É uma espécie de Lei de Murphy que se tem abatido à volta de Inglaterra desde que a comitiva inglesa aterrou nos EUA. No espaço de poucos dias, um tiroteio causou nove feridos nas imediações da concentração dos ingleses em Kansas City, um sismos de 6.1 na escala de Richter foi sentido na Florida pela primeira vez desde 1880 enquanto a equipa estava lá, equipamento de treino como chuteiras, equipamentos e bolas foi roubado de uma carrinha e até o chef foi impedido de realizar uma viagem de comboio com as facas de cozinha.
Se a tudo isto acrescentarmos as queimaduras solares a que muitos jogadores não têm escapado devido ao sol intenso e às altas temperaturas e o aviso de tornado que levou toda a comitiva a procurar abrigo, a verdade é que Inglaterra parece estar num filme de terror desde que chegou aos EUA. E só esta quarta-feira é que se estreava, no AT&T Stadium de Dallas, contra uma Croácia que recordava a meia-final perdida no Mundial 2018.
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Certo é que os ingleses chegavam ao Mundial 2026 depois de duas finais consecutivas em Europeus — ainda que ambas perdidas, em 2020 contra Itália e em 2024 contra Espanha, num capítulo que encerrou o legado de Gareth Southgate e abriu a porta ao reinado de Thomas Tuchel. Na antevisão do primeiro dia no Campeonato do Mundo, mais do que abordar a nova vida com o treinador alemão, Jude Bellingham reconheceu que nem tudo foi bem feito nos últimos anos.
“O Qatar foi a melhor competição de seleções em que participei. Parecia que não tínhamos titulares e suplentes, não havia hierarquia. Acho que no Euro 2024 cometemos alguns erros fora de campo. O grupo não estava tão bem ligado como poderia ter estado, por várias razões. Não estávamos a jogar particularmente bem, o que não ajudou. Mesmo quando ganhávamos não tínhamos aquela sensação de felicidade que devíamos ter. Acho que devíamos ter-nos agarrado um bocadinho mais a essa sensação de felicidade”, disse o médio do Real Madrid.
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Assim, em Dallas, Thomas Tuchel lançava o crónico Harry Kane como referência ofensiva, apoiado por Madueke, Jude Bellingham e Anthony Gordon e com Bukayo Saka e Marcus Rashford a começarem no banco. Do outro lado, numa Croácia que ficou no terceiro lugar no Qatar e chegou à final na Rússia, mas não passou da fase de grupos no Euro 2024, Zlatko Dalić apostava na última dança de Luka Modric, com o ex-Benfica Petar Musa a aparecer no ataque ladeado por Martin Baturina e Mario Pasalic.
Numa primeira parte muito animada, Harry Kane abriu o marcador de grande penalidade ainda dentro do quarto de hora inicial — e à segunda, já que falhou a primeira tentativa, mas o penálti foi repetido porque Livakovic estava adiantado (12′). Baturina empatou já depois da meia-hora, com um belo remate de fora de área (36′), e Harry Kane respondeu de seguida ao bisar com um grande cabeceamento na sequência de um canto na direita (42′). Nos descontos, porém, Petar Musa aproveitou uma enorme assistência de cabeça de Ivan Perisic e bateu Dean Henderson (45+6′), levando tudo empatado para o intervalo.
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O ingleses entraram na segunda parte praticamente a recuperar a vantagem: Elliot Anderson soltou Jude Bellingham na direita e o médio do Real Madrid acelerou em velocidade, fugindo à oposição antes de rematar cruzado já na área, com a bola a acertar no poste antes de entrar na baliza (47′). Livakovic ainda acumulou defesas, Pickford também se aplicou para travar Pasalic (76′) e Rashford fechou as contas já perto do fim (85′), com Inglaterra a golear a Croácia em Dallas para se aproximar do apuramento para os 16 avos de final.
A estrela
- De forma praticamente inevitável, Harry Kane. O avançado inglês é muito mais do que um capitão ou uma referência ofensiva, demonstrando-se um verdadeiro líder que dá o exemplo ao ir buscar a bola mais atrás, ajudar a defender e surgir em zonas de finalização. Converteu uma grande penalidade, marcou um grande golo de cabeça e ainda viu Livakovic roubar-lhe o hat-trick, igualando Gary Lineker como o melhor marcador de Inglaterra em Campeonatos do Mundo, com 10 golos.
O joker
- Por tudo o que evitou, Dominik Livakovic. O guarda-redes de 31 anos tornou-se crucial para a Croácia essencialmente na segunda parte, acumulando várias defesas numa fase em que Inglaterra asfixiou o adversário e procurou insistentemente chegar à goleada — que só atingiu já perto do fim e foi adiando muito graças ao muro que existia na baliza. Ainda nos quadros do Fenerbahçe, Livakovic chegou a ser emprestado ao Girona no início da temporada passada, mas não cumpriu qualquer minuto pelos espanhóis e cumpriu a segunda metade da época no Dínamo Zagreb.
A sentença
- Com este resultado e principalmente com esta exibição, Inglaterra assume-se como a grande e principal candidata a ficar no primeiro lugar do Grupo L e seguir sem grandes sobressaltos para os 16 avos de final. Se é certo que Gana e Panamá ainda jogam esta madrugada, também é claro que os ingleses separaram-se da única seleção que podia verdadeiramente fazer-lhes frente, preparando-se para duas jornadas aparentemente tranquilas.
A mentira
- Jude Bellingham não está a atravessar uma fase assim tão complicada. Depois de uma temporada difícil no Real Madrid e de ter chegado a sair da convocatória de Inglaterra no último ano e no início do reinado de Thomas Tuchel, o médio inglês deixou bem claro que é um titular, um nome a ter em conta e um potencial candidato a uma das figuras deste Mundial 2026. Por agora, na estreia, já assinou um belo golo.