua a ser subvalorizada por Bruxelas.

Em 2027, a Roménia começa a produzir gás no campo Neptun Deep, sendo este o maior projeto de exploração em águas profundas do Mar Negro, com reservas estimadas em 100 mil milhões de metros cúbicos. As projeções indicam que a Roménia está no caminho de se tornar o maior produtor de gás natural da União Europeia, perspetiva que deverá concretizar-se quando o campo atingir a sua plena capacidade de produção. A independência energética europeia da Rússia não é uma questão de vontade política, é uma questão de alternativas reais com cronogramas reais. O Neptun Deep tem contratos assinados e datas fixadas. A diferença para os mega-projetos de gasodutos que se estendem por décadas é precisamente essa, este campo está a ser escavado agora. A Roménia é já um dos maiores produtores de petróleo e gás da UE por exploração terrestre. O Neptun Deep é o salto seguinte, de produtor regional a fornecedor com capacidade de influenciar o mercado europeu de gás. Noutro país com mais peso político em Bruxelas, este ativo dominaria o debate sobre soberania energética, mas em Bucareste, mal aparece.

Constanța não é um porto de conveniência. Quando a Rússia cortou o acesso de Odessa ao Mar Negro, os cereais ucranianos saíram por ali, em comboio até à costa romena, e depois por mar. Em paralelo, a Roménia integra a task force trilateral de contramedidas de minas no Mar Negro, com a Turquia e a Bulgária, assumindo o comando em regime rotativo. Centenas de minas podem derivar nas correntes da bacia, desde 2022, cerca de 140 minas foram encontradas e desativadas, uma ameaça que não desapareceu com o esquecimento sobre o assunto. O corredor através da Roménia tem funcionado como uma linha de vida económica e estratégica para Kiev, permitindo a exportação de cerca de 29 milhões de toneladas de bens agrícolas ucranianos. O colapso das exportações agrícolas ucranianas teria sido substancialmente mais rápido sem ele, com consequências económicas para Kiev que se estenderiam a toda a equação da guerra.

Um dos maiores projetos de infraestrutura militar em curso em solo NATO europeu não está em nenhum outro lugar, está na Roménia. É a Base Aérea de Mihail Kogălniceanu, junto a Constanța, atualmente com cerca de 700 militares americanos, num projeto de 20 anos que a tornará maior do que Ramstein até 2040, com capacidade projetada para acomodar cerca de 10.000 militares da NATO e respetivas famílias. O custo ultrapassa os dois mil milhões de euros, pago pelo governo romeno ao longo de 20 anos. Em Deveselu, a Marinha dos EUA opera o sistema Aegis Ashore, defesa antimíssil para intercetar ataques de curto e médio alcance. É um dos pilares da contribuição dos EUA para a defesa antimíssil da NATO na Europa, que raramente aparece nos debates europeus sobre arquitetura de segurança, o que é uma curiosidade, dado que é uma das instalações mais relevantes que a NATO tem neste teatro.

Na madrugada de 29 de maio de 2026, um drone russo atingiu um bloco de apartamentos em Galați, e como consequência, foram evacuadas setenta pessoas e houve feridos civis. Foi a primeira vez que um drone russo causou danos e feridos numa área urbana em território da NATO, confirmado pelo Ministério da Defesa romeno, pela própria NATO e reportado pela Reuters e pela AP. Desde o início da invasão, a Roménia registou 28 violações do espaço aéreo e descobriu destroços em 47 ocasiões no seu território. A NATO havia lançado a Operação Eastern Sentry a 12 de setembro de 2025, após a Polónia acionar o Artigo 4 da Aliança devido a incursões massivas de drones russos no seu território. O incidente de Galați levou Bucareste e outros aliados a exigirem o reforço urgente da operação com mais sistemas de defesa aérea na região. A cobertura europeia do incidente não foi, ainda assim, proporcional à sua gravidade. O padrão que daí emerge não é acidental, o aliado com maior exposição direta ao teatro de guerra é, paradoxalmente, aquele que menor peso detém nas decisões sobre como responder a esse mesmo teatro. A cobertura mediática do incidente de Galați, menos intensa do que a que qualquer incidente equivalente em Varsóvia ou Tallinn teria suscitado, foi, ela própria, uma ilustração eloquente dessa realidade.

Tudo isto acontece no mesmo país. O corredor por onde escoaram os cereais ucranianos, o futuro maior produtor de gás natural da UE, a maior base da NATO em construção na Europa, um dos sistemas antimíssil do flanco sul, tudo isto é romeno. É também a Roménia a âncora de segurança informal da Moldávia, cujo percurso europeu passa, linguística e institucionalmente, por Bucareste. O que falta à Roménia não é substância estratégica, mas sim peso político proporcional a essa substância. Os aliados que absorvem mais exposição têm direito a mais influência nos fóruns onde se decide a arquitetura de segurança europeia, e este princípio ainda não funciona automaticamente para Bucareste. Assim, a tendência europeia é a de tratar a Roménia como infraestrutura e consultar a Polónia sobre política. Todavia, estas duas abordagens são dificilmente compatíveis com o papel real que Bucareste ocupa no teatro de operações.